quinta-feira, 26 de junho de 2014

Morreu a escrita criativa e a poesia foi às urtigas; resta o Brasil, terra da promissão onde os Manuéis e Joaquins construíram um futuro, hoje já sem nós, centro de um mundo redondo não achatado nos pólos.


Sento-me para escrever qualquer coisa que jeito tenha, com a mesa de trabalho repleta de papelinhos com notas que fui tomando durante a semana, mas as coisas tornam-se confusas, os factos e os não-factos anotados entrechocam-se, o que ouço na rua, nos transportes públicos, no supermercado, em locais sérios onde fala gente séria e na televisão, não tem nexo ou desmente-se a si mesmo, como se as pessoas não tivessem memória ou fosse melhor não tê-la para continuarem a fingir viver neste faz de conta de purgatório que nos arranjaram, local de sobrevivência a recibos verdes para quase todos os que ainda têm a sorte de ter trabalho e de reformas de miséria para os que já não podem trabalhar, com a ténue esperança de atingir o céu onde se deleitam os poucos que arquitectaram tudo isto, expiando-nos lá de cima e decretando pontualmente quantos e quais às pazadas devem ser deixados cair para o inferno, e a conta-gotas os que, por apelido ou manha, podem elevar-se às delícias do seu habitat, porque poderão, talvez mais tarde,  ter préstimo para qualquer operação que lhes saia do BEStunto e  onde não queiram sujar as mãos.

Quando trabalhava, ou fingia fazê-lo, era uma chatice ter de escrever relatórios claros e circunstanciados, que muitas vezes se viravam contra mim por ter lá pespegado com tudo o que tinha visto e ouvido, como um principiante sem 52 anos de trabalho às costas. Mal me libertei destas inúteis, estúpidas e, para mim, prejudiciais e não lucrativas obrigações, a primeira vez que fui livre de não escrever  sobre um acontecimento onde estive presente, veio-me à cabeça de o contar não por escrito, mas com uma colagem que depois deu em poster, e falo do III Congresso Internacional Fernando Pessoa, ao qual me referi no meu texto de 12 de Dezembro de 2013, intitulado «Fim de semana do “Desassossego”». E assim me divirto nesta minha nova “dolce vita”.

Sem veia inventiva começo já por desmentir o título  e volto à escrita criativa e, sobretudo, ao “binómio fantástico” de Gianni Rodari,  a propósito do piquenique da Avenida da Liberdade, festa campestre promovida por um dos donos da ditosa Pátria sua amada (pudera!), que tantos protestos levantou vindos dos lojistas ultraricos que apostaram em transformar o velho Passeio Público em  Champs-Élysées, via Montenapoleone ou Kartner Strasse da parvónia, e têm agora de suportar o cheiro a estrume de vaca, a brunidura de porco alentejano e, sobretudo, a português mal vestido e suado em busca de uma entremeada, uns coiratos,  uma bejeca  ou do Toni  Carreira (tudo coisas que só lhe fazem mal), coitados deles que já suportam todos os dias os “sem abrigos” que habitam, isto é, comem e bebem, descomem e desbebem, e dormem nas soleiras das suas montras e portas douradas. Protestos justos e sacrossantos, já que, com franqueza, descer a Avenida da Liberdade, de dia ou de noite,  e ver o espectáculo destes portugueses, não de segunda como no tempo da outra Senhora, mas de quarta ou quinta, a despromoverem o turismo milionário que ronda as portas da Prada, Boss, Armani, Cartier, Villebrequin e mesmo Fly London (compra o que é nosso!), é altamente degradante por  antipatriótico. Será que estes piegas preguiçosos não se lembram que é necessário, para o seu próprio bem estar, atrair investimento estrangeiro?  E foi por ter visto um destes sem vergonha a coçar os pelos do púbis (tão inspiradores do Dr. Catroga) na selecta avenida, que peguei no “binómio fantástico” que fecha o título de hoje,  “achatado nos pólos”, e pensei que o incómodo e abusador comichoso, não estivesse a coçar-se só por provocação à sociedade que o evita,  ou vingança contra quem criou todas as condições necessárias para o empurrar para aquela  situação, mas simplesmente por que tivesse “ chatos nos pelos”. Tão simples como isso! 

E já que fui ao título buscar assunto para não vos deixar sem texto, agarro-me desta vez à boia dos Manuéis e dos Joaquins, nomes que no dizer dos brasileiros eram os únicos dos portugueses que chegavam ao país em busca da árvore das patacas, embora eu tivesse tido um Tio paterno chamado Edmundo que para lá rumou nos anos 20 do século passado, trabalhou nas árvores da borracha sem encontrar a das patacas,  regressando à pátria ainda jovem com uma mão atrás e outra à frente.  Mas não são só os brasileiros que gozam com os nossos nomes, pois por cá gente há, e daquela que conta,  que se pode permitir dizer em público coisas das quais se deveriam envergonhar, ou pelo menos pedir desculpa. Assim, ouvi há tempos na televisão - todos aqueles que contam vão à televisão – o Professor Valadares Tavares, que soube depois ser também Visconde, dizer, a propósito da política de austeridade, para ele justa, ser natural que o Senhor Santos da mercearia não percebesse o alcance dessas políticas e contra ela se rebelasse;  já tinha esquecido o episódio, ou pelo menos arquivado no rol das imbecilidades com que todos os dias alguém nos brinda, não fora vir agora, sempre na televisão, o Professor Marcelo Rebelo de Sousa declarar que o problema do Rei D. Juan Carlos eram os Silvas, referindo-se aos reais genros plebeus e com fama de pouco honestos. Gostaria de ouvir estas duas respeitadas figuras da cena nacional, ambos Professores com apelidos de peso, repetir estes mimos durante um qualquer evento na Fundação Calouste Gulbenkian, na presença do seu Presidente, Artur Santos Silva.

Voltando ao título, já que não tenho outra fonte onde pescar inspiração, relembro que o problema da 4ª melhor selecção do mundo, a mesma que tem o melhor jogador do mundo, está muito a montante das quatro linhas e de quanto lá se passa, e senão vejamos só três coisitas sem importância:

- Todos ouviram à exaustão as elegantes declarações do Presidente do SCP, Bruno de Carvalho, a propósito das eleições para a Presidência da Liga de Clubes; achei tanta graça que até escrevi a quente um papelito sobre o assunto;

- Um dos nossos centrais, o naturalizado Pepe, que já no seu clube, o Real Madrid, deu, num momento de nervosismo normal em qualquer atleta, seis pontapés na cabeça de um adversário caído por terra, para além de outros episódios reveladores do seu temperamento, continua a ser convocado e a fazer parte da equipa de todos nós que tantas alegrias tem dado aos portugueses, com a sua preciosa ajuda;

- Será que a culpa não é sua, já  que vemos sentado no banco destinado aos altos dirigentes  da Federação Portuguesa de Futebol, o João Pinto?  Não percebi porque é que no Domingo passado, com um árbitro argentino a dirigir o Portugal-Estados Unidos, não o afastaram desse banco como precaução contra a repetição de pregressas atitudes coreanas de “boa” e ainda fresca  memória.

Uma coisa é certa: vão correr rios de tinta sobre este novo Saltillo, todos os brilhantes comentadores televisivos se vão esgatanhar para ver qual deles diz o maior disparate, e ninguém vai lembrar a simples máxima - será coisa de velhos? - de que o exemplo vem de cima.

Termino,  fugindo ao título que já está espremido não tendo mais nada para me dar, lembrando as rábulas televisivas diárias do Ricardo Araújo Pereira - um dos meus mais jovens maître à penser -, intituladas “Melhor que falecer”, a propósito das viagens diárias que fiz no autocarro 738 até ao Largo do Rilvas durante os 11 meses que passei nas Necessidades, até que um qualquer Rosalino, não tendo mais que fazer, me mostrou o cartão vermelho , por falta não cometida, em forma de despacho ad personam do qual ainda hoje me orgulho, porque numa dessas viagens, de um grupo de teenagers saudavelmente barulhentas e irrequietas, bonitas, lavadas e bem vestidinhas, isto é, não provenientes da Zona J ou coisa que o valha, uma delas falava ao telefone com uma sua irmã, pedindo-lhe insistentemente que dissesse à Mãe que não iria chegar cedo a casa porque tinha um programa com as amigas: - Olha mana, diz à Mãe que vou estudar para casa da Joana, que ela assim não chateia!  A resposta da mana não deve ter sido de molde a satisfazê-la, pelo que a menina, visivelmente irritada gritou um “Oh mana vai levar no cú!” e desligou. Eu tartamudeei um ”Bem vinda Princesa!”,  fui  olhado de esguelha e tomado por mais um velhinho maluco daqueles que povoam os transportes públicos, as Senhoras da minha idade baixaram os olhos e deixaram de falar dos filhos desempregados, das promoções do Pingo Doce, dos baldes que têm no quarto para aparar a água que pinga do tecto, das suas doenças e das esperas no Centro de Saúde, e a sã alegria das jovens voltou a dar cor e luz ao machibombo. Melhor falecer, caro Ricardo, e, no meu caso, por incompatibilidade ambiental e por uma questão de higiene mental.

Ao reler tudo, como sempre faço, descubro que também falo de poesia no título, e então volto atrás e, agora que já só escrevo quadras para manjericos, dado o êxito do texto dedicado ao St. António,  acabo com esta à laia de digestivo para a comida pesada que hoje Vos servi:

Mando a poesia às urtigas

E com ela vou também

P’rás colher e fazer migas

Que me vão saber tão bem!

 
Abraço

Lisboa, 26 de Junho de 2014
Octávio Santos

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Arrumar galopes e vendavais que nos vão no peito




O título não é meu mas do Curso de Poesia que o Professor José Fanha ministrou no El Corte Inglès, de 10 de Fevereiro a 5 de Março. 7 lições, cada uma com um título que não teve qualquer atinência com o desenrolar das mesmas,  não se vislumbrando galopes e vendavais a merecerem arrumação, talvez porque, ao contrário daquilo que se esperava,  não foi dada oportunidade aos assistentes para falarem das suas experiências poéticas e muito menos para dizerem um pedacinho que fosse do fruto dessas experiências, embora, no decorrer das lições,  tivessem sido criadas excepções, a que me referirei no momento próprio


De 27 de Março a 22 de Maio, com um interregno para o “obrigatório” 25 de Abril, escrevi 8 textos sobre as 4 sessões de Escrita Criativa em que participei na Culturgest, vendo as audiências precipitarem, talvez porque quis fazer de mais. Aprendida a lição, não vou escrever 7 textos sobre as 7 lições do Professor Fanha, mas apenas um, no qual vou tentar contar tudo aquilo que aprendi, não sem dizer que a assistência, de 60 pessoas com uma média etária acima dos 50, era composta por 80% de Senhoras e menos de 10 % de falantes. Agora, folheando todas as notas que tomei ao longo das lições, vejo que me é impossível escrever em 3 páginas tudo aquilo que aconteceu e foi dito, pelo que, me limitarei a dar umas dicas, com a pretensão de pôr os meus leitores a pesquisar sobre aquelas que lhes despertarem mais interesse, transformando este texto em mais uma “lição”, desta vez livre e sem mestre, limitando-me a repetir o que disse Fanha (J.F.):

 

- A poesia é a linguagem dos símbolos e um dos pilares da construção de Portugal;

 

- J.F., que diz muito bem poesia, nitidamente inspirado por João Villaret, foi com Ary dos Santos, Mário Viegas, José Jorge Letria e outros, um dos jovens que fizeram tremer o antigo regime com as suas poesias;
 
- Poetas árabes houve que muito influenciaram a poesia portuguesa, como Al-Mu’tamid e Ibn El-Arabi, e destes e doutros e de muitas outras coisas, fala o arabista Adalberto Alves nas suas obras, “Ecos de um passado árabe”, “O meu coração é árabe” e “As sandálias do mestre”;
 
- Houve também poetas judeus com grande influência na nossa poesia, e não só, mesmo após a sua expulsão: Jorge Luís Borges, descendente de judeus portugueses, escreveu o poema “As chaves de Salónica” sobre a única coisa que os judeus expulsos da Península Ibérica levaram para o exílio, as chaves da casa que deixavam. Herberto Hélder é um dos nossos grandes poetas de origem judaica;
 
- Enquanto Miguel Torga disse que Camões era um cedro desmedido na pequena floresta portuguesa, Eduardo Lourenço afirmou que Fernando Pessoa tinha o sonho de ser um super Camões;
 
- No século XVII muitas freiras, inspiradas no Cântico do Cânticos, escreveram poesia: Soror Violante do Céu, Soror Maria do Céu e Soror Mariana da Glória, entre outras;
 
- No século XVIII a única Mulher a afirmar-se na poesia é a Marquesa da Alorna (Alcipe), primeira Mulher ligada à maçonaria, mas no século XIX não há nenhuma poetisa portuguesa digna desse nome;
 
- No século XX surge o escândalo Florbela Espanca, violenta nos temas e explícita na linguagem, que abalou a fechada classe elitista alentejana. Há ainda Judith Teixeira, poetisa sáfica, “vulcão e brasa ardente” no dizer de Zenóbia Collares Moreira, que viu a sua obra “Decadência” apreendida por “imoralidade” e por constituir “literatura decadente”, tal como “Canções” de António Botto e “Sodoma Divinizada” de Raul Leal;
 
- Afirmou J.F. que Sofia de Mello Breyner não fazia versos de amor; pedi licença e li o seu pequeno poema “Ausência”. Contrapôs J.F. que se quis referir ao amor carnal, sendo Sofia, nesse particular, muito diferente de Maria Teresa Horta que privilegiava o tema;
 
- Aconteceu que um rato, um pequenino mus musculus, apareceu a espreitar por baixo da toalha da mesa do buffet, atraído talvez pelo odor das bolachas. Um certo histerismo colectivo levou J.F. a alertar a responsável pelo Âmbito Cultural do ECI que prontamente compareceu, pedindo desculpa e dizendo que seguramente o animalzinho provinha do restaurante, e que deveria suspender a lição para permitir a intervenção da brigada de desratização, tendo sido contrariada unanimemente pela assistência que quis continuar a lição mesmo com a presença do inofensivo murídeo. Pensei em Ratatouille, o rato cozinheiro;
 
- No dia seguinte apareceu a mesma Senhora a pedir desculpa do episódio do rato (já neutralizado pelos colegas da manutenção, o que provocou ohs! de repúdio na assistência);
 
- J.F. falou das correntes literárias preponderantes durante o Estado Novo: Modernismo, Neorealismo e Surrealismo, referindo a propósito Fernando Pessoa, Manuel da Fonseca, Soeiro Pereira Gomes, Alves Redol, Joaquim Namorado e Políbio Gomes dos Santos;
 
- Falou da censura da escrita, da imprensa, do teatro, e disse que Snu Abecassis, casada com um industrial adepto do Estado Novo, escondia livros proibidos na Lusalite que era a fábrica do marido. Chico Buarque para escapar à censura da ditadura brasileira escreveu canções com o pseudónimo da Julinho da Adelaide, entre as quais “Acorda amor”;
 
- Pedi licença e perguntei se hoje não havia poetas que escrevessem contra o estado das coisas: disse-me que Nicolau Santos (Expresso) escreveu ultimamente um livro de poesia de denuncia. Falei-lhe e mostrei-lhe o livro” Manifesto Anti Crise”;
 
- J.F., saindo da poesia, disse que o neo-realismo começou em Portugal na pintura dez anos antes da escrita, com o quadro “O Almoço do Trolha” de Júlio Pomar, que o surrealismo nasceu em França em 1924 e chegou a Portugal em 41, que o movimento Dada nasceu em Zurique em 1916, por um grupo que recusou a barbárie da 1ª Guerra e resolveu fazer tábua rasa de tudo incluindo a arte, decretando a morte de todas as formas de arte existentes. Com Freud nasceu uma escrita e uma pintura inconsciente e automática. Falou ainda de Magritte, Dali, Klee, Kadinsky e Miró, e da recuperação tardia da arte negra e daquela infantil;
 
- Afirmou J.F. que o surrealismo tem dois lados, a liberdade prática e a provocação. Só houve, e há, uma Mulher surrealista em Portugal, a Isabel Meireles, ceramista com 85 anos. O último dos surrealistas, Alípio de Freitas, que foi padre, casou agora, cego, aos 83 anos, e foi cantado por Zeca Afonso;
 
 
- Para J.F., na mudança do século dois homens deram volta à cabeça da cultura europeia; Einstein e Picasso. Os impressionistas, que reproduziam os pontos de luz que lhes feriam os olhos, Balzac, Flaubert, Victor Hugo e Balzac, já o tinham tentado antes. Os futuristas D’Annunzio, Maiakowsky e Almada, endeusando a máquina, também deram a sua contribuição. Em Portugal, o Grupo de Orfeu, Amadeo de Souza-Cardoso, Santa Rita Pintor, Domingos Alvarez, Keil do Amaral, Leopoldo de Almeida e o próprio António Ferro, empurraram o país para uma espécie de Modernismo Lusitano. Depois, o 25 de Abril, feito por “militares que não viram os filhos crescer”.  O certo é que a verdade é sempre difícil de estabelecer: Mário Sá Carneiro suicidou-se no quarto do hotel com cianeto ou estricnina? Ou foi no metrô?
 
- Desta vez J.F. falou torrencialmente sobre poetas e outros artistas estrangeiros da sua predilecção, numa interessantíssima conversa que, acelerada pela pressa de sair mais cedo para assistir a um concerto de Pete Seeger, nos inundou de noções sobre os nomes abaixo citados e, sobretudo, vontade de os descobrir. Assim, percorreu uma galeria onde pontificaram Woody Guthrie, o citado Pete Seeger, Jacques Prévert, Berthold Brecht, Pablo Neruda, Gabriela Mistral, Wislava Szymborska , Czeslav Milosz, Jorge Luiz Borges, Federico García Lorca (Llantopor Ignazio Sánchez Mejías), Jean Cocteau ( que dedicou, tal como Pablo Neruda, um poema a Llorca), Tonino Guerra e Lawrence Ferlinguetti, último sobrevivente da beat generation, proprietário da livraria City Light em S. Francisco, o qual tem um poema sobre o Elevador de Sta. Justa, que atribui a Gustave Eiffel e não a Raúl Mesnais du Ponsard.  Pedi licença e disse a J.F. que, tinha comigo um poema de um poeta português sobre o mesmo tema, este sobre todos os ascensores de Lisboa, tendo dito, com sua autorização, o meu poema “Viagem de Fim de Semana em Ascensor”, sem revelar a autoria. Descobri depois que Vasco Graça Moura também tem um poema sobre o Elevador de Sta. Justa;
 
- Falando de traduções de poesia, J.F. considera que as traduções que fez de Berthold Brecht são melhores que aquelas de Paulo Quintela, e disse que há dois caminhos para a tradução: aquele representado por Vasco Graça Moura, com um rigor que espartilha o poema, e o de Eugénio de Andrade, menos rigoroso, o que lhe dá outra alma;
 
-Na quinta lição entreguei a J.F. um exemplar do livro “Manifesto Anti-Crise – Da revolução dos cravos à revelação dos cravas”, na sequência de ele ter citado os poetas que escreveram contra a ditadura, e de eu lhe ter perguntado se hoje não há poetas a escrever contra este estado de coisas. Nesta última lição, J.F. puxou do livro, diz à assistência que fui eu que lho fiz conhecer e começou a fazer considerações sobre o mesmo:
 
- Que bastava o título sem sub-título. As pessoas escrevem coisas inúteis que não acrescentam valor à obra, antes pelo contrário, dizendo que aquela tirada da “revelação dos cravas” era uma graçola descabida. Depois abriu o livro e anunciou que ia dizer uma poesia de uma tal Carmo Oliveira, intitulada “Seca” .
 
- Depois de a dizer, declarou que a mesma começava e acabava admiravelmente: “Nos rios quase secos do nosso desespero” era, para ele, uma frase poética de grande alcance. “O Governo por Despacho autorizou a importação de crocodilos”, era frase que ele usaria numa poesia anti-crise, como refrão entre cada verso de denúncia do estado das coisas. Achou inútil o jogo de palavras usando o nome dos políticos e dos partidos, que, segundo ele, nada acrescenta tirando espessura ao poema. Salvou esta parte:

 


“Portas do céu fechadas a qualquer pingo de chuva


 Secam os leitos dos nossos rios e barragens


 Vendo-se já aparecer os periscópios


 Dos submarinos da nossa vergonha,


 Assentes no fundo das docas de um país que está


 Na eminência de o tocar definitivamente, e nele ficar”.
 
Para mim, esta foi a melhor parte das lições do Professor José Fanha, como foi bom eu ter dito o poema “Ausência” de Sofia de Mello Breyner; mas o melhor foi eu ter dito o meu “Fim de Semana em Ascensor” na sexta lição, e estas foram as excepções de que falei no fim do primeiro parágrafo deste texto.

Nota - Deixo mais três links:

- O primeiro para uma lista de autores e obras citadas (algumas ditas) por J.F. no decurso das lições;
  
    - O segundo para a história de Pedro Oom  “O Coelhinho que nasceu numa couve”;
 
    - O terceiro para um vídeo no qual Mário Viegas recita  um excerto de “A Cena do Ódio”de
    Almada Negreiros.


Lisboa, 19 de Junho de 2014
    Octávio Santos






quinta-feira, 12 de junho de 2014

Santo António de Lisboa



Junho, de Portugal, Comu(od)nidades, poetas, Santos e cronistas falhados


 
                                                   Dez,  um zarolho poeta

                                                   Treze, um Santo bem amado

                                                   Me acreditem, não é peta

                                                   Vejo o meu texto adiado.




                                                     Escrevesse eu alexandrinos

                                                     E a nadar os salvasse

                                                     Tinha feito desatinos

                                                     P'ra que a escrita não falhasse.




                                                    "Comodidades", que fado!

                                                    Nos Santos fui-me à sardinha

                                                    Sem da pena ter cuidado

                                                    Não escrevi,  preguiça minha!

 

                                                    Se tivesse arco e balão

                                                    E fogueira p’ra saltar

                                                    Tinha tido inspiração

                                                    Para crónica vos  dar!

 

                                                    Mas seja por Portugal

                                                    Ou por Lisboa, bacana

                                                    Que não vos pareça mal

                                                    Mas fica para a semana!
 
Lisboa, 12 de Junho de 2014
Octávio (Santos), candidato a quarto Santo Popular,  poeta com dois olhos  e tudo!

quinta-feira, 5 de junho de 2014

O Juvenil – Um jovem povo de esperança


Hoje seria tentador e fácil falar do “povo de suicidas”  de Unamuno, mas face a mais uma prova dada à tese de um dos poucos amigos de que Portugal se pode orgulhar para além da nossa única fronteira terrestre, basta-me aguardar curioso pela posição da Sra. D. Maria de Jesus Barroso para saber se está com o Pai ou com o Filho,  já que com o Espírito Santo parece que ninguém está, à parte o CR7 e a D. Inércia. Mas deixemos o que interessa e passemos ao que não interessa ou interessa a poucos. 

No meu livro “Moínho de Vento, 23” escrevi um pequeno texto intitulado “Os meus primeiro e último poemas”, em que falava do Suplemento Juvenil que o Diário de Lisboa publicou semanalmente, de 4 de Maio de 1957 a 8 de Setembro de 1970, num total de 690 edições. Acontece que, falando à minha cara amiga e ex-colega Cristina Góis Amorim do texto que eu tinha escrito para o Juvenil, citado naquele outro acima recordado, logo esta moveu o céu e a terra para o localizar com a finalidade de mo ler durante a festa surpresa que estava a organizar, na minha mais completa ignorância, para a minha despedida da AICEP, tendo combinado com o também meu caro amigo e ex-colega Vítor Quelhas, para que este, após a leitura do texto, falasse sobre o mesmo como pretexto para me desafiar a fazer um trabalho de pesquisa sobre o Juvenil, tendo em vista, publicando-o, dar o devido e merecido realce a um espaço que tanta influência teve na formação cívica, cultural, democrática e literária de toda uma geração. Missão impossível, porque tendo eu dito à Cristina que o título de tal texto era “Estrada branca e estada preta” quando na realidade era “Parábola do Amor”, lhe retirei - mea culpa, mea culpa, mea culpa – a satisfação de o encontrar no meio dos seus 690 números. Como se alguém, na ânsia de encetar um trabalho de costura, procurasse uma agulha num palheiro, quando o que tinha perdido era o dedal. Mesmo assim, durante a tal festa surpresa, que constituiu um dos momentos mais inesquecíveis da minha vida com tudo o que para mim representou, o Vítor, na sua dupla  veste de jornalista e de afirmado crítico literário e, como tal, ciente da importância que o Juvenil teve para os jovens que nele encontraram espaço para revelarem os seus dons para a escrita, muitos com talento, lá me lançou o citado desafio. 

Como alguns (poucos) sabem, quando alguém que eu respeito me pede uma coisa, esse pedido transforma-se em ordem, começando logo a trabalhar a sério para não desiludir o comitente e não me envergonhar. Descobri então que a Hemeroteca de Lisboa está encerrada sine-die, que a Biblioteca Nacional tem os exemplares do Diário de Lisboa arquivados sob vácuo, o que constitui impedimento da sua consulta, e que a Fundação Mário Soares tem na net à disposição de todos a digitalização de todo o Diário de Lisboa, isto é, dos seus 22.378 números publicados de 7 de Abril de 1921 a 30 de Novembro de 1990, de Joaquim Manso a António Ruella Ramos. Mas deixemo-nos de divagações e vamos ao que interessa. 

Após semanas de um trabalho de sapa intenso, queimando literalmente as pestanas sobre as digitalizações, na procura de meu texto, de duas visitas à FMS, e de outras navegações avulsas na net, descobri, para além do dito, coisas bem mais importantes que tiveram o condão de redobrar em mim a vontade e o fervor de levar o meu trabalho por diante. Senão vejam só:

- Que o Juvenil não era só Mário Castrim (Manuel Nunes da Fonseca), como afirma Nuno Rebocho, nem “uma escola de leitores, não de escritores” como disse Augusto Abelaira, nem “uma fábrica de castrinzinhos” como considerava Marcello Caetano, levando Castrim, que descreveu o Juvenil como “ a mais completa e duradoura experiência da sua vida” e, exagerando, “talvez a minha única obra”, a responder-lhe “antes castrinzinhos que castradozinhos”, porque o Juvenil era também Augusto Costa Dias, Manuel Salgueiro, Tossan (António Fernando dos Santos) e António Domingues. 

- E outros haviam sob pseudónimo, pois que, no seu primeiro número, o editorial denominado  “Jornal de Bordo I”, era  assinado Trote, que descobriremos quem é  (hei-de perguntar à Alice Vieira a próxima vez que a encontrar no El Corte Inglès), nele  se fazendo um elenco dos responsáveis do Juvenil, nomeando os pseudónimos que tomarão nas rubricas “Nos Mares do Sul – Aventuras do Capitão Fumaça e seus companheiros” e “ O Grande Detective Eusébio Pararraios”, que usarão estes espaços como tribunas para expor as suas teorias,  pensamentos, razões e possíveis curas para o que se passa nos mares do sul –Portugal? – onde é necessário ser um detective diplomado para abrir as portas à glória da liberdade, e são eles o Dr. Gedeão Sanches de Azevedo, Lidoro Brigalhadas, o Capitão Fumaça, Cabide & Cabidela, Vliça, Miudinho, Pararraios, Basílio Sopito, e ainda, o Cabeça de Atum e o Pote sim-Pote não.  Veremos se isto se confirma e se conseguiremos descobrir a quem correspondem os pseudónimos, começando pelo Trote. 

- Que li na “Rua dos Dias que Voam”, assinado Gin-tonic, que “Muitos jovens ali colocaram os seus primeiros poemas, os seus primeiros textos, os seus primeiros desenhos e fotografias. Muitos ficaram pelo anonimato, mas muitos outros, nisto e naquilo, tornaram-se gente conhecida”, e ainda que “Naquele tempo cinzento, o Juvenil foi, para uma boa parte daquela geração, o porta-aviões, o trampolim, a tarimba para outras aventuras, outros gostos, outros cenários”. E desses jovens passo a fazer uma lista por ordem alfabética, jurando que farei justiça aos omitidos, e serão muitos,  no trabalho que me proponho fazer, e ela aqui fica: 

Afonso Cautela, Alice Vieira (Alice Vassalo Pereira), Ana Lisboa, Antónia Gadanha, Cáceres Monteiro, Carlos Miguel, Daniel Sampaio, Diana Andringa, Domingos Lobo, Eduardo Prado Coelho, Hélder Pinto, Hélia Correia, Hugo Beja, João Bonifácio-Serra, Joaquim Benite, Joaquim Pessoa, Jorge Massada, Jorge Silva Melo, José Agostinho Baptista, José António Freire Antunes, José António Saraiva, José Jorge Letria, José Manuel Durão Barroso, José de Matos Cruz, José Pacheco Pereira, José Pedro Pereira, José Pereira da Costa, Luís Almeida Martins, Luís Filipe Castro Mendes, Luís Matoso, Luís Miranda da Rocha, Maria Helena Costa Dias, Maria Inácia Henriques, Maria Leonor Xavier, Mário Contumélias, Miguel Serras Pereira, Nelson de Matos, Nuno Júdice, Nuno Rebocho, Paulo Varela Gomes, Tito Lívio, Torquato da Luz e Vítor Oliveira Jorge. 

- Mais descobri que a jornalista Maria José Oliveira escreveu em 1988 uma tese monográfica sobre o Juvenil, intitulada “Suplemento Juvenil do Diário de Lisboa – Lugar de Ensaio para uma Nova Poesia Portuguesa”, e permito-me transcrever quanto sobre isso li, sempre na “Rua dos Dias que Voam” e assinatura de Gin-tonic:

“O que aqui se propõe é uma “leitura” – assumidamente subjectiva – da produção poética publicada no suplemento “Juvenil” do Diário de Lisboa. Entre 1967 e 1970, tendo por cenário a situação política e social do momento (inevitável ponto sincrónico entre a temática poética e a cronologia designada), valorizando o contributo deste suplemento para a história da imprensa periódica portuguesa.

Maria José Oliveira reconhece algumas imperfeições, fruto de inexperiência, condições de investigação, outras circunstâncias, mas conta voltar ao tema, aprofundar o trabalho iniciado.  

Estamos perante um primeiro passo – e sabe-se como são difíceis todos os começos… - na abordagem de algo que marcou, pelas mais diversas maneiras, toda uma geração, “essa corrida contra a ordem do silêncio”, para citar Hélia Correia. 

Lamentar que num país, onde o analfabetismo não se encontra apenas nos que não sabem ler nem escrever, onde se publica tanto lixo, livros que de certeza ninguém leu, jamais lerá, trabalhos como este não encontrem quem os publique.” Fim de citação. 

- Soube também que a Maria José Oliveira é a jornalista que, em 2012, teve de se demitir do jornal “Público” por pressão do então Ministro Miguel Relvas após um diferendo entre eles, recusando-me eu a tomar partido por ignorância dos factos, mas tomo nota do seguinte pormenor: a jornalista, que chegou a ser vilipendiada na altura por não poucos bem pensantes, foi obrigada a demitir-se por força do poder de um político com funções de Ministro, e o Ministro foi obrigado a, pouco tempo passado, demitir-se por força do poder da opinião pública, ou seja, do povo. E já dá para pensar de que lado possa estar a razão. 

- Mas como o Juvenil não se esgota na excelente poesia nele publicada no período a que se refere o trabalho de Maria José Oliveira, agora que encontrei no nº 179 do suplemento inserido no nº 13.588 do Diário de Lisboa, editado em 8 de Outubro de 1960, o meu texto “Parábola do Amor”, que abaixo transcrevo para uma mais fácil leitura, sinto-me ainda mais capaz de levar por diante o meu projecto, tanto mais que Nuno Rebocho escreveu que “…o Juvenil de Diário de Lisboa ficou uma legenda, uma nobre e indispensável referência. Dele sempre se falará, quando se evocar as décadas de 70 e 80 do século passado e se recordar como a juventude teve a coragem de dizer não ao salazarismo.” 

Deixando, como prometido, o meu texto, do qual não me envergonho passados 54 anos, apesar de não passar da ingenuidade de um jovem de 16 anos que contrapõe o branco e o preto, o bem e o mal, a luz e as trevas, o céu e o inferno, sem qualquer nuance, termino citando Mário Castrim: 

“A sala onde trabalho
É um barco no mar.
Um palanque de rei
Sobre sete cavalos enfeitados.
Minhas mãos
Tocam a forma de todas as coisas”
 

Parábola do Amor 

Eu e ela. Ela vinha numa estrada escura. Eu numa branca. Ela levava um cantaro. Eu não tinha nada. Os caminhos encontraram-se e com o contágio do branco o negro perdeu a cor. Seguimos os dois felizes. Do lado dela foram aparecendo vários outros caminhos negros. Ela talvez já cansada da alvura da estrada que eu lhe dei, metia por esses estreitos, escuros e pedregosos. Eu tirava-a porque sabia que no fim da minha estrada branca, havia uma fonte de água pura e ela tinha sede. E eu também. O cantaro estava seco. Consegui desviá-la sempre desses caminhos escuros. Mas se ela seguisse por algum desses eu iria atrás dela. Cheio de sede mas na ilusão de que o cantaro teria água. Se do meu lado apareceram maus caminhos, não os vi tão cego pela brancura do meu. Assim juntos vencemos todos os escolhos, transpusemos todos os precipícios. Mas um dia quando já cansados de procurar a fonte que nos enchesse o cantaro para matar a sede, apareceu do lado dela uma estrada tão branca como aquele que nós seguíamos. Com a sede ela delirou e julgou ouvir água a correr do lado dessa estrada. Pegou no cantaro e seguiu por ela. Eu fiz-lhe ver o engano mas ela não me ouviu. Só ouvia o fio de água imaginário que a sua febre arquitectara. E lá foi. Eu na certeza que na minha estrada encontraria a fonte, corri direito a ela para me dessedentar. Mas a água ficava fundo e só com o cantaro eu a poderia tirar. E então as duas estradas brancas foram escurecendo. Ou seríamos nós que com a nossa sede as víamos negras. Ela não tinha água. Eu não a podia beber. Ela desistiu de procurar a água. Eu continuei a procurar a cantaro. Mas o caminho estava cheio de espinhos, e começaram-me a aparecer os tais carreiros estreitos. Nunca os segui. Até que já morto de cansaço, encontrei alguém com um cantaro. Alguém que procurava a minha fonte. Voltámos os dois em busca dela, e a estrada que fôra escura tornou-se novamente branca; ainda mais branca. E quando um dia a minha estrada se acabou entrei num recanto maravilhoso. E vi desse recanto de sonho, duas pessoas a escalar uma enorme montanha negra; com o corpo amoldando-se às reentrâncias dos penhascos, rasgando a pele e as veias, em busca de uma fonte inutilmente. Ela já não tinha o cantaro. Se eu pudesse nessa altura de supremo sofrimento para eles, ajudava-os a subir até nós e a compartilhar da nossa felicidade. Mas quem estivesse observando, veria do outro lado da montanha um mar de fogo, cheio de monstros enormes, comendo as cinzas dos que como eles lá caíram. Deus lhes perdoe. 

Octávio Carmo de Oliveira Santos

(16 anos)