quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

De como o cronista se torna tradutor por nada ter a dizer de seu, se põe a traduzir notícias sobre vítimas de atentados, desastres ecológicos anunciados, o papão da não inflacção, descida de Francisco aos “infernos”, aquecer o planeta ou voltar ao arado, os véus e os Queen, turcos na corda bamba da UE ou vice-versa, FMI com olhos em bico e poesia de adeus ao cesto.

 
Hoje um jornal velho de dez dias é como a notícia que chegava a cavalo anunciando uma batalha perdida há dois meses; já não serve para nada. Mas a falta de assunto é tão grande, ou melhor, a informação é tanta e tão acavalada uma na outra que, não tendo tempo para a ler, ouvir ou visualizar e muito menos para a digerir, baixo as antenas e desvalorizo os seus conteúdos que me chegam enevoados (Eco, Sebastião, Eco) e, última coisa que me devia acontecer, não tenho qualquer ímpeto para tentar dar-lhes um significado, quanto mais para lhes intuir as consequências. É como se já não fosse para mim. Então, abro jornais com a data de 1 de Dezembro (como desenrolar papiros, à velocidade de hoje), que já foi da independência e agora é apenas um feriado desrespeitado, talvez porque a independência já não tenha qualquer significado, e, para me certificar que faço ainda parte do número dos vivos, começo a traduzir excertos de notícias sem importância daqueles poucos que sei ler, já que nunca fui prático em inglês para além do “the pencil of my cousin is on the table”, já percebi o que é que constitui uma maioria beneditina (era preciso tanto?), e não me interessa se podemos ou não podemos ser cidadãos ou se os Silvas de El Rey (Marcelo dixit) continuam a mamar na pingue vaca coroada, e eles, os excertos, aí vão devidamente identificados e traduzidos à porca janota:

Manuel Dias, francês por adopção
Sempre que conduzia champenois (habitantes da região Champanhe/Ardenas, capital Reims) ao Stade de France, Manuel cumpria o seu ritual. Após estacionar, comia uma bucha atrás do volante e bebia um café sentado numa esplanada. Depois voltava ao carro para ouvir o desafio no auto-rádio, como apaixonado de futebol que era. Na sexta-feira (13/11) tinham sido os clientes a pedirem para serem transportados por Manuel Dias, porque ele era profundamente respeitador do seu trabalho, quase transparente, no sentido em que nem ele próprio se dava conta das suas qualidades profissionais. Antes de transportar pessoas trabalhara numa siderurgia, numa filial da Saint-Gobain, tendo depois tentado a restauração e o pronto-a-vestir. Manuel Colaço Dias nascera há 63 anos em Portugal, na cidade medieval de Mértola, que domina do seu promontório as margens do Guadiana e tem como paisagem as colinas áridas do Baixo Alentejo. Tinha chegado a França, com os seus Pais, no fim dos anos 60, tendo-se instalado em Reims. Gostava dos prazeres simples, dos momentos passados em Família, nos quais desempenhava o seu papel de patriarca, com palavras de conforto portadoras de esperança, disse a Filha Sofia. Manuel Dias, pai de uma família muito unida, tinha uma Mulher, uma Filha de 33 anos e um Filho de 30.
(Le Monde: pág. 15, in Memorial do 13 de novembro. Le Monde publica cada dia retratos das vítimas dos atentados, a fim de conservar, com a ajuda dos familiares, a memória das vidas ceifadas).

Brasil. A onda tóxica no Atlântico
Alguém já a baptizou como “Fukushima do Brasil” ou seja, o mais grave desastre ambiental que feriu o país latino-americano. A ruptura dos dois diques que continham as escórias das minas da Samarco, um colosso australiano, provocou uma gigantesca onda de lama tóxica - mais de 60 milhões de metros cúbicos – no Rio Doce, a qual, após 17 dias, atingiu as águas do Atlântico. A lama, proveniente do Estado de Minas Gerais, poluiu dezenas de quilómetros das pescosas costas turísticas do Estado do Espírito Santo, paraíso de surfistas, e ameaça agora alastrar bem para além das fronteiras do país. O “tsunami tóxico” já provocou danos incalculáveis ao ecossistema e à inteira bacia do Rio Doce, considerado biologicamente morto. A ONU confirmou “altos níveis de metais pesados tóxicos e outras substâncias químicas igualmente tóxicas”.
(Corrière della Sera: pág. 3, in Primeiro plano, Conferência de Paris).

Porque é que o BCE batalha para relançar a inflacção
“Faremos tudo o que devemos fazer para relançar a inflacção, logo que seja possível”, declarou em 20/11 o Presidente do BCE, Mario Draghi. “A questão não é a de saber se o BCE vai usar novas armas, mas quais”, resume Jonhatan Loyne no “Capital Economics”. “Na zona Euro, a extrema fraqueza da inflacção explica-se também pela insuficiente procura”, lembra Thibault Mercier do BPN Paribas. “As trocas com os países low cost contribuíram a reduzir os preços dos produtos importados”, pode ler-se num estudo dos economistas Gregory Claeys e Guntram Wolff, do think thank Bruegel, que explicam também que “a integração de milhões de trabalhadores no mercado de trabalho mundial, diminui o poder de negociação dos assalariados nas economias nacionais”. Temos que ficar inquietos? A questão divide os economistas. É certo que a baixa inflacção favorece, a curto prazo, o poder de compra dos consumidores, mas, uma vez instalada, passa a fazer parte das previsões das empresas, que cessam de aumentar os salários, o que pesa na procura e, por isso, nos seus lucros e intenções de investimento, com o risco de provocar uma espiral deflacionista e desencadear um círculo vicioso, no qual os consumidores começam a prever uma baixa de preços, adiando as suas compras e bloqueando assim a inteira economia. Os números: 60 mil milhões de euros é o montante mensal das compras de dívida pública e privada do BCE. 0,1% foi a taxa de inflacção na zona Euro em Outubro, longe do alvo de 2% preconizado por Francoforte. -0,2% é a taxa de juro para depósitos no BCE. Sendo negativa é o equivalente a uma “penalização” com que a instituição onera os bancos em troca da liquidez que eles deixam nos seus cofres. Temos que ficar inquietos?
(Le Monde: pág. 5 do caderno “Economia e empresas”).


A coragem política da viagem africana do Papa Francisco
O Pontífice foi a um continente instável para falar de paz, desafiando o perigo de atentados, reacção forte após aqueles de Paris. Muitos eram contrários à viagem do Papa à África Central e à sua arriscada presença em Bangui. Tinham razão porque foi um verdadeiro risco para a sua pessoa. Os militares franceses avisaram sobre a impossibilidade de controlar as diversas facções e as armas nas mãos de toda a gente. Francisco quis, apesar de tudo, ir a Bangui, respeitando o programa, incluindo a visita à zona muçulmana, a qual suscitou as maiores perplexidades. Teve uma extraordinária coragem pessoal, reveladora do profundo sentido do seu ministério, mostrando a audácia daqueles que vivem aquilo em que acreditam. Não teve medo de ir à mesquita central de Koudougou proclamar que “entre cristãos e muçulmanos somos irmãos”. Francisco desceu ao epicentro da instabilidade para falar de paz, antecipando a abertura da Porta Santa e o Jubileu da Misericórdia num “inferno” de violência, raptos, ódio, intriga política, corrupção e miséria. Foi também uma lição para nós europeus, apavorados com o futuro, especialmente após os atentados de Paris. De uma entrevista durante o voo de retorno: - Voltará à África, Santidade? – “Não sei, estou velho, as viagem são duras… Memorável foi a multidão: reflecti sobre a capacidade de fazer festa com o estômago vazio. A África é vítima, é mártir, foi sempre explorada por outras potências”.
(Corrière della Sera: pág. 23, in Visita pastoral).

O dinheiro e o clima
Alerta de mau tempo sobre o clima. A Terra e os espíritos aquecem-se à volta da grande questão deste começo de século. Questão que diz respeito, como sempre, à sociedade e à economia. Pois que a revolução industrial e capitalista, iniciada há mais de 200 anos, é responsável pelo aumento de gazes de efeito estufa na atmosfera, mudemos a sociedade. A economia de mercado não pode ser o problema e a sua solução. É uma quimera. O Primeiro Ministro indiano, Narendra Modi, não se enganou lembrando esta segunda-feira, 30 de novembro, no Finantial Times, por ocasião da abertura da Conferência de Paris sobre o clima (COP21), a posição do seu imenso país. Fora de questão, para ele, que a porta do desenvolvimento económico dos países emergentes lhes seja fechada por causa da luta contra o aquecimento. Para a Índia, como para os seus vizinhos chineses, indonésios ou africanos, o acesso à economia de mercado não é negociável. Sendo assim, que fazer?
(Le Monde : pág. 1 do caderno “Economia e empresa” in Perdas e lucros/COP 21).

As muçulmanas: “Quem nos trava são os homens, não a religião”
“Os homens devem dirigir as mulheres por causa da preferência que Allah concede a uns em relação às outras…”, recita o Corão na Sura IV (Na-Nisa’, As Mulheres), verseto 34. Naturalmente, o problema reside na contextualização histórica. Em Itália, o uso que os machos fazem do conceito é muitas vezes criminoso. O homicídio da paquistanesa Hina Salem, massacrada e enterrada em 2006 pelo Pai com a ajuda de alguns parentes machos, e aquela da marroquina Saana Dafani, esfaqueada pelo Pai em 2009, acenderam um farol sobre a condição das jovens acusadas de comportamentos demasiado ocidentais. “Se estás mais  interessada num cinto explosivo que num vestido de noiva branco,  ou nas fantasias das princesas da Disney, vem até nós”, prometem os propagandistas de al-Zawra, a escola jihadista que, de Raqqa, oferece cursos de cozinha e lei islâmica, de economia doméstica, armas e meios de comunicação a centenas de jovens como Merieme Rehally, Irmã Rim no mundo do Twitter,  estudante que deixou Pádua para se arrolar na logística sob a bandeira negra de Al Baghdadi. “Alguma experimente pôr um lenço na cabeça e procurar trabalho”, escrevia provocatoriamente a italo-jordana-palestinesa Sumaya Abdel Kader: “Bom, a probabilidade de sucesso é igual a zero!”. Era em 2008 e, pioneira entre as de segunda geração, Sumaya tinha criado a personagem de Sulinda, 30 anos, que, no romance autobiográfico “Uso o Véu e adoro os Queen” satirizava o hijab, véu que emoldura a face, reivindicando a liberdade de o endossar. “ Dão-nos uma máquina de lavar roupa, aí na Síria? Achas que posso levar o gato? “. Este o léxico familiar, via Skype, de mamma Assunta para a sua filha Maria Giulia, agora Irmã Fátima no Califado, (a arrumar o carro com o Marido para irem ter com ela, quando foram detidos) que nos diz muito acerca da grande confusão mental que induziu, e continua a induzir, um sem número de mulheres europeias e, agora, cada vez mais italianas, a engrossar as hordas do ISIS.
(Corrière della Sera: págs. 1, 8 e 9, in “O Islão em Itália”).

A Turquia joga com a fraqueza europeia
Face a uma Europa desunida e volúvel, o Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, é em posição de força. E gosta disso. Bruxelas corteja Ankara, actor chave de uma dupla crise que na realidade é só uma: a do fluxo migratório cujo destino é a UE, e o caos do Médio Oriente. Mas na sua relação complicada com a Turquia, a Europa é menos vítima de Erdogan que da sua própria incúria. É um triste espectáculo. Três horas de negociações em Bruxelas, domingo 29 de Novembro, entre os europeus e a Turquia, para tentar dominar o fluxo migratório mais forte que o Velho Continente conheceu depois de 1945, resultaram num acordo mínimo e sem calendário. A Turquia de Erdogan é um parceiro difícil e imprevisível. Tem uma atitude ambígua contra a organização do Estado Islâmico, do qual é também ela vítima. A deriva autocrática do seu Presidente e o seu discurso muitas vezes depreciativo dirigido ao Ocidente, afastam-na, cada dia um pouco mais da UE.. Tudo isto é verdade. Mas o que as crises nascidas da tempestade médio-oriental descobrem em primeiro lugar, são as fraquezas de uma UE em plena regressão: ausência de um mínimo de política externa e de defesa comuns; ausência de uma política de imigração; inexistência, ou muito poucos reflexos,  de solidariedade entre os seus membros. Tudo isto é registado em Washington, em Moscovo e em Pequim. Mas também em Ankara.
(Le Monde: pág. 24, in Editorial).

China, o Yuan será convertível e reduzirá o peso do Euro
A China dá mais um passo para a sua integração no sistema financeiro mundial com o ingresso do renmimbi, a “divisa do povo”, no clube fechado das moedas de reserva globais. Ontem o FMI deu luz verde à introdução do yuan, o outro nome da divisa chinesa, no cesto das divisas que compõem os Direitos Especiais de Saque (SDR), isto é, a unidade de conta do FMI que até agora compreendia o US dólar, o Euro, o Yen e a Libra Esterlina. O renmimbi entrará no cesto, como quinta divisa, em 1 de Outubro de 2016, quando passará a ser livremente utilizável, e pesará 10,92%. A new entry  redimensionará o peso das outras divisas: o euro descerá de 37,4% para 30,9%, o yen de 9,4% para 8,3%, a libra esterlina de 11,3 para 8,1%. Substancialmente invariável o US dólar de 41,9% para 41,7%. Que coisa significa? Os SDR são uma divisa teórica. A inclusão do yuan é, por isso, sobretudo simbólica: certifica que a moeda chinesa tem agora um papel significativo no comércio mundial e é usada livremente  a nível internacional. É por isso que Christine Lagarde, número um do FMI, define a decisão como “um marco importante” para a economia chinesa e um “reconhecimento” dos progressos feitos pelas autoridades de Pequim na reforma do seu sistema.
(Corrière della Sera: pág. 25, in Economia).

Ciao basket
Kobe Bryant, o fora de série atleta do Los Angels Lakers, anuncia que no fim da época acaba a sua carreira, e abandona com uma poesia:

Caro basket,

Estou pronto a deixar-te.

Fizeste-me viver um sonho e amar-te-ei sempre.

Mas não posso mais amar-te com a mesma obsessão.

Corri em todos os parkets e atrás de cada bola por ti.

Dei-te tudo!

O meu coração pode suportar a batalha,

A minha mente gerir o cansaço,

Mas o meu corpo sabe que chegou a hora de dizer adeus.

Amar-te-ei sempre.

 (Corrière della Sera: pág. 37, in Desporto).

 
Abraço. 

Lisboa, 10 de Dezembro de 2015
Octávio Santos

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Ensaio sobre o equilibrismo sem rede, habilidades na corda bamba, confusa carta aberta, balões e champanhe, flashes poéticos ilustrados com a lucidez que espero não faltará à boca das urnas hexagonais


Saía eu da Biblioteca Camões, onde tinha ido assistir à apresentação do livro de poesia “Flashes Poéticos”, de Zita Nogueira, sem ter na cabeça  qualquer ideia precisa para a construção desta crónica, quando um dos poemas me trouxe à memória Florbela Espanca e a sua trágica lucidez, e as suas ilustrações, não fossem elas de quem (Carlos Nogueira) tem arte no ADN,  me atraíram pelo constante equilíbrio das personagens, lembrando-me que poderia responder com uma carta aberta a um amigo que, dias antes me congratulara precisamente  pela lucidez a propósito de um dos meus textos. O poema, de quem soube depois ser de Barcelos mas calipolense por conversão - e daí o seu cheirinho a Florbela -, aí vai, com a devida vénia, seguido da carta, matando eu assim muitos coelhos (nada de política hoje) com uma só cajadada, espero que certeira. 

Viver a plenitude (a) 

Na plena tranquilidade deste momento

Fecho os olhos para apenas absorver

A soberba plenitude que me ressalta da planície.

Mas não sei o que é que nela assim me atrai.

Se apenas a calma que dela sobressai,

Ou se será a agrura que nela assim perdura.

 

E fecho os olhos para assim melhor poder crer

Porque creio no que sinto neste momento.

Sinto que é a verdade que nela quer crescer

Que emerge, e grita, me chama e me atrai

Porque a verdade por mais dura que possa ser

Brote inerte e não s’enrede com o que pode parecer!

 

Na serena expansão do meu olhar

Não sei o que agora mais queria.

Se ser capaz de tocar os pontos opostos

Do excesso desta tamanha imensidão

Se ficar apenas na delícia da gratidão

Que por si só me conduz no abismo da solidão!

                    Zita Nogueira

                    in antologia “Tempo de Palavras” nº 2, editado pela Editorial Minerva em Dezembro de 2015

Carta aberta a um Amigo

Caro João,

Agradeci-te os teus “Parabéns pela lucidez”, não podendo deixar de completar, como me pedes, aquele trecho do meu agradecimento que dizia: “Embora a lucidez não seja uma virtude mas um árduo trabalho de equilibrismo...”. É obvio que não sendo eu digno de atar os atacadores do Saramago, nada posso acrescentar ao seu ensaio sobre o tema, confessando que me seria mais fácil opinar sobre o da cegueira, mas vou tentar ser breve servindo-me, como sempre, de um exemplo prático de vida vivida. 

Tive a felicidade de ter privado com um diplomata que já não está entre nós, o Embaixador Zózimo Justo da Silva, como tu nascido em Moçambique, que um dia, tentando refrear a minha impulsividade (tinha eu 28 anos), me explicou que se eu acabasse de encher um balão e o largasse à toa, ele me saltaria das mãos e começaria a bater nas paredes e no tecto até cair vazio no chão, mas que, se eu tivesse a inteligência de, aliviando a pressão dos dedos, o deixar esvaziar a pouco e pouco, todo o ar sairia sem qualquer estardalhaço. Esta pequena lição com mais de 40 anos, para te dizer que todos nós, muitas vezes, ao ver ou ouvir certas coisas que não nos agradam, temos a tentação de começar a espadeirar à direita e à esquerda, lançando pela boca fora aquilo que de momento nos parece ser justo e claro como a água. E é aqui que entra o “árduo trabalho de equilibrismo”, ou seja, não deixarmos saltar a rolha do champanhe só para fazer barulho, porque ele bebe-se bem à mesma se a segurarmos até sair (aproveito para te desejar Bom Natal, mesmo que, por acaso, sejas muçulmano), como acontecia com o balão da parábola do Zózimo.  

Dou-te um exemplo, para não te fazer perder muito tempo, a ti e a todos os incautos leitores: ao ler a caixa do Correio da Manhã “Uma cega e um cigano no governo PS”, o meu primeiro impulso foi o de começar a gritar: “ - Mas estes filhos de uma nota de vinte paus não têm vergonha nem pudor?”, mas não o fiz, primeiro porque filho dessa até pode ser um elogio e eles não o merecem, e segundo porque ouvi alguém comentar na televisão que o dito jornal estava a perder qualidades, já que o que ele estava à espera de ler seria: “ O monhé escolheu uma preta, uma cega e um cigano para o seu governo”. Assim, não disse nada, fingi que não tinha lido, deixei o balão esvaziar devagarinho e, com um ataque de lucidez, disse de mim para mim, citando a Bíblia: “Bem aventurados os pobres de espírito porque deles é o reino dos céus”. Mas lá que é preciso equilibrismo, lá isso é! 

Para terminar só desejava que um ataque agudo de lucidez, mesmo neste momento em que manter o equilíbrio é um exercício muito, mas muito, difícil, iluminasse os franceses - Nous sommes tous Paris - no momento de ir às urnas, para que pensassem duas vezes antes de votarem Le Pen. 

Kani Mambo
Octávio 

E, porque mais uma vez não fui claro, perguntar-me-ão: - Mas afinal o que é para ti a lucidez? E eu respondo, repetindo aquilo que provocou esta minha vã tentativa de clarificação, que a lucidez não é uma virtude mas um árduo trabalho de equilibrismo, acrescentando agora que estou a ler o livro “O Fim dos Segredos”, no meu caso, sem rede. 

(a)   Gostei do poema também porque repete três vezes a palavra “nela” que é, talvez, aquela que repito mais vezes ao dia, embora com maiúscula.

Abraço.
 

Lisboa, 3 de Dezembro de 2015

Octávio Santos

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Dez quintilhas pelas Avenidas Novas numa manhã de Outono


















Do passeio de lá, de lá do outro lado

Uma mulher descia lenta a minha rua

Atracada a um tipo, os dois de braço dado

Trauteava ela o que a mim pareceu ser fado

Tudo sem alma porque a voz não era a tua.

 
Numa árvore, periquitos verdes de colar

Agitam-se entre os ramos como perdidos

Nem trinados, nem gorjeios, nem cantar

Penosos lamentos,  metálicos,  sofridos

De quem perdeu, ou roubaram, o seu lar.

 
O Miguel já não mora na Elias Garcia

Nem o velho louco grita à minha esquina

Ontem uma mãe com a sua menina

Porque só para ela a pedir se atrevia

Tenho fome, mas ela, ela, eu não queria.
 

Atrás da igreja o gringo da Re-Food

Que vai acumulando coisas de trincar

É uma nova versão de Robin Hood

Pedindo a pobres para a pobres dar

Que já nem os ricos se deixam roubar.

 
Lojas que fecham, lojinhas que abrem

Umas com três meses já de porta fechada

Via Intimidades que vendia o que sabem

É só mais um baú cheio de cangalhada

Vazio. Nada que lá vende merece dentada.
 

Chineses que não sabem onde estão

Saem como cheia do Júpiter Lisboa

Irão de visita à Igreja da Conceição?

Ou a saltar no tuk tuk pelo Conde Barão

Correm p’la cidade, sem destino, à toa?

 
Cada supermercado tem seu pobre à porta

Na Versailles, na Choupana, uma romena torta

Arrumadores de carros com línguas estranhas

Defendem-se de concorrentes cheios de manhas

Outro pede um euro para o funeral da Mãe morta.

 
Agora que só de pão vive o homem (e a mulher)

Do Bairro, do Pão de cada dia, da Portuguesa

Comas lá empadas, comida de garfo ou de colher

É de Fábrica, de Padeiro, de Mafra ou de Alenquer

É sempre pão e mais pão que te põem na mesa.

 
Há também escolas de crochet e de tricot

Outra de línguas com alunos na vitrina

Farmácias vazias onde até falta a aspirina

Um carrinho de bebé empurrado pelo Avô

Penicos na cabeça de caloiros de Medicina.

 
E a Igreja de Fátima e a nova Junta de Freguesia

E velhas que contam doenças paradas no passeio

E velhos que arrastam as pernas e o dia a dia

E uma mulher bonita com um homem feio

E as Avenidas continuam Novas, quem diria!

 

Abraço.
 

Lisboa, 26 de Novembro de 2015

Octávio Santos

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

De como o cronista não confessa que o seu médico de clínica geral é muçulmano por medo que lhe tratem da saúde, constata que os banqueiros são bons no fado, dá receita de outrem em tempo de Master Chef, discorre sobre bandeiras, hinos e slogans, renega músicas satânicas e seus autores, perdoa fraquezas presidenciais passadas e futuras, acabando por fazer perguntas estranhas e estúpidas, não fosse ele o totó que todos reconhecem


O mais fácil teria sido escrever com letras gordas “FECHADO POR LUTO GRAVE” e remeter os leitores comodamente para o meu texto “O Silêncio, a Reflexão e a Dúvida” (a), que publiquei nas páginas 29 e seguintes no meu livrinho “Hieróglifos Órfãos de Roseta” em 2011, embora o tivesse escrito em 2004, velho portanto de 11/12 anos mas ainda legível à luz dos acontecimentos da semana passada.
Estava eu a assistir, com um grupo de bons amigos, ao concerto dos 40 anos da ADFA - Associação dos Deficientes das Forças Armadas -, quando recebi um SMS do meu Filho a dizer-nos do atentado em Paris (10 mortos, dizia) e que já tinha falado com a Irmã, que estava bem e em casa. O concerto foi muito bom e, embora o único nome de mim conhecido fosse o de Manuel Freire, passou gente de alto nível artístico pelo palco da Aula Magna, incluído o Fanan do “Conta-me como foi” e o Presidente do Montepio que é exímio a cantar o fado, tendo eu ficado à espera que o Fernando Ulrich subisse ao palco para interpretar a rábula “Aguenta-te tó Zé”, mas não estava no programa. Apesar da inquietação interior, relembrei a posteriori que o Manuel Freire, entre uma canção a que não dei atenção e a incontornável “Pedra Filosofal”, se referiu a José Niza e a Reinaldo Ferreira (Filho do célebre Repórter X), tendo, do primeiro lido o poema “Uma bala perdida”, e do segundo também um poema sobre a guerra colonial que, por mais voltas que desse à net não consegui encontrar, mas como Deus escreve sempre direito por linhas tortas (hoje muito tortas mesmo), caí sobre isto que não posso deixar de registar:

Receita para fazer um herói
Tome-se um homem,
Feito de nada, como nós,
E em tamanho natural.
Embeba-se-lhe a carne,
Lentamente,
Duma certeza aguda, irracional,
Intensa como o ódio ou como a fome.
Depois, perto do fim,
Agite-se um pendão
E toque-se um clarim.

Serve-se morto.

          Reinaldo Ferreira

Devo uma explicação pela escrita que pus sobre a bandeira da imagem de hoje. Quando do episódio do Charlie Hebdo, o “Je suis Charlie” tornou-se moda, viral, como se diz hoje, usar esta expressão para mostrar de que lado se estava. Eu utilizei-a nas minhas versões “Je suis Charlie…mais pas con!!!” e, mais tarde “Je continue à être Charlie…mais je ne suis toujours pas con!!!”, escolham vocês se por cobardia ou por dúvidas que me assaltaram. Nessa altura todos, e digo todos, cometemos erros pelo simples facto de não estarmos calados. Lembro-me do Papa Francisco a dizer aos jornalistas num avião que o transportava não sei de onde ou para onde, que se alguém ofendesse a sua Mãe ele lhe daria um murro na cara, e a muitos repetir a frase “ils l’on bien cherché”, tudo constelado por “se” e “mas”. O que acontece é que o massacre do Charlie Hebdo foi perpetrado contra “infiéis blasfemos”, e o ataque contra o Hiper Cacher, contra judeus, não visando portanto todos nós, e daí o Benfica-Sporting do “Je suis Charlie” na lapela ou da sua ausência. Como isto agora foi outra coisa, ou seja, um ataque animal vingativo e raivoso contra a maneira ocidental de viver, contra todos nós, cristãos e judeus no mesmo saco, embora não desdenhe o “Je suis Paris”, sinto poder falar em nome de todos os visados e gritar alto “NOUS SOMMES PARIS!”. E quando digo em nome de todos, refiro-me sobretudo àqueles que fazem coisas que eu não faria, e aqui lá vem a raposa do Senhor de La Fontaine, estão verdes não prestam, porque os meus gostos são do século passado ou porque a idade já não mo permite - só dá bons conselhos quem já não pode dar maus exemplos, escreveu e cantou Fabrizio De André -. Tento explicar: se me perguntarem se eu iria ao Bataclan ouvir uma banda que se intitula “Águias do Metal Morto”, que interpretava a composição “Beija o Diabo”  quando o comando assassino fez confundir o tatá…tatá…tá das balas das AK 47 com o solo de bateria, eu diria que não, mas, e agora é Voltaire, darei tudo para que quem gosta o possa fazer em liberdade e, sobretudo, o possa continuar a fazer sem o terror de estar a cometer um pecado, e ter de pagar por ele ainda do lado de cá da vida. Ao ouvir o Presidente Hollande a ameaçar justamente as hordas do ISIS com a potência da “force de frappe” gaulesa, lembrei-me dele a sair do Eliseu à socapa, de Lambretta e capacete, para um encontro amoroso clandestino e, como até isso faz parte do nosso modo de vida, daria tudo para que ele o possa continuar a fazer. Muito melhor que, por temor de um Deus, segundo eles, não conhecedor do perdão, estar à espera da morte, em seu nome, para ir para o céu brincar aos médicos com mil virgens por cabeça, como se isso fosse mercadoria fácil de encontrar, e muito menos se é para ir para a cama com aqueles javardos assassinos.

Como já disse quase tudo o que queria, da forma habitualmente confusa mas disse, e já não consigo arrumar outras que gostaria de dizer, da maneira escorreita como fazem aqueles que escrevem bem nos jornais ou opinam nas televisões, como ontem dois generais lusitanos que, diante das câmaras fizeram aquilo que José Niza dizia que eles sabiam fazer, isto é, generalizar, vou então imitar as altas patentes e espalhar umas minas no terreno da minha escrita, esperando que façam barulho sem ferir.

- Foi comovente ouvir a multidão à saída do Stade de France, ainda sem plena consciência da enormidade do que estava a acontecer, a cantar a Marselhesa numa demonstração de união perante uma ameaça à Pátria, palavra tão desvalorizada nos tempos que correm. Já a letra do que cantavam, palavras repetidas que já não fazem sentido e talvez não sejam as melhores para unir o que quer que seja: “Aux armes citoyens, qu’un sang impure abreuve nos sillons” (Às armas cidadãos, que a nossa terra - o sulco do arado - se sacie de um sangue impuro). “Contra os canhões, marchar, marchar!” Os canhões agora são as bufas da Senhora Merkel e as palavras do nosso hino são do tempo do Mapa Cor de Rosa e dirigem-se contra o nosso mais antigo aliado. Se tudo isto faz sentido…

- Admirável a Senhora Margarida Sousa, há 26 anos porteira de um prédio da Avenue Voltaire, paredes meias com o Bataclan, que acolheu na sua “Gaiola Dourada” 40 jovens aterrorizados, entre os quais uma rapariga com duas balas nas costas, que deitou no seu sofá enquanto subia a pedir ajuda a um médico que vive num andar superior. Não consta que tivesse pedido os passaportes à entrada e, como não era um filme, não recebeu qualquer cachet.

- Igualmente admirável aquele jovem pianista que, carregando o seu piano para o meio das flores e das velas a arder, tocou “Imagine” de John Lennon, um sonhador que também morreu inutilmente na rua às mãos de um louco e fanático assassino.

- E agora quem combate o ISIS, para além dos americanos, como lhes compete, com os seus drones guiados pelos algoritmos do Skynet, e dos franceses, cheios de razão, pese embora o reconhecimento de Estado que Hollande lhes está a oferecer com as suas bombas? Os curdos, peshmergas ou não, que são bombardeados pelos turcos? Os hezbollah, para muitos também eles terroristas, que levaram em cima com o atentado de Beirute, que não é Paris? Os russos, que não são nossos amigos, mas que tiveram mais mortos no avião sobre o Sinai que aqueles da Cidade Luz? O Irão, que só há pouco deixou de ser o Diabo em termos de país? Os turcos, nossos amigos da NATO, que poderão começar a lançar sobre o ISIS as bombas que lhes sobrarem dos curdos?

- Qual, para o Ocidente, ou seja, para nós, a ordem hierárquica do terror? Os ataques em Paris neste ano de 2015, confundindo os do Charlie Hebdo e do Hyper Cacher, e aquele evitado do TGV, com os do Bataclan, Stade de France, La Belle Équipe, Le Petit Cambodge, Le Carrillon, Casa Nostra e La Bonne Bière? Aqueles que já há anos atingem o Iraque, o Afeganistão, a Síria e a Nigéria, provocando centenas e centenas de vítimas inocentes? Os da Tunísia? Os últimos acontecidos em Ankara, em Beirute ou no Sinai? Os das igrejas católicas na Nigéria, na Síria e no Iraque, já quase esquecidos na nossa memória, mas que levaram o Bispo católico de Erbil a solicitar uma intervenção armada? Os das mesquitas xiitas pelas mãos dos sunitas?

- Quem perde e quem ganha agora no jogo dos interesses internacionais, e quem sobe e quem desce na classificação dos bons e dos maus? Perdem seguramente a Palestina, a Ucrânia, os refugiados e os partidos moderados europeus, e ganham a Hungria e a Polónia, Israel, Bashar al-Assad, a Rússia e a Frente Nacional da Senhora Le Pen e o PEGIDA, aqui em representação de todos os partidos extremistas europeus de direita e de esquerda, que viu agora cair este maná do céu dos seus inimigos. E também os “Eagle of the Death Metal” que irão ter casas cheias daqui em diante. Todos a correr à FNAC porque vêm brevemente a Portugal.

- Nós por cá ficamos todos bem e, sem qualquer ironia, digo que somos um país feliz, e a prova foram os 30 manifestantes do PNR diante da mesquita de Lisboa, embora eu tenha a certeza que muitos mais gostariam de lá estar, mas que  faltando-lhes a coragem, até para votar PRN, se limitam a inundar as redes sociais com vídeos tipo “olhó papão” contra os milhares de desgraçados que fogem apavorados dos seus países  pelo mesmo exacto motivo que vimos os jovens a fugir do Bataclan.

Vou acabar com uma pergunta sobre o poder do ISIS, duas aos serviços de inteligência franceses, mais uma sobre desculpas ou justificações, e um pedido utópico interno que salvaria in extremis a imagem de um homem. Vamos lá!

- Poderia o ISIS ser o que é sem que alguém comprasse o “seu” ouro negro e o branqueasse para o lançar no mercado internacional, e sem o escoamento das obras de arte roubadas (as destruídas em frente das câmaras são manobras de diversão) para o subterrâneo mercado de arte, também esse internacional, que fornece os multimilionários de todo o mundo, que irão mostrar orgulhosos pedaços de Palmira nas suas recepções das Mil e Uma Noites?

2ª A - É verdade que, não há muito tempo, se apresentou à entrada do Bataclan um grupo com a cara tapada por lenços palestinos, a kuffiya, pedindo para entrar, e que, tendo sido impedido pela segurança, respondeu se isso se devia ao facto do Bataclan ser propriedade de judeus, afirmando que voltariam em breve e que acabariam por entrar? Onde estavam os serviços?

2ª B - É verdade que um dos terroristas mortos em Paris, com largo cadastro, entrou na véspera do massacre pela fronteira belga, ao volante do seu carro, tendo sido interrogado e revistado pela polícia francesa, que acabou por o deixar seguir o seu caminho? Onde estavam os serviços?

- Ninguém tem dúvida que há milhares de muçulmanos, e outros, que nos arredores de Paris e Bruxelas têm precárias condições de vida. Se essa falta de condições serve de desculpa e justificação para acções hediondamente criminosas, porque é que um roubo num supermercado feito por uma Mãe com Filhos com fome, raramente é justificado e a fome dos Filhos não serve de desculpa?

- Imploro o nosso PR, que não estou a imaginar a sair de Vespa pelo portão da Calçada da Ajuda, nem que fosse para uma bisca lambida com o Oliveira e Costa, a convocar o Pedro Passos Coelho, o António Costa, a Catarina Martins, o Paulo Portas, o Jerónimo de Sousa, a Heloísa Apolónia, o André Silva, e mesmo o Rui Tavares, o Marinho e Pinto e a Joana Amaral Dias, para se sentar com eles à mesa, de onde só se levantariam para uma declaração comum e unitária sobre o que se passou esta sexta-feira 13 em Paris. I have a dream…, mas se fosse possível até lhe perdoaria o Manuel Dias Loureiro e o Duarte Lima e, talvez, o bon point ao BES na véspera do desastre. Irrevogavelmente imperdoável seria se durante a sua viagem à Madeira, para jogar às escondidas ou à cabra cega, ou ainda para um Rally Paper, como disseram alguns comentadores televisivos, convidasse o Alberto João Jardim para formar governo.

Abraço.

Lisboa, 19 de Novembro de 2015
Octávio Santos 

(a)  Desculpem a repetição, mas só depois vi que já tinha linkado este texto na minha crónica de 15/1/2015, após o episódio do Charlie Hebdo.
PS: Dois títulos de capas nacionais:
- Do “GO Portugal” : Nobody f*cks Jesus
- Do Correio da Manhã: Homem bomba filho de portuguesa (identificado por um dedo apanhado no chão, precisa a notícia).

PS (Última hora): Eduardo Stock da Cunha declarou à saída do Palácio de Belém, onde foi aconselhar o PR, em seu nome (Novo Banco) ou no do Ricardo Salgado (BES), que Portugal precisa de afirmar lá fora que honra todos os seus compromissos. E cá dentro?