quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Beleza e ignorância, Dostoievsky e Vittorio Sgarbi, um Natal de Entrudo, mafiosa famíla romana, Aylan e Cecília “dormientes”, Palmira e Coliseu, Califas de outro tempo e de agora, homens em pé e homens de joelhos, templos do espírito em pó, de Platão a Dante, com Balzac em PS.


Instruções para uso, sabendo já que ler melhora a vida, mas ouvir também:

Funciono de forma oposta às, por exemplo, seguradoras que te enganam com duas páginas com letras pequeninas, onde está tudo o que interessa mas que não tens paciência para ler. Assim, advirto-te desde já que não vale a pena prosseguires a tua leitura se não estiveres disposto, ou não tiveres tempo, para ver o vídeo, com a duração de 6 minutos e 4 segundos, já que a parte importante deste texto é a sua tradução; se sim, podes continuar e vais agradecer-me, se não, clica para desligar e sou eu que te agradeço. Fim das instruções.

Parece ter sido Dostoievsky que disse que a beleza salvaria o mundo, e nunca foi tão actual repetir o conceito, mas foi também o grande escritor russo que disse que “É melhor ser infeliz, mas estar inteirado disso, do que ser feliz e viver como um idiota”. Que a ignorância mata não é necessário que ninguém o repita, porque qualquer ser humano o percebe, caso o teor, e tipo, de ignorância o deixe perceber. E quando digo ignorância não me refiro àquela de que enfermam aqueles, como eu, que não sabem nada de física quântica, economia liberal, real politik,  obrigações subordinadas e CDO's, altos e baixos do barril de Brent, ou das diferenças entre WM e 4.4.2 ou entre corrupção e política, e calo-me aqui para não começar a dizer os  nomes daqueles que perceberam há muito, porque não são ignorantes nem estúpidos, que não há justiça que chegue para decidir sobre o conteúdo dos milhões de files a seu cargo (quanto mais, melhor) e que, por isso, nunca irão, em vida, parar às pátrias masmorras que, de momento, só lá têm o Vale e Azevedo que, coitado, só agora, com o carnaval à porta,  foi autorizado a passar o Natal (de 2015) em casa porque os juízes, coitados, com a afluência de trabalho, só agora tiveram tempo de lhe assinar o papelito libertador. Refiro-me, sim, àqueles que ignoram, ou são obrigados a ignorar, não com a mente mas com o coração. 

A semana passada mandei-vos as imagens estatuárias de uma santa e uma beata em êxtase, nem eu sei bem com que fim mas, seguramente, porque as tenho gravadas e pertencem às coisas que ninguém me poderá roubar, e, na pesquisa dessas imagens, dei com aquela de Santa Cecília degolada que, também, tantas vezes admirei na Basílica romana dedicada à mártir, e que é a imagem desta crónica. Como as coincidências, e pergunto-me quantos já teriam estudado os seus mecanismos (ver PS), são para mim pão nosso de cada dia, quis o destino que tivesse visto e ouvido na RAI o crítico de arte Vittorio Sgarbi em mais uma das suas “lições” que até os seus inúmeros e ferozes detractores sabem serem magistrais, e que, durante um almoço, uma Senhora me tivesse perguntado se eu sabia alguma coisa sobre o islão; tendo eu respondido que não, que cada vez sabia menos coisas de cada vez mais coisas, me disse que eles não têm respeito pelas mulheres, o que querem é ter muitas (ainda se nós também pudéssemos ter muitos!), e que querem invadir Portugal e é pena que não haja agora ninguém como o D. Afonso Henriques que, quando eles tentaram entrar em Portugal naquele tempo lhes deu uma coça do caraças e não os deixou pôr o pé neste nosso cantinho do céu. Não quis estragar o almoço a quem tão amavelmente me tinha convidado, engoli, junto com a posta mirandesa e o vinho da casa que até era bom, os conhecimentos da Senhora que ficou feliz por ter ensinado qualquer coisa a um totó que nem sabia que o que eles querem á gajas. E o facto é que sei muito pouco sobre o islão e, não usando da caridade cristã que demonstrei naquele almoço para não o estragar, estrago-vos agora o dia, e talvez toda a semana, com a tradução que fiz da “lição” do Professor Sgarbi, para aqueles a quem poderá escapar o sentido de tudo aquilo que ouvirão no vídeo, e ela aí vai com todas as imperfeições que pode ter a transcrição de uma oração: 

“Os italianos não conhecem o que têm. Será necessário perceber que aquilo que acontece na Síria sucede por ignorância? Pois bem… As ruínas romanas de Palmira, o templo mais belo de Roma, que era Palmira, foi destruído por pessoas que consideram que aquilo fossem… pedras, ou pouco mais…, não história, e isto pela sua radical ignorância, porque Deus existe na nossa consciência, mas um Deus que dá ordem para matar não é Deus, um Deus que dá ordem para devastar não é Deus, o seu (deles) Deus não é Deus! Com Deus em ti podes amar, podes ajudar, podes salvar, não podes destruir, não podes matar! Em nós, Deus não pode matar! 

Então, aquilo que vemos hoje é, por um lado, o ISIS italiano, isto é, aquele das pás eólicas, aquele da paisagem destruída, aquele dos edifícios demolidos porque são pouco importantes, como nos repetem, e também nós temos bárbaros; mas a escola deveria, com os museus, ensinar-nos a perceber. Aquilo que aconteceu em Palmira, enquanto aqui todos se preocupavam com os Casamónica, a máfia,o cortejo, o carro funerário (A), cagadas sem razão, tudo isto… (não se deve dizer a esta hora, mas pode-se reduzir, apagar…cagadas apagadas), tudo isto é muito, muito, muito, muito menos grave, mesmo insignificante, em relação ao facto que daqui a dois anos estarão, se estivermos parados, a pôr bombas no Panteão e no Coliseu, porque o que fizeram em Palmira foi feito em Roma; isto é Roma, não é Síria! Aquilo que está a acontecer ali, acontece na realidade contemporaneamente aqui! 

Então, vejamos estes edifícios que já não existem, agora é pó onde estava o templo, é agora a memória de Baalshamin e também do templo de Bel, que estamos a ver, mas tudo o que vemos é memória, é fotografia, não existe, devastado, abatido em nome de Deus! E depois estas coisas talvez comovam as pessoas cultas e sensíveis, mas devemos pensar que não é apenas comovente o que diz respeito às pessoas porque todos ficaram chocados com a imagem do pequeno Aylan, que vemos nesta imagem, e justamente, é uma imagem poderosamente evocativa, é uma tragédia que diz respeito a um menino, e a todos os meninos do mundo; o menino parece dormir. Vejamos como a sensibilidade cristã era já tal, que em 1599 esta imagem tinha já sido pensada por Cósimo (lapso de Sgarbi), vejam, por Stefano Maderno, um escultor que reproduz em mármore, de maneira maravilhosa tornando-a eterna, a imagem de Santa Cecília, apanhada exactamente assim como “dormiente”, vejam que tem um talho no pescoço, e é incrível que à distância de séculos a imagem fotográfica reproduza aquela imagem cheia de verdade e cheia de dor, na serenidade, o sono, e foi isto que comoveu, comoveu até a Merkel, que a fez mudar a perspectiva sobre os refugiados, porque se percebeu que são seres humanos que têm de ser ajudados, ao contrário dos seus homens, amigos com a mesma fé, que os matam. 

Vejam esta imagem, a sucessiva, uma outra figura de uma “dormiente”, um Adónis maravilhoso, de um grande escultor que se chama Corradini, que poderíamos ter nos museus italianos mas que alguns, digamos, atentos a tantas coisas mas distraídos diante da beleza, consentiram que esta obra acabasse no Metropolitan Museu, um historiador de arte que a reconheceu, chama-se Montanari, e considerou que fosse a mesma coisa a obra ter ido para a América, tudo isto é uma forma de falta de respeito pelo nosso património, isto é a Itália, em Itália deve ficar, em Itália devemos vê-la, mas vejam como ainda o mundo antigo nos manda sinais e como nós podemos responder com a arma da cultura; olhem para esta imagem: 25 persas que vêem ali, com aquela imunda bandeira que cobre um templo romano, ou melhor, o teatro romano, vejam que estão homens em pé e homens de joelhos. São rapazes muçulmanos, aqueles atrás têm armas na mão, são rapazes jovens, adolescentes, para disparar aos outros. Esta fotografia é ainda mais terrível que aquela do menino na praia porque dentro de um momento estarão mortos, e estarão mortos sem terem feito absolutamente nada, como se um católico de Rimini matasse um católico de Cesena, não há nenhuma diferença, a mesma religião, a mesma cultura, a mesma formação, mas têm uma incultura de base e por isso chamam Deus para justificar o seu horror; estão a matar aqueles que têm diante de si e indiferentes voltam as costas a esta arquitectura extraordinária, não percebem que esta tem em si a civilização, a humanidade, aquilo que nós somos, aquilo que depois do mundo romano se tornou o mundo cristão, ali, o mundo árabe, que no tempo dos Califas, por volta de 630/640, quando chegaram a ocupar Palmira, não destruíram, não tiveram a violência que têm hoje, aqueles Califas de então respeitaram o mundo romano, o mundo bizantino, transformaram aqueles edifícios em mesquitas, não os destruíram; aquela cultura perdeu-se, e chegou a barbárie que leva a matar pessoas como tu. 

Vejam o que é a Itália, o que é a cultura italiana, numa espécie de correspondente natural desta arquitectura que corre o risco de estar em pé por pouco tempo. É a Escola de Atenas, de Rafael: vejam, uma arquitectura que está por cima, como um templo do espírito, de personagens que são Platão, Aristóteles, Miguel Ângelo, Dante, que estão ali a pensar que a antiguidade serve para viver hoje: a antiguidade para aquelas personagens serve para legitimar a destruição e o horror: a arma secreta que temos é a civilização, a cultura e a beleza. Obrigado! Obrigado!” 

A)   Refere um recente escândalo romano; funeral de um chefe de família mafiosa, os Casamónica, com coche funerário negro e dourado puxado por 6 cavalos 6, orquestra a tocar a música do Padrinho, helicóptero a lançar pétalas de rosa, gigantografia do defunto na fachada da Igreja de São João Bosco. 

Abraço. 

Lisboa, 11 de Fevereiro de 2016
Octávio Santos 

PS: Balzac, na sua novela “Le Réquisitionnaire”, publicada em 1832 no seu livro “Contes Philosophiques”, prevê o nascimento da parapsicologia que só aparecerá na segunda metade do século passado, passados mais de cem anos: “Na hora exacta da morte de Mme. de Dey, em Carentan, o seu filho era fuzilado no Morbihan. Podemos juntar este trágico acontecimento a todas as observações acerca de afinidades que parecem desconhecer as leis do espaço; documentos juntos com sábia curiosidade por alguns homens solitários, e que um dia servirão a lançar as bases de uma ciência nova, à qual faltou até agora um homem de génio”.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Picasso e Salomão, poesia sacra que, desafiando o profano, dá coragem a Santas e Beatas para arriscados mimos de transportes terrenos, ao genial Bernini arte para os imortalizar, e a mim lata para pisar areias movediças de onde não me salvarei.


Hoje é fácil porque me bastou encontrar por acaso um cruzamento que fiz de um pequeno texto meu com versos do Cântico dos Cânticos, para me despachar, embora correndo o risco do vosso julgamento, seja pelo atrevimento de misturar coisas minhas com textos sagrados, seja pelo resultado final da blasfema ousadia. O que é meu, “A Última Tela de Picasso” (A), datada de 3/4/2012, é o último texto do meu livro “Moínho de Vento, 23”, na página 141, e não passa de “um sonho, daqueles que não sabes se estás a dormir ou acordado, e depois de manhã, te deixa umas ideias (neste caso, pinceladas) esbatidas e fugidias no quarto dos fundos do teu cérebro, entre falsas e verdadeiras, entre reais e virtuais”. Do “Cântico dos Cânticos”, que li na íntegra para poder escrever o texto “Subsídio para a ressurreição de Roseta”, a páginas 23 a 28 do acima citado livro, retirei versos que, no meu entender, poderiam ser intercalados no meu “sonho”, conferindo-lhe a sacralidade a que aspirava desde a sua escritura; e assim foi ao fim da tarde do dia 26/10/2013, numa varanda emoldurada de buganvílias entre o Alentejo e o Algarve, acompanhado de imagens que tinha gravadas das esculturas “Êxtase de Santa Teresa” e “Êxtase da Beata Ludovica Albertoni”, ambas de Bernini, tantas vezes admiradas em Roma, nas igrejas de Santa Maria della Vittoria e de San Francesco a Ripa, respectivamente, esculturas só possíveis pelo aval que a inspiração do Cântico dos Cânticos deu ao genial artista para imortalizar estas duas figuras da Igreja, transformando inconveniente erotismo terreno em permitidos arroubos de amor divino. Assim, revelo hoje, sob a protecção de uma bolinha vermelha não vá algum Senhor Rohani ter a tentação de vir espreitar o meu blogue e deparar com mulheres que, apesar de todos os véus, poderiam provocar-lhe pensamentos pecaminosos fatais para a salvação da sua alma, revelo eu, dizia, o matching (é assim que se diz, não é?) de textos poéticos que, espero, não venha a ser a perdição da minha.
A Última Tela de Picasso à luz do Cântico dos Cânticos
Visitei o velho Picasso (com razão as raparigas amam-te) no último dia das nossas vidas. Ele sentado (o rei está em seu divã) num cadeirão capitonné de pele gasta e rota (o encosto é de ouro), diante de uma enorme tela branca, esmagado com o peso (que se eleva do deserto como colunas de fumo) dos seus noventa e dois anos e dos 1654 mortos de Guernica, que carregava perenemente.
 
Eu (dormia mas de coração acordado), sentado num escabelo a seu lado, oprimido pelo peso do génio malagueño e pela pesada incapacidade de não saber viver (ao jardim das nogueiras desço). Tu (ó mais bela das mulheres), de pé, recebias sobre a tua luz intensa (contra mim resplandeceu o sol), a luz menor de uma clarabóia no tecto e olhavas (afasta de mim teus olhos os olhos que me enlouquecem) absorta a cena a que não pertencias (Ah como estás bela minha amiga).
 
Então, de golpe, naquilo que seria a sua última obra, Pablo Ruiz levantou-se, dirigiu-se a mim e agarrando-me pelos ombros (o meu amado é para mim e eu para ele), como se fosse um trapo, com a sua força hercúlea, atirou-me contra a tela virgem da qual passei a fazer parte (o meu amado desceu ao seu jardim).
 
Olhou para ti (deixa-me ouvir a tua voz), roubou-te os olhos que pôs dentro de uma patena (olhos como pombas), colocando-a na minha mão direita (no dia em que a alegria era seu coração) de onde os meus olhos não se despregarão mais, como acontece nas imagens de Santa Rita de Cássia. Colocou a tua mão piedosamente (que doces tuas carícias minha irmã minha noiva), como sudário, sobre o meu sexo morto sem químicos, os teus lábios (beije-me com os beijos da sua boca) transformaram-se em borboleta esvoaçando diante dos meus sem lhes tocar. Cortou-te o cabelo que enrolou à volta da minha testa (sua cabeça é de ouro maciço), como se de uma coroa de espinhos se tratasse (teu cabelo era um rebanho de cabras). Os teus braços foram colocados em torno da minha cintura (e eu sou já puro tremor), servindo de cilício que, em vez de mortificar, aliviava. Na minha mão esquerda foi posto o teu seio branco, cheio, redondo (teus seios são dois filhotes gémeos de uma gazela), cuja visão, peso e pormenor de boina basca (sejam teus seios cachos de uvas), me enchia os olhos e a vida. O teu púbis foi delicadamente colocado (saboreio o favo com meu mel), com todos os seus segredos escondidos (sem censura de ninguém), na minha testa, entre os meus olhos (porque desfaleço de amor), e ali ficou como a sarça ardente de Moisés a iluminar-me a mente para a eternidade (minha vinha é só minha)
 
O teu umbigo (uma taça redonda) foi delicadamente colado ao meu (no meu leito toda a noite procuro), unindo-nos na origem da criação. O mesmo foi feito com os pés que (quão formosos… nas sandálias), agora a quatro, teriam de calcorrear os mesmos caminhos; aqueles certos (entra o meu amado no seu jardim e come seus frutos doces).
 
Nesse momento, o pintor caiu e morreu. A obra (aquela que traz a paz) ficou suspensa num limbo entre uma espécie de verdadeira vida e uma sorte de falsa morte (porque forte como a morte é o amor). A luz da clarabóia intensificou o seu brilho até ao paroxismo de se igualar à tua (levanta-te minha amada) e sugou-te milagrosamente inteira (quem é essa que desponta como a aurora), numa Ascensão (não tenha de vaguear oculta), para uma vida cá fora (lá te darei as minhas carícias), que tudo fizeste para merecer viver (roubaste-me o coração minha irmã minha esposa).
 
Monte Crato, 26 de Outubro de 2013.


PS: “É necessária toda a vida para voltarmos a ser crianças.” Pablo Picasso

 (A)  Texto que inspirou à minha ex-colega e pintora Florinda Grave o tríptico que é a imagem desta crónica, obra que teve a gentileza de me oferecer e que guardo com a atenção e cuidado que  merece.

Abraço.
Lisboa, 4 de Fevereiro de 2016
Octávio Santos

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Tony (Amália), Cavaco, Cabral, Aristides, Saramago, Marcelo, Ronaldo, Marco, Veloso + Oliveira, Sindika, Isabel, Morais, Moreira, Obiang + Jardim, Santos + Bando dos 30, Quadrilha da Banca, Belém, Coelho, Vera, Grilo, Soares, Alegre + Amorim, Barroso e Moedas.



Não tendo hoje nada para vos dizer, aproveito para vos propor  o que escrevi a semana passada sobre assuntos sérios, e que acabei por não vos transmitir pelo e-mail do costume para não os misturar com anedotas. É que persiste um conflito entre o autor dos e-mails e o destas crónicas, não tendo ainda ambos chegado a um acordo sobre a linha de fronteira que separa a galhofa para desmontar o trágico,  da seriedade para glorificar o inconcebível, sendo os verbos sublinhados intercambiáveis, ou seja, de qualquer maneira não se percebe o que digo.
 

1 -  Tony Carreira foi agraciado pelo governo francês com o grau de Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras, como antes dele Amália, Bob Dylan, Groucho Marx, Umberto Eco, Sean Connery, Václav Havel, Paolo Portoghesi e Dustin Hoffman, entre tantos,  e até aqui tudo bem, Cavaco Silva também condecorou o alfaiate da Mulher e eu ainda devo ter numa gaveta uma medalha de reconhecimento por apego ao trabalho, da República Popular  da Bulgária. 

Se não sabem ficam a saber que considero o cantor como um produto menor da música ligeira portuguesa, mas isso são coisas minhas e uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa (Pombo Branco dixit). Tendo o artista mostrado vontade de vir a receber a sua prestigiosa  condecoração na Residência de Sua Excelência o Embaixador de Portugal em Paris, recebeu do mesmo uma não resposta que é o mesmo que dizer que “levou com a porta na cara”.  Para os mais distraídos lembro que os Embaixadores são os representantes pessoais do Chefe de Estado na capital dos países que aceitam recebê-los para exercerem essas funções, e que a casa onde vivem, paga por todos nós, é, não só a sua Residência como, e assim me ensinaram todos, ou quase todos, os Embaixadores que tive o privilégio de servir, a casa de todos os portugueses residentes,  ou de passagem,  nesse país. Assim, e para não me alongar, o Senhor Embaixador comportou-se mal ao não abrir larga  a porta da “sua” casa e os seus próprios braços ao,  por mim e atrevo-me a adivinhar, por ele próprio, mal amado artista. Poderá o Senhor Embaixador encontrar nos meandros da Lei, ou nos manuais da diplomacia, razões muito válidas para a atitude que tomou em nome dos seus gostos pessoais, e o Ministério dos Negócios Estrangeiros emitir uma nota pouco convincente desculpando o seu agente diplomático, mas o Embaixador Moraes Cabral deveria ter-se lembrado que não foi por respeitar as Leis e directivas vigentes que hoje todos, e sublinho todos, se inclinam perante a grandeza de Aristides Sousa Mendes. Só uma coisa concedo a Sua Excelência: como representante pessoal de Cavaco Silva, seguiu-lhe o exemplo dado em relação a José Saramago. Que não é Tony Carreira. Espero agora que o novo Presidente da República, que já anunciara que uma das suas primeiras acções será de reconhecimento a Cristiano Ronaldo, siga o exemplo gaulês e decore o peito de Marco Paulo, a festejar 50 anos de carreira, com, pelo menos, a Ordem do Infante. Cantava Rui Veloso, que não é Tony nem Marco, na sua Valsinha das Medalhas,  “quem és tu donde vens, conta-nos lá os teus feitos, que eu nunca vi pátria assim, pequena e com tantos peitos”, isto antes de pôr o seu à disposição no 10 de Junho.

2 - A casa de Manuel de Oliveira foi vendida à Fundação Sindika Dokolo, do nome do Marido da Senhora Dona Isabel dos Santos, por 1,58 Milhões de euros. Não tenho nada contra,  mas faz-me confusão que a Câmara Municipal do Porto não tenha encontrado esta verba para que os portuenses ficassem com a casa de um dos maiores filhos da Cidade Invicta, quando dispôs de 9 Milhões desses mesmos euros para comprar o Estádio Engenheiro Vidal Pinheiro, que no dizer de Paulo Morais valia apenas 4, para uma estação do Metro do Porto que nunca foi construída. E uma outra coisa me faz espécie sabendo-se, mais ou menos, as condições em que vivem as populações de Angola e do Congo: como é que se “ganha” tanta massa?  Garantiram-me as minhas fontes que a Fundação, que já anunciou a intenção de instalar a sua sede mundial no Porto, iria lançar uma OPA sobre Serralves, e que o Presidente da Guiné Equatorial está a pensar adquirir os terrenos da Feira Popular, em Lisboa,  para construir a “Cidade da Democracia Lusófona”. Vamos ficar atentos.

3 – Não gostei mesmo nada que o Alberto João Jardim fosse o único a não honrar, ou a não ter percebido que não honrou, a memória de Almeida Santos, ao afirmar que ele tinha sido o grande impulsionador da Zona Franca da Madeira. É que ele há coisas que o respeito pelos mortos não consente de lembrar  na triste ocasião do trespasse. E digo isto porque vi com os meus olhos a ZFM, também conhecida por CINM - Zona Internacional de Negócios da Madeira -  que, gerida pela SDM, Sociedade de Desenvolvimento da Madeira, tinha como objectivo promover o investimento estrangeiro através de benefícios fiscais e aduaneiros e, como sectores de actividade, um parque industrial com infra-estruturas  apropriadas à produção industrial de bens, um registo internacional de navios - MAR – com especiais benefícios para os armadores registados, e os serviços internacionais, incluindo trading, consultoria ou “qualquer  serviço de âmbito internacional”.  E o que vi foram 5.883 empresas, a maioria italianas e reduzidas a caixas de correio, 82% delas sem qualquer trabalhador, 230 navios a desfraldar bandeira madeirense de favor por esses mares fora, e o PIB da RAM a arvorar números falsos de uma saúde doente. O que não vi, porque alguém achou melhor que as câmaras de televisão italianas da RAI 2  não fossem lá meter o nariz e as objectivas, foi o parque industrial do Caniço porque só lá havia 4 ou 5 fabriquetas, tendo-me alguém dito off record que uma delas era chinesa e fabricava à máquina “bordados da Madeira”, coisa que não acreditei só podendo tratar-se de uma provocação de qualquer cubano inimigo do arquipélago. Por tudo isto a ZFM era, ou foi,  um offshore nunca reconhecido pela OCDE. Vir agora o Jardim invocar os méritos de Almeida Santos pelo impulso que deu a esta realidade pareceu-me, não só descabido, como ofensivo para a memória do ilustre e saudoso político. É como se alguém se atrevesse a vir  perguntar o porquê do velório na Basílica da Estrela, sem qualquer cerimónia religiosa, a pedido do extinto, quando há palácios em Lisboa, com digníssimos templos, mais apropriados à funesta circunstância.

4 – O Tribunal Constitucional veio-nos dizer, para gáudio dos ex-PAF, que não é  infalível,  e que nem sempre a sua justiça é salomónica. O princípio da confiança, que agora invocou para devolver direitos de mordomia àqueles (alguns) a quem demos o poder, não serviu para os cortes de salários e pensões. Como, em princípio, todos perdemos a confiança, sobretudo depois dos roubos dos bancos – BPN, BPP, BES, BANIF e senhor que se segue (tenham confiança) -, devidamente avalisados pelo Banco de Portugal, resta-nos o desespero diante de mais esta bóia que nos é negada em nome do nada que se instalou mesmo debaixo dos mais impermeáveis mantos. Pior que tudo isto foi a divulgação da lista do famigerado “grupo dos 30”, com a sua execranda legenda, que só pode ter vindo de partidos desta vez impolutos, porque dela ausentes,  ainda por cima com a baixa e vil intenção de atingir apenas um dos visados, o que transforma o acto numa verdadeira matança de inocentes em Belém. Ainda por cima inútil porque a visada já se tinha “suicidado” ao demitir-se, durante a desastrosa campanha, das altas funções a que aspirava, mesmo  antes de lá ter chegado, para desespero de Coelho, Vera, Grilo, Soares, Alegre e outros que embarcaram numa nau que deveria desembarcar em Belém, e não naufragar  no Tejo por inépcia da timoneira.

5 – Caiu em cima da Cimeira de Davos a notícia que 1% da população mundial tem mais de seu que os restantes 99% (1/100 > 99/100), e que  62 desses ultramegamultimilionários têm o mesmo que metade do resto dessa mesma população, {(total y - 62) : 2 = 62}. Cá por casa soubemos que 2 milhões de ordenados mínimos nacionais teriam de amealhar todos os seus rendimentos durante três meses para chegarem aos calcanhares dourados do Senhor Américo Amorim (2.000.ooo x 3 = 1).  Tenho a certeza que vai sair da cimeira, ainda por cima com a participação de Barroso e Moedas, qualquer esboço de projecto de intenção para uma actuação visando a solução. Se assim não for, ou eu estou lúcido varrido, ou este nosso planeta começou a rodar ao contrário e já não há nada nem ninguém que o segure para que volte a uma normalidade que, afinal,  nunca teve.  Até quando?

Abraço.
 
Lisboa, 28 de Janeiro de 2016
Octávio Santos

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Petróleo de ontem e hoje, água de hoje e amanhã, guerras de ambos com as armas de sempre, 7 irmãs/5 bonecreiras a puxar os fios a tribos e a credos, ninhos cheios de passarinhos que nos bebem a água, livros com segredos ou talvez não, e carros, sempre carros, que até andam com água na gasolina, mistura alquimista que não se sabe ainda se faz andar os homens.


Hoje, ao contrário da semana passada, sento-me sabendo já do objecto da minha escrita, o que, parecendo facilitar complica tudo. É que, quando não sei a coisa sai, uma daqui outra dali, e lá acabo por ligar as ideias que, mesmo se fugidias e confusas, se comportam como a maionese que, quando deslassa, basta mais um fio de azeite e óleo de cotovelo q.b. para ficar boa à mesma; pelo menos os convivas não se queixam. Mas hoje, ligando notícias e factos aos três livros que tenho na mesa de cabeceira, que são sempre o que li, o que estou a ler e aquele que se segue, me pareceu que tudo tem um fio condutor que não é, por enquanto, aquele da escassez da água, da qual o velho e original Mad Max nos deu uma ideia apocalíptica daquilo que poderá vir a ser, mas lá estou eu a desviar-me do pressuposto e o melhor é ver se eu próprio percebo o que vos queria dizer.

Voltando aos livros, aquele que li foi “O Fim dos Segredos”, da jornalista e professora Catarina Guerreiro, cujo subtítulo “Tudo o que nunca lhe contaram sobre o mundo da OPUS DEI e da MAÇONARIA em Portugal” nos indica que trata da doméstica conquista do poder neste Portugal dos pequeninos, recheada de episódios caricatos que envolvem obrigações precoces de castidade com instrumentozinhos de torturazinha à sombra da cruz, caveiras e caixões em encenação teatral levada à cena em templos de pacotilha com personagens de uma espúria commedia dell’arte dignas da nova versão do Pátio das Cantigas. Aquele que irei ler é “As Sereias de Bagdade”, de Yasmina Khadra, que é só o pseudónimo do escritor argelino Mohammed Moulessehoul (sabe-se lá o que nos quer dizer com esta mudança de sexo literário), que já nos tinha deixado “As Andorinhas de Cabul”, “O Atentado”, “Os Anjos Morrem das Nossas Feridas”, entre outros, leitura obrigatória nesta minha tentativa de perceber alguma coisa do que se passa naquela desgraçada parte do mundo, do qual todos falam e poucos entendem. Mas é do que estou a ler, “O Despertar dos Mágicos”, de Louis Pauwels e Jacques Bergier, introdução ao realismo fantástico como reza o subtítulo, publicado em 1960, o qual, não sendo um romance embora talvez fosse essa a intenção dos autores, não sendo ficção científica mesmo que por ela se roce em cada página, nem um repertorio de factos bizarros como “O Livros dos Danados”, de Charles Hoy Fort, apesar de o citar abundantemente, não é tão pouco uma contribuição científica, um testemunho, um documentário ou uma fábula. É como que um rio em cheia que transporta todos os detritos acumulados desde a nascente, com a não velada intenção de nos dizer que, para além de não estarmos sós no Universo, este mundo em que vivemos é para quem detém os segredos, que são muitos (ou quase tudo), dado que pretende afirmar que todas as invenções humanas do último século (segunda metade do XIXº e primeira do XXº) já tinham sido, ou inventadas ou caídas (trazidas) do céu há muito, só que mantidas em segredo porque os nossos antepassados, mais sábios, astutos e previdentes que nós, as esconderam ao adivinharem os males que elas causariam, como, por exemplo, aquela dos alquimistas terem descoberto a fissão do átomo e fechado o segredo a sete chaves, segredo só partilhado com os Rosacruzes (que esses são bué da fixes), tentando que Hiroshima e Nagasaki  não acontecessem. Sendo o livro uma confusão do caraças, uma salganhada sem pés nem cabeça, um novelo cheio de nós sem ponta nem fim, não me perguntem se vale a pena perder tempo a lê-lo, mas o que é facto é que só agora vou na página 229 e não sou capaz de o largar até à 630 que é a última.

Depois vêm as notícias, e aquela da BMW ir equipar um carro de série com um motor, há muito usado em pista, com um sistema de injecção de água nas câmaras de combustão, o que, para além das emissões nocivas faz reduzir o consumo de gasolina para metade, aumentando a potência de uns 10%. Invenção da água quente que já estava inventada? Lembro que na nossa vizinha Espanha há carros movidos a ar comprimido, que um maluquinho em Portugal, nos anos 40, pôs um Dona Elvira a andar a óleo de rosmaninho que apanhava na Serra de Monsanto e destilava num vão de escada, incómodo alquimista desaparecido na natureza, e que, quando vivi em França, conheci um criador de vacas que transformou o motor do seu R4 para trabalhar com gás de bosta dos seus bovinos, que ele recolhia numa espécie de sino sobre a estrumeira e metia à pressão em garrafas de gás vazias, em vez de irem para o ar esburacar o ozono. Tudo rubis, ou seja, pedras preciosas nunca utilizadas em larga escala. Só a americana Tesla pôs até agora no mercado um carro eléctrico com 400 kms de autonomia, ou seja, útil,  mas mesmo assim ao custo de cerca de 100 mil U.S.$ e com quilos de baterias de lítio a reciclar pelo Godinho de Ovar, que é o mesmo que as pôr no lixo, que se lixem os que vierem.

Os Estados Unidos ultrapassaram a Arábia Saudita e a Rússia e são hoje o maior produtor mundial de petróleo, com uma produção de 11 milhões de barris por dia. Já eram também, desde 2010, o maior produtor de gás natural, tudo isto com a ajuda do chamado “fracking”, extracção de gás e petróleo dos xistos betuminosos, técnica de fracturação de rochas e injecção de calor que não compreendi bem, mas que para mim, que sou básico, é uma espécie de estupro incestuoso da Terra Mãe que, ofendida, reage com terremotos superiores a três graus na escala de Richter, o que está a acontecer, cada vez com mais frequência, nos estados de Oklahoma, Texas, Kansas, Colorado, Novo México e Ohio. A China, a Rússia, o Brasil, a Alemanha e, pasmem, a Estónia, não querendo ficar atrás, já estão a operar diligentemente para a criação do seus sismos domésticos. Sendo o maior consumidor de petróleo do mundo, os Estados Unidos necessitam mesmo assim de importar 7,5 milhões de barris por dia, pelo que já anunciaram que vão aumentar a sua produção diária para 13,1 milhões de barris até 2019. Desconheço se no COP21 se debateu sequer este problema “menor” da saúde da Terra, e não me perguntem se é por tudo isto que o preço do barril está agora a 25 U.S.$ e se por trás da situação estão, como no tempo em que mandaram assassinar Enrico Mattei, um puro que queria mudar o mundo, as chamadas “sete irmãs”, agora reduzidas a cinco: Exxon/Mobil, Chevron/Texaco, Shell, British Petroleum e Elf/Total. Não acredito em bruxas “pero que las hay, las hay”.

Não tenho nunca a certeza do que digo, reclamando sempre o direito à imprecisão, mas parece-me que todas as guerras e guerrazinhas que, como fogos em floresta lusitana (quer dizer, sem solução) alastram por tudo quanto é sítio no planeta azul, são provocadas e alimentadas para defender os interesses de quem interesses tem. Quem é que deita abaixo ditadores e mesmo presidentes eleitos para os substituir por outros mais dúcteis e amigáveis? Uma guerra nova num país africano é noticiada para os parolos consumidores de notícias, ou seja, nós, como um novo caso de ódio tribal, quase nunca se falando das corporações ou governos estrangeiros que estão por detrás de cada uma das facções em luta. E quem diz África diz Ásia, América Latina ou ex-União Soviética (Tchetchenia por exemplo). No Médio Oriente e no Magrebe basta trocar tribo por religião, ou delas fazer um cocktail, para termos o que temos, situação que já ninguém sabe segurar. Quantas comunidades indígenas foram riscadas do mapa por força do resultado da exploração petrolífera? De Equador à Nigéria, da Indonésia ao Chade, o ouro negro foi, e continua a ser, uma maldição. Fizeram bem os alquimistas em manter secretas as suas descobertas? Uma coisa é certa e consoladora: não corremos o risco de, até ao fim das nossas vidas, e falo por mim que sou velho, chegar a uma bomba e não termos gasolina para enchermos o nosso depósito. O que é bom, mesmo muito bom, e para nós este problema está resolvido; que se lixem os que vierem.

O pior é a água. Não em termos de negócio, que esse é cada vez mais florescente e rentável. Sabem que a Nestlé e a Coca Cola andam por esse mundo fora, em África e no Brasil - que tem 25% da água potável da Terra-, a comprarem terrenos sobre lençóis de água, para a venderem engarrafada aos habitantes que vivem sobre esses mesmos terrenos e que, não tendo acesso à água debaixo dos seus pés, que agora tem proprietário legal, morreriam de sede se não a comprassem a quem agora lha vende? Alguém disse, a propósito  da água mineral ser o ouro do século XXI, que a Nestlé é uma associação de malfeitores que também produz e comercializa alimentos para bebés. O pior é a água, dizia, porque, segundo a ONU, um bilião e quatrocentos milhões de pessoas não têm água tratada em casa e, desses, 500 milhões, em 29 países, sofrem da sua escassez. É assustador saber que uma cidade de 12 milhões de habitantes como São Paulo, não tenha água para a maioria da população, podendo entrar em colapso hídrico em questão de dias, e isto é notícia de agora que, acrescentando que não são as elites a sofrer a situação, mas os desfavorecidos habitantes de favelas e periferias, aconselhados pelo governo a diminuir o tempo do duche e a fechar a torneira ao lavar os dentes, histórias da carochinha que já não colam, o que nos leva ao bom e velho Mad Max; quem tem poder tem água e quem tem água tem poder. Será que a guerra da água está a bater-nos à porta? A nós não, aos outros. Que se lixem!

Stephen Hawking, bem conhecido cientista de Cambridge, de 74 anos, ao evocar uma sociedade democrática, considerou que “toda a gente precisa de ter uma compreensão básica da ciência para tomar decisões informadas sobre o futuro”, acrescentando que “não vamos parar o progresso, ou revertê-lo, por isso temos de reconhecer os perigos e controlá-los. Sou um optimista, acredito que vamos conseguir”. Eu não, e que o cientista me desculpe o pessimismo!

Mas voltemos ao “Despertar dos Mágicos”, meu actual livro de cabeceira:

“Não é a primeira vez que na história da humanidade a consciência humana é obrigada a passar de um plano para outro, e a passagem é sempre dolorosa”.

Li agora isto num papel meu sem ter a certeza de ter sido eu a escrevê-lo:

“Andamos à deriva, qualquer coisa está errada, as alquimias políticas, mortos e feridos nos atentados rotineiros, de vez em quando a Terra é sacudida, só um milagre”.

Hoje ao almoço a Manuela perguntou-me: - Quantos mortos é que já teria havido hoje por aí nesta maldita 3ª guerra?

-Tem piada que é precisamente sobre isso que estou a escrever a crónica desta semana, respondi eu, voltando à caneta.

Abraço.

Lisboa, 21 de Janeiro de 2016
Octávio Santos


PS: Talvez esta semana em Davos os grandes da Terra falem destas coisas, se não tiverem nada mais importante. Nós, com Barroso e Moedas, podemos estar tranquilos.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Oscar Wilde e Roger Bacon + Kipling correm em socorro do cronista perdido entre as palavras, à procura daquelas que lhe servirão para as suas "altas" alquimias do espírito, levando-o nas suas ondas até à praia turca do teatro, onde, tendo chegado exausto, é salvo por Raio Fendente, compreendendo que nem tudo é possível nem permitido, embora, "no seu juízo perfeito" pense que…

“Tudo aquilo que se compreende está bem” escrevia Oscar Wilde quando descobre, na masmorra de Reading, que as distrações do espírito são o crime original, e que uma permanente atenção é o que faz descobrir, não só a perfeita consonância entre todos os acontecimentos da vida, como, num plano alargado, o acordo, também ele perfeito entre todos os elementos e movimentos da criação, ou seja,  a harmonia de todas as coisas. Poderia ficar hoje por aqui com a desculpa de  ter de me pôr a meditar na frase do genial homem de letras de origem irlandesa que tão caro pagou as suas opções de vida, mas caio sobre uma outra de Roger Bacon, aliás Doctor Mirabilis, que disse que “Nós podemos mais que aquilo que sabemos”, acrescentando, como empenhado alquimista, que “Ainda que tudo não seja permitido, tudo é possível”.

Mas, perguntareis vós, onde é que ele quer chegar com isto, e eu respondo que a lado nenhum porque me sentei sem ter a mais pequena ideia sobre o que iria escrever, e apanhado desprevenido pus-me a lançar bite sounds (vêem como estou atento!) numa vã tentativa de encontrar objecto para a escrita, e agora estou aqui a navegar à vista como um actor que esquece a deixa e olha aterrorizado para o ponto ausente da sua caixa, ou porque desmaiou ou porque foi assaltado por necessidade imperiosa. E aqui fez-se luz (juro que tudo isto se passa em tempo real), e agarrando o ponto pelos colarinhos este faz-me de ponto e lembra-me que também fiz teatro, uma só vez, e felizmente para os potenciais espectadores. Mas passo a relatar e com esta me safo mais uma vez.

Corria o ano de 1976 e o país era a Bulgária, aquele “onde tudo aquilo que não é proibido é obrigatório” como escrevi na pag. 25 do meu primeiro livrinho, era eu o “Senhor Cônsul de Portugal” (ver pag. 48 do mesmo in-fólio) e o meu amigo Yildirim Keskin (A) Conselheiro da Turquia. Acontece que este distinto diplomata, que foi mais tarde Embaixador em Lisboa, fosse também escritor e tivesse na gaveta, desde 1971, uma peça de teatro escrita directamente em francês - depois traduzida em turco e em grego -, intitulada “Un homme sain d’esprit”, à letra “Um homem são de espírito” mas que eu traduziria por “No seu juízo perfeito”, que em turco deu “Akli Basinda Bir Adam”, tendo a sua versão original sido publicada em 1979 e, aquela em grego, sido levada à cena e premiada no Festival de Teatro Amador de Corinto em 1983.

Yildirim Keskin, que traduzido em português seria Raio Fendente, já que todos os nomes turcos têm tradução - tu sais Octaviou que mon nom ça veut dire Foudre Tranchante (lembro-me da sua Mulher Gulgun, ou Rosa, e do Filho de ambos Jan, ou Vida) -, era um afabilíssimo diplomata e escritor que, na pureza da sua língua e na simplicidade do seu estilo, escrevia, em fuga surrealista diante da alegoria da existência, sobre a crise de identidade do homem só e impotente, com a sua racionalidade, perante o mistério universal que o rodeia, focando, como Pirandello, o contraste entre a aparência e a realidade. No seu primeiro romance “O Reino de Uma Noite”, de 1957, escreveu que “a felicidade é acreditar numa mentira” e, alguém que o conhecia e apreciava dele disse: “Escritor nihilista, nunca deixou de procurar o sentido da vida sabendo que o homem, mesmo tendo consciência da sua absurdidade, pode, através da vontade e da coragem, dar um significado à sua existência”.

Voltando ao teatro, disse-me um dia Yildirim que gostaria muito de ver a sua peça representada para avaliar o que daria sobre as tábuas de um palco, e daí tirar as suas conclusões para decidir sobre a sua publicação; quem sabe até se não a retocaria. Pedi-lhe uma cópia dactilografada (ainda a conservo), li-a, falei dela a colegas de outras embaixadas que eu sabia estarem para aí virados e, todos, pusemos em pé uma trupe de teatro ad-hoc para a inédita peça do Yildirim que, radiante, passou a dar todo o seu apoio e conselho a esta internacional banda de inconscientes a meterem-se numa aventura fora da sua zona de conforto (onde é que eu já ouvi esta?). Um turco, o autor, 5 franceses 5, uma belga, um holandês e um português, começaram então a estudar o original, cada um com a sua cópia, a escolha dos papéis foi consensual, e a ensaiar duas/três vezes por semana, ora em casa de um ora em casa de outro, sempre com um Volga negro do KDC - Комитет за държавна сигурност, os do guarda chuva assassino, lembram-se? -  à porta, já que aquelas repetidas reuniões noturnas que duravam até às 2/3 da manhã começaram a fazer espécie aos guardiões do regime.

Resumindo, devo dizer que eu, para além do papel de um fugitivo de si próprio (como uma luva…) num hotel de uma estrela, em convivência com uma nefelibata, um velho do contra, uma empregadinha, uma criada para todo o serviço impossível de aturar e um proprietário/recepcionista meio  filósofo, todos suspeitos para o esbirro que se apresenta em busca de um culpado no meio daquela bizarra e heterogénea companhia, tive também de construir o cenário com torres de iluminação e tudo o que se pode ver na imagem, incluído o relógio de parede feito com uma caixa de sapatos, sendo também minha a escolha da banda sonora, “A Catedral da Angústia”de António Vitorino d’Almeida, aceite entusiasticamente por todos. Assim, a “nossa” peça de teatro, sem figurinista nem guarda roupa (cada um com as suas coisas), em que cada um se maquilhava à porca janota, sem produtor, sem director, sem ponto, com cenógrafo (eu), um só (aquele grandão com barba, o pequenino sou eu) que fazia de sonoplasta, fotógrafo, luminotécnico e contra-regra, onde todos eram encenadores, que levou dois meses a ensaiar, foi levada à cena quatro vezes, digamos com agrado geral e, sobretudo, com a visível satisfação do autor que, feliz com o resultado, começou desde logo a tratar da sua publicação, o que veio a acontecer em 1979 como acima já referi.

Desta minha “aventura”, nunca mais repetida para o decoro e boa paz da arte de Talma, recordo agora coisas que gostaria de assinalar para encerrar esta crónica:

- As quatro representações tiveram lugar, primeiro na Residência do Embaixador da Turquia, e depois em casa do Conselheiro da Grécia e na de um outro diplomata que não consigo recordar-me agora e, a última, aquela da imagem acima, numa sala de festas posta à nossa disposição pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros búlgaro, depois de chegarem à conclusão (que alívio!) que não estávamos a conspirar contra o regime.  

- Nesta última pode-se ver que a parede de fundo está coberta por um lençol branco. Acontece que estavam lá penduradas fotografias do Lenine e do Gueorgui Dimitrov. Eu fui da opinião de deixar tudo como estava e introduzir uma bucha no meio de uma das deixas do proprietário do hotel, qualquer coisa como “herdei-o do meu pai que o herdou do meu avô” apontando as fotos, mas todos os outros foram pela solução do lençol. Perco sempre… 

- No fim da primeira representação, o meu saudoso Embaixador António Manuel Menezes Cordeiro deixou cair, ao vir felicitar-me, um diplomático “agora percebo tudo”. Na altura fui eu que não percebi. 

- As colunas que suportam a iluminação (candeeiros de secretária transfugidos clandestinamente de diversas chancelarias ocidentais) foram construídas com as grades que tinham levado de Lisboa os azulejos da Viúva Lamego (ponta de diamante e dente de leão) com que compus (com estas mãozinhas) o lambril da sala de jantar da residência dos nossos Embaixadores em Sófia. Ainda lá devem estar, mas a casa da Ulitza Ivatz Voivoda, 6 tem agora outros inquilinos. O que eu daria para lá ir espreitar! 

- Numa das representações, não me lembro se no primeiro ou no segundo acto, saltei uma das deixas o que atrapalhou quem contracenava comigo, felizmente sem que o público tivesse dado conta; no intervalo combinámos os dois metê-la como bucha numa das cenas da acção do acto seguinte, e assim foi. Recordo-me o autor feliz, quase aos pulos, a dizer-nos no fim: “O teatro é isto!” 

Cai (definitivamente) o pano. 

Para terminar sirvo-me de Kipling, não percebendo se aquele do If… ou o do Menino da Selva:
"Copiaram tudo o que puderam alcançar
 Mas não podiam agarrar o meu espírito" 

A)     Soube agora na net que trocou este estranho mundo, em Fevereiro de 2012, por outro que ele agora já conhece e nós não, onde o encontrarei para discutirmos, entre católico e muçulmano, sobre o porquê das coisas. Au revoir Yildirim, que la foudre soit toujours avec toi!

Abraço. 

Lisboa, 14 de Janeiro de 2016
Octávio Santos

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Ano Novo Vida Nova (nem no título me quis alargar hoje leiam que é rápido e não chateia ninguém Bom Ano Novo e Boa Vida Nova caso tenham coragem de estabelecer um programa e sobretudo cumpri-lo coisa que eu já sei não poderei fazer com o meu e nisso sou igual ao Costa).


 
Juro que desta vez também se não for desta quando vai ser é que vou cumprir tudo o que pus no rol das boas intenções para 2016 e vou escrevê-lo aqui lá isso vou para depois não poder arranjar desculpas tipo unha encravada pneu furado ou caganeira merdeira que essas já toda a gente sabe que são de mau pagador e eu que sempre paguei tudo com juros altos e língua de palmo não me ia pôr agora a borrar a pintura e a desfazer o mito de pessoa séria que não sou só porque um andaço de preguiça me colou à televisão em pijama ou porque a sesta se prolongou para além do lícito e higiénico assim vou fazer uma lista para que me possam chamar aldrabão por falta de cumprimento e sem falar da multiplicação das idas ao ginásio e de passar a beber água em vez de outros líquidos com ou sem bolhinhas sempre com açúcar para além da crónica do blogue que está garantida todas as quintas-feiras até 2043 também é fácil a ver pela de hoje que me levou em desespero de causa por falta de assunto a sentar-me e estar aqui a seguir a caneta sem interferência do cérebro tanto que estou a pensar que deveria estar a fechar as contas domésticas de 2015 para saber em que devo cortar em 2016 para não chegar ao fim com saldo negativo como o país mas tenho esta obrigação pronto a culpa é dos poucos pouquíssimos leitores que ainda me seguem como caçadores de pegadas de dinossauros na Lourinhã mas hoje estou a ver se os faço desistir por falta de fôlego para  me sair desta airosamente como sempre escapo de tudo muitas vezes pelo buraco da agulha daquele por onde nem os camelos passam quanto mais os burros mas ia fazer a lista e já me pus a sair da minha estrada que desconfio não vai dar a lado nenhum só sei que tenho de escrever o livro sobre o Juvenil do Diário de Lisboa que já está todo dentro da cabeça e não me vai custar 15 euros por digitalização de página na Fundação Mário Soares mas 1,16 euros na nova Hemeroteca do Fernando Medina tudo socialistas mas parece-me que terei de comprar uma caneta nova que não seja independente e fútil como esta e outra também para pôr em letra de forma um repertório anotado das Notas do Dia que escrevi para os colegas do então icep com letras pequeninas entre Outubro de 2004 e Janeiro de 2005 que a encontravam quentinha todas as manhãs no pc e que já tenho também alinhavado na caixa dos pirolitos que bole e rebole se entretanto o Sr. Alzheimer não os beber todos na ânsia de ter de fazer agora e aqui a lista das intenções mas tenho de as pôr em fila para saírem uma de cada vez sem se atropelarem a outra coisa é ou seria a de arrumar tudo o que tenho apanhado por aí com a vontade de construir qualquer obra de arte pobre a partir do quase nada e ainda a de pegar em quatro telas de um metro por um metro para fazer a minha primeira pintura uma coisa que fosse assim entre o nada e coisa nenhuma mas que visto ao longe à distância dos pés da cama tivesse uma harmonia cósmica que me ajudasse a dormir  e a sonhar com outras coisas que fosse possível transpor para a realidade mais um tronco em forma de cabeça de cavalo que apanhei num rego de água na fronteira entre o Alentejo e o Algarve ou seja entre o Crato e o Pego Amarelo e que sempre que olho para ele me vejo a traficá-lo com seixos e conchas que apanhei numa praia daquele mar onde ultimamente enterramos os filhos dos outros mas lá estou eu outra vez a tentar entrar em portas fechadas que dão para a escuridão quando tenho tantas abertas à minha frente cheias de luz também me lembrei de escrever um romance histórico à José Rodrigues dos Santos para fazer umas coroas para além dos tostões que faço com o gás e o bacalhau mas não tenho negros mas mesmo que os tivesse não saberia por onde começar já que não sei nada da história senão aquilo que os protagonistas nos contam o que é quase sempre mentira pior se forem os vencedores a fazê-lo porque a primeira mentira é a de que há o lado dos bons e o lado dos maus quando são alcateias flutuantes que se misturam para confundir os historiadores e também para mim fazer história não é quando se realiza aquilo que tive a ousadia de prever  para poder dizer vejam como sou bom e ajudo a fazer a história mas pelo contrário quando sou desmentido pela realidade  o que acontece quase sempre e passo ao lado da história feita pelos que não falham ou se falham é sempre por culpa dos outros e por isso desisti lembrei-me também ao ver  na exposição de pintura espanhola no Museu Nacional de Arte Antiga umas naturezas mortas do Goya de fazer uma não pintada mas uma cena tipo colagem com coisas como nozes e avelãs rebuçados uma caixa de vinho do Porto um cesto com um pano de cozinha com ervas e ramos secos talheres oxidados barros miniatura roubados ao presépio já que não posso pendurar uma codorniz morta por perigo para a saúde pública mas sim umas cascas de caracóis e uns escaravelhos secos pensei também escrever sobre Mulheres mas quem se atreve a escrever seja o que for sobre um demónio sem o qual a vida seria um inferno? 
 

Abraço. 
 

Lisboa, 7 de Janeiro de 2016
Octávio Santos
 

PS: Como a morte é uma doença que ataca muito durante as festas e contaram-me de um que tropeçou num travessão saltou um parágrafo e estatelou-se na nova linha não havendo nada a fazer evitei pontos  vírgulas e casamentos entre ambos resumindo-me ao ponto de interrogação final esperando não vir a embater nas vossas reticências.