quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Campanhã, Ermesinde, Paredes, Penafiel, Bustelo, Meinedo, Caíde de Rei, Oliveira, Vila Meã, Recesinhos, Livração, Marco de Canavezes, Juncal, Pala, Mosteirô, Caldas de Arêgos (Tormes), Mirão, Ermida, Porto Rei, Barqueiros, Rede, Caldas de Moledo, Godim, Régua, Covelinhas, Feirão, Pinhão e Tua...... hu... hu... pouca terra... pouca terra... pouca terra... pouca terra... pouca terra...



Eu no Tua e tu não estavas

Não é Tua não é Minho mas é de quem o apanhar.

O Tua é rio que não é meu, roubado ao Douro p’lo novo Muro

Tudo é novo e tecnológico, e um drone aponta-me à cara espantada

Que debita a sua deixa a um louco, para quem o Tua não é pouco

E rega com palavras adultas um bebé, como se fosse a única razão de estar em pé.

Ensonado e curioso parti do Oriente (não das Índias)

Olhando as palmeiras do Santiago Calatrava

Únicas resistentes ao imundo bicho que as devora com uma determinação quase humana

Penso que a alma dos homens tem a arquitectura daquelas altas, altas

Que nos ancoram ao chão, para as mantermos vivas ou para ajudarmos a destruí-las.

Uma seta que une a noite ao dia me despejou sem história na Campanhã

Que, pobre dela, seguindo as modas já viu privatizada a cagadeira

Com cinquenta cêntimos se passa o torniquete, e aliviado em vaso inoxidável

Ajudei ao lucro de empresário, que se merecer top ten da Exame, já vive do meu consumo

Ficando feliz em aumentar-lhe os proventos com a minha mijadela memorável,

Meu desconsumo e seu lucro.

Depois, até ao Bustelo, tens as Amadoras, os Rios de Mouro e as Odivelas do Norte

Tudo a cheirar a francesinhas com molho ou a entremeadas com batata frita Matutano.

Publicidade institucional
Todos os funcionários da CP, dos da bilheteira do Oriente aos que palmilham as coxias do Alfa e do Regional do Pocinho, são profissionais, delicados, risonhos e preocupados com os passageiros.

E finalmente o Douro à tua direita se a janela não for suporte de obra de arte moderna,

Que transforme a carruagem em vagão Jota de transporte animal

Liso como o tampo da minha mesa da casa de jantar

Com círculos concêntricos de peixes a saltar (não sei se vi uma lontra)

E só mais adiante, passando Tormes (sonhei com favas e literatura)

O tampo da mesa se enrugou e parecia a da casa do forno da minha Avó

Onde amassava o pão em cima dela e depois o deixava a crescer, a levedar

A caruma a acender, as vides a começar a crepitar, e os cheiros,

Os cheiros daquilo tudo que era bom,  os cheiros….

Dos companheiros de viagem, tantos e tão diversos

Só tirei uma selfie com uma Mulher triste e cansada, entrada nos anos

Que entrou na carruagem abraçada a um ramo de flores de pano

E com o Homem, sentado vis à vis, que sem mais aquelas

Lhe perguntou onde ia com aquele ramo de flores falsas.

São para o cemitério, que as frescas estão pela hora da morte

E não posso vir todas as semanas para as mudar, que rezar, lá isso, rezo todos os dias.

Fosse eu o morto, disse, e rogava-lhe uma praga por já nem merecer flores verdadeiras.

Tua, Tua, que não és do Minho mas da Terra Quente do Nordeste Transmontano,

Ou do Alto Douro Vinhateiro (qual dos nomes agradará mais à UNESCO?)

Tua, que esperas que o novo Muro te limpe as águas da miséria que do Cachão

Se juntam a ti como se fosses o vazadouro das escórias

Da arte de fabricar lixo, um dos poucos pontos não comuns a homens e outros animais.

Parei no Tua perdendo a Alegria, mas também Ferradosa, Vargelos, Vesúvio, Freixo de Numão

E Pocinho, estação terminal de uma viagem que só pode acabar mal

Enquanto de braço dado aos cinco estrelas com Spa, shiatsu e nova cozinha de contaminação

Conviverem tugúrios de tristeza para onde não desejo que vá viver

Nem a minha vizinha que fala alto às quatro da manhã por skipe p’ró Brasil.

Publicidade empresarial

No Tua, mesmo em frente da estação, o Calça Curta põe-te na mesa só coisas boas, do pão às azeitonas passando pelo tinto da casa. Tive pena de, após os filetes de polvo e as costeletas de borrego, não ter tido espaço para mais nada, à parte o café que até esse é bom. Enquanto durarem os trabalhos da barragem, aconselho mudem o nome para Calça Comprida, para satisfazerem a boa centena de comensais, nacionais e estrangeiros, que vi entrar para almoçar e sair com ar beato.

Não vi o Douro no Cachão da Valeira que engoliu o namorado da Dona Antónia

Um tal de escocês, Barão e de Forrester, Joseph James de seu nome

Fechei os olhos e vi-o a debater-se e a gritar por ela, my love, my love…

Ou pelo Vinho do Porto que nunca mais lhe passaria

Por aquela garganta que só servia agora para entrar  água.

E tive medo de estar ali sozinho sem a única bóia que me salvaria

A tua, em caso de naufrágio, derrocada, tornado ou pior desgraça.

Mas isso já é uma outra história (de amor foi a da semana passada)

Que de Tua tem tudo, de Minho não tendo nada.

Abraço.

Lisboa, 12 de Novembro de 2015
Octávio Santos

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

História de amor e de raivas, com interrogações legítimas, tocadora de marimbas (anjo ou demónio a desviá-lo?), concatenamentos pós-Rego, tiradas filosóficas de trazer por casa, golpe audaz de jovem enamorado acabado no nevoeiro do Eco dos sonhos com cabriolet a afastar-se em fade out. Helena e Páris, ou Dante e Beatriz com final feliz.


Caminhava já há uma boa meia hora com aquele passo largo e ritmado que a sua ainda jovem idade permitia. Com a cabeça carregada de raivas e interrogações, e uma única certeza: hoje iria tirá-la, ou roubá-la, que importância tinha, daquele sorvedouro de areias movediças em que se debatia na ânsia de ter uma vida, se é que àquilo se podia chamar vida. Só ele sabia quanto lhe custou subir para cima daquela pilha de livros, para chegar à aldraba da porta do seu coração. Ao descer a Rua da Beneficência não deixava de remoer aquela frase do Papa Francisco “enquanto não houver comida para todos não haverá paz para ninguém”, como se fosse um velho de ideias fixas, ou talvez lhe agradasse sentir-se velho para não achar ridículo o amor que sentia por aquela que de anos já o tinha ultrapassado há muito.

Tinha visto na televisão, na véspera, o sorriso escarninho do VPM e a jaqueta florida da Senhora Ministra, dois que de alimentação entendem, e de tanto repetirem o tema dele sobrevivem, ele nos mercados, ela nos portos de pesca, na tomada de posse, em ambiente de velório, de um moribundo à espera de um milagre de Nossa Senhora do Rato. Que poderá vir a acontecer neste país de Fátima e de Jesus. A raiva que lhe apressava o passo era a de pensar que, por um terço de quanto o prisioneiro do 44, agora livre no 33, terá de pagar por fuga ao fisco (dizem, que nestas coisas sou muito cuidadoso), tínhamos perdido 21,5 milhões de likes em Milão, os quais em vez de irem para o pastel de nata ou para o Vinho do Porto, se dividiram entre a moamba, o ceviche, o vatapá, escorpiões fritos e minhocas gratinadas, o perú e o hambúrguer, a paella, o goulash, a raclette e o smörgasbord, para não alargar a lista às iguarias dos 140 países que lá estiveram, incluindo as nepalesas, que até essas não faltaram apesar do terremoto. As interrogações que o faziam abrandar eram também elas filhas do mesmo tema: Porque é que no País das Maravilhas ninguém ouviu falar da Carta de Milão, documento de empenho e esperança e herança do tema da EXPO 2015: “Alimentar o Planeta/Energia para a Vida”? Não estivemos lá porque havia muito mais para além do negócio? Quanto valem 21,5 milhões de likes? Será que o nosso lixo poderia ser luxo para outros?
 
E, ora abrandando, ora estugando o passo, foi-se chegando ao monstro sobrelevado que tomou o lugar da passagem de nível do Rego, subiu os degraus de ferro de dois em dois e, ao chegar ao lado de cá, deu de caras com uma jovem sentada no chão a tocar marimbas. Parou a olhar e a ouvir, eram lindas, ela e a música, não se atrevendo sequer a pensar deixar uma moeda no chapéu de coco andino que, por terra, estava ainda vazio. Como vazia ficou também a sua cabeça que, esquecendo raivas e interrogações, se deixou levar pela beleza que, no dizer de Dostoiévsky, um dia salvará o mundo, sentou-se ao lado da jovem e, esquecendo momentaneamente o motivo que o fizera passar por ali àquela hora, apeteceu-lhe ficar naquela terra de ninguém, entre o Rego e o Bairro Santos, a aprender a tocar marimbas com ela que, parando de o fazer, levantou os olhos para ele e, com uma doçura infinita, lhe disse as palavras que tiveram nele o efeito de uma mola que o fez erguer e correr dali para fora: - Seria bom, mas não te esqueças ao que vais.

Recobrados os sentidos, e o sentido, afastou-se com aquela música nos ouvidos e lá foi palmilhando o caminho que o separava do seu objectivo e, afastadas de vez as ideias negativas, deu-lhe para encadear episódios e conceitos retirados “daquela pilha de livros” (concatena, Filho, concatena!), começando por incomodar Homero que, chocando-nos a nós modernos, põe Menelau, não só a felicitar Helena que o deixa, a ele e aos Filhos, para seguir o irresistível Páris, episódio que desencadeou a Guerra de Tróia, mas a exaltar a sua decisão, tudo isto numa absoluta ausência de revolta moral. Saltando de Homero (politeísta) para Dante (um só Deus), que situa no Inferno (Canto V, 2º Círculo) não apenas Dido e Eneias, Paolo e Francesca e Tristão e Isolda, mas também Helena e Páris, aqueles mesmos louvados por Homero pela boca de Menelau, todos “os que aos vícios da carne se entregavam, razão aos apetites submetendo”. E de Dante a Kant, verdadeiro articulador do radicalismo de Descartes, que afirmou que “se somos sujeitos auto-suficientes, então nenhuma lei,  senão aquela que damos a nós mesmos, pode determinar como devemos agir”, com cada sujeito a substituir Deus como ordenador do mundo, tudo isto corroborado por Sartre, já que a principal característica do existencialismo é a de atribuir ao Homem “ a total responsabilidade da sua existência”,  desmentindo assim Homero (outra vez ele) que é absolutamente convicto que quando Helena fugiu com Páris, o fez levada por Afrodite.  Daqui é fácil saltar para Melville que, um século depois de Kant e uma geração antes de Nietzsche, teve noção da crescente ameaça do niilismo, pondo na boca de Ismael, o narrador da fatídica viagem do Pequod (Escrevi um livro malévolo, mas sinto-me imaculado como um cordeiro, escreveu ao seu amigo Hawthorn), que “ O tecelão Deus tece; está ensurdecido pelo barulho do seu trabalho e não consegue ouvir nenhuma voz mortal; e nós, que contemplamos o tear, estamos ensurdecidos pelo seu besourar; e é somente quando nos afastamos que ouvimos os milhares de vozes que falam através dele (Moby Dick, pg. 481).” Teve, no entanto, a percepção que a recuperação dos deuses de Homero seria uma maneira de o superar: “ Se, no futuro, alguma nação altamente culta e poética voltar aos primórdios dos alegres e primaveris deuses da antiguidade, e os entronizar novamente no actual céu egoísta; na actual colina deserta; podeis ter a certeza que o grande cachalote seria elevado e reinaria no grandioso trono de Júpiter (Moby Dick, pg. 497).”
 
Chegado ao seu destino, bateu à porta e, na espera, começou a pensar nela voltando a Dante, que inspirou os chamados trovadores franceses a desenvolver uma nova maneira de entender o amor; não o desejo erótico grego nem a ágape cristã, mas um sentimento novo, o amor cortês ou romântico, que implicava “devoção total a uma pessoa que se tornava o centro da nossa vida”. Como Beatriz e foi para o génio florentino e Ofélia para todos os Pessoas que teve de aturar. Ou Helena e Páris? A porta abriu-se finalmente, ela encarou-o sem temor ou sentimentos de culpa, como se estivesse à sua espera, pegou-lhe na mão e levou-o até à sala de jantar, onde à volta da mesa posta estavam sentados o Marido e os Filhos, estes mais ou menos da sua idade. Espera, disse-lhe, e pegando na sopeira serviu cada prato, incluindo o seu próprio, sentou-se, formulou um firme “bom apetite” e todos comeram em silêncio perante aquele “convidado de pedra” que não podia ser outro que um emissário de poderes mais altos. Levantou-se então da mesa com um “volto já”, saiu a porta da sala e regressou com um casaco vestido e uma bolsa a tiracolo. Vai correr tudo bem, disse, mas não sei se, ou quando, voltarei; pegou-lhe novamente na mão e saíram de casa. No ascensor (sempre os ascensores), sem uma palavra, deu-lhe o beijo que, vivido dez andares, não esquecerá nunca mais.

Já na rua, entraram no carro que tinha ficado ali estacionado à espera que ela descesse, como prometido, e ele acordou com o barulho do fechar da porta, ficando meio estremunhado a olhar fixamente para o lugar vazio ao seu lado, a tentar perceber o que se tinha passado. Num gesto automático ligou o rádio que passava uma versão de “El Condor Pasa”, tudo marimbas e flauta de Pan, olhou para cima e pareceu-lhe  ver a sua sombra por detrás do nevoeiro (Eco, Eco, Eco, Eco…) das cortinas da janela da sala, a acenar-lhe com a mão um longo, lento, simples mas significativo Adeus.


Abraço.
 

Lisboa, 5 de Novembro de 2015
Octávio Santos

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Onde o cronista disserta sobre centrais nucleares que põem a Velha Albion de olhos em bico, Terminators que matam a eito com aviõezinhos de brinquedo, planetas e partidos na moda, Europas e Europas, 3 Portugais 3, e, cansado, vai dormir a sesta após o sexto trabalho.


Confesso que tenho o hábito de ler o “Le Monde” e o “Corrière della Sera” no El Corte Inglès, em acções quase quotidianas de parasitagem - ia escrever canibalismo mas teria de dar explicações que nem eu próprio entenderia -, até quando  não se lembrarem de os reduzir ao nível do “Correio da Manhã”, que esse mostra a 1ª página com a menção protectora, e ameaçadora, de “vende-se no balcão”. Mas, como nem todos os dias os almoços são grátis, este “Le Monde” de 21/10 tinha tantas notícias apetitosas que lá resolvi desembolsar os dois euros e meio e estou agora sentado à sua frente para vos “traduzir” à porca janota - será que a Dona Lilita ainda está no Café Correia de Vila do Bispo, a regalar todos os escolhidos com as lulas recheadas, os camarões guisados e o bolo de batata doce? – tudo aquilo que  nele chamou a minha atenção, e começo já:

- Nuclear: Pequim entra na Europa, pela mão da EDF - Electricité de France, para construir no sudoeste da Inglaterra, em Hinckley Point, duas centrais nucleares. Assim, a China (CGN -China General Nuclear, e CNNC - China National Nuclear Corporation) entra no exclusivo clube dos países exportadores de tecnologia atómica, financiando 33,5% dos 33 mil milhões de euros que se calcula custará a operação. Vitória política e económica que teve a sua montra na visita de Xi Jinping, recebido como um rei pelo conservador David Cameron que sonha fazer da city a testa de ponte financeira chinesa no Ocidente. Pergunto-me para que é que a Fosun e a Anbang  precisavam de comprar o Novo Banco? Para entrar na Europa?

- Skynet, um programa secreto baseado na análise de dados telefónicos por meio de um algoritmo, permite à NSA - National Security Agency alvejar presumíveis terroristas no Paquistão. Nesta lista negra de indivíduos a abater por meio de drones há também muitos inocentes. Nem queria acreditar no que estava a ler, mas fui confortado pelo Sr. Michel Hayden, ex-patrão da NSA passado depois à CIA, que declarou em 2014: “Sim, nós abatemos pessoas baseando-nos em metadados”. Não percebi tudo bem, mas deu para entender que, se os metadados recolhidos e tratados de cada um dos 188 milhões de utilizadores de telemóvel, der um resultado acima de um certo plafond, determinado pelo tal algoritmo, esse é considerado terrorista e portanto passível de ser abatido. Calculem que, segundo o BIJ - Bureau of Investigative Journalism, a CIA efectuou 421 ataques com drones no Paquistão entre 2004 e 2015, que fizeram entre 2.500 e 4.000 mortos e, pelo menos, 1.500 feridos. Desses mortos, 22% eram civis não combatentes, incluindo crianças, e 76% não puderam ser classificados com precisão, sendo apenas 1,5% identificados como “alvos de alto valor”, isto é, terroristas que ameaçavam interesses americanos. Mas não sou só eu que gosto de brincar com coisas sérias, já que a NSA “roubou” o termo Skynet ao sistema informático do filme “Terminator” que, tornando-se incontrolável, decidira ele próprio aniquilar toda a humanidade com bombas nucleares. Humor do caraças!  Temos de agradecer ao Edward Snowden o facto de agora sabermos isto tudo. Ou era muito melhor não sabermos?

- Marte: trinta e seis anos depois de “Alien”, Ridley Scott volta ao espaço com “Sozinho em Marte”, naufrágio espacial de um optimismo eufórico, tudo à volta de um náufrago engenhoso cujas receitas de sobrevivência quase resistem a um exame científico, não muito importante para um que, ao pronunciar as imortais palavras “Estou-me a cagar para a ciência”, merece o castigo da sobrevivência no planeta vermelho. À parte o filme, Marte está no centro das atenções do mundo, talvez por desilusão do planeta que nos foi dado estragar, porque já não falta tudo para nos sentirmos de volta a 1962 a ouvir as promessas de conquista lunar de John Kennedy. Com a anunciada novidade que afinal há água em Marte, e esta não é do filme, parece renascer a esperança dos milhões que na Terra sofrem por falta dela, ou por aqueles que morrem por a beberem, não potável, diariamente. Não fui ver a “Ovelha Choné” e ia agora perder tempo a ver esta fantochada!

- Islamismo e Europa: a Sra. Merkel parece ter prometido à Turquia usar os seus bons ofícios para acelerar a entrada do país na UE, a troco de facilidades para os refugiados. No sudoeste deste país euro-asiático há uma cidade de 280.000 habitantes, Adiyaman, onde o Presidente Erdogan regista os melhores resultados eleitorais, e que é o principal viveiro de recrutamento do estado islâmico em território turco. De lá vieram os responsáveis e executores dos atentados de Ankara, Diyarbakir e de Suruç, mas as autoridades estão mais ocupadas em reprimir os delitos de opinião que a perseguir os assassinos. Tratando-se do ISIS, fecham os olhos todos. As mesquitas e as madrassas de Adiyaman continuam a funcionar como se nada fosse, mas é nelas que, sob o olhar complacente dos imãs, se recrutam soldados para o ISIS. As famílias preferem o silêncio e, quando os corpos dos filhos voltam da Síria, enterram-nos de noite. Estou cada vez mais baralhado. Quando o Sr. Rajoy (não nos bastava Bruxelas e Berlim) diz que está muito preocupado com Portugal, cujo PR diz que não PODEMOS  se queremos ficar na Europa e na NATO, como é que a Sra. Merkel promete abrir a porta a um país com uma cidade assim? E será só uma, ou Adiyaman é o seu retrato?

(Lembrei-me agora do filme "O Exorcista" quando o padre grita para a menina "Sai daquele corpo!!!", porque me apetecia começar a gritar debaixo das janelas do Palácio de Belém "Sai daquelas funções!!!!" para sentir novamente pela instituição Presidência da República o mesmo respeito que sinto pela Bandeira ou pelo Hino)

- PEGIDA: “Patriotas Europeus Contra a Islamização do Ocidente”, fez um ano no dia 19/10. Nascido em Dresden (Saxe), já se tornou o símbolo de uma Alemanha populista e ocupa, junto com o AfD - Alternativa para a Alemanha, o espaço deixado vazio entre a CDU-CSU e os pequenos partidos neo-nazis. Na sua festa de aniversário, cerca de 15.000 simpatizantes ergueram uma forca para os traidores, Angela Merkel e Sigmund Gabriel (SPD), e aplaudiram Viktor Orban, Vladimir Putin e Marine Le Pen. As últimas sondagens dão 7% de intenção de voto ao AfD, o que lhe dará representação no Bundestag, e o PEGIDA, que se esperava em declínio porque o seu fundador, Lutz Bachman, que, para além de cadastrado, tinha aparecido disfarçado de Hitler no facebook, conseguiu juntar 25.000 manifestantes num meeting em 2014. Pior que isto só o facto do NPD - Partido Nacional Democrático da Alemanha, ou seja, o partido neo-nazi, ter tido 7% dos votos e eleito 5 deputados (entre 71) para o Parlamento Regional da Pomerânia Ocidental. Udo Pastörs, sua cabeça e braço armado,  condena a violência e diz não ter culpa que as pessoas  percebam mal os seus discursos e incendeiem os alojamentos dos refugiados, e acusa o PEGIDA de estar a aproveitar-se da sua acção -  foi preso 20 vezes na rua após discursos inflamados - para tirar as castanhas do fogo. Afirmou que a imigração modifica o caracter de um povo, provocando, com a ajuda da “cloaca comercial cocamericana” um genocídio de facto. Viva (esta) Alemanha!

- A Sesta, o sono do justo equilíbrio: As virtudes insuspeitáveis da sesta. Vigilância, imunidade, memória, criatividade, performance profissional ou desportiva. Nem Reiki, nem EMDR - Integração neuro-emocional pelos movimentos oculares, nem HBP - Human Brain Project nos conseguem dar os benefícios de uma boa sesta. Tida por vezes como um hábito reservado às crianças, aos calões e aos velhinhos, este parêntesis cerebral vê as suas virtudes psicológicas, e não só, sublinhadas por estudos que revelam os benefícios deste sono diurno tão sub-estimado. Visto, até agora, como um conforto, está a revelar-se um instrumento de saúde pública. Virá ele a ser aproveitado para o bom funcionamento das empresas? Uma dívida contraída junto do banco do sono acumula-se como qualquer outra dívida, e terá de ser paga mais tarde com juros muito elevados. Hoje dorme-se em média menos de 7 horas por noite, contra as 9 horas de cem anos atrás, e uma sesta, mesmo de apenas 20 minutos, ajuda a baixar a taxa de juros, que se materializam em obesidade, diabetes, hipertensão, depressão e, pior, em acidentes de viação, domésticos ou de trabalho. Eu, que passei a dormir a sesta, porque adormeço a ler deitado depois do almoço, não sou um bom exemplo já que abri um lábio quando, ao adormecer, me caíram das mãos as “Memória Íntimas” de George Simenon, que devem ter quase um kilo e meio. Boa soneca, melhor se adormecerem a ler o "Borda d'Água".

- Portugal 1: nos Açores, acordos perfeitos entre a pesca e o cinema, é o elogio que merece o “Documentário Português” (1h e 43 m), de Joaquim Pinto e Nuno Leonel, que filmaram com um lirismo brilhante e de partilha, o quotidiano dos habitantes de São Miguel. Pinto, antigo colaborador de João César Monteiro, doente de hepatite C  e de sida, construiu, com o seu amante Nuno Leonel, que padece dos seus mesmos males,  este diário filmado para a televisão, sobre a pesca artesanal em São Miguel, evocando a amizade que os autores entabularam com estes “cow boys do mar” que nunca conheceram patrões e jamais assinaram contratos. Um sopro lírico avassalador.

- Portugal 2: Para a série “A Europa dos escritores”, o documentário de Inês de Medeiros “Portugal entre o aqui e o algures” (55 m) revelou-se o melhor, como uma lufada de ar fresco neste clima pesado de eurocepticismo. Escolhendo a dedo os escritores que deram voz ao seu trabalho, temos a revelação (para eles, franceses) de Lídia Jorge, Mário de Carvalho, Gonçalo M. Tavares e Mia Couto, este moçambicano (precisam eles). Inês, pergunta: “Momentos de glória da sua história, as descobertas foram elas o prelúdio do êxodo obrigatório de um povo de camponeses tornados marinheiros?”. Lídia, diz: “Há uma espécie de capacidade estóica de resistência que nos conduziu à submissão a ditaduras, mas que também nos conduz a situações de auto defesa”. Carvalho, afirma: “Acabou o Portugal da gentinha, da miséria, do povo submisso, isolado e encarquilhado sobre si mesmo”. Couto, sentencia: “O melhor (desse povo) é a sua capacidade de não ser, de aceitar de ser outro”. Uma língua, falada por 260 milhões de pessoas, que é o território destes escritores, para não dizer, como Pessoa, a sua Pátria.

Portugal 3: no carnet “Nascimentos”, lê-se: “Lia Reychman-Guerra, nasceu em 18 de Outubro de 2015, de Clément e Madalena. Alegramo-nos em Paris, em Portugal, nos Estados Unidos, na Suécia e na Polónia. Todos os numerosos avós, incluindo Betty Mialet, estão muito felizes.” Fiquei sem palavras, sonhando um dia poder escrever a história da vida desta Madalena Guerra, nossa compatriota e agora cidadã do único local que temos todos para viver, e que por isso mesmo é de todos: a TERRA!

Abraço.
 
Lisboa, 29 de Outubro de 2015

Octávio Santos

PS: A Odete Miranda, aquela Senhora que me trata dos caracóis, quer à viva força que eu esteja por dentro da revista à portuguesa, e eu não a desiludo e acho sempre graça à sua repetição das piadas e buchas, mas desta vez ri-me com gosto quando ela me repetiu 3 vezes uma do Joaquim Monchique, que gritou para uma parada de políticos da nossa praça: - Óhhh Cóstinhaaaa, tu vai masé vendê chamuuuuças, pá!!!!

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

O raio da manta, que nasceu para cama single, alarga-se agora para matrimonial, esperando que não chegue nunca a king size, recebendo hoje os retalhos de uma instalação com bofes frescos, que, ordenada em sonhos, jamais verá a luz do dia (nem a escuridão da noite), de uma tentativa de emprisionar o movimento de um jockey de hipocampos sobre um osso de choco num mar de vidro, e de uma foto artística pífia de fofo pato todo ele pixéis: uma confusão do caneco!


 
Tendo atraído os veneráveis leitores ao engano, ao chamar de bonsai à sua historieta da semana passada, que afinal, como um bolo com demasiado fermento que, levado ao forno, sai da forma de forma exagerada, porque ele há coisas que não se podem encolher, o cronista, cansado e indeciso no caminho a percorrer, limita-se desta vez a juntar mais uns retalhos à sua manta “artística”, como naqueles dias em que o jantar são restos mas que lhe apetece chamar-lhes hors d’ oeuvres só para armar.

Retalho 6 – André, cavaleiro (adiado) das ondas

Muito antes do relatado no Retalho 5 - Lixo da Costa do Sol, da passada crónica, já eu tinha prometido ao André, como prenda dos 16 anos, uma colagem escultórica representando-o a entubar uma onda do caraças e, tendo o hábito de cumprir o que prometo, comecei por surripiar, na casinha das ferramentas do Monte Crato, um pedaço de tábua velha e carcomida que pus de parte para servir de base. Depois, inspirado na decoração de uma rotunda da Ericeira, comprei dois copos de vidro, um azul e outro verde, que levei a um vidraceiro no Bairro Santos para que mos cortasse segundo umas marcas que lhes fiz, o qual olhou para mim com cara de grande solidariedade humana e debitou soletrando, como se temesse alguma reacção tipo “voando sobre um ninho de cucos”, que os vidros curvos não se podem cortar, pois que qualquer tentativa os partiria sem nenhum respeito pelas minhas marcas. Vi-lhe um alívio no semblante quando - já a Mulher estava com o telefone na mão, quem sabe se para chamar o 112 - pedi desculpa, balbuciei um “não sabia”, agradeci e saí calmamente do local. Chegado a casa, como que possuído pelo espírito de Michelangelo ou Rodin - o Jeff Koons e a Joana Vasconcelos ainda não estão, felizmente, disponíveis -, dei duas marteladas nos copos e com os seus cacos compus o tubo. Depois tirei uma costela, desculpem mas esta é uma outra história, depois, dizia, com pedaços de conchas, seixos, fios de cordas tudo apanhado na praia do Rio Cortiço e papel azul, erigi um cenário de ventos e espumas à volta do tubo, no interior do qual meti, em posição instável, um osso de choco (Eugenio Montale, Nobel) com um pedacinho de tronco de esteva que, à semelhança daquele que deu vida ao malogrado ET do meu Retalho 1 da crónica da há 15 dias (continuam a dar-se alvíssaras), era, juntos mais uns gravetos à laia de braços, o retrato chapado do André na sua posição de intrépido cavaleiro das ondas. Parecia tudo perfeito, mas como, tal como acontece com as luvas, também não sei fazer nada com máscara e óculos, e tendo usado Cola Super 3 (Perigoso,  cola à pele e aos olhos em poucos segundos), me dei conta que, um ano após uma operação às cataratas (para os velhos são como os cabelos brancos, sentenciou o Dr. António Sampaio) comecei a ver coisas estranhas, sombrias e inquietantes, pelo que suspendi os trabalhos sem ter revelado o porquê a ninguém, como um puto que vai ao pote da marmelada e tem medo de um ralhete ou de uma nalgada. Agora, feita a confissão, o André já pode deixar de pensar que o Avô Tato é mais um aldrabão com futuro assegurado na política, deixando-lhe aqui a certeza de que vai ter a sua “obra de arte”, metida numa caixa acrílica, nem que seja lá para os seus 20 anos, quando já tiver trocado a adrenalina das ondas do mar por aquela dos vórtices violentos do ar que sustenta as asas dos seus futuros Boeings ou Airbus.

Retalho 7 – Pato marreco branco sobre sinistra sombra negra

Nos Jardins da Fundação Calouste Gulbenkian, onde 2/3 vezes por semana passo de manhã para respirar e descontrair, há, no meio de centenas de patos que o povoam, um todo branco que eu, que deixei há muito de fixar imagens artificialmente em suportes digitais, chegando-me as lentes dos olhos e a película da mioleira, talvez para escapar ao rebanho “selfídico” que não deixa em paz nem o Papa Francisco, dei comigo a procurá-lo para o imortalizar. Estava ele naquela manhã de sol, afastado de todos os outros, a dormir na relva, peguei no telemóvel e aproximei-me pé ante pé, com o sol pelas costas, para o surpreender posto em sossego e, tanto me aproximei que o bichinho acordou e, dando com o intruso, se levantou atapatoadamente para escapar e ir à vida; aí, na iminência de o perder, cliquei à porca janota, não acreditando no que depois vi ter fixado para sempre, ou seja a inesperada foto que é a imagem desta crónica, pena é que a sua qualidade a torne imprestável por absoluta incompatibilidade com os cânones da boa fotografia. Quando mais tarde zoomei sobre ela, a coisa tornou-se tão irreal que me lembrei de um outro pato, este, sem sombra sinistra a tutelá-lo, composto por restos de armazém de azulejos de cozinha e casa de banho, que está no muro do Jardim Colonial, ao fundo da Travessa Marta Pinto - artéria povoada por bandos de andorinhas do Rafael Bordalo Pinheiro, agora da Catarina Portas -, ali a Belém, onde fica a Ermida Nossa Senhora da Conceição, hoje desconsagrada e sede do “Projecto Travessa da Ermida”. Voltando ao patinho branco e ao Jardim da Gulbenkian, lembrei-me agora de ter escrito um conto de Natal para crianças intitulado “É Natal também no jardim”, situado nesse jardim, o qual, magnificamente ilustrado por Sara Alves e Calaim, está no site da editora “Story Tellme” da minha amiga Teresa Valente - www.storytellme.pt - e pode ser adquirido, devidamente personalizado, como tudo o que de belo e original a criativa editora produz.

Sonho 2 – A Instalação

Começo por repetir o que escrevi há duas semanas no Sonho 1- A Colagem: Uma noite destas tive um sonho muito nítido e preciso, como quase nunca os sonhos são, no qual alguém me ordenava… de montar uma instalação a céu aberto, com uma tal precisão de pormenores que eu seria capaz de chefiar uma brigada de instaladores para a reproduzir fielmente, tanto mais que tenho na memória imagens anteriores que me ajudariam a uma fidelidade acrescida, como seja a vista, desde o alpendre das buganvílias do Monte Crato, do campo das vacas do Raúl, já no Pêgo Amarelo, plantado de banheiras velhas que, recolhendo a água da chuva, serviam de bebedouro aos bovinos, mas também aquela do porco aberto e pendurado na trave mestra da arribana, com os bofes a pingar, após a certeira facada do Ti Chico Crisóstomo (tenho ainda os seus gritos de misericórdia na cabeça), do barbear do suíno com uma telha depois de ter passado pelas brasas de uma fogueira ad hoc, do abrir da carcaça do pescoço ao baixo ventre, da extracção da bexiga para evitar inconvenientes contaminações sápidas, e da tripalhada desviada para o milagroso processo de troca de conteúdos naturais não consumíveis, por outros que nos fazem as delícias. Quanto aos ecrãs enganadores que nos escondem e dão a ver a realidade segundo as conveniências e pontos de vista, apenas os posso idealizar como metáfora política de hoje.

A propósito recordei-me da sexta linha do romance de Umberto Eco “A Misteriosa Chama da Rainha Loana” onde se lê “Era um sonho estranho, sem imagens, povoado de sons”, porque o meu, apesar de estranho, foi sem sons, povoado de imagens. Depois, no mesmo livro (quando uma coisa me encanta não a largo sem a desmanchar, fazia o mesmo aos relógios quando era pequeno), já na página 70 li “…eram testículos de cão, de gato, de galo e de outro bicho, com rins e tudo mais”. Será que influenciou o meu sonho?

Retalho 8 – Fressuras pingantes com/em banheiras e painéis móveis enganadores, tudo a céu aberto.

Então seria assim, se alguma vez eu tivesse à disposição o hangar da Joana Vasconcelos em Alcântara e a sua equipa de técnicos e operários instaladores, bastando juntar-lhes um magarefe ou dois, esta instalação ordenada em sonho, que nem por sonhos será executada (a não ser que alguém…):

Espalhar numa superfície plana ao ar livre um quadriculado de banheiras brancas vazias, cada uma com uma alta coluna de duche no topo da sua maior dimensão. Pendurar em cada uma dessas colunas uma fressura completa fresca de porco ou bovino (dependeria do sponsor), a qual ficaria a pingar os seus humores, cada uma para dentro da sua banheira. Levantar, fincando-a no terreno, uma rede de hastes metálicas verticais nos intervalos horizontais entre banheiras, ligar pelas suas extremidades superiores cada fila de hastes com cabos de aço estendidos firmes de uma ponta à outra e prover cada cabo com pequenos patins de roldanas corrediças que, ligados a um pequeno motor eléctrico, fariam mover horizontalmente rectângulos de plástico (ou outro material) branco que, pendurado cada um no seu patim móvel, se moveriam à altura dos bofes pendurados fazendo com que o potencial espectador, embasbacado como se estivesse no Louvre diante da Mona Lisa ou da Vitória de Samotrácia, visse e não visse a parte viva (ou morta?) da instalação, ou sejam as fressuras estáticas ali a transmitir sensações de grande densidade artística a quantos tivessem a felicidade de ser admitidos à performance pelo tempo que permitisse que a extraordinária visão não fosse anulada pelo limite de suportação das pituitárias que, não suficientemente treinadas, de arte moderna não entendem. Se fosse possível, mas não passa de um outro tipo de sonhos, isto é, daqueles que se fazem acordados, gostaria também de convidar para a vernissage a abundante Senhora do Cacilheiro de Veneza, em versão Joana Amaral Dias na “Cristina”, para uma esfregadela na fressura dentro de uma das banheiras, idealizando o “Nascimento de Vénus” de um Botticelli com guia de marcha para o Júlio de Matos e, dulcis in fundo, embrulhar tudo em papel pardo à maneira do búlgaro Christo, dando de brinde aos espectadores, como o contrapeso que era de uso impingir aos fregueses nos talhos do antigamente, o Palácio de Belém, com todos os seus cavacos e cavaquinhos lá dentro, tudo bem embrulhadinho em papel do BPN (que já pagámos).

 Abraço.
 

Lisboa, 22 de Outubro de 2015
Octávio Santos
 

PS: Ficava muito feliz se o Luís Allen se pronunciasse sobre a foto da imagem, nem que fosse com um seco “esquece, (Octávio) pato”!

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Continuando a juntar os retalhos da manta, o cronista acrescenta-lhe hoje uma boa mão cheia de lixo recolhido olhando um cenário oceânico de correrias dos cavaleiros das ondas + conto quase bonsai experimental com final (in)feliz em terras de fartura de tudo. PUM!!!


Deixando de lado o futebol  e as eleições por ter perdido as chaves de leitura necessárias, e sentindo-me tão incapaz e ignorante como quando entrei num romance de Joyce com a pretensão de pescar alguma coisa, sem arte nem pindoca para tal (estão verdes, não prestam, como dizia a raposinha do Senhor de La Fontaine),  é melhor voltar às minhas paupérrimas “obras de arte”  na esperança que as coisas se componham por si e, agora, que nem já a ajuda do Espírito Santo convém invocar,  pedir a S. Bento que apazigue o mundo da redondinha e que se faça Luz naquele dos artistas da peta a granel que estão nos antípodas do vendedor de castanhas assadas da juventude do meu Pai, que, ao menos esse,  apregoava a sua mercadoria não enganando ninguém: “Quentes e boas, dez réis são vinte, dezanove podres e uma furada, isto é que é comer e deitar p’ró chão rapaziada!”

Retalho 5 – Lixo da Costa do Sol

De Novembro de 2014 a Fevereiro de 2015, acompanhei o André a Carcavelos, todos os domingos de manhã, para duas horas de surf.  Saíamos cedo, que a A5 a essa hora escorria fácil e, depois das rotundas, que peço desculpa de não ter contado mas são sempre menos que as de Viseu, estacionava com o oceano à vista, o André avaliava se o mar estava bom, começava a cerimónia da "vestição", descia à praia e, ainda não eram as 9, lançava-se às ondas à espera da 7 para a cavalgar. Após a canónica chamada para casa a dizer que o menino já estava na água, eu ficava só sem saber o que fazer. Nas primeiras vezes descia à praia e, da Parede  à Marina de Oeiras, pela areia ou subindo ao passeio marginal, lá gastava eu aquelas duas horas a fixar relações humano/cão, a repertoriar bares e restaurantes, binómios viventes com bicicleta ou skate (só me tocou um com segway),  runners sem distinção sexual ou etária,  entre o obeso e o carga de ossos, a treinarem para a 15ª edição da Meia Maratona da Porcalhota,  agradecidos ao Isaltino a suarem as estopinhas nas  maquinetas tipo Holmes Place para pobrezinhos, jovens campeões de polegar lesto fazendo twitting à mesa dos cafés alheios ao esforço de Deus como arquitecto paisagista, surfistas em grupo a filosofar sobre o estado e  condições do seu campo de acção, perspectivando o futuro imediato  como se estivessem na Academia de Atenas, antes de se juntarem ao André que, a ele basta que o mar seja salgado e se mova entre o lago, que o faz danar, e a montanha russa que o faz temer. Até que uma manhã, passeando-me nas areias de Carcavelos, lembrei-me que seria de grande utilidade recolher todo o lixo que lá não deveria estar, mas sendo tarefa hercúlea, senão impossível, limpar tanta porcaria acumulada ao longo da praia, tive a ideia de a seleccionar tendo em vista a feitura de qualquer coisa que testemunhasse, não digo a incúria ou a estupidez humana (quem não brindou a natureza com uma beata, uma casca de castanha assada, um talão com saldo negativo saído de um ATM ou um post it rasgado, lance a primeira pedra), mas apenas e tão só o caixote do lixo de gente normal, que se fosse só de um (meu?) não teria importância, mas que multiplicado por 10, 100 ou 100 mil (Pirandello) torna a vida menos vivível. Munido de um saco de plástico, inadvertidamente sem luvas (nunca soube fazer nada com preservativos para vírus e bactérias), fui apanhando, durante três sessões de duas horas cada, tudo o que consta da imagem que ilustra esta crónica, e do qual vos deixo um rol não tão exaustivo como aquele da lavadeira de Caneças que recolhia a domicílio as peças de roupa para lavar no tanque comunitário da Beatriz Costa - três corpetes, um avental, sete fronhas, um lençol, três camisas do enxoval que a freguesa deu ao rol -:

- bóias e pindocas, caricas (Sagres e Super Bock, não quero chatices), beatas, ossos, um isqueiro BIC, caixa de fósforos, maço de cigarros (fumar mata!), um botão, haste de óculos de sol, acessórios eléctricos, rolhas de cortiça (do vinho de mesa ao champanhe), um frasquinho de perfume cheio, plásticos vários e indiscriminados incluindo um bigoudi, embalagens de refrigerantes e gelados - uma de Calippo serve de vaso para as coisas naturais que incluí, como  folhas, penas e canas -, polícromos azulejos partidos, cordas, um frasco de Pau d’Arco e outro de cola Pattex, ambos rotulados, um fino de surf Tribord, uma bolinha com a bandeira dos EUA, e uma borrachinha amarelinha e mole para tapar os ouvidos, que se fossem duas era melhor neste momento de fervor agit-prop.  Esquecia um tronco de árvore que, serrado à medida, acabou por ser  moldura, e ainda uma seringa espeta pá veia, que lá está em evidência, e um arranjo floral com dedicatória às arquivadas vítimas do Meco (que fui impedido de incluir na colagem, agradecendo a quem mo impediu), de que vos falei nos 2º, 3º e 4º parágrafos da minha crónica de 15/01/2015, intitulada “ Festival de Cinema do faz de conta…”.

Conto que pretendia ser bonsai, do Eufrates ao Reno com amor, que engrossou, engrossou...

Abdallah Kurdi, deitado de costas na sua confortável cama, no alojamento aquecido e mais que correcto que a fábrica pôs à sua disposição e que partilha com dois colegas de trabalho, um italiano e um português, não  pega no sono, primeiro porque não consegue depois de tudo o que lhe aconteceu, que ainda hoje lhe parece um filme, e depois porque lhe entra pela porta do quarto o ressonar pesado do português e o som que escapa dos auscultadores do italiano que ouve no MP3 sempre a mesma canção:  TatáTatáTá… TatáTatáTá…  TatáTatáTá… TatáTatáTá… TatáTatáTá…

O Senhor Kurdi, cidadão curdo da Síria, nasceu e sempre viveu em Kobane, e ali casou com a belíssima Rehan que lhe deu dois meninos que eram a luz dos seus olhos, Ghaleb e Alan. Não me perguntem  o que fazia Abdallah Kurdi porque não vos sei dizer mas também não é importante, só sei que fazia a vida normal de um curdo sírio, como faziam uma vida normal, ou quase,  os outros 25 milhões de curdos fossem eles  turcos, iraquianos, iranianos, arménios ou sírios como ele, até ao dia em que entraram na sua amada cidade as hordas do ISIS e a começaram a destruir e a aterrorizar e dizimar os seus habitantes. Abdallah ainda esperou que da cidade irmã do lado de lá da fronteira turca, Suruc, onde estacionam homens e meios do poderoso exército turco, lhes chegasse algum socorro mas em vão. Seria por serem curdos?

Então, Abdallah Kurdi pegou na sua pequena Família (Alan não era ainda nascido) e transferiu-se para Damasco, isto em 2011, na esperança de aí ter sossego, tudo em vão, de Damasco a Aleppo,  de Aleppo novamente a Kobane onde não encontra o que lhe contaram de bom, de Kobane para a Turquia, onde é maltratado como todos os curdos, que pagam os “pecados” de Oçalan, da Turquia de novo para Kobane de onde lança um SOS para a sua Irmã Tima, cabeleireira em Vancouver, pedindo-lhe para fazer o necessário junto da autoridades canadianas para a obtenção de vistos de refugiados (e já eram quatro), como havia já feito para o outro Irmão, Mohamed, este já no Canadá. Farto de penar com a Família às costas, não tendo recebido boas novas do Canadá, Abdallah Kurdi  junta todo o dinheiro que lhe sobra, pede ainda algum emprestado, atravessa novamente a fronteira da Turquia e segue para Bodrum, onde o espera na praia uma espécie de Zebro para 10 pessoas e,  após pagarem lautamente o empresário da morte que lhes “faz o favor”, embarcam mais de 30, Família Kurdi incluída, para fazerem de noite as 3 milhas marítimas de Egeu que os separa de Kos. Durante a travessia, Abdallah, agarrado a Rehan, a Ghaleb e a Alan, sabe que após chegarem a Kos os esperam dias, semanas ou talvez meses de humilhação e violência, desde o porto da ilha enquanto esperam o ferry que os levará ao Pireu, depois até à fronteira com a Macedónia, desta à da Sérvia e daqui para a Hungria ou Croácia, venha o diabo e escolha, até chegarem a Viena e daí ao “paraíso” teutónico, meta de todos os sonhos,  tudo isto após 4 anos em fuga com os pobres trastes às costas.  Poderei tornar um dia a viver uma vida normal, ou quase, pergunta-se Abdullah Kurdi embalado pelo baloiçar do insuflável, com o ruído do motor fora de bordo a falar tão alto que não o deixa nem  ouvir a própria resposta, que ele tem medo de adivinhar. Só o calor dos corpos queridos que leva colados a si lhe transmite uma réstia de esperança.

Depois, é o nervosismo de outros passageiros que os leva a movimentos que fazem perigar a estabilidade do barquito, são vozes alteradas a pedir calma, é gente que se debruça para não vomitar para cima dos outros, é um homem em pé a urinar para o mar, é uma criança que grita para a Mãe que vai fazer cocó ali mesmo, é um que inadvertidamente cai à água, um seu familiar que se estica todo fora de bordo na tentativa de lhe agarrar a mão, é tudo o que não pode ser nem deve acontecer, Abdallah só sabe que Rehan se agarra a ele com a mesma fúria com que, em Kobane, fechada a porta do quarto para as crianças não ouvirem, se lhe entregava toda que, nestes casos, não há diferença entre sunitas, judeus, cristãos e yazidis , que as suas mãos as tinha ocupadas a segurar os Filhos, que um lhe escorregou das mãos, que na sua aflição se libertou de Rehan porque o outro também lhe escapava como se fosse uma enguia, que ainda agarrou uma das mãos de Rehan mas não sentiu a sua presa, que nadou, mergulhou, gritou, se agarrou não sabe a quê, que lhe salvaram o corpo mas que a sua alma andou por ali à tona de água a balançar entre a sensação de estar vivo e o terror de não ter morrido.

Depois foram as fotos de Nilüfer Demir na praia de Bodrum com o seu rasto de ruído planetário,  a recuperação do corpo  amado de Rehan, a Irmã ao telefone, perguntas a responder, papéis a assinar, corpos a reconhecer, a viagem de volta para Kobane - última para 3 membros da Família -, o choro, a incredulidade, o estupor. Como é preciso enterrar os mortos e cuidar dos vivos, já o dizia o Marquês de Pombal após o terremoto, os mortos foram enterrados e o vivo, tornado mediático pelos piores motivos, passou a ser cuidado como se de um VIP se tratasse e, sem saber ler nem escrever, chegou à Alemanha já com trabalho e alojamento assegurado.

Naquela manhã, Abdullah levantou-se ainda ensonado, lavou-se, vestiu-se, bebeu um café preparado por Gennaro, o italiano, e aceitou meio pãozinho com manteiga, sem chouriço sff, que  Joaquim, o português, lhe preparou, e ala para o trabalho na fábrica, para a sua tarefa de 8 horas diárias a fazer passar por um tanque de ácido uns tubos estreitos de aço/vanadium que ele, após o tratamento, devia enxugar na perfeição, olhar para o interior para verificar, com a ajuda de um foco laser, se existiam imperfeições nas ranhuras helicoidais que os percorriam, passando-os depois, um a um, para o seu camarada responsável pela operação seguinte.

O trabalho até era leve, era bem tratado, a comida na cantina era boa e farta, começara já a dar os primeiros passos em alemão, indispensável porque o seu inglês era rudimentar e ninguém falava curmângi, às vezes via-se à rasca com os seus companheiros de casa, mas gostava de ouvir o italiano a dizer bem alto “cazzo, sto curdo di merda non parla un tubo de niente e non fa altro che piangere”  que, embora não compreendesse, lhe parecia música dirigida em louvor dos seus mortos, gostando também do português que, parecendo sempre triste e zangado, repetia com voz filtrada “filho da puta do beduíno nem uma rodela de chouriço mete pela goela abaixo”, que para ele era chinês mas que pela cadência lhe chegava como uma carícia na alma, a aliviar-lhe a dores.

Passado que foi um mês já se atrevia a trocar umas palavras em alemão com os seus colegas, e um dia perguntou a um deles para que serviam os tubos que lhe passavam pelas mãos todos os dias às centenas, senão aos milhares. Na galhofa, o seu interlocutor perguntou-lhe se ele ainda não tinha percebido que trabalhava na fábrica da “Grosse Bertha”. Ouviu, calou, fingiu perceber, pensou que  “Grosse Bertha” fosse a alcunha da Sra. Merkel, e conversa após conversa foi acumulando as peças de um puzzle ainda cheio de espaços vazios, até ao dia em que, indagando sobre as estrias do interior do seu ganha pão, lhe explicaram que servia para que as balas saíssem com mais velocidade e precisão para atingirem o alvo com maior eficiência. Para quê?

Numa noite de insónia levantou-se para ir à cozinha beber um copo de leite, e lá estava o Joaquim, que era arquitecto mas que tinha deixado o seu país porque lá não tinha trabalho, a beber uma cerveja e a trincar um panado de frango que sobrara do jantar. No meio de dois dedos de conversa, Abdullah perguntou ao seu camarada o que é que eles afinal ajudavam a fabricar, e que raio era isso da “Grosse Bertha”. Joaquim, que estava a curtir um ataque de saudades dos seus (felizmente vivos), e por isso mais amável e tolerante, tomou um ar professoral e explicou que toda a gente na Europa sabia que a “Grosse Bertha” foi o maior canhão jamais construído, que disparava obuses de 800 quilos a quase 10 km de distância, foi utilizado na 1ª Grande Guerra, e que a fábrica onde trabalhavam produzia, entre outas coisas, metralhadoras ligeiras fixas, trabalhando ele uma das suas componentes essenciais na linha de montagem das mesmas. Vendo o semblante do curdo carregar-se, quase a chegar às lágrimas, Joaquim levantou-se, pôs-lhe o braço por cima dos ombros e convidou-o a ir com ele até ao seu quarto. Aí, sentaram-se ambos diante do PC , Joaquim foi ao Google e abriu diversas noticias em frente dos olhos de Abdullah:

- A Alemanha é, agora que a China a ultrapassou, o quarto maior exportador de armas de guerra do mundo.

- Em 2014, as exportações alemãs de armas aumentaram 90% em relação a 2013, atingindo o valor de 1.823 milhões de euros, sendo os seus principais clientes Israel, Arábia Saudita, Egipto e Argélia, vendendo também valores consistentes para Singapura, Coreia do Sul, Indonésia e Brunei, entre tantas outras  nações suas clientes.

- Reinmetall, Thyssen Krupp, Howaldtswerke – Deutsche Werft, Blohmt + Voss, Lürsen, Ferrostaal são só uma amostra do parque industrial bélico da Alemanha.

- Olha aqui Abdullah, esta é de um jornal do meu país, o Expresso de 22/5/2014, e fala da empresa que nos vendeu dois submarinos, havendo já gente importante nas cadeias alemãs por causa disso, disse excitado Joaquim, apontando o ecrã com o dedo:

- A Ferrostaal (Grupo Volkswagen é maioritário da Man SE que detém 30% da Ferrostaal) é um dos fabricantes de armas mais corruptos do mundo.

- Tens a certeza que é assim como dizes, e que tudo que está na net corresponde à verdade?  perguntou Abdullah com os olhos molhados fixos nos de Joaquim, e apoiando-lhe as mãos nos ombros com uma pressão insuportável, não normal numa conversa de amigos.

Abdullah disse boa noite e dirigiu-se ao seu quarto arrastando os pés como se tivesse em cima de si o peso de culpas enormes que não eram suas; sentou-se na borda da cama, pegou nas fotos da Mulher e dos Filhos e entrou  num choro convulsivo como se tivesse sabido da sua morte naquele momento. A vida não pára, nem se compadece de pieguices, e Abdullah continuou a sua vida e o seu trabalho. Uma noite, estava ele deitado a sonhar como uma só terra para todos os curdos, Kobane seria seguramente a capital e ele estava disposto a lutar por isso, para que um dia pudesse, livre, levar flores à sepultura de Rehan, Ghaleb e Alan, ouviu vozes na cozinha, percebeu que falavam dele, levantou-se, agarrou numa vassoura que estava atrás da porta, e empunhando-a como se uma metralhadora fosse, abriu a porta da cozinha com um pontapé e desatou a disparar  TatáTatáTá…TatáTatáTá…TatáTatáTá…TatáTatáTá…TatáTatáTá… contra o Gennaro e o Joaquim que estavam sentados à mesa a conversar diante de dois copos meio cheios e de um fiasco de Chianti. Estes levantaram-se calmamente, “desarmaram” Abdullah, sentaram-no à mesa entre eles e começaram ambos a alisar-lhe o cabelo enquanto ele soluçava e chorava  copiosamente, como se quisesse, tanta era a água que lhe saia dos olhos, que viram o que não queriam, ligar o Eufrates ao Reno numa só bacia hidrográfica. Voltada a calma, Gennaro agarrou as mãos de Abdullah e disse-lhe:

- Sabes que no teu desespero mimaste uma canção da minha terra que eu ouço todos as noites para não enlouquecer. Tem o título de “C’era un ragazzo”, canta-a o Gianni Morandi, um rapaz de Bolonha, hoje com 70 anos, e foi a primeira canção de protesto contra a guerra do Vietnam. Queres ouvi-la?

E lá ficaram os três a ouvir a canção que, quando saiu em Itália viu o seu texto censurado para não irritar os americanos, texto que vos deixo em versão bilingue  para quem esteja interessado em conhecê-lo na integra. Ouvida a canção em silêncio, Abdullah levantou-se, agradeceu a compreensão e carinho dos colegas, agora amigos, e dirigiu-se ao seu quarto, beijou as fotos dos seus queridos, deitou-se,  e adormeceu a sonhar que os canos das metralhadoras que limpava, polia e inspeccionava, única sua fonte de proventos, engrossavam, engrossavam, até se transformarem numa “Grosse Bertha” que começava a disparar sobre Kobane. PUM!!! PUM!!! PUM!!!

Abraço.

Lisboa, 15 de Outubro de 2015
Octávio Santos

 

Nota 1 do autor:  Neste conto só o passado é real;  o presente é pura ficção e o futuro…, o futuro, desse ninguém sabe se alguma vez será presente.

Nota 2 do autor:  Ler sff, porque é sempre melhor saber que não saber,  “Inside the Global Arms Trade”, de Andrew Feinstein e, de Jürgen Grässlin, “Schwarzbuch Waffenhandel – Wie Deutschland am Krieg verdient (O livro negro do comércio de armas - Como a Alemanha lucra com a guerra)”, este criticando duramente o governo de Angela Merkel por não cumprir promessas de redução nas exportações, que fizeram parte da campanha eleitoral do ano passado.