quinta-feira, 14 de abril de 2016

Gosto, não gosto, muito, pouco, nada…


Gosto de me sentar para escrever depois de escolher bem a caneta adaptada ao teor do texto, verificar a cor da tinta, e certificar-me se é suficiente para o que tenho para dizer.

Não gosto de me sentar para escrever e constatar não ter nada de jeito para dizer, o que é notoriamente o caso de hoje.

Gosto de espalhar à minha frente, na mesa de trabalho, todos os jornais, revistas, recortes, notas e rascunhos que me servirão para copiar as coisas que vos impinjo.

Não gosto de comer nêsperas ao pequeno-almoço e ler na embalagem “Nisperas-Pequeños bocados de gran sabor”, quando, por insípidas que eram, só se distinguissem de batatas pela cor e pelos caroços.

Gosto de saber que a Zona Franca da Madeira não tem, nem de perto nem de longe, nada a ver com o que se passa nos outros off shores, Panamá incluído, simplesmente porque não é um off shore, e que as inúmeras empresas que lá se registam o fazem pelo clima ameno da ilha e pela Festa da Flor. De um romantismo desarmante.

Não gosto de saber que quem afirma o que reportei no parágrafo anterior, sabe de estar a mentir e que o faz por interesses pessoais. Lobo escondido a conselho do Estado.

Gosto de saber que há uma empresa produtora de videojogos - Molleindustria - que actuam como remédios homeopáticos contra a vigente idiota loucura dos tempos. Exemplos: “Tamatípico”, um tamagochi virtual que critica o trabalho precário, “Oiligarchy”, que põe a nu os meandros da indústria petrolífera, “Faith Fighter”, sobre a guerra das religiões, ou ainda “Pedopriest”, sobre a pedofilia na igreja católica. Pode-se dar ao polegar com utilidade.

Não gosto de saber que há milhões de chineses, especialmente de minorias étnicas de zonas rurais, os Miao, os Dong e os Yao, que estando à margem do desenvolvimento económico do país, estão a ser arquivados à força em arranha-céus em cidades onde não sabem viver e, por isso, votados a uma morte lenta, sem terem ao menos, para alívio do seu infinito desespero, um Mediterrâneo para morrerem ao tentar atravessá-lo.

Gosto de saber que não chegaram ainda a Portugal os vouchers de trabalho que já circulam aos milhões por essa Europa fora: o empregador vai aos correios, ou à tabacaria da esquina, e compra um voucher de 10 euros com que pagará uma hora de trabalho ao eventual trabalhador que, após a sua prestação e com o dito cujo devidamente obliterado, passa pelos mesmos locais de emissão levantar o fruto do seu trabalho que, após os descontos para a Segurança Social, para o IRS, para o Serviço Nacional de Saúde, para despesas burocráticas e para o legítimo lucro dos distribuidores, se reduz a cerca de metade. Tudo legal, como os off shores, transformando uma geração de precários numa de voucheristas, sempre rasca generation, para usar um anglicismo!

Não gosto que se ponham os meninos e meninas das escolas portuguesas a brincar ao faz de conta com as mochilas dos refugiados, e que o Senhor Presidente da República ajude a oficiar essa liturgia. Pareceu-me imoral, para usar uma palavra contida, ter de ouvir a menina Joana Vasconcelos dizer que meteria nela as suas jóias portuguesas, uns novelinhos de lã e agulhas para se entreter, esquecendo os tampax (Pocket Pearl, desta vez) para o caso de lhe apetecer fazer um lustre para iluminar o campo de Indomeni; bem os phones para ouvir música e os óculos escuros para ver o menos possível, sem esquecer uma mola da roupa para tapar o nariz que não suportaria os cheiros que reinam em todos os locais onde os verdadeiros refugiados se amontoam como animais, tratados sem respeito nem dignidade.  Acontece que a televisão nos mostra todas as desgraças, facultando-nos a banda sonora, mas não dá ainda para nos revelar os odores que, por si só, tornariam inabitáveis as nossas casas. Mas isso que importa às nossas “criancinhas” fofas e rechonchudinhas que têm as câmaras da televisão à disposição para debitarem as suas alarvidades?

Gosto de saber que se começou a escrever sobre aqueles que nos países ditos de acolhimento, estão a encher os bolsos com o negócio dos refugiados; mais lucrativo que o da droga, no dizer de alguém apanhado numa escuta telefónica. “Prophugopoli” foi o título do livro que encontrei, que trata de Lampedusa e da rede de traficâncias que daí irradia.

Não gostei de saber, pela boca de um especialista, que um dos orgulhos gastronómicos nacionais, o fumeiro, é um dos principais responsáveis pelas despesas com saúde pública neste país e pelos lucros da Servilusa. Mas vá lá um incauto cidadão repeti-lo nas feiras e feirinhas do Portugal em Directo! Traidor à Pátria seria o mínimo que ouviria.

Gostei, por falar em Lampedusa, do aspecto “gatopardesco” do Congresso do PSD: mudar tudo para que fique tudo na mesma. Desde a minha experiência búlgara que não via eleitos com 95%, mas pelo menos temo-los fora da circulação por uns bons quatro anos. A austeridade até a pachorra nos levou.

Não gostei de saber que os medicamentos que tratam o maior órgão do nosso corpo, que é a pele, não têm qualquer espécie de desconto ou merecem reembolso por parte de quem deveria tratar-nos da saúde. Como estão de moda os seguros de saúde para animais, é como se dos mesmos fossem excluídos os pescoços das girafas e as trombas dos elefantes, contemplando só os cérebros daqueles irracionais com eventual queda para a política, que não é uma espécie em vias de extinção.
 
Gostei, e partilhei, da indignação geral pela morte, por incúria médico-veterinária, da cadelinha Amélie de Maria João Bastos, que tendo sido internada numa clínica para uma destartarização com extracção dentária, acabou por morrer por motivos ainda não esclarecidos. Declarou a popular actriz que “os animais, tal como os seres humanos,  devem ser tratados com respeito e dignidade. São, e a Amélie era, um membro da família”. Entretanto foi instaurado um inquérito para apurar responsabilidades.
 
Não gostei de ouvir, após a morte do lutador português de Artes Marciais Mistas (MMA), João “Rafeiro” Carvalho, por lesões sofridas durante o combate que travou em Dublin com o atleta irlandês Charlie “The Hospital” Ward, seja o seu treinador Vítor Nóbrega - também responsável pelo Nóbrega Team – dizer que “foi uma fatalidade difícil de prever”, que “foram cumpridas todas as normas de segurança” e que “a arbitragem seguiu todos os procedimentos correctos e habituais”, seja o seu colega de equipa Filipe Catanho afirmar que as imagens que vimos do combate “são comuns” embora “possam parecer violentas” para quem não conhece a modalidade, acrescentando que os jovens lutadores “devem ter em atenção que ninguém deixou de jogar futebol quando Féher morreu”. Edificante, especialmente após o Ministro do Desporto da Irlanda ter declarado que “já tinha visto o perigo destas situações surgir há dois anos”, que “claramente existe um problema”, e que iria reunir-se com  os responsáveis da Agência Nacional do Desporto “para ver o que é possível fazer para regulamentar (A) este desporto”. Entretanto foi instaurado um inquérito (na Irlanda) para apurar responsabilidades.

Gostei muito de ter passado aqui  hora e meia a vasculhar papéis para desencantar estas coisas para vos contar, mas no fim…
 
…não gostei mesmo nada desta crónica por achar que os leitores teriam merecido muito mais, mas foi o que se pôde arranjar.
 
 A)  O MMA é uma modalidade de combate que mistura técnicas das mais variadas artes marciais, com reduzida protecção (luvas de dedo aberto, coquilha e protector bucal) e elevada violência, mas com linhas vermelhas que não podem ser ultrapassadas – cabeçada, dedo no olho, morder, puxar cabelo, beliscar, arranhar e cuspir no adversário, ataques à coluna e parte de trás da cabeça e joelhadas na cabeça de um adversário que esteja no chão (cotoveladas são omissas).
 
Abraço. 

Lisboa, 14 de Abril de 2016
Octávio Santos

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Fugas à realidade com Sara Sampaio (que vestirá os meus T-shirts), instalações, seguros, queijos, supermercados, bancos (de jardim e outros menos garantidos), electrodomésticos, bacalhau, vinho e gás butano e propano, I’m available for all, netos ausentes para histórias sem nexo, com gatos e torradas, leis de um Newton da Picheleira, nem João Ratão nem Piu-Piu, mas Mozart e Pavarotti em prestação melódico-canora para um Director que bem podia ser da terra de Ângela Merkel. Fim em fade out para fiéis cães vermelhos em fila (não porque fossem chineses).


Descobri ultimamente várias maneiras de fazer intervalos na realidade, isto é, de a ela fugir ou pelo menos subtrair-me momentaneamente, inventando-me aquilo que não sou, umas vezes escriba - prosa, poesia, teatro -, outras bloguer, eu que sou alérgico a redes sociais, outras ainda artista plástico - colagens em 2 e 3 dimensões com tudo o que me vem à mão -, recentemente estilista de moda, inspirado naquele T-shirt de que vos falei no meu e-mail de 16 de Março (A), estando agora a preparar a colecção de Primavera/Verão, e até palhaço só porque alguém na rua me achou com cara disso, tendo até agora dado essa cara (muitas vezes de costas, mas sempre a cara) para a Fidelidade, Limianos, Jumbo, Santander, Continente, Worten, Riberlaves, Esporão e Rubis Gás, isto após uma boa centena de castings - 9/10% de êxito - o que, no dizer da minha Agência - a mesma da Sara Sampaio - é mesmo muito bom.
Assim, nesta segunda-feira, 4/4, lá fui a mais uma prova, mimar “ um avô com idade 65/70 com bom ar, expressivo, simpático e que consiga contar uma história e envolver-nos emocionalmente”, durante a qual tive de contar uma história a um neto virtual, isto depois da habitual apresentação, com sorriso e sem sorriso, com óculos e sem óculos, pirueta à esquerda pirueta à direita, 1,67 de altura, 72 anos (uma vez troquei mas não por lapso freudiano, apenas porque seria bom), 50, 44, 40, 41, avelã, grisalhos, and I’m available for the scheduled dates for shooting, e lá me pus a contar a história para uma cadeira vazia ao meu lado:
“Já sabes que o Avô é um aldrabão, a história não é verdadeira mas vou-ta contar à mesma: acreditas que consegui fazer levitar um gato? Não te rias mas foi assim. Sabes que os gatos caem sempre sobre as patas, nunca viste um gato cair de costas pois não? e que  uma fatia de pão com manteiga cai sempre com o lado barrado para baixo, não é? Baseado nestes princípios sagrados barrei uma torrada com manteiga, amarrei-a no lombo do bichano com a manteiga para cima, subi para cima de uma mesa e deixei cair o estranho binómio e não é que, talvez para não desmentir as leis da física, o gato ali ficou a um palmo do chão, levitando, sem saber que atitude tomar. “
- Boa! - disse o operador de câmara, conte lá outra, um pouco mais expressivo se faz favor, sem esquecer que tem o miúdo aí ao seu lado. Engoli em seco, e lá saiu esta:
“Um homem andava há anos a preparar um número de circo e, quando achou que estava perfeito, apresentou-se na grande tenda do maior circo do mundo pedindo para falar com o Director. Depois de muitas negas - no circo há burocratas que não são nenhuns palhaços - lá entrou no gabinete do Director, entre a jaula dos tigres e a roulotte da mulher barbuda, o qual sem sequer olhar para ele lhe atirou um - Vá lá mostre ao que vem, mas seja rápido! Então o homem tirou de um dos bolsos do casaco um pianinho de cauda, do outro um banquinho de piano, colocando ambos em cima da secretária do Director; da algibeira das calças apareceu um ratinho branco que, correndo, se sentou no banquinho, ajeitou o rabinho como se fosse a cauda de um fraque e começou a aquecer as mãozinhas, enquanto que do colete voou um pardalito que foi direitinho poisar em cima do piano, e aí o Director levantou finalmente os olhos dos seus papéis resmungando um – E então? Então o nosso homem disse para o ratinho – Toca, Amadeu! e o ratinho começou logo a tocar um lead de Schubert, Schumann ou Brahms, o que fez com que o Director abrisse a boca de espanto e perguntasse: - E o passaroco? – Canta, Luciano, ordenou o homem, agora feliz, e o pardalito abriu as asinhas e começou a cantar com uma voz melodiosa cheia de requebros. - Parem tudo, já chega, gritou o Director com os olhos esbugalhados, pondo à frente do dono dos animaizinhos um contrato em branco para ser assinado, repetindo entre o nervoso e o exaltado: - Escreva aí a soma que entender e o prazo que lhe convier que eu assino por baixo, mas com uma condição: tem de me dizer qual é o truque, senão nada feito. O nosso bom homem ainda tentou balbuciar que era tudo verdade, que lhe tinha dado muito trabalho chegar àquele resultado, tudo sem truques nem artimanhas, mas perante a fúria insistente do Director que ameaçava rasgar o contrato, lá inventou esta para não perder a oportunidade da sua vida: - Sabe Senhor Director, é que o pardalito não canta, é o rato que é ventríloquo!”
Não sei se vou ser escolhido ou não após esta prova, mas não importa porque já tive oportunidade de vos contar estas histórias, pondo-vos no lugar do neto que não estava. Lembrei-me agora que após a minha primeira participação, que ocorreu no Jardim da Estrela em cima de um banco com uma poesia lindíssima do poeta Anrique Paço d’Arcos, e foi aquela dos cães vermelhos da Fidelidade, que até irritou o PAN, cheguei a casa e escrevi isto, por acaso também sobre um neto, obviamente falso:
Fidelidade ou Só os cães vermelhos são fiéis   

De costas sou outra coisa.

Melhor. Muito melhor!

Sobretudo para os Netos.

Neste caso, Tomás, o falso,

Que chorava a comando

No intervalo do riso que lhe provocavam

O chorrilho de banalidades 

Que inventava para que estivesse quieto.

- Na próxima cena, em vez de soprar, cuspo-te no joelho!

E o cão, vermelho de provocar Jesus

E os seus seguidores

Levantava os olhos para mim

Não para o menino com dói-dói no joelhinho...

Cão, mesmo maquilhado, não é estúpido.

Sabia que na minha mão esquerda

Escondida das câmaras

Havia comida que lhe ia dando

A coberto dos cortes da montagem.

Ali, no jardim da minha infância

Onde o meu Avô jamais me soprou uma ferida,

Admitindo que se sentasse comigo no banco do poeta

Porque os meninos pobres não tinham bicicleta.

No meio da confusão do caravanserai instalado no meu jardim

Olhava a minha Basílica

Que nunca foi minha, porque nela não me baptizei.

Minha só pelo fixador com que domava o penteado

(O Tavinho tem um remoínho)

Para o Santo Sacrifício da Saída da Missa.

Mil novecentos e cinquenta e cinco.

A dois passos da Travessa do Moínho de Vento, 23.

Depois casei uns irmãos em sessenta e três

E velei uma Avó em sessenta e seis.

E mais nada.

Dezenas de figurantes sofriam o olhar arrogante

De quem os escolhia ou afastava.

- Não tem outras calças? - Esse t-shirt não sff!

Não sei porque me calçaram uns sapatos de vela verdes

Dois números acima.

Não sei porque me empoeiravam a fronha de dez em dez minutos.

Sei que a menina bonita que passa de bicicleta 

Com o vermelhinho no cesto

Atravessava o Largo da Estrela

Cada vez que mudava de calças para calções

Ou vice versa

Por ordens de quem sabia do assunto

Para ir ao encontro do seu Homem

Que cavalgava uma moto assustadora

E estava ali em missão de vigilância.

Sei que o Avô Ica e a Avó Toina

Passam agora o tempo diante da televisão

Para ver o Tomás, Neto deles

A ser consolado por um Avô de pacotilha

Que o Tomás nunca esquecerá

Porque lhe disse que o Vasco da Gama era de Sines

Terra dos seus Avós.

Aqueles verdadeiros.

A Mãe, só,

(o meu pai vive na Amadora e a minha Mãe nas Colinas do Cristo Rei)

De aparelho nos dentes, olhava embevecida,

Qual Nanarella em Bellíssima,

Um Tomás desembaraçado, descarado e saltitante

Que era (é) o seu orgulho.

- Agora não leve esta camisa consigo; é uma Armani!

Não respondi porque preciso de quanto vou ganhar

Com aqueles dois segundos de inutilidade

Felizmente de costas.

Tenho um Filho desempregado com Filhos,

E a humildade de quem precisa foi mais

Forte que a arrogância da resposta que engoli.

Temos de ter Fidelidade a qualquer coisa!

Mesmo que nos pese.

Agradeço todos os dias, que me permitam

Atravessar quatro vezes por dia os portões das Necessidades.

Por elas...

 
Fim.

A)   Acabo de poupar 74,05 euros, e explico como: vejo no corner da Zadig & Voltaire, no El Corte, uma T-shirt branca, 60% algodão/40% Modal, cheia de buracos feitos a corte de tesoura ao preço de 80,00 euros. Peguei-lhe, achei piada, mas realmente o preço era um exagero, ainda por cima Made in India, só se justificando pela etiqueta que arvorava o nome do inovativo e prestigiado brand gaulês. Não é que passo no corner da Easy Wear e dou de caras com uma T-shirt em tudo idêntica salvo os buracos, 100% algodão, Made in Omisso, ao preço de 5,95 euros.  Compro-a, chego a casa,  agarro numa tesoura e, sem qualquer custo adicional exceptuando a mais valia artística, ponho-a igualzinha à da marca francesa que mais parece o de uma sociedade de advogados.  E mais: peço à Manuela que lhe cosa uma etiqueta da Guy Laroche-Paris que tirei de uma gravata minha que desmanchei para usar numa colagem que estou a arquitectar et voilá, um dia destes vão ver-me por aí a laurear o queijo com uma T-shirt francesa - a etiqueta do lado de fora, bien sûr – à moda, dernier cri!

Abraço.

Lisboa, 7 de Abril de 2016 (os meus Pais fariam hoje 76 anos de casados e eu ando a treinar).
Octávio Santos

quinta-feira, 31 de março de 2016

Crónica engendrada num Jardim das Oliveiras cheio de Judas a fugir da figueira, pobres benfeitores, cães e camelos, fracções impróprias e palavras à toa, filmes e sonhos, arte pobre e falafel, o futebol é uma nação (o Brasil), Luaty contra Isabel, eixo Madrid/Luanda “Portugal é nosso!”. Vagueamos todos nos Passos Perdidos.

Quando comecei a engendrar esta crónica - post,  para os entendidos - no parque de estacionamento dos Inválidos do Comércio que, por ser Páscoa, chamo Jardim das Oliveiras, na triste tarde de sábado sob uma chuva não só molha parvos porque, para além de eu estar dentro do carro, caía se Deus a dava, ouvi uma voz que me dizia “se a fizeres bem dou-te um vintém, se a fizeres mal dou-te um real”, repto que aceitei porque não sou venal e tenho a sorte de ter uma reforma, que até foi aumentada, ao contrário dos quarentões e cinquentões (homens e mulheres, não vou nessa dos portugueses e portuguesas) que, se tiverem a sorte de ainda ter trabalho não sabem se a terão, quando a terão e a quanto amontará caso a venham a ter, mas se não tiverem essa sorte nunca mais a terão vendo os seus postos de trabalho ocupados por jovens estagiários felizes na precaridade de mostrarem o que valem por um vintém ou um real, ou mesmo à borla, que são os próprios Pais a empurrá-los de casa para o mundo virtual do trabalho que, segundo os novos cânones (A), é muito lucrativo para quem está a aproveitar das novas regras, medrando. Eles medram e os outros, com respeito falando, merdam, ou seja, para os mais biqueiros, patinham na merda.

Aqui, sem rede, à procura de assunto para me livrar desta, lembro-me que ouvi o Frei Fernando Ventura dizer Sexta-feira Santa na SIC que “os pobres dão de comer a muita gente” e que “é necessário distinguir quem está ao serviço deles e quem se enfeita com eles”. Os cães ladram e a caravana passa mas, ou os cães que ladram não mordem ou a caravana é composta por grandessíssimos camelos, o certo é que pode acontecer que os cães estejam narcotizados e que os beduínos sejam mais camelos que aqueles que montam, como acontecia quando andava no liceu e chamávamos fracções impróprias aos GNR a cavalo porque, dizíamos nós, a maior besta estava por cima. Mas esta de pôr em fila palavras à toa leva-nos à geringonça, à caranguejola e à passarola, usadas agora na Assembleia da República, tanto no hemiciclo como nos passos perdidos (B) e repetidas à exaustão nas diversas caixas de ressonância de S. Bento, RTP, SIC e TVI. Como ultimamente só me saem é duques e que há dias em que mais valia encher um pé de merda, não sei se preferiria viajar numa caranguejola ou numa passarola, dependendo do caranguejo ou da pássara que nelas embarcassem para nos fazer companhia, como me disse um dia destes um velho ginja que eu conheço de ginjeira.  

Por falar de ginjas, certo que as palavras são como as cerejas, e fazendo atenção aos curadores da nossa desengonçada, mal enjorcada, pirosa e desconchavada televisão, ouvi falar no novo filme “Batman contra Superman” e fiquei piurso porque me roubam sempre as ideias, há um ror de tempo que sonhava com “Rambo contra Rocky”, projecto posto de parte porque o Silvester Stallone exigia fazer os dois papéis, não aceitando que o Balboa fosse interpretado pelo Joaquim de Almeida, porque não o via a gritar pela Adriana com aquele ar de trolha da Bouygues na “Gaiola Dourada”. Os meus sonhos morrem todos antes que eu acorde, mas já me resignei porque o essencial é que continue a acordar; os sonhos, esses, logo se verá. 

Todos sabem que se me meteu agora na cabeça fazer obras de arte pobre e, passando pela nova loja “Tendências”, aqui na 5 de Outubro logo ao virar da esquina da Miguel Bombarda como quem vai na direcção da “In’Canto” (mini SPA ZEN) ou da “Fascínio” (bric-à-brac chinês de pacotilha), que têm agora entre elas a "Casa do Kebab" (ghiros e falafels), vi na montra o esqueleto ferrugento de um colchão de molas a servir de cenário a trapos para senhoras, tudo rendas, crochets, flores de seda e penduricalhos, fui à arrecadação desencantar um penico de esmalte todo desbeiçado que era da minha Bisavó e, ao imaginar-lhe uma serventia artística, pensei dá-lo como taça à Selecção Portuguesa de Futebol após a derrota no jogo de Leiria com a Bulgária, 70ª da FIFA que humilhou as vedetas e o Melhor do Mundo com um goleco chocho de um brasileiro de aluguer chamado Marcelinho que só jogou, garantiram-me, para não nos ficarem atrás já que temos o Pepe, estando todas as selecções a tentar chegar ao nível daquelas da Guiné Equatorial e da de futsal do Kazaquistão,  que de brasileiros têm uma equipa inteira. 

Mas não era minha intenção falar-vos, nem de futebol, embora os nossos P.R., P.A.R. e P.M. tenham assistido ao Portugal-Bélgica, talvez porque hoje o cheiro dos mortos atrai, embora no jogo anterior já tivessem alinhado 11+6 moribundos entretanto reanimados para o evento, nem da Guiné Equatorial, para não me lembrar do que ouvi na segunda-feira na nossa televisão para desculpar Angola - digno parceiro do país de Teodoro Obiang Nguema na  CPLP - pelo caso Luaty e seus infrequentáveis companheiros, e o que ouvi foi falar de Guantanamo, de justiça à medida do poder em todos os países do mundo, mesmo os mais democráticos, só não se citando o caso Sócrates às claras, cordeiro escondido no forno com a língua fora da boca, que o melhor é estarmos caladinhos e aceitar tudo e, já que foi Páscoa, repetirmos alto para nós mesmos “quem nunca pecou que atire a primeira pedra”, o que dito por Jesus há 2.000 anos compreendemos e aceitamos, mas dito hoje só nos desilude e, pelo menos eu, não aceito da boca de curadores da amizade fraterna que une os nossos dois países que já foram, um de “terroristas assassinos de inermes e inocentes colonos” e o outro de “criminosos colonialistas exploradores das suas riquezas”. Para pôr um ponto final nisto lembrei-me de um cartaz de propaganda salazarista que rezava “Em Angola está-se” por baixo de duas mãos, uma preta e outra branca, que se apertavam num gesto de união; não me admiraria ver agora um outro que legendasse a face risonha da Senhora Dona Isabel ao lado daquela chorosa e aflita de uma vítima da freenança, com um garrafal “Em Portugal está-se (assim)”. 

Entristeço-me muito por não ter engenho e arte para seguir, quando escrevo, aquilo que disse Antoine De Saint Exupéry: “A perfeição atinge-se, não quando se tem qualquer coisa a acrescentar, mas quando já não se tem mais nada para retirar”, mas auto absolvo-me quando penso que chamar o nome justo às coisas é por si só um acto revolucionário. 

A)   Cânones resumidos por um Pharoleiro francês que dá pelo nome de Patrick Drahi em entrevista ao Expresso em 26/9/2015: “Eu não gosto de pagar salários. Pago o mínimo que puder”.  Alticemo filho da P.T.. 

B)   A propósito de passos perdidos, ouvi designar assim o Passos Coelho e o Luis Montenegro desde que o Marcelo está em Belém. 

Abraço.

Lisboa, 31 de Março de 2016
Octávio Santos

quinta-feira, 24 de março de 2016

Números e letras inúteis, romances constantemente procrastinados, Ítaca on Peniche, oragos do passado, massas não alimentícias, um anjinho em loja de santos, repertório de santas maravilhas não on-line, uma virgem em perpétua apneia, curadores/curandeiros, Marcelo, Jorge Mário e mais santinhos avulso.


No passado dia 16 acordei às 06.24 e, sem capacidade para pensar alguma coisa de útil, pus-me a jogar com os números 6, 16 e 24,  6x4=24,  4x4=16,  24-16=8,  4+4=8,  8+8=16, tudo certo, tudo par mas sem nexo, servindo só para preencher um vazio de criatividade porque se alguém  me  tem  pedido para escrever qualquer coisa eu não seria capaz, e aterrorizado, dei comigo a desfiar o rosário dos títulos dos livros que não escrevi, e aí veio-me em mente um  novo título para um romance sobre uma Mulher que espera – as Mulheres esperam sempre qualquer coisa -, que seria “Tu Ulisses ou Tolices”, tendo como subtítulos “Mas foi Penélope a heroína” e “História da espera de Maria da Pena Lopes”,  personagem inventada que habitava as Berlengas com um velho cego, um Filho inerme e um cão triste, à janela a remendar as redes de pescadores  de peixes e crustáceos que, sedentos de carne fresca, a assediavam, enquanto o Marido não descobria a maneira de se libertar de São Bento porque tropeçava em tolices que se sucediam àquelas que ele próprio debitava num crescendo diabólico em carrossel que lhe impedia a liberdade, tudo tão inútil como o meu joguinho com os números da madrugada de 16. No fim cheguei à conclusão que o único romance que eu estaria em condições para escrever seria um sem título, com todos os títulos possíveis mas descartados a cobrir toda a capa, e como nunca cairia na banalidade de escrever nada que começasse por “Era uma vez…” começaria inteligentemente com “Ponto Final”, o que me permitiria deixar todas as páginas seguintes em branco e poupar o leitor a mais uma desilusão literária como tantas que andam por aí, que seriam muito mais úteis se seguissem este meu figurino.
Tenho sorte porque estou a ler um livro útil e indispensável, “A Rebelião das Massas”, de Ortega y Gasset, cuja primeira edição data de 1930. O homem era de uma inteligência fulgurante e de uma presciência assustadora, como vos dei conta no meu e-mail da semana passada, permitindo-me repetir aqui quanto então escrevi:
- Lido no prólogo escrito em 1937 por Ortega Y Gasset para a edição da sua obra “A Rebelião das Massas”,  de 1930, permitindo-me eu o desabafo  “Gaita que o homem era bruxo!”:  

“Antes podia-se arejar a atmosfera confinada de um país abrindo as janelas que dão para o outro. Mas agora não serve de nada este expediente, porque no outro país a atmosfera é tão irrespirável como no nosso.”  

“…impõe-se necessariamente a probabilidade de um Estado geral europeu. A ocasião que leve de súbito a bom termo o processo pode ser uma qualquer: por exemplo, o rabicho de um chinês que se assome nos Urais ou um safanão do grande magma islâmico.” 

Só que, apesar, ou por causa, da sua inteligência e facilidade de explicar os fenómenos nascentes na sua época (entre as duas guerras), as duvidosas, para não dizer perigosas, ideias que lançou encontraram terreno fértil naqueles que, pretendendo incluir uma minoria predestinada a dominar a massa de “incultos” que não compreendiam o “maître à penser” e, como tal, seres inferiores, o que, a terem vingado, nos teria mantido nos séculos XVIII e XIX, tempos durante os quais  mandava quem tinha de mandar e obedecia quem tinha de obedecer,  pântano pregado ao longo da obra como salvador, usando de todos os subterfúgios semânticos para não o parecer. Ortega y Gasset é extraordinariamente convincente a impingir-nos que o que ele prega é sacrossanto, mas que cada um é livre de não o acreditar nem seguir; pena que essa nossa rebelião nos leve à desgraça e se cairmos nas ratoeiras que ele nos revela a culpa é nossa, senão vejamos: 

“ A multidão, de repente, tornou-se visível, instalou-se nos primeiros lugares da plateia da sociedade. Dantes, se existia, passava despercebida, ocupava o fundo do cenário social; agora passou para a boca da cena, é ela a personagem principal. Já não há protagonistas: só há coro.” 

“ Quer-se que o homem médio seja senhor. Então não se estranhe que actue por si e ante si, que reclame todos os prazeres, que imponha decidido a sua vontade, que se negue a toda a servidão, que não siga ninguém docilmente, que cuide da sua pessoa e dos seus ócios, que se esmere no vestuário: são alguns dos atributos perenes que acompanham a consciência de potestade. Hoje vemos que se encontram no homem médio, na massa.” 

“ O poder público sempre foi assim quando exercido pelas massas: omnipotente e efémero. O homem-massa é o homem cuja vida carece de projecto e anda à deriva. Por isso não constrói nada, mesmo que as suas possibilidades, os seus poderes, sejam enormes.” 

“ Os privilégios da nobreza não são originariamente concessões ou favores, mas, pelo contrário, são conquistas. E, em princípio, a sua manutenção pressupõe que o privilegiado seria capaz de conquistar em qualquer momento, se fosse necessário e alguém lhas disputasse. Os direitos privados ou privilégios não são, pois, posse passiva e simples gozo, antes representam o perfil aonde chega o esforço da pessoa. Por outro lado, os direitos comuns, como os « do homem  e do cidadão», são propriedade passiva, usufruto e benefício puro, dom generoso do destino com que todo o homem se encontra, e que não corresponde a nenhum esforço, a não ser o de respirar e evitar a demência. Eu diria, pois, que o direito impessoal tem-se e o pessoal sustém-se.” 

“ Por outro lado, é ilusório pensar que o homem médio vigente, por muito que se tenha elevado o seu nível vital em comparação com o de outros tempos, vai poder reger por si mesmo o processo de civilização. Digo processo, já não progresso. O simples processo de manter a civilização actual é superlativamente complexo e requer subtilezas incalculáveis. Mal pode governá-lo este homem médio que aprendeu a usar muitos aparelhos de civilização, mas que se caracteriza por ignorar de raiz os próprios princípios da civilização.” 

Poderia continuar a citar o livro, enchendo páginas e páginas,  mas penso que esta pequena amostra chegue para vos dizer o que queria dizer: que  o filosofo madrileno, que foi o divulgador  de um certo pensamento aristocrático que ainda hoje prevalece e talvez tenha agora, com tudo o que se passa à nossa volta, sofrido um recrudescimento que, mesmo que se possa tentar compreender, não se pode aceitar, não podendo o autor continuar a ser o seu curador através dos seus escritos que têm,  por isso,  de ser lidos com espírito crítico, muito crítico mesmo, para não termos de ir para um céu que não desejamos.  

Talvez por estar a ler Ortega y Gasset reparei que os seus livros, junto com outros do Papa Francisco, de Bento XVI, de Irena Sganovska, de Javier Echevarria, de Francisco Fernández-Carvajal, de Frei Luis Granada, mas sobretudo de Jesus Herrero, os quais se dedicam à crítica e comentário dos livros de Gasset, mas também àqueles de Torga e de Sebastião da Gama, com um incursão negativa por Saramago, estão nas montras daquela loja de santinhos, como lhe chamo eu, há 40 anos na esquina da Marquês de Tomar com a Barbosa du Bocage, junto com dezenas e dezenas de artigos religiosos, imagens do São Expedito ao Santo Padre Cruz de Alcochete, estatuetas de todos os santos conhecidos, do Menino Jesus de Praga ao Santo Padre Pio de Pietralcina,  redomas protegendo taumaturgos vários, crucifixos, taos, terços, presépios e outros objecto de fé para crianças,  tudo recortado a laser em contraplacado fininho, velas e círios, registos todos feitos à mão - 110 euros o mais caro -, tudo isto à volta de uma fotografia, brinde de 12 tipo passe,  um pouco descolorida, de um Senhor bonito e bem posto que foi proprietário do estabelecimento até 1996, ano da sua morte com 77 anos, passando a gerência à sua Viúva, a Senhora Maria, hoje com 85 anos, que me disse que a morte do marido foi como se lhe tivessem tirado o ar, e à Fátinha, Filha do casal,  que me contou,  fixando-me com aqueles olhos lindos que tem, que o Pai era Doutor e foi Professor da Escola Machado de Castro, e que tem  um Irmão também ele Doutor,  mas advogado.  

São estas duas Senhoras as curadoras das poucas almas da Freguesia das Avenidas Novas que continuam a frequentar este templo do passado que, mesmo assim sendo, é importante para o presente porque é indispensável preservar tudo como elas o fazem numa loja que não pode morrer embora não venda nada de útil,  convidando eu os leitores a visitá-lo: entrem com curiosidade crítica e, vá lá, mesmo mórbida, porque sairão com algum pequeno tesouro que lá encontrem. Desses tesouros sobressaem os citados registos que, votados à adoração dos santos, são pequenos altares ou ex-votos que, para as proprietárias da loja e para aqueles poucos que talvez os comprem, são também espelhos-relicários da sua fé.  Chamei a atenção da Fátinha para o facto de um registo de Santo António ter a menção “Sto. António de Pádua”, o que visivelmente a incomodou, e a mim me fez arrepender mil vezes o reparo, tendo-me dito que era um lapso da senhora que os faz e que iria reclamar o imperdoável erro. Tive a tentação de comprar uma tabuinha com um anjinho da guarda papudo com asas e tudo que tinha escrito por baixo:  

          Anjo da Guarda
          Minha companhia
          Guarda a minha alma
          De noite e de dia.


No fim limitei-me a adquirir os santinhos que compõem a imagem de hoje, um português que não é santo (Cruz), um italiano santo de há pouco (Pio), e um luso-italiano santo de há muito (António). Comprei ainda outro, S. João de Brito com dois africanos semi-nus ajoelhados perante ele, com a seguinte legenda: “Quero mais os matos do Maduré que os Paços do Rei de Portugal”. Daqui em diante passarei a dizer a Loja das Santinhas. 

Lembrei-me agora que o nosso PR levou como oferta ao Papa Francisco, na sua primeira viagem ao estrangeiro, para além de paramentos litúrgicos desenhados por Siza Vieira, um registo de Sto. António que, pertencendo-lhe, fazia parte da decoração da sua casa. Marcelo Rebelo de Sousa, curador da fé através de um grande Santo adorado, e disputado, por duas Nações. Tenho de passar a curar-me com mais atenção, dispensando os serviços de  curadores externos, sempre com tendência para curandeiros. 

Abraço.

Lisboa, 24 de Março de 2016
Octávio Santos