quinta-feira, 8 de maio de 2014

Escrita criativa II


Desta vez a Carlota avisou-nos logo que iríamos ter de escrever um policial, com enigma, de suspense ou simplesmente “noir”, partindo de duas obras da artista Luísa Correia Pereira, em exposição da Culturgest de 14/2 a 11/5/2014, intitulada “A Convocação de Todos os Seres”. Meti a mão no primeiro saco e saiu-me “3 elementos no verde”, que seria o cenário, tirando “Mãe e filha” do segundo saco, e esta seria a personagem, neste caso as personagens. – Vão lá, têm 45 minutos para escreverem uma história com princípio, meio e fim, disse a Carlota com ar de quem estava a lançar um desafio intrincado, se não impossível.

Lá olhei para as obras (ambas na imagem) e, habituado a ler Camilleri e, sobretudo a ver no pequeno ecrã a versão cinematográfica dos seus livros com um extraordinário Luca Zingaretti no papel do Comissário Montalbano, roubei a atmosfera repetidamente vista e lancei-me freneticamente sobre as páginas vazias. E aí fui tendo a ajuda das coincidências, como o “S” ao contrário, inicial do meu apelido paterno e fivela daquele cinto que uns diziam significar “Serviço” e outros “Salazar”, o verde da seara que o envolvia, o R4 do meu Pai, um dos carros que mais gozo me deu conduzir, entornando-o nas curvas, e a passageira contra mim quando eram à esquerda, em permanente desafio ao seu baricentro, as minhas recentes viagens ao Varatojo que me fazem passar por Catefica à saída da A8 para Torres Vedras Sul, a lembrança da canção de Bécaud "Le restaurante espagnol", hoje irrecomendável dado o seu tema. A cadeira atrás das grades com Mãe e Filha é de tal maneira transparente que me poupa comentários.

Depois, explorando a novidade dos casamentos homossexuais e a aceitação finalmente generalizada de tais relações, compus a trama que levou ao crime e acabei por pôr na cabeça do meu homónimo pensamentos que o leitor não acharia possíveis em tal personagem. Finalmente, tomei metaforicamente a perfeição dos seios da vítima, tendo para mim que já seria crime banalizá-los, desconhecê-los, desprezá-los ou desperdiçá-los por rotina, quanto mais desenhar-lhes “bocas vermelhas abertas por uma faca afiada”. E foi tudo, seguindo-se o texto que inspirou aquele outro “Escrita criativa com o mistério da subtracção da máquina do tempo a um operário por vadios amadores”, editado no meu blogue em 3 de Abril último.

Culturgest

Fundação da Caixa Geral de Depósitos

Escrita criativa

28 de Março de 2014

 

Exposição “A Convocação de Todos os Seres”, de Luisa Correia Pereira



Obras:
- 3 elementos  no verde, Xilogravura, 1973
- Mãe e filha, Água-forte, 1972
 
O Inspector Santos da Científica, chamado de urgência, tudo uma chatice, estava a almoçar pela primeira vez com uma garota a quem tinha posto o olho em cima, para examinar o local do crime, um campo verde de trigo, pediu desculpa, baby fica para a próxima mas dever é dever, escolheu um crachat verde para não dar nas vistas, pô-lo na lapela ao contrário coisa que fazia sempre para não confundirem o seu “S” com o do cinto da Mocidade Portuguesa, acelerou o seu R4 que já conhecera melhores dias e ala, sem GPS, dirigiu-se a Catefica que era a única indicação que tinha. O aparato dos carros da PSP de Torres Vedras, uma ambulância dos bombeiros, indicaram-lhe que era ali. Entrou no campo com o seu olho habituado a todos os pormenores e, afasta trigo à esquerda afasta trigo à direita viu vermelho na terra e nas espigas, baixou-se para recolher uma amostra para análise e seguiu no campo até ao fim onde começava a terra lavrada. Havia uma cabana, daquelas onde se guardam as alfaias agrícolas, empurrou a porta entrou; ao princípio não viu nada na penumbra, mas habituando-se deu com uma divisória gradeada atrás da qual distinguiu uma cadeira de espaldar alto tudo anónimo e cinzento, e voltou-se para sair. Um ligeiro arfar que lhe pareceu de um gato escondido fê-lo retornar sobre os seus passos, pegou na lanterna de algibeira e com espanto viu uma menina, entre neuf et dix ans, como na canção de Gilbert Bécaud, “Le restaurante espagnol”, que escondia a face com a saia. Magra, suja e despenteada, encolheu-se mais ainda sentindo-se descoberta. – Que fazes aqui? – Há quanto tempo aqui estás? – Quem és tu? – Fugiste de alguém que te queria fazer mal? Percebeu que cada pergunta aumentava a mudez da criança e mudou de táctica. – Estás só? - Onde estão os teus Pais? Começou a falar: - A minha Mãe estava sempre aqui comigo, eu debaixo da cadeira e ela sentada nela, atrás das grades fechadas com o cadeado e hoje vieram… - Quem, o teu Pai? – Não, não tenho Pai, vieram e levaram-na à bruta como se tivesse feito algum mal, voltaram a fechar o ferrolho e passado tempo ouvi gritos, pareceu-me a voz da minha Mãe e depois silêncio, nem os corvos ouvi grasnar, como se a morte se tivesse abatido sobre a seara. Santos pegou gentilmente na criança e levou-a pela mão evitando passar junto das manchas de sangue, e entregou-a a uma assistente social. Pediu ao Comandante da PSP para examinar o corpo: uma mulher magra, suja, desgrenhada, da blusa entreaberta vislumbrou uns seios que não eram para aquele corpo, grandes, brancos, perfeitos se não fossem as marcas da carnificina, bocas vermelhas abertas por uma faca afiada. Remexeu-lhe os bolsos do avental que tinha sobre os jeans, de onde tirou um papel dobrado em quatro. Minha vida, saio hoje da prisão e quero-te e à nossa Filha para desta vez vos dar uma vida diferente. Amo-te, Manel. Perguntou à assistente social se podia fazer perguntas à menina. – Já me disseste que não tens Pai, vivias sozinha com a tua Mãe? – Não, vivíamos as três, eu a minha Mãe e a minha outra Mãe; porque é que ela não está aqui?  Santos arrumou tudo na sua maleta de trabalho de investigador científico, dirigiu-se ao Comandante da PSP, puxou-o pelo braço para o afastar da multidão que se formara, e disse-lhe algumas palavras em voz baixa. Apertou-lhe a mão, entrou no R4 e desandou dali para entregar o que recolhera no Laboratório da Científica. O almoço com a garota ficaria para uma outra vez, ou talvez convidasse o colega novo chegado à sua Direcção, aquele jovem, alto, louro, com aqueles olhos que pareciam querer furar o Mundo.

Lisboa, 8 de Maio de 2014
Octávio Carmo Santos

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Escrita Criativa I


Na semana passada interrompi os meus textos sobre Escrita Criativa  para pagar portagem aos 40 anos do 25 de Abril, já que tendo todos escrito sobre esse tema eu não poderia ficar atrás. Mas arrependi-me porque o que eu disse não acrescentou nada àquilo que foi mal dito por uns, nem preencheu o vazio do que não foi bem dito por outros. Porque uns houve que lançaram com honestidade uma maldição sobre a efeméride, outros a cobriram com uma bênção hipócrita, e sobre a data a festejar só ficámos a saber que foi maldita ou bendita conforme as actuais conveniências da maioria dos escribas, dado que poucos se pronunciaram sem se colocarem no seu epicentro. Por isso, eu que distribuo mais facilmente anátemas que unções, fiquei-me pela ambiguidade que não me comprometeu nem com a verdade nem com a mentira, e  daí  o meu arrependimento. Agora voltemos à Escrita Criativa, terreno onde me movo mais à vontade, tanto mais que a tentação de escrever sobre a data de hoje, 1º de Maio, não voltou a assaltar-me após um  texto que escrevi em 2009 para o “AICEP Notícias”, boletim interno da AICEP, "Do vale das rosas ao vale de lágrimas" posteriormente publicado no meu primeiro livro “Hieróglifos Órfãos de Roseta”.


A Culturgest realizou um pequeno curso de Escrita Criativa em quatro sessões, e eu, convencido que se pode aprender sempre, lá fui cheio de curiosidade e vontade de fazer bem. A primeira sessão foi no dia 21 de Março e lá estavam, a responsável Carlota Gonçalves e mais 18 pessoas interessadas como eu, em saber como tudo se iria passar, e a Carlota, depois de nos dar as boas vindas, explicou-nos que iríamos escolher à sorte uma das obras do artista Pedro Casqueiro que fazem parte da exposição Marginalia, que está patente na Culturgest desde 14 de Fevereiro até 11 de Maio, observar bem aquela que nos calharia na rifa, e escrever sobre ela um texto à maneira surrealista, tendo, para isso, cerca de 45 minutos.

A mim tocou-me a obra intitulada “Punishing Piece, 1994”, que era um “acrílico e serigrafia sobre tampo de mesa”. Fotografei mentalmente a obra em todos os seus pormenores, pensei em Cesariny, O’Neil, França e Almada, sentei-me e escrevi o texto que segue abaixo *, não sem vos deixar algumas chaves de leitura para uma melhor compreensão do mesmo. Assim:

- Ao olhar para a “ minha” obra de arte e para todas as outras que faziam parte da exposição, lembrei-me do episódio verdadeiro da senhora da limpeza do Museu de Bari que descrevi no meu texto de 27 de Fevereiro sobre ARTE e arte;
- No seu romance “Os Adoradores do Sol”, Fernando Namora fala, no capítulo IX, página 116, de um pintor, dizendo-o vindo da Inglaterra, que viveu algum tempo com uma companheira num casebre em Monsanto, onde Namora exerceu medicina durante alguns anos. Por coincidência, entrei anos mais tarde naquele casebre, olhei em volta, havia somente uma mesa de cozinha e encostada a uma das suas pernas, um retângulo de platex com, pintada, uma natureza morta – um canjirão e umas malgas – em muito mau estado, mas que ainda hoje conservo apesar de ser aquilo a que os franceses chamam uma croûte. Perguntei pelo pintor descrito sumariamente pelo grande escritor, e foi-me dito que era um jovem americano fugido à Guerra do Vietnam, que ali aportou um dia com uma companheira e ali viveu, pintando e vendendo as suas obras a turistas, e assim como apareceu também desapareceu sem deixar rasto. Nem o seu nome me souberam dizer, e foi essa lembrança que me fez falar dele no texto;
- A ideia das tábuas roubadas à Passarola de Frei Bartolomeu de Gusmão foi só um flash provocado pelo facto de passar muito tempo com a minha mão direita sobre o tapete do meu rato que reproduz em mosaico a dita Passarola. Pensando melhor, à posteriori, não sei se liguei o falhanço da geringonça diante do Rei que representava a Nação, à “traição” do pintor diante de um Presidente que deveria representar a Pátria;
- Referi o “faraónico palácio” onde estava a escrever, relacionando-o com a actual crise e a sua origem, tentativa de imposição de um ultra liberalismo económico – para o qual o homem deixaria de ser o alfa e o ómega -, a que eu chamei freenança na poesia “Trocadilho da Treta” publicada no volume “Manifesto Anti-Crise”. Frequentando ultimamente o IPOFGL, veio-me a ideia peregrina de pensar se o dinheiro empregue na construção do “faraónico palácio” não teria sido mais bem empregue em Palhavã, tanto mais que agora sabemos que um outro banco vai ser criado para cumprir funções que pertenceriam ao prestigioso hóspede do “faraónico palácio”.  Só esperamos por um sobressalto de vergonha que impeça a construção de um outro “faraónico palácio” para a nova e indispensável instituição bancária.
E nada mais, pedindo desculpa pela repetição de “faraónico palácio” que foi intencional como contributo para tornar possível o tal sobressalto de vergonha, que também peço desculpa de repetir.
*Texto que inspirou a forma e o ritmo daquele outro intitulado “Escrita criativa com massa de letrinhas na borda do prato fundo da canja”, editado em 27 de Março. 
Culturgest
Fundação Caixa Geral de Depósitos 
Escrita criativa
21 de Março de 2014
Exposição Marginalia de Pedro Casqueiro
 Obra (na imagem):
Punishing Piece 1994
Acrílico e serigrafia sobre tampo de mesa
Colecção particular 
Entrar na Marginalia do Pedro Casqueiro sem a missão de cumprir um dever como fez a mulher da limpeza que deitou para o lixo 5 das 40 obras de uma instalação em Bari é sentir-se atraído pela única coisa viva na sala o olho azul que com ar brincalhão para ver quem está ou não com cara de parvo ou de boca aberta a olhar para aquilo tudo que é “arte” e o olho leva a olhar a parede oposta onde 5 tábuas 5 juntas com cola e se calhar pregos nos costados para se manterem unidas e levarem em cima com meio quilo de uma papa cor de ranho para esconder os veios naturais da madeira dando uma unidade de tampo de mesa de cozinha pobre do interior das aldeias podia mesmo ser da aldeia mais portuguesa de Portugal Monsanto na casa onde o pintor fugido à guerra do Vietnam pintava sobre ela só a preto e azuis que são as únicas cores e não cores que violam a monotonia do ranho que recordo tapa ou quase tapa 9 dos 16 furos redondinhos que as tábuas sofreram vamos lá a saber se quando eram solteiras ou já casadas com cola e pregos umas às outras para servirem para apoiar pratos pão vinho e talheres enquanto mesa de cozinha ou tintas e pincéis e trapos para os limpar quando a sua serventia era a arte do americano traidor da pátria que preferiu pintar na serra que apertar gatilhos na humidade da selva da Indochina que provocariam buracos na pele e nas entranhas de gente como ele mas amarelados e com os olhos em amêndoa sendo plausível por esta reflexão que tivesse sido ele a fazer os 16 buracos no tampo da mesa já que tinha sido programado para esburacar fosse o que fosse e com receio de ver sair sangue que violaria o preto e os azuis da sua mesa tapou 9 deles com os restos do ranho seco sempre com medo que a sua clandestinidade o seu dever de não estar ali e a sensação de se dedicar a um trabalho não seu acrescido tudo isto à feia acção de ter roubado as tábuas a uma réplica da Passarola de Frei Bartolomeu de Gusmão para as fazer voar vingando o original que parece não ter alçado voo para Rei ver mas que voa agora junto com outras ousadias artísticas ao redor de uma sala do mais faraónico palácio que alguém jamais ousou plantar no centro de Lisboa e voa voa voa com as outras companheiras como morcegos que entrassem sem password no reino da freenança mostrando que sendo ou não arte aceite por Da Vinci, Michelangelo, Caravaggio ou Raffaello são menos tóxicas e perniciosas que outras obras que voam e perigosamente saem do palácio.
Lisboa, 1 de Maio de 2014
Octávio Carmo de Oliveira Santos
 

 

quinta-feira, 24 de abril de 2014

25 de Abril - Os seus primeiros 40 anos.

Não vos admire o título porque foi mesmo isso que eu quis escrever. É ainda muito jovem para se saber o que vai dar. A Revolução Francesa, que começou idealmente no dia 14 de Julho de 1789 com a tomada da Bastilha (Caxias lá do sítio), e completa por isso 225 anos, ainda não assentou todas as ideias e um dia se dará conta da sua enorme importância. Só que nós portugueses, e alguém já o disse – porque não houve cão nem gato que não tivesse dito coisas sobre a data de amanhã -, queremos  sempre tudo muito depressa. Já,  e na hora!  Depois do 25 de Abril houve o 11 de Março e o 25 de Novembro, e antes houvera o 16 de Março, datas e datazinhas de somenos importância, tudo ali a vinte meses de distância. O 18 do Brumário foi em 1799, 11 anos depois da Revolução, e trouxe consigo o Consulado Napoleónico e o Império, adiando a desejada e preconizada democracia por quinze anos e 100 dias. Nós quisemos logo a democracia no 1º de Maio, e, a que temos, dura até hoje, embora o nosso 18 do Brumário esteja por aí à espreita, já se vislumbrando alguns sintomas, só que, no nosso caso, para durar muito mais e gostava muito de estar enganado.

E como já se disse tudo sobre o 25 de Abril e pouco ou nada resta para dizer, apetece-me relembrar o que uma figura grada desta nação, tão grada que influencia a justiça e enternece as finanças, o Dr. Jardim Gonçalves, disse, e dizendo, teve audiência nos jornais:
- Penso que o tema 25 de Abril está acabado, já teve o seu momento.

- Quem domina os bancos chega a todo o lado.
E isto dito por alguém que, após dominar um banco que chegou a ter 17 sociedades em paraísos fiscais, tem ainda força para fazer prescrever várias contra-ordenações imputadas pelo Banco de Portugal e pela CMVI e reduzir para metade uma multazita de 1 milhão de euros, não pode cair em saco roto, nem podemos assobiar para o lado e fingirmos que não tem importância. Porque é exactamente isto que tem importância e que, na impossibilidade de negar a existência da data que festejamos, a esvazia do seu significado e nos tira a esperança que os seus pressupostos sejam concretizados.

Valeu a pena? Perguntou o Dr. Balsemão aos três Presidentes eleitos da nossa democracia, e todos disseram que sim, que tinha valido a pena, tendo cada um contado partes da história à sua maneira, sendo unânimes no dizer que valeu a pena, mas… E aqui dois conceitos se perfilam frente a frente, como dois pistoleiros saídos de um western-spaghetti de Sergio Leone, ambos respeitáveis e impolutos mas defendendo campos opostos e inconciliáveis. Medina Carreira olhando friamente o “adversário” nos olhos, afirma, rendido ao 18 do Brumário: - Um país de pelintras não se pode permitir devaneios! Carlos Fiolhais, olhar doce, cândido e infantil, com a força hercúlea de quem acredita na utopia, replica: Eu sou um pelintra que me permito ter devaneios!
Para mim, que quero ter devaneios, também acho que valeu a pena, e as razões são tão claras e à vista de todos que, se não fosse tudo aquilo que neste momento nos ameaça, seria estultícia repeti-lo. Mas infelizmente não o é, e eu, que festejei há pouco os meus primeiros 70 anos, faço-o porque tendo já 30 no dia 25 de Abril de 1974, vi tudo com estes dois que a terra há-de comer. E o que é que eu vi?

Vi, por trás das cortinas, uma ramona parada à porta do meu prédio, a meio da noite, para arrancar ao sono o vizinho de cima, a mulher aos gritos. Quando voltou, semanas depois, tinha os cabelos brancos, usava uma bengala e não olhava os vizinhos nos olhos, quem sabe se por vergonha de ter razão. Vi, em Idanha-a-Nova, uma mulher com um filho descalço a comer meio pão com uma sardinha, que beliscava para levar, ora à sua boca ora à da criança, os pedacinhos de peixe arrancados com as unhas. Vi os malteses a chegarem de longe para as vindimas deitarem os corpos cansados na “cama” que lhes fora reservada no palheiro ao lado dos currais dos animais, para no outro dia pegarem no trabalho ao nascer do Sol para o largarem no ocaso, por 18 escudos para os homens e 14 para as mulheres. Vi emigrantes desertores a rondar a porta dos Consulados, mandando emissários a informarem-se a medo se era possível obterem os papéis necessários para a Carte de Travail, e o seu ar de felicidade e espanto quando descobriam que o Consulado nada sabia sobre eles querendo apenas arrecadar o dinheiro dos emolumentos devidos, a maior parte das vezes em dobro com a desculpa que os papéis eram preparados fora das horas de serviço por excesso de trabalho acumulado. Vi as autoridades portuguesas e francesas encerrarem o último bidonville, em Champigny-sur-Marne, onde, semanas antes, num incêndio, tinham morrido 5 crianças. Vi o Reitor do Liceu de Oeiras aterrorizado por não ter comunicado superiormente uma falta colectiva a um ponto (hoje diz-se teste) de matemática, limitando-se a dar uma descompostura e a suspender por um dia os “grevistas”  com a ameaça de sanções mais duras. Vi, todos os dias, na primeira página dos jornais uma espécie de carimbo “Visado pela Comissão de Censura”.  Vi o automatismo de baixar a voz em casa quando se falava de “certas coisas”.  As paredes terem ouvidos só se materializou quando, anos mais tarde, vi uma deputada do PSOE rasgar o papel de parede do seu quarto num hotel em Sófia para nos mostrar um minúsculo captador de som. Desculpem este desvio. Vi a Avenida da República a ser destruída na sua incomparável arquitectura - que inveja de Barcelona! -, porque um arquitecto filho de alguém resolveu ganhar dinheiro tendo dado “ordem” para autorizar tudo aos chamados “patos bravos” que lhe encheram os bolsos. Vi o Dr. Abel Silva, antes de sair da Travessa do Moínho de Vento, 23, 1º, onde esteve escondido duas ou três semanas depois das eleições de 1948, aquelas do General Norton de Matos, a espreitar pela janela para se certificar se não havia pessoas suspeitas a rondar. Vi um menino a ter de mudar-se três meses com toda a Família para casa de um amigo do Pai que vivia no Porto, sempre no rescaldo das eleições de 1948. Vi estudantes de bata branca, porque tinham tido laboratório de química naquele dia, a falarem alto e a fazerem tropelias próprias da sua idade na Rua do Arsenal, a terem de fugir, cada um para seu lado, diante de uns senhores à paisana que acharam que aquilo era tudo menos inocente. Vi, com a sorte de nunca ter de verter uma lágrima, chegar ao Cais da Rocha do Conde de Óbidos, o paquete Funchal cheio de caixões; soubemos depois que foram cerca de 19 mil em 13 anos. Vi tantas coisas, se calhar mais importantes, significativas e dolorosas que estas que digo ter visto, mas eu sou assim, ligo mais ao acessório que ao essencial, e também não estou a escrever um romance; apenas o texto de hoje para o meu blogue.
Valeu a pena? E sem querer esconder o PREC e o COPCON, as “legítimas” ordens de captura assinadas em branco por quem fez uma revolução para restabelecer a legalidade, as ocupações de terras e fábricas, a tentativa de sovietização, o drama dos retornados, a degradação do ensino, o nacionalizado nosso, o povo unido jamais será vencido, a aliança Povo/MFA, e tantas mas tantas outras coisas, afirmo que valeu a pena pelo simples facto de eu estar a escrever estas coisas sem qualquer medo. O que não quer dizer que hoje todos digam ou escrevam o que lhes vai na alma, e isto porque têm medo, não de ir cravar com os ossos na António Maria Cardoso, mas de perder o trabalho ou o emprego. A mim o mais que me podem fazer é aumentarem-me o CES porque não sou magistrado. Ah!, e também porque posso ir ao Porto ou ao Algarve em duas horas e meia em vez de levar um dia inteiro;  porque posso esperar viver até aos 80 em vez de 60. E por outras coisas que não quero nomear porque as estamos a perder e temo que falar delas possa acelerar o seu processo de decomposição, mas não resisto em fazer uma lista de palavras e frases ao acaso só porque me vêm à cabeça. Palavras que não incluirão quatro delas que eram pilares da ditadura e que hoje felizmente foram banidas do léxico e às quais foi retirada toda a sua importância e substância, caindo em desuso democrático: Família, Fátima, Fado e Futebol. Desculpem mas estava a gozar, com excepção da Família. E, como na atribuição dos Óscares, and the winner is, as palavras e as frases são:
 
- Liga dos ex-Amigos de Boliqueime, sucateiros, privacy, bancos, Big Brother (Orwell e Casa dos Segredos), auto-censura, Jotas, taxas moderadoras, golden visa, Face Oculta (não me refiro à burka), nepotismo, UE, justiça, placa roubada na António Maria Cardoso, universidades, Meco, Sociedades de Advogados, BPP (dinheiro a render no Rendeiro), Camarate, genéricos, corrupção, desemprego, Apito Dourado, hospitais, submarinos, prescrição, Casa Pia, santa aliança cortiça/diamantes, Agências de Rating, privatizações, PPP’s, PP (novo dicionário), troyka, Freeport, conflito de interesses, BPN/BCI, emigração económica, fome, Confraria da Cereja, a fractura da sorte (factura pedida a um ortopedista que te faz ganhar um Audi A6), Portucale.

Desculpem se não me lembro de mais, só para não vos aborrecer, mas devo fazer uma última confissão: na ânsia de fazer um texto de jeito formulei à esquerda e à direita a pergunta do Balsemão. Valeu a pena? E a melhor resposta foi: - Sabe o que é que definitivamente não mudou com o 25? A estupidez e a mesquinhez das pessoas.

Lisboa, 24 de Abril de 2014
Octávio Santos

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Escrita criativa de um menino em liberdade condicional com tempo para escrever uma carta de amor, não sabendo se terá coragem para a remeter ao destinatário.

Quando a camioneta dos Clara parou resfolegante à porta do edifício térreo da Quinta da Aviação que dava para a estrada real e era como que o escritório da Casa Anjos Grosa, a maior casa agrícola do Concelho do Cadamonte, e o menino desceu com a mala da roupa e o corpo moído pelo desconforto dos bancos da Magirus, já a carroça puxada pela Carriça - e não é jogo de palavras – lá estava à sua espera e o Absalão largou as rédeas, desceu e ajudou os menino a subir, ajeitou a mala não fosse ela cair com os balanços na esburacada estrada de macadame e começou a trepar aquilo que já eram as faldas da Serra de Vales Separados em direcção à casa da Avó na aldeia/beco da Albardeira onde o menino iria passar as férias grandes com a certeza de ir ser livre e bem tratado por todos. – Vamos que a Ti Misericórdia já deve estar em pulgas, matou o galo e mandou a Hortense arejar e reforçar os capelos do colchão que ficou inchado como uma porca cheia. A dureza da carroça que lhe fazia o rabo saltar na tábua onde ia sentado ao lado do Absalão era compensada pela aragem que lhe batia na cara, pelo cadenciado toc-toc dos cascos bem ferrados da velha mula e pelo acender das estrelas num céu azul escuro, já que anoitecia, e se os 4 quilómetros a percorrer fossem 10 ou 20 o menino teria adormecido sentado, na paz do crepúsculo e do Senhor.

Passadas as aldeias de Fenais (terra da Avó), Vila Velha e Serena, galgada a última rampa e atravessado o largo da aldeia onde acorreram todos para saudar, abraçar e beijar o menino arrancado à força da carroça que parara à ordem de um Aíoh! Já o portão da cerca estava aberto e a Ti Misericórdia com as mãos escondidas no regaço à espera do neto visivelmente contrariada por não ter sido a primeira a pegar-lhe ao colo. – Veio sozinho não é costume, querem ver que puseram a criança ao almazio, disse alguém que se afastava da cena para recolher a penates onde a ceia e a cama o esperavam como todas as noites durante todo o arco do ano, que amanhã é dia de trabalho e o corpo ainda não se recompôs do da véspera.
Já nos braços da Avó, a parte chata era o interrogatório sobre os Pais, os manos, a escola, o estado de saúde de todos e as afirmações tipo, o que tu crescestes neste meses, e a parte boa, o enfardar a canjinha (sem letras), os melhores pedaços do galo, as batatas afogadas naquele molho vermelho e gostoso, as azeitonas, o pão quente acabado de sair do forno, a boleca de chouriço feita expressamente para ele, a laranjada comprada na loja do Zé Outono porque não tens ainda idade para água-pé quanto mais vinho, e o menino lá ia comendo,  ouvindo,  respondendo e aceitando festas e beijos dos mais chegados que iam entrando na casa do forno para ver aquele menino acabado de chegar de Lisboa, como se tivesse colado a si qualquer coisa de especial e sonhado vindo da capital. - Coitadinho, depois da canseira da viagem deve estar mortinho para ir para vale de lençóis, e estava, para descansar o corpo naquele cheirinho de roupa lavada no tanque  com sabão azul e branco e seca ao Sol,   mas sobretudo para sonhar com tudo o que iria fazer amanhã e durante todos os dias daqueles 3 longos meses de férias que tinham naquele momento uma duração que o menino sentia  próxima da eternidade.
O dia começava sempre mal com a Avó Antónia, que não era Avó mas Bisavó, e tão velha de ter para contar histórias passadas em casas solarengas de Senhoras de alta linhagem que frequentavam a corte da Raínha Senhora D. Amélia, e começava mal porque era ela a encarregada de fazer o menino engolir uma pratada de sopas de leite, rito odiado e origem de grandes dramas causados pelos farrapos de nata que faziam o menino vomitar tudo no canteiro da dálias ou no rincão das cenouras. Para ouvi-la novamente contar histórias da Senhoras do Fetal ou do António dos Santos da Avó, menino da roda que serviu anos a fio na sua casa, juro que emborcava um alguidar de sopas de leite sem pestanejar, nem que um lençol de natas me desse volta ao gorgomilo.
Depois era a liberdade de apanhar cerejas, nêsperas ou rainhas cláudias – o menino nunca gostou de figos - em cima das árvores e cuspir os caroços para as leivas duras do chão, ir à horta do Dentolas, no caminho do Talude Quente, apanhar rãs que nem sempre tinham um futuro feliz, pegar na flaubert de 12 mm e ir aos pássaros: - Tão engraçado, tão pequenino e já me chega a casa com o cinto cheio, até já me trouxe um melro, um gaio e até uma rola! como me arrependo hoje e ponho-me a pensar  se era necessário fazer o mal para o distinguir do bem,  mas foi assim, não tenho culpa que Deus me tivesse concedido o livre arbítrio, e o menino que confessou ter roubado uma castanha de um saco à porta de uma mercearia nunca falou a ninguém das 3 dezenas de andorinhas - as galinhas de Nossa Senhora - que lhe serviram de alvo num dia de loucura em que o tal livre arbítrio foi muito mal utilizado a experimentar a pressão de ar que o Pai lhe oferecera,  correr pelos campos só pelo prazer de sentir o vento na cara,  descer aos riachos para ouvir a água a correr  e ir à azenha só pelo rumor da roda a chiar e apanhar agriões para a salada,  pedir emprestada a pasteleira ao Absalão,  grande demais para ele,  para descer a estrada até  Serena e  passar em frente da loja do Zé Outono que tinha uma filha com os olhos bonitos  e regressar a empurrá-la pela ladeira acima por não ter canetas para tanto,  muitas vezes com os joelhos esfolados,  convencer a Avó a arrear a Carriça com albarda e  cabeção  e sair a galope até Cadamonte,  a ouvir o martelar das ferraduras no alcatrão da estrada real,  voltando depois de ter emborcado 3 cervejas  sentado numa das 3 mesas da esplanada do Café Cravo para armar em homem.
E na cama à noite depois de jantar, porque fora dia de vir o peixeiro de Peniche, chicharros alanhados a 5 tostões o par com batatas cozidas com casca e uma cebola, e do duche na casinha do banho com o balde cheio de água quente ao Sol durante o dia, o menino adormecia tranquilo e feliz depois que a Avó lhe aconchegara lençóis e cobertores e desejado as boas noites, porque no outro dia chegavam os irmãos e as primas com toda a família na Fordson do Pai que tinha os lugares que se quisesse que tivesse e era a percursora dos monovolumes tão de moda hoje, mas atenção que se no livrete diz 7 lugares sentados a GNR multa-te se levares 8, uma seca. De manhã levantou-se cedo, repetiu-se a tortura das sopas de leite que naquele dia lhe pareceu mais leve e não se afastou muito da cerca nem para ir ao pinhal do Ti Carlos apanhar um boné de pinhões debaixo da copa do pinheiro manso e ficou ali a balançar-se no baloiço da nogueira a ver o Absalão tratar da horta e a ouvir o Canhamanga a ralhar com a mulher para lá do muro e ao longe a Elvira Velha a morrer deitada no seu catre que gritava pelo marido que andava à jorna: - Oh Jcisco! Oh Jcisco!   A Avó tinha mandado a Hortense matar dois coelhos: - Vê lá aqueles grandes que estão separados na coelheira de baixo, não aquele que está na de cima com a coelha para a cobrir, e na casa do forno era já azáfama de dia de festa, com a mesa a pôr-se, os coelhos no tacho a refogarem e a sopa de abóbora cú de mulher a apurar na panela com tudo aquilo que a horta dava para a sopa que não havia outra mais saborosa.
Foi então o menino sentar-se numa pedra no alto da ladeira… - pára aí porque isto já tu escreveste no texto da semana passada e aqui tens de fazer uma pausa para contares o que não está ainda contado. Vamos lá então pôr ordem nas coisas porque senão ninguém se entende!
A vedeta da comitiva familiar, a chegar de um momento para o outro, era o meu irmão pequenino ao qual eram reservadas as maiores atenções não só porque era o último chegado mas também porque era realmente dos três irmãos o mais bonito de todos. Dir-se-ia que os Pais tinham posto todo o seu empenho neste terceiro após o notório fracasso com o segundo. E o segundo, ou seja, eu, que já me metia na adega do Dentolas para beber uma água-pé às escondidas da Avó, secava 3 imperiais no café da Vila e pedia um copo de três tintos na loja do Zé Outono para que os olhos da filha vissem que havia ali alicerce de macho, não podia dar muita importância ao pirralho para não alinhar com a maioria. Mas, relembrando um episódio de então, quanto me arrependo deste meu falso despreendimento e quanto tenho vontade de agora lhe contar tudo, mas as palavras nem sempre nos saem da boca nos momentos certos, ficando a martelar-nos no cérebro como despertadores da consciência e, empurrado pela última lição de Escrita Criativa que tratou de “Género Epistolar”, vou terminar este texto com uma carta que não tem nada de ficcional como as cartas das 3 Marias que não tinham destinatário certo, mas que se dirige a um interlocutor bem preciso, mais ao estilo daquelas que Soror Mariana Alcoforado escreveu da sua cela de convento em Beja ao Cavaleiro de Chamilly, sendo portanto uma carta de amor. 

Meu querido irmãozinho,
Quando eras pequenino e começavas a chorar, abrias a boca e depois do sonoro berro inicial deixavas de respirar e ficavas assim um tempo infinito, cada vez mais vermelho, com todos à tua volta a tomarem iniciativas que achavam adequadas para que tudo voltasse à normalidade que só se restabelecia após um ruidoso respiro fundo seguido de um novo berro, e aí vá de todos a apaparicar o bebé que mais uma vez “se tinha ido pelo fôlego” designação “técnica” dada ao fenómeno. Eu, nesses momentos, como em todos os outros que punham em questão as certezas da minha vida, não ficava, fugia. E, naquele dia em que repetiste a gracinha na casa de fora da casa da Avó, eu desci de quatro em quatro os degraus de pedra da escada das glicínias e corri pelo caminho da horta até chegar à casa do motor, e lembro-me de, aterrorizado por não ter ainda ouvido o grito liberatório, me ter sentado no chão encostado ao maracujá que crescia entre o tanque e a casota, a rezar ou simplesmente a fazer força para que aquele insuportável silêncio fosse quebrado, e durante aquele espaço de tempo, para mim infinito, sofria uma dor que só hoje sei quantificar. Dor que só passava com a corneta dos teus pulmões a anunciar que estavas ali outra vez. Aí, levantei-me, senti nas costas a camisa molhada – agora a Mãe vai-me ralhar porque as nódoas de maracujá não saem nem com lixívia – desci calmamente a estradinha da horta e voltei para ao pé de todos como se nada se tivesse passado.
As pessoas não se amam porque são iguais, e a prova é que entre aqueles que fogem e aqueles que ficam, categorias que mais diferentes não existem, pode prevalecer um sentimento profundo inversamente proporcional às concepções de vida e aos caminhos a percorrer para ser fiel a essas directivas que, no meu caso, me atrevo a considerar compulsivas. Mais ainda quando um respeito mútuo faz com que os que fogem admirem os que têm a coragem de ficar, e os que ficam nada façam para contrariar a fuga, embora no nosso caso, meu querido irmãozinho, eu não possa, viva eu tantos anos como aqueles que tens ainda para viver, esquecer que, pressentindo tu que a minha fuga iria acabar mal sem um passo à retaguarda para encher os alforges de provisões de amor para aguentar o resto da jornada, me chamaste à pedra e, mostrando-me a grande falha do meu percurso, me ofereceste delicadamente ocasião para num só dia recuperar o perdido de três lustros. Um milagre! Mas, para mim, anjos que me aparecem a indicar a estrada justa e milagres que me acontecem para que as dores não ultrapassem aquelas comezinhas quotidianas, fazem parte de um trivial que eu arrogantemente tomo como a normalidade da minha existência. Um desses milagres é o de nunca me ter acontecido ser obrigado a chorar a perda de alguém fora da cadência normal da existência, o que, cumprindo os desígnios de Deus, minimiza a dor porque ver partir uma Bisavó antes de uma Avó, os Avós antes dos Pais, e os mais velhos antes dos mais novos, são coisas naturais que, embora te desgostem, aceitas por inevitáveis.
Como os anjos continuarão a aparecer-me e a tomar conta de mim, e os milagres, não porque eu mereça, não deixarão agora de se revelar, não podia deixar escapar esta ocasião para te dizer, antes que eu empreenda a minha última e definitiva fuga, naturalmente antes de ti visto os 8 anos que nos separam, que te amo por seres o meu irmão pequenino, pelas minhas obrigações falhadas que fizeste tuas, e sobretudo pelo exemplo que deste e continuarás a dar a todos. Como facilito tudo e aproveito sempre as ocasiões mais favoráveis para dizer coisas, foi-me fácil escrever-te esta carta de amor porque tenho a certeza que não repetirás tão cedo a gracinha de “te ires pelo fôlego”.

Com todo o meu amor.

Teu irmão Octávio 

Lisboa, 17 de Abril de 2014
Octávio Santos 

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Escrita criativa (com prólogo de raiva adiada e inveja pertinaz) à mesa de jogo das cartas e do acaso, "marivaudage" bucólica de (des)educação sentimental e avulsa descoberta das coisas da vida


Confesso que estou a frequentar o curso de Escrita Criativa na Culturgest movido pelo baixo sentimento nacional da inveja, mas hoje senti também raiva, porque tendo desistido de maldizer e escarnecer, numa tentativa de ganhar o respeito dos leitores e adquirir um estatuto de seriedade nas letras, dei de caras na primeira página de um jornal sério, com estes títulos a chamar a atenção para uma entrevista de Lídia Jorge nas páginas interiores:
“Olhamos os nossos carrascos com piedade.”
“Continuamos a não pronunciar em voz alta o que pensamos.”
Alguém se atreveu a dizer que a escritora escreve para costureirinhas e vendedores da Re/Max? Trabalhei com um Embaixador que dizia que o melhor exercício para cultivar a força de vontade era aquele de comer um só pistache. Tenho para mim que adiar a raiva é um óptimo exercício de auto-valorização.

Inveja, essa tenho-a dos escritores portugueses com mais êxito neste momento, como a Júlia Pinheiro, o Manuel Luis Goucha, a Teresa Guilherme, a Fernanda Serrano, e sobretudo a Margarida Rebelo Pinto, agora que o seu romance ”Sei lá” chegou ao grande ecrã lançando a sua frase chamariz em cartazes pelas ruas das nossas cidades “Se não fosse pela cama, não precisávamos dos homens para nada.”. Como antes desta aventura da Escrita Criativa frequentei um curso de Poesia no El Corte Inglès, com o Professor José Fanha, o qual, falando-nos da poesia em Portugal e dos nossos poetas, teve ainda tempo para nos contar histórias, e esta eu não esqueci: afirmou Fanha na 3ª lição que a Rosa Lobato Faria teria dito à Margarida Rebelo Pinto: “- Não te ponhas a contar as tuas quecas nos romances, porque os teus filhos um dia lêem e é chato!”. Prometo dividir convosco o muito que aprendi nas 7 lições daquele curso, tudo bem condimentado com fofocas, que não são “mamamíferos  mamarinhos”, mas parte integrante e essencial da dieta cultural de um povo, a par das tardes televisivas que tanto contribuem para manter tudo nos conformes, heróis do mar, nobre povo.
Desculpem estes desabafos à flor da pele e voltemos à escrita séria e sobretudo criativa.
Foi então o menino sentar-se numa pedra no alto da ladeira, no terreno onde ao Domingo os homens do trabalho jogavam a malha e ficou à espera com o coraçãozinho aos pulos, como ainda hoje faz quando espera qualquer coisa de muito bom. Ainda antes da furgoneta aparecer na curva, já ele lhe ouvira o barulho do motor e vira o pó branco da estrada levantar-se e correu a gritar oh! Vó oh! Vó eles vêm aí, eles vêm aí, e correu a abrir o portão para que o Pai entrasse directamente no terreiro da cerca até quase tocar a cameleira que o Tio João Araújo tinha plantado ao fundo contra a vontade de todos, já que não dava qualquer fruto, evitando assim o juntar da famelga no largo para os efusivos e lambuzados cumprimentos da praxe.
- Portaste-te bem? Não arreliaste a Avó? Olha que ela tem angina de peito e já lhe bastam as preocupações da casa! Tudo entrava por um ouvido e saía pelo outro e lá foi, depois que irmãos e primas mudaram de roupa, fazer com eles as coisas do costume, ir a casa da Náná, ao curral dos bichos, ao baloiço da nogueira com vivas discussões e birras na divisão dos turnos, dar à grande roda no poço do Ti Carlos, à adega onde os homens bebiam um copo dissertando sobre a qualidade do vinho do ano passado e sobre a vindima que se avizinhava, a Avó Antónia, que não era Avó mas Bisavó, a gozar talvez a última vez que tinha à sua volta aquele bando de mafarricos.
Vamos almoçar que a mesa está posta era a ordem da Avó a respeitar não fosse a sopa arrefecer, que o resto estava ainda ao lume a apurar. Sempre 12 à mesa e ainda bem que mortes e nascimentos equilibravam este número para o não fazer chegar a 13, prenúncio de todas as desgraças ou anunciador de que aquela seria a última ceia. A Hortense servia os pratos da sopa que só a Avó sabia fazer assim tão boa, parecia veludo, e bem apetitosa, a água-pé com piquinhos a fazer cócegas no céu da boca, o pão acabado de sair do forno a pedir que o esmagassem nas batatas e no molho, o coelho divinal como as favas do Jacinto, uma língua é para o menino e a outra para o Ti Chico Varatojo, que ambos morrem por elas, o céu da boca vai um para a Mimi e o outro para o Apeles, as mioleiras dividem-se por todos e os rins vão os dois para a Jázinha.
Como sempre o Dentolas aparecia à soleira da porta da casa do forno com o boné na mão, não me demoro dizia, mais para ver o que se passava e detectar possíveis desentendimentos camuflados que para a troca de palavras sempre sobre os mesmos temas: o tempo, o reumático, o preço do adubo, os 15 graus do seu vinho da Trogueira, as jornas e os aposentos dos malteses, a égua do mê Albino, que animal aquele, e pouco mais, vou andando com vossa licença, pois sabia que ninguém o mandaria sentar apesar do sussurrado e nunca repetido é servido, porque 13 à mesa é que não: - Valha-nos Deus Nosso Senhor!
Expedidas as crianças para a sesta sagrada, as mulheres para casa da Ti Rosarinho para porem as conversas em dia, os homens ficavam ali por baixo da parreira de uva Ferral Carpinteiro, uns sentados no banco de sobro e rede de capoeira, outros deitados numa esteira a dormitar ou a saber do Absalão as novidades e problemas da lavoura, e Deus sabe se havia problemas numa casa de lavoura.
Depois do lanche ajantarado as crianças subiram para a varanda/terraço das glicínias e emoldurados por aquela cor e aquele perfume organizaram jogos, dominó, loto, bisca lambida ou burro em pé, e o menino lembra-se como se fosse hoje de ter na mão uma manilha de espadas e ver através das janelas dos olhos da sua companheira de jogo um 3 também de espadas, que lhe permitiam fazer os dez pontos. Levaram nisto até começar a anoitecer, e já a Avó os chamava para a cama, quando se ouviram dois tiros ao longe e da ladeira começaram a chegar vozes alteradas, gritos mesmo, ruídos de gente a correr, tudo tão pouco usual no fim de tarde da aldeia, que toda a Família veio para a varanda esticando os pescoços para verem o que estava a acontecer, quando vinda do alto da ladeira, apareceu uma figura de mulher em camisa de noite branca, descalça, a correr em direcção ao portão da cerca, que a Avó, com a autoridade de primeira figura da terra, ainda gritou: “- O que foi oh Patrícia, aconteceu alguma coisa ao teu menino?” Mas nada, a Patrícia, seminua, curvou ofegante direita à parte baixa da aldeia e atrás dela vinha o Lucas Correeiro a segurar as calças com o cinto a cair e as botas na mão na direcção da casa dos pais, como se fugisse de um lobisomem. Só muito depois apareceu o Jaime Fandangueiro com os bofes pela boca, uma pistola na mão, a gritar palavrões sem nexo nem pontuação como as coisas que ultimamente escrevo.
A este ponto os adultos na varanda, tendo percebido toda a marosca, mandaram os mais pequenos rapidamente para a cama, fecharam as portas dos quartos e vá de cada um tentar adormecer chocado pelo filme que lhes interrompera os jogos, ouvindo na casa de fora os grandes a conversar em voz baixa, mas as vozes acavalavam-se, o tom das mesmas alterava-se, e nada de inteligível atravessava aquelas portas de quarto que faziam de guarda-fogo à inocência.

No dia seguinte de manhã, era Domingo, cedo o largo da aldeia estava anormalmente povoado, com o pormenor de não haver uma única mulher e o de estarem lá todos os homens com excepção dos velhos acamados, dos demasiados trôpegos e do Lucas Correeiro que já tinha escapado para Lisboa, porque ele, o Jaime Fandangueiro, estava presente acompanhado do filho, dos seus 3/4 anos, e era o centro de todas as atenções. E o menino foi-se chegando, ouvindo e percebendo, guardando na sua memória uma estranha história de amor, traição, ciúme e tradição, cujos ingredientes lhe eram até então desconhecidos, história que se atreve a pôr no papel agora e rapidamente que o texto começa a alongar-se e depois ninguém o lê.
O Jaime Fandangueiro era casado há poucos anos com a Patrícia, que fora desencantar na Macieira, aldeia na encosta da serra, numa noite em que tinha ido abrilhantar com a sua arte bailarina a festa do Santo Padroeiro, como era seu hábito em tudo o que era festa nos arredores. Casaram e foram morar para um casal isolado numa colina entre Serena e Albardeira, e tiveram um menino. Naquela noite o Jaime despediu-se da mulher e do filho, cavalgou a sua Zundapp e acelerou direito à Colina do Toutiço, aldeia distante já no Concelho de Ameias Agras, onde ia para arrecadar uns cobres com a sua arte, já que os trabalhos do campo nunca o tinham entusiasmado, e é o menos que se pode dizer. Meia hora depois já o Lucas Correeiro estava metido na cama com a comadre – era ele o padrinho do menino – a usufruírem das delícias pecaminosas do segredo que os unia já há algum tempo. Quis o jogo do amor e do acaso que, na pressa de chegar ao seu destino, o Jaime não tivesse dominado a motorizada numa curva apertada e esta o tivesse cuspido para uma moita de silvas abaixo de um valado. Todo arranhado, combalido, a cara feita um Cristo, um joelho a dar parte fraca, o Jaime praguejou, disse mal à sua vida, tomou da sua montaria e toca a abrir a caminho de casa.
 
O ruído do motor a dois tempos a subir a colina apanhou a Patrícia e o Lucas desprevenidos no bem-bom, e aquilo foi um vê se te avias, mas, ou porque enfiar umas ceroulas à pressa não é a mesma coisa que com vagar, ou porque o Jaime se apressou no desejo de chegar a casa, o facto é que ele se deu conta das grandes manobras de retirada e camuflagem que ocorriam na sua própria casa, e teve ainda tempo para ferrar com um candeeiro de petróleo nos cornos (salvo seja) do sacana do compadre quando este escapava pela porta da cozinha e dar dois tiros para o ar na escuridão da noite. Depois de apagar o pequeno incêndio provocado pelo candeeiro partido, quando procurou a mulher, com a arma na mão, já esta corria sem destino pela ladeira acima seguida pelo compadre, chama-lhe compadre, e o Jaime não fez mais que segui-los com mais o estorvo daquele maldito joelho claudicante. 

Acabado o sarrabulho, com o Lucas aferrolhado em casa da mãe e a pobre Patrícia, sem família na aldeia, entregue aos pais e irmãos do ofendido, os quais, em conselho de família, decidiram ir devolvê-la aos pais a Macieira, sentença executada imediatamente à luz de archotes, a Patrícia à frente descalça e em camisa de noite a abrir o cortejo e atrás o marido e os seus três irmãos machos vivos que, provado não lhe terem chegado a pouca roupa ao pelo, já que a moçoila chegou ao destino sem sangue nem nódoas negras, a devem ter mimoseado com todo o vernáculo adaptado à situação. Feita a entrega da pecadora à família de origem, voltaram os quatro irmãos a Albardeira, recolhendo cada um a suas casas. Ouve quem ouvisse a velha Mãe do ofendido dizer às vizinhas: - Tive muito desgosto quando morreu o meu filho Sebastião, mas isto foi muito pior, que vergonha tão grande! 

O certo é que o menino ouviu todas estas reconstituições da voz dos presentes encostados naquela manhã de Domingo ao reforço da parede da casa do Bernardino Painel, mas lembra-se bem de ouvir o Jaime a obrigar o seu filho pequenino a repetir: “- A Mãe é puta!”, tantas vezes quantas o Pai lho exigia, numa espécie de rito propiciatório que anulasse o pecado, a ofensa e a vergonha. Acontece que o menino tinha desde muito pequenino caído nas graças do Jaime que, acabada a assembleia matinal, já que os pormenores dos factos da véspera estavam esgotados e cada um já tinha ido à sua vida, o chamou e o levou pela ladeira abaixo até à casa da colina, explicando-lhe com larga cópia de detalhes como tudo se tinha passado, mostrando-lhe o sangue da cabeça do compadre na parede caiada do quarto de dormir, os vestígios do incêndio, a cama desfeita, as calcinhas da mulher caídas num canto, os dois invólucros das balas disparadas ali no chão fora da porta da cozinha, e fez questão de lhe oferecer o Sul, cão de guarda da casa, que conhecendo o compadre e sabendo-o assíduo em noites de ausência do dono, não cumprira com a sua obrigação de fidelidade canina. O menino, para não dar mais um desgosto ao seu amigo bailador, pegou na corrente de ferro ligada à coleira do Sul, subiu a ladeira e apresentou-se em casa da Avó com aquele canzarrão preto e branco que tinha fama de terrível, não deixando nenhum desconhecido aproximar-se a meia colina sem desatar a ladrar desalmadamente e a mostrar uns senhores caninos. “– Vó, pode atar o Sul na estaca ao lado da casota que era do Tejo, porque agora ele é meu!” E afastou-se como um toureiro quando termina uma faena com temple e pundonor, orgulhoso de ver a cara de espanto que os irmãos e as primas fizeram diante daquela sua vitória e, até certo ponto, promoção. E para o menino naquele dia acabou um jogo e começou um outro, como se tivesse subido um degrau no complicado quebra-cabeças da compreensão da vida. 

Mais tarde, o menino, ouvindo vozes que davam como certo que o Jaime e a Patrícia se tinham junto outra vez e viviam com o filho em Lisboa, onde ambos trabalhavam - "cornudo de merda não tem vergonha na cara" ouvia-se na aldeia -, percebeu que tinha assistido na primeira fila a um salto civilizacional. 

Lisboa, 10 de Abril de 2014
Octávio Santos

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Escrita criativa com o mistério da subtracção da máquina do tempo a um operário por vadios amadores a)

Nas traseiras do Moínho de Vento não havia rua empedrada ou asfaltada e o Infante morto mártir na outra costa do Mediterrâneo não era ainda nome de avenida larga e o menino da janela da cozinha tinha o espectáculo pobre diário do que não acontecia e registava paisagem, gente, ruídos e não-factos indo para a cama idealizar o que poderia ser o que não era dando dimensão e cor ao minúsculo cinzento da realidade tanto que olhando o tecto branco do quarto com uma rosácea de gesso ao centro este se afastava até o menino pensar que ia ver o céu mas fechava os olhos com medo que o tecto lhe fugisse e o espaço voltava à normalidade o silêncio convidava à modorra e o tempo se encarregava de o fazer dormir. O espaço, o silêncio, o tempo.

Ao longe a mancha verde do campo descia até ao aqueduto da Cova da Moura onde a chaminé da fábrica das lâmpadas assinalava como um padrão o limite do seu espaço para a esquerda e do lado direito o Alfredo Maluco descia na sua tábua com rolamentos de esferas a Rua de Sant’Ana quase até chegar ao beco que era o centro cívico social comercial e artístico do microcosmos que a virtual câmara de 8 mm que o menino montara na janela, não porque tivesse partido a perna como o James Stewart do Hitchcok, mas porque queria ver e saber tudo que gravava para memória futura.
O Tarolo palitava os dentes podres encostado à sua caminheta vermelha esperando clientes para um serviço que muitos dias não chegavam, as mulheres das caves gritavam pelos filhos para se despacharem para ir para a escola de bibe e com os livros e cadernos na sacola, “- Oh Zé Manel, oh Alfredo!” -, os pais indiferentes saíam para o trabalho de fato macaco azul e desapareciam rumo à oficina ou à obra, no pombal da quinta do Tobias a Cabeça de Avião de pé atrás da filha sentada num degrau catava-lhe os piolhos, “- Está quieta com a cabeça Assunção, raios partam a rapariga!” -, para o barracão metade moradia metade armazém de materiais para as obras entrava cedo o Júlio Peres conhecido fadista das noites de Lisboa todo afiambrado e penteadinho para o merecido repouso diário após a noite a ganhar com a garganta afinada o pão de cada dia e quem sabe a acender sonhos e paixões com os requebros da sua voz, que a mulher coitada depois de um dia a lavar e a passar a ferro a roupa de outros só tinha que lhe apresentar à noite os sapatos de verniz preto a brilhar o fato engomado e a camisa branca sem pregas no peito e rugas no colarinho; para o menino era um mistério que se renovava cada dia como podia sair daquele tugúrio uma pessoa tão bem posta aparentemente lavada apostando até que cheirava a Madeiras do Oriente mistério que descobriu já grande no Jardim das Hespérides onde bastava trocar o fado pela morna.

Numa janela do rés-do-chão do único prédio em frente o Sargeta que tinha sido sargento na tropa mas que a sua propensão para os soldados rasos lhe afivelara a alcunha entabulava conversações para um comércio carnal com um magala em licença enquanto a plaina descansava sobre os costados de um guarda vestidos  para uma Senhora da Tenente Valadim,  do 3º andar abria-se uma janela de par em par e o Escarrador de camisola de alças que diziam ser irmão do Sargeta mas tinha vergonha pigarreava  tossia e lá arrancava às entranhas a lostra matinal que se despenhava até ao chão de terra batida do beco, “- Se tivesse casca era ovo!” - gritava  com a sua voz de aguardente o Tarolo até ali a observar a cega das alfaces a mijar em pé como fazia todos os dias depois da primeira ronda de venda pelas freguesas dos quarteirões vizinhos,  abria as pernas aliviava-se e sempre com a cesta à cabeça agarrava a saia com ambas as mãos e limpava a fonte e o escorredouro das suas necessidades líquidas,  o menino nunca percebeu porque é que a cega só vendia alfaces e não as apregoava se calhar era muda enquanto que a preta  vendia todas as verduras da horta e gritava com a sua voz de corneta “ -  Oh freguesa o meu grelo é tão fresquinho!”.

Os rapazecos do beco jogavam à bola e diziam palavras feias e as suas irmãs penteadas e de laçarote lançavam o ringue longe deles para não os ouvirem e não empoeirarem os vestidos que exibiam as únicas flores do cenário; acontecia mas de raro uma zaragata entre mulheres que se resumia a uma ofensa esganiçada com as mãos nas ancas e uma sonoras palmadas no próprio traseiro para reforçar conceitos um puxão de cabelos mas isso uma vez por ano, rixas de homens nunca porque o Nove Dedos que era o Chefe da Polícia da Lapa tinha fama de violento e resolvia essas coisas à porrada no recato dos calabouços da sua esquadra e ao abrigo da autoridade que a Lei lhe conferia e casos desses eram para ele uma chatice pois só queria viver pacatamente com a sua Família com o seu ordenado de agente da ordem e dos proventos que arrecadava da sua actividade de gestor de duas ou três casas de tolerância que eram as mais recomendadas pois que as suas meninas passavam todas as semanas a inspecção sanitária nas Francesinhas, a ordem e o respeito da Lei eram sagradas e ele estava ali para isso.
O Macaco e o Sacalhoa dois já espigadotes com idade para trabalhar mas que apareciam por ali regularmente a fumar a sua beata e a avaliar o ambiente com as mãos nos bolsos das calças eram personagens que povoavam o cenário do menino e os únicos que lhe provocavam um certo temor não gostando nada de se cruzar com eles pela rua quando a Mãe o mandava à padaria do enfarinhado Sr. Branco ou à leitaria do gordo Bebe Leite mas era um medo seu sem uma razão; naquele dia um dos operários que mudara de roupa de manhã cedo no barracão para ir para a obra regressando ao cair da tarde deu pela falta do relógio que tinha deixado no bolso das calças e pelo ruído de vozes alteradas que subiram até à janela do menino este ocupou o seu posto de observação e percebeu que a coisa desta vez era séria com o queixoso a acusar de furto a torto e a direito começando pela mulher do fadista e menos mal que o marido não saltou a terreiro para a defender já que tinha de dormir e além disso não se metia com gente daquela, era um artista, ela jurava pela alma da mãezinha que Deus tem que não era uma ladra nunca tinha mexido nem com as pontas dos dedos em nada que não fosse dela, o Tarolo avisou logo “ - Não olhes para mim com essa cara porque senão quando menos esperares estás de perna a pino e a contar os dentes no chão” -, o mulherio juntou-se a criançada aumentava a confusão começava-se a tomar partido e a lançar bitaites, o Escarrador veio à janela sem cuspir não era hora, o Sargeta não deu acordo de si entretido que estava a abrir malhetes numa gaveta ou a ensinar truques da sua especialidade a um 1º Cabo de Preboste, a Cabeça de Avião andava na lida fora e a sua Assunção aproveitando a ausência da mãe estava no pombal a namorar, chama-lhe namorar, e todos juravam a pés juntos não ter visto nada nem ninguém estranho a rodar pelo beco pelo que o cerco se apertava aos habitantes do barracão e a pobre mulher já chorava baba e ranho de todo o tamanho quando chegou a viatura da esquadra da Lapa “ - Vamos mas é a circular não queremos aqui curiosos hoje não há robertos tira mas é cá para fora o que é que aconteceu e quem é que pensas que foi que isto resolve-se depressa” -, e o roubado esbracejava explicando tudo tintim por tintim, repetia a marca e o preço do seu querido relógio de dois em dois minutos, os agentes entravam e saiam do barracão perscrutavam o olhar dos suspeitos e vendo que não tinham mais nada ali a fazer embarcaram o queixoso e toca para a esquadra para lavrar os autos.
Estranhamente as janelas das traseiras das casas das famílias remediadas do Moínho de Vento permaneceram todas fechadas, os polícias bem olhavam para cima para ver se alguém teria visto alguma coisa mas as pessoas ou não estavam em casa ou estavam a espreitar por detrás das cortinas porque isto não é para eles e até parecia mal estarem a ligar às tricas daquela gentalha do beco, a Mãe mandou o menino fechar a janela não fosse o diabo tecê-las não é nada connosco “ - Esta gente está sempre a arranjar sarilhos, vai fazer os trabalhos da escola e amanhã não fales disto com os teus colegas podem pensar que vives não sei onde nalgum bairro da lata e depois riem-se de ti e põem-te de parte ainda vão contar ao Irmão João a história toda e depois podes ser tomado de ponta e começarem a embirrar contigo não quero que deixes de ter boas notas” -.
Dizem os Jesuítas que se lhes entregarem uma criança nos primeiros anos eles garantem saber qual vai ser o seu comportamento durante todo o resto da vida e o menino que não estava nas mãos dos Jesuítas mas tinha a aproximação já começava a dar razão a essa convicção clerical tanto que tendo uma vez ao regressar da escola tido a tentação de tirar uma castanha de um saco que estava à porta de uma mercearia dormiu mal nessa noite passou a andar de monco caído que até a Mãe lhe perguntara “ - O que é que tens, aconteceu-te alguma coisa?” - mas o menino respondia que não que não era nada mas logo no domingo seguinte se pôs na fila de um confessionário na Basílica da Estrela e chegada a sua vez depois dos ritos preambulares deitou fora o sapo que o engasgava, “ - Roubei uma castanha a um comerciante” - que até o padre confessor se deve ter rido para dentro por tão pouco e lá lhe deu umas Salvé Raínhas de penitência e o menino foi ouvir a missa com uma leveza recuperada e até brincou no adro durante o santo sacrifício da saída da missa fartando-se de rir com os irmãos e as primas.
No outro dia o menino ao voltar da escola à hora de almoço achou estranho estar a porta da rua entreaberta, empurrou-a e teve a presença de espírito, que nem ele próprio soube onde foi buscar tanto sangue frio, de fingir que não viu que o Macaco e o Sacalhoa  estavam escondidos atrás da porta no escuro da escada a dar corda a um relógio tendo ambos desandado mal o menino subiu a escada de dois em dois e só respirou quando a Mãe lhe abriu a porta e ele a empurrou “ -  Fecha a porta Mãe, está cá o Pai? – “ -  Mas o que é que aconteceu que parece que viste bicho? “ -, mas bicho e bravo parecia o coração do menino que batia descompassadamente mesmo depois que fez um urgente xixi que se não chega tão depressa à sanita tinha feito nos calções e ele sabia a vergonha que isso era pois já lhe acontecera uma vez num carro eléctrico quando voltava a casa da Tapadinha um domingo que fora com o Pai ver um Atlético-Benfica no tempo de Ben David e do Julinho,  e já mais calmo contou tudo ao Pai  “ -  Vi,  tenho a certeza,  o Macaco e o  Sacalhoa a darem   corda a um relógio atrás da porta da rua mas acho que eles não viram  que eu  vi mas tenho  medo do que é que  eles  me podem fazer se desconfiam que eu os vi e me apanham na rua, tenho medo Pai!” -, “ - Não deixes o menino ir à escola esta tarde dizes para lá que ele chegou a casa com um febrão, está descansada que eu trato disso “ -, e o menino ficou tranquilo porque o Pai resolvia sempre tudo mesmo a coisa mais complicada e até adormeceu depois do almoço não se esquecendo de fechar as portadas de madeira das janelas do quarto.
À noite o Pai voltou e disse à Mãe “ - Está tranquila que fui falar com o Nove Dedos contei-lhe a coisa à minha maneira e amanhã já ele pode ir à escola porque os gandulos já esta noite vão dormir à esquadra e não queria estar-lhes na pele” -,  o menino não fez perguntas jantou e dormiu tranquilo porque quando o Pai dizia uma coisa ele acreditava  e adormeceu até um pouco orgulhoso de ter contribuído a repor aquilo que lhe tinham ensinado em casa e na escola que o bem é o bem que o mal é o mal e que quem faz bem tem de ser premiado e quem faz mal tem de sofrer o castigo embora seja bizarro que nunca tenha esquecido até hoje os nomes dos gandulos que de vez em quando afloram como post-its  de cor viva à sua  memória cada vez mais fugidia. Se o menino soubesse…
Lisboa, 3 de Abril de 2014
Octávio Santos
a)     Título digno de um filme de Lina Wertmuller, sem qualquer alusão, Deus me livre, àquilo que se passa hoje em Portugal.