quinta-feira, 17 de abril de 2014

Escrita criativa de um menino em liberdade condicional com tempo para escrever uma carta de amor, não sabendo se terá coragem para a remeter ao destinatário.

Quando a camioneta dos Clara parou resfolegante à porta do edifício térreo da Quinta da Aviação que dava para a estrada real e era como que o escritório da Casa Anjos Grosa, a maior casa agrícola do Concelho do Cadamonte, e o menino desceu com a mala da roupa e o corpo moído pelo desconforto dos bancos da Magirus, já a carroça puxada pela Carriça - e não é jogo de palavras – lá estava à sua espera e o Absalão largou as rédeas, desceu e ajudou os menino a subir, ajeitou a mala não fosse ela cair com os balanços na esburacada estrada de macadame e começou a trepar aquilo que já eram as faldas da Serra de Vales Separados em direcção à casa da Avó na aldeia/beco da Albardeira onde o menino iria passar as férias grandes com a certeza de ir ser livre e bem tratado por todos. – Vamos que a Ti Misericórdia já deve estar em pulgas, matou o galo e mandou a Hortense arejar e reforçar os capelos do colchão que ficou inchado como uma porca cheia. A dureza da carroça que lhe fazia o rabo saltar na tábua onde ia sentado ao lado do Absalão era compensada pela aragem que lhe batia na cara, pelo cadenciado toc-toc dos cascos bem ferrados da velha mula e pelo acender das estrelas num céu azul escuro, já que anoitecia, e se os 4 quilómetros a percorrer fossem 10 ou 20 o menino teria adormecido sentado, na paz do crepúsculo e do Senhor.

Passadas as aldeias de Fenais (terra da Avó), Vila Velha e Serena, galgada a última rampa e atravessado o largo da aldeia onde acorreram todos para saudar, abraçar e beijar o menino arrancado à força da carroça que parara à ordem de um Aíoh! Já o portão da cerca estava aberto e a Ti Misericórdia com as mãos escondidas no regaço à espera do neto visivelmente contrariada por não ter sido a primeira a pegar-lhe ao colo. – Veio sozinho não é costume, querem ver que puseram a criança ao almazio, disse alguém que se afastava da cena para recolher a penates onde a ceia e a cama o esperavam como todas as noites durante todo o arco do ano, que amanhã é dia de trabalho e o corpo ainda não se recompôs do da véspera.
Já nos braços da Avó, a parte chata era o interrogatório sobre os Pais, os manos, a escola, o estado de saúde de todos e as afirmações tipo, o que tu crescestes neste meses, e a parte boa, o enfardar a canjinha (sem letras), os melhores pedaços do galo, as batatas afogadas naquele molho vermelho e gostoso, as azeitonas, o pão quente acabado de sair do forno, a boleca de chouriço feita expressamente para ele, a laranjada comprada na loja do Zé Outono porque não tens ainda idade para água-pé quanto mais vinho, e o menino lá ia comendo,  ouvindo,  respondendo e aceitando festas e beijos dos mais chegados que iam entrando na casa do forno para ver aquele menino acabado de chegar de Lisboa, como se tivesse colado a si qualquer coisa de especial e sonhado vindo da capital. - Coitadinho, depois da canseira da viagem deve estar mortinho para ir para vale de lençóis, e estava, para descansar o corpo naquele cheirinho de roupa lavada no tanque  com sabão azul e branco e seca ao Sol,   mas sobretudo para sonhar com tudo o que iria fazer amanhã e durante todos os dias daqueles 3 longos meses de férias que tinham naquele momento uma duração que o menino sentia  próxima da eternidade.
O dia começava sempre mal com a Avó Antónia, que não era Avó mas Bisavó, e tão velha de ter para contar histórias passadas em casas solarengas de Senhoras de alta linhagem que frequentavam a corte da Raínha Senhora D. Amélia, e começava mal porque era ela a encarregada de fazer o menino engolir uma pratada de sopas de leite, rito odiado e origem de grandes dramas causados pelos farrapos de nata que faziam o menino vomitar tudo no canteiro da dálias ou no rincão das cenouras. Para ouvi-la novamente contar histórias da Senhoras do Fetal ou do António dos Santos da Avó, menino da roda que serviu anos a fio na sua casa, juro que emborcava um alguidar de sopas de leite sem pestanejar, nem que um lençol de natas me desse volta ao gorgomilo.
Depois era a liberdade de apanhar cerejas, nêsperas ou rainhas cláudias – o menino nunca gostou de figos - em cima das árvores e cuspir os caroços para as leivas duras do chão, ir à horta do Dentolas, no caminho do Talude Quente, apanhar rãs que nem sempre tinham um futuro feliz, pegar na flaubert de 12 mm e ir aos pássaros: - Tão engraçado, tão pequenino e já me chega a casa com o cinto cheio, até já me trouxe um melro, um gaio e até uma rola! como me arrependo hoje e ponho-me a pensar  se era necessário fazer o mal para o distinguir do bem,  mas foi assim, não tenho culpa que Deus me tivesse concedido o livre arbítrio, e o menino que confessou ter roubado uma castanha de um saco à porta de uma mercearia nunca falou a ninguém das 3 dezenas de andorinhas - as galinhas de Nossa Senhora - que lhe serviram de alvo num dia de loucura em que o tal livre arbítrio foi muito mal utilizado a experimentar a pressão de ar que o Pai lhe oferecera,  correr pelos campos só pelo prazer de sentir o vento na cara,  descer aos riachos para ouvir a água a correr  e ir à azenha só pelo rumor da roda a chiar e apanhar agriões para a salada,  pedir emprestada a pasteleira ao Absalão,  grande demais para ele,  para descer a estrada até  Serena e  passar em frente da loja do Zé Outono que tinha uma filha com os olhos bonitos  e regressar a empurrá-la pela ladeira acima por não ter canetas para tanto,  muitas vezes com os joelhos esfolados,  convencer a Avó a arrear a Carriça com albarda e  cabeção  e sair a galope até Cadamonte,  a ouvir o martelar das ferraduras no alcatrão da estrada real,  voltando depois de ter emborcado 3 cervejas  sentado numa das 3 mesas da esplanada do Café Cravo para armar em homem.
E na cama à noite depois de jantar, porque fora dia de vir o peixeiro de Peniche, chicharros alanhados a 5 tostões o par com batatas cozidas com casca e uma cebola, e do duche na casinha do banho com o balde cheio de água quente ao Sol durante o dia, o menino adormecia tranquilo e feliz depois que a Avó lhe aconchegara lençóis e cobertores e desejado as boas noites, porque no outro dia chegavam os irmãos e as primas com toda a família na Fordson do Pai que tinha os lugares que se quisesse que tivesse e era a percursora dos monovolumes tão de moda hoje, mas atenção que se no livrete diz 7 lugares sentados a GNR multa-te se levares 8, uma seca. De manhã levantou-se cedo, repetiu-se a tortura das sopas de leite que naquele dia lhe pareceu mais leve e não se afastou muito da cerca nem para ir ao pinhal do Ti Carlos apanhar um boné de pinhões debaixo da copa do pinheiro manso e ficou ali a balançar-se no baloiço da nogueira a ver o Absalão tratar da horta e a ouvir o Canhamanga a ralhar com a mulher para lá do muro e ao longe a Elvira Velha a morrer deitada no seu catre que gritava pelo marido que andava à jorna: - Oh Jcisco! Oh Jcisco!   A Avó tinha mandado a Hortense matar dois coelhos: - Vê lá aqueles grandes que estão separados na coelheira de baixo, não aquele que está na de cima com a coelha para a cobrir, e na casa do forno era já azáfama de dia de festa, com a mesa a pôr-se, os coelhos no tacho a refogarem e a sopa de abóbora cú de mulher a apurar na panela com tudo aquilo que a horta dava para a sopa que não havia outra mais saborosa.
Foi então o menino sentar-se numa pedra no alto da ladeira… - pára aí porque isto já tu escreveste no texto da semana passada e aqui tens de fazer uma pausa para contares o que não está ainda contado. Vamos lá então pôr ordem nas coisas porque senão ninguém se entende!
A vedeta da comitiva familiar, a chegar de um momento para o outro, era o meu irmão pequenino ao qual eram reservadas as maiores atenções não só porque era o último chegado mas também porque era realmente dos três irmãos o mais bonito de todos. Dir-se-ia que os Pais tinham posto todo o seu empenho neste terceiro após o notório fracasso com o segundo. E o segundo, ou seja, eu, que já me metia na adega do Dentolas para beber uma água-pé às escondidas da Avó, secava 3 imperiais no café da Vila e pedia um copo de três tintos na loja do Zé Outono para que os olhos da filha vissem que havia ali alicerce de macho, não podia dar muita importância ao pirralho para não alinhar com a maioria. Mas, relembrando um episódio de então, quanto me arrependo deste meu falso despreendimento e quanto tenho vontade de agora lhe contar tudo, mas as palavras nem sempre nos saem da boca nos momentos certos, ficando a martelar-nos no cérebro como despertadores da consciência e, empurrado pela última lição de Escrita Criativa que tratou de “Género Epistolar”, vou terminar este texto com uma carta que não tem nada de ficcional como as cartas das 3 Marias que não tinham destinatário certo, mas que se dirige a um interlocutor bem preciso, mais ao estilo daquelas que Soror Mariana Alcoforado escreveu da sua cela de convento em Beja ao Cavaleiro de Chamilly, sendo portanto uma carta de amor. 

Meu querido irmãozinho,
Quando eras pequenino e começavas a chorar, abrias a boca e depois do sonoro berro inicial deixavas de respirar e ficavas assim um tempo infinito, cada vez mais vermelho, com todos à tua volta a tomarem iniciativas que achavam adequadas para que tudo voltasse à normalidade que só se restabelecia após um ruidoso respiro fundo seguido de um novo berro, e aí vá de todos a apaparicar o bebé que mais uma vez “se tinha ido pelo fôlego” designação “técnica” dada ao fenómeno. Eu, nesses momentos, como em todos os outros que punham em questão as certezas da minha vida, não ficava, fugia. E, naquele dia em que repetiste a gracinha na casa de fora da casa da Avó, eu desci de quatro em quatro os degraus de pedra da escada das glicínias e corri pelo caminho da horta até chegar à casa do motor, e lembro-me de, aterrorizado por não ter ainda ouvido o grito liberatório, me ter sentado no chão encostado ao maracujá que crescia entre o tanque e a casota, a rezar ou simplesmente a fazer força para que aquele insuportável silêncio fosse quebrado, e durante aquele espaço de tempo, para mim infinito, sofria uma dor que só hoje sei quantificar. Dor que só passava com a corneta dos teus pulmões a anunciar que estavas ali outra vez. Aí, levantei-me, senti nas costas a camisa molhada – agora a Mãe vai-me ralhar porque as nódoas de maracujá não saem nem com lixívia – desci calmamente a estradinha da horta e voltei para ao pé de todos como se nada se tivesse passado.
As pessoas não se amam porque são iguais, e a prova é que entre aqueles que fogem e aqueles que ficam, categorias que mais diferentes não existem, pode prevalecer um sentimento profundo inversamente proporcional às concepções de vida e aos caminhos a percorrer para ser fiel a essas directivas que, no meu caso, me atrevo a considerar compulsivas. Mais ainda quando um respeito mútuo faz com que os que fogem admirem os que têm a coragem de ficar, e os que ficam nada façam para contrariar a fuga, embora no nosso caso, meu querido irmãozinho, eu não possa, viva eu tantos anos como aqueles que tens ainda para viver, esquecer que, pressentindo tu que a minha fuga iria acabar mal sem um passo à retaguarda para encher os alforges de provisões de amor para aguentar o resto da jornada, me chamaste à pedra e, mostrando-me a grande falha do meu percurso, me ofereceste delicadamente ocasião para num só dia recuperar o perdido de três lustros. Um milagre! Mas, para mim, anjos que me aparecem a indicar a estrada justa e milagres que me acontecem para que as dores não ultrapassem aquelas comezinhas quotidianas, fazem parte de um trivial que eu arrogantemente tomo como a normalidade da minha existência. Um desses milagres é o de nunca me ter acontecido ser obrigado a chorar a perda de alguém fora da cadência normal da existência, o que, cumprindo os desígnios de Deus, minimiza a dor porque ver partir uma Bisavó antes de uma Avó, os Avós antes dos Pais, e os mais velhos antes dos mais novos, são coisas naturais que, embora te desgostem, aceitas por inevitáveis.
Como os anjos continuarão a aparecer-me e a tomar conta de mim, e os milagres, não porque eu mereça, não deixarão agora de se revelar, não podia deixar escapar esta ocasião para te dizer, antes que eu empreenda a minha última e definitiva fuga, naturalmente antes de ti visto os 8 anos que nos separam, que te amo por seres o meu irmão pequenino, pelas minhas obrigações falhadas que fizeste tuas, e sobretudo pelo exemplo que deste e continuarás a dar a todos. Como facilito tudo e aproveito sempre as ocasiões mais favoráveis para dizer coisas, foi-me fácil escrever-te esta carta de amor porque tenho a certeza que não repetirás tão cedo a gracinha de “te ires pelo fôlego”.

Com todo o meu amor.

Teu irmão Octávio 

Lisboa, 17 de Abril de 2014
Octávio Santos 

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Escrita criativa (com prólogo de raiva adiada e inveja pertinaz) à mesa de jogo das cartas e do acaso, "marivaudage" bucólica de (des)educação sentimental e avulsa descoberta das coisas da vida


Confesso que estou a frequentar o curso de Escrita Criativa na Culturgest movido pelo baixo sentimento nacional da inveja, mas hoje senti também raiva, porque tendo desistido de maldizer e escarnecer, numa tentativa de ganhar o respeito dos leitores e adquirir um estatuto de seriedade nas letras, dei de caras na primeira página de um jornal sério, com estes títulos a chamar a atenção para uma entrevista de Lídia Jorge nas páginas interiores:
“Olhamos os nossos carrascos com piedade.”
“Continuamos a não pronunciar em voz alta o que pensamos.”
Alguém se atreveu a dizer que a escritora escreve para costureirinhas e vendedores da Re/Max? Trabalhei com um Embaixador que dizia que o melhor exercício para cultivar a força de vontade era aquele de comer um só pistache. Tenho para mim que adiar a raiva é um óptimo exercício de auto-valorização.

Inveja, essa tenho-a dos escritores portugueses com mais êxito neste momento, como a Júlia Pinheiro, o Manuel Luis Goucha, a Teresa Guilherme, a Fernanda Serrano, e sobretudo a Margarida Rebelo Pinto, agora que o seu romance ”Sei lá” chegou ao grande ecrã lançando a sua frase chamariz em cartazes pelas ruas das nossas cidades “Se não fosse pela cama, não precisávamos dos homens para nada.”. Como antes desta aventura da Escrita Criativa frequentei um curso de Poesia no El Corte Inglès, com o Professor José Fanha, o qual, falando-nos da poesia em Portugal e dos nossos poetas, teve ainda tempo para nos contar histórias, e esta eu não esqueci: afirmou Fanha na 3ª lição que a Rosa Lobato Faria teria dito à Margarida Rebelo Pinto: “- Não te ponhas a contar as tuas quecas nos romances, porque os teus filhos um dia lêem e é chato!”. Prometo dividir convosco o muito que aprendi nas 7 lições daquele curso, tudo bem condimentado com fofocas, que não são “mamamíferos  mamarinhos”, mas parte integrante e essencial da dieta cultural de um povo, a par das tardes televisivas que tanto contribuem para manter tudo nos conformes, heróis do mar, nobre povo.
Desculpem estes desabafos à flor da pele e voltemos à escrita séria e sobretudo criativa.
Foi então o menino sentar-se numa pedra no alto da ladeira, no terreno onde ao Domingo os homens do trabalho jogavam a malha e ficou à espera com o coraçãozinho aos pulos, como ainda hoje faz quando espera qualquer coisa de muito bom. Ainda antes da furgoneta aparecer na curva, já ele lhe ouvira o barulho do motor e vira o pó branco da estrada levantar-se e correu a gritar oh! Vó oh! Vó eles vêm aí, eles vêm aí, e correu a abrir o portão para que o Pai entrasse directamente no terreiro da cerca até quase tocar a cameleira que o Tio João Araújo tinha plantado ao fundo contra a vontade de todos, já que não dava qualquer fruto, evitando assim o juntar da famelga no largo para os efusivos e lambuzados cumprimentos da praxe.
- Portaste-te bem? Não arreliaste a Avó? Olha que ela tem angina de peito e já lhe bastam as preocupações da casa! Tudo entrava por um ouvido e saía pelo outro e lá foi, depois que irmãos e primas mudaram de roupa, fazer com eles as coisas do costume, ir a casa da Náná, ao curral dos bichos, ao baloiço da nogueira com vivas discussões e birras na divisão dos turnos, dar à grande roda no poço do Ti Carlos, à adega onde os homens bebiam um copo dissertando sobre a qualidade do vinho do ano passado e sobre a vindima que se avizinhava, a Avó Antónia, que não era Avó mas Bisavó, a gozar talvez a última vez que tinha à sua volta aquele bando de mafarricos.
Vamos almoçar que a mesa está posta era a ordem da Avó a respeitar não fosse a sopa arrefecer, que o resto estava ainda ao lume a apurar. Sempre 12 à mesa e ainda bem que mortes e nascimentos equilibravam este número para o não fazer chegar a 13, prenúncio de todas as desgraças ou anunciador de que aquela seria a última ceia. A Hortense servia os pratos da sopa que só a Avó sabia fazer assim tão boa, parecia veludo, e bem apetitosa, a água-pé com piquinhos a fazer cócegas no céu da boca, o pão acabado de sair do forno a pedir que o esmagassem nas batatas e no molho, o coelho divinal como as favas do Jacinto, uma língua é para o menino e a outra para o Ti Chico Varatojo, que ambos morrem por elas, o céu da boca vai um para a Mimi e o outro para o Apeles, as mioleiras dividem-se por todos e os rins vão os dois para a Jázinha.
Como sempre o Dentolas aparecia à soleira da porta da casa do forno com o boné na mão, não me demoro dizia, mais para ver o que se passava e detectar possíveis desentendimentos camuflados que para a troca de palavras sempre sobre os mesmos temas: o tempo, o reumático, o preço do adubo, os 15 graus do seu vinho da Trogueira, as jornas e os aposentos dos malteses, a égua do mê Albino, que animal aquele, e pouco mais, vou andando com vossa licença, pois sabia que ninguém o mandaria sentar apesar do sussurrado e nunca repetido é servido, porque 13 à mesa é que não: - Valha-nos Deus Nosso Senhor!
Expedidas as crianças para a sesta sagrada, as mulheres para casa da Ti Rosarinho para porem as conversas em dia, os homens ficavam ali por baixo da parreira de uva Ferral Carpinteiro, uns sentados no banco de sobro e rede de capoeira, outros deitados numa esteira a dormitar ou a saber do Absalão as novidades e problemas da lavoura, e Deus sabe se havia problemas numa casa de lavoura.
Depois do lanche ajantarado as crianças subiram para a varanda/terraço das glicínias e emoldurados por aquela cor e aquele perfume organizaram jogos, dominó, loto, bisca lambida ou burro em pé, e o menino lembra-se como se fosse hoje de ter na mão uma manilha de espadas e ver através das janelas dos olhos da sua companheira de jogo um 3 também de espadas, que lhe permitiam fazer os dez pontos. Levaram nisto até começar a anoitecer, e já a Avó os chamava para a cama, quando se ouviram dois tiros ao longe e da ladeira começaram a chegar vozes alteradas, gritos mesmo, ruídos de gente a correr, tudo tão pouco usual no fim de tarde da aldeia, que toda a Família veio para a varanda esticando os pescoços para verem o que estava a acontecer, quando vinda do alto da ladeira, apareceu uma figura de mulher em camisa de noite branca, descalça, a correr em direcção ao portão da cerca, que a Avó, com a autoridade de primeira figura da terra, ainda gritou: “- O que foi oh Patrícia, aconteceu alguma coisa ao teu menino?” Mas nada, a Patrícia, seminua, curvou ofegante direita à parte baixa da aldeia e atrás dela vinha o Lucas Correeiro a segurar as calças com o cinto a cair e as botas na mão na direcção da casa dos pais, como se fugisse de um lobisomem. Só muito depois apareceu o Jaime Fandangueiro com os bofes pela boca, uma pistola na mão, a gritar palavrões sem nexo nem pontuação como as coisas que ultimamente escrevo.
A este ponto os adultos na varanda, tendo percebido toda a marosca, mandaram os mais pequenos rapidamente para a cama, fecharam as portas dos quartos e vá de cada um tentar adormecer chocado pelo filme que lhes interrompera os jogos, ouvindo na casa de fora os grandes a conversar em voz baixa, mas as vozes acavalavam-se, o tom das mesmas alterava-se, e nada de inteligível atravessava aquelas portas de quarto que faziam de guarda-fogo à inocência.

No dia seguinte de manhã, era Domingo, cedo o largo da aldeia estava anormalmente povoado, com o pormenor de não haver uma única mulher e o de estarem lá todos os homens com excepção dos velhos acamados, dos demasiados trôpegos e do Lucas Correeiro que já tinha escapado para Lisboa, porque ele, o Jaime Fandangueiro, estava presente acompanhado do filho, dos seus 3/4 anos, e era o centro de todas as atenções. E o menino foi-se chegando, ouvindo e percebendo, guardando na sua memória uma estranha história de amor, traição, ciúme e tradição, cujos ingredientes lhe eram até então desconhecidos, história que se atreve a pôr no papel agora e rapidamente que o texto começa a alongar-se e depois ninguém o lê.
O Jaime Fandangueiro era casado há poucos anos com a Patrícia, que fora desencantar na Macieira, aldeia na encosta da serra, numa noite em que tinha ido abrilhantar com a sua arte bailarina a festa do Santo Padroeiro, como era seu hábito em tudo o que era festa nos arredores. Casaram e foram morar para um casal isolado numa colina entre Serena e Albardeira, e tiveram um menino. Naquela noite o Jaime despediu-se da mulher e do filho, cavalgou a sua Zundapp e acelerou direito à Colina do Toutiço, aldeia distante já no Concelho de Ameias Agras, onde ia para arrecadar uns cobres com a sua arte, já que os trabalhos do campo nunca o tinham entusiasmado, e é o menos que se pode dizer. Meia hora depois já o Lucas Correeiro estava metido na cama com a comadre – era ele o padrinho do menino – a usufruírem das delícias pecaminosas do segredo que os unia já há algum tempo. Quis o jogo do amor e do acaso que, na pressa de chegar ao seu destino, o Jaime não tivesse dominado a motorizada numa curva apertada e esta o tivesse cuspido para uma moita de silvas abaixo de um valado. Todo arranhado, combalido, a cara feita um Cristo, um joelho a dar parte fraca, o Jaime praguejou, disse mal à sua vida, tomou da sua montaria e toca a abrir a caminho de casa.
 
O ruído do motor a dois tempos a subir a colina apanhou a Patrícia e o Lucas desprevenidos no bem-bom, e aquilo foi um vê se te avias, mas, ou porque enfiar umas ceroulas à pressa não é a mesma coisa que com vagar, ou porque o Jaime se apressou no desejo de chegar a casa, o facto é que ele se deu conta das grandes manobras de retirada e camuflagem que ocorriam na sua própria casa, e teve ainda tempo para ferrar com um candeeiro de petróleo nos cornos (salvo seja) do sacana do compadre quando este escapava pela porta da cozinha e dar dois tiros para o ar na escuridão da noite. Depois de apagar o pequeno incêndio provocado pelo candeeiro partido, quando procurou a mulher, com a arma na mão, já esta corria sem destino pela ladeira acima seguida pelo compadre, chama-lhe compadre, e o Jaime não fez mais que segui-los com mais o estorvo daquele maldito joelho claudicante. 

Acabado o sarrabulho, com o Lucas aferrolhado em casa da mãe e a pobre Patrícia, sem família na aldeia, entregue aos pais e irmãos do ofendido, os quais, em conselho de família, decidiram ir devolvê-la aos pais a Macieira, sentença executada imediatamente à luz de archotes, a Patrícia à frente descalça e em camisa de noite a abrir o cortejo e atrás o marido e os seus três irmãos machos vivos que, provado não lhe terem chegado a pouca roupa ao pelo, já que a moçoila chegou ao destino sem sangue nem nódoas negras, a devem ter mimoseado com todo o vernáculo adaptado à situação. Feita a entrega da pecadora à família de origem, voltaram os quatro irmãos a Albardeira, recolhendo cada um a suas casas. Ouve quem ouvisse a velha Mãe do ofendido dizer às vizinhas: - Tive muito desgosto quando morreu o meu filho Sebastião, mas isto foi muito pior, que vergonha tão grande! 

O certo é que o menino ouviu todas estas reconstituições da voz dos presentes encostados naquela manhã de Domingo ao reforço da parede da casa do Bernardino Painel, mas lembra-se bem de ouvir o Jaime a obrigar o seu filho pequenino a repetir: “- A Mãe é puta!”, tantas vezes quantas o Pai lho exigia, numa espécie de rito propiciatório que anulasse o pecado, a ofensa e a vergonha. Acontece que o menino tinha desde muito pequenino caído nas graças do Jaime que, acabada a assembleia matinal, já que os pormenores dos factos da véspera estavam esgotados e cada um já tinha ido à sua vida, o chamou e o levou pela ladeira abaixo até à casa da colina, explicando-lhe com larga cópia de detalhes como tudo se tinha passado, mostrando-lhe o sangue da cabeça do compadre na parede caiada do quarto de dormir, os vestígios do incêndio, a cama desfeita, as calcinhas da mulher caídas num canto, os dois invólucros das balas disparadas ali no chão fora da porta da cozinha, e fez questão de lhe oferecer o Sul, cão de guarda da casa, que conhecendo o compadre e sabendo-o assíduo em noites de ausência do dono, não cumprira com a sua obrigação de fidelidade canina. O menino, para não dar mais um desgosto ao seu amigo bailador, pegou na corrente de ferro ligada à coleira do Sul, subiu a ladeira e apresentou-se em casa da Avó com aquele canzarrão preto e branco que tinha fama de terrível, não deixando nenhum desconhecido aproximar-se a meia colina sem desatar a ladrar desalmadamente e a mostrar uns senhores caninos. “– Vó, pode atar o Sul na estaca ao lado da casota que era do Tejo, porque agora ele é meu!” E afastou-se como um toureiro quando termina uma faena com temple e pundonor, orgulhoso de ver a cara de espanto que os irmãos e as primas fizeram diante daquela sua vitória e, até certo ponto, promoção. E para o menino naquele dia acabou um jogo e começou um outro, como se tivesse subido um degrau no complicado quebra-cabeças da compreensão da vida. 

Mais tarde, o menino, ouvindo vozes que davam como certo que o Jaime e a Patrícia se tinham junto outra vez e viviam com o filho em Lisboa, onde ambos trabalhavam - "cornudo de merda não tem vergonha na cara" ouvia-se na aldeia -, percebeu que tinha assistido na primeira fila a um salto civilizacional. 

Lisboa, 10 de Abril de 2014
Octávio Santos

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Escrita criativa com o mistério da subtracção da máquina do tempo a um operário por vadios amadores a)

Nas traseiras do Moínho de Vento não havia rua empedrada ou asfaltada e o Infante morto mártir na outra costa do Mediterrâneo não era ainda nome de avenida larga e o menino da janela da cozinha tinha o espectáculo pobre diário do que não acontecia e registava paisagem, gente, ruídos e não-factos indo para a cama idealizar o que poderia ser o que não era dando dimensão e cor ao minúsculo cinzento da realidade tanto que olhando o tecto branco do quarto com uma rosácea de gesso ao centro este se afastava até o menino pensar que ia ver o céu mas fechava os olhos com medo que o tecto lhe fugisse e o espaço voltava à normalidade o silêncio convidava à modorra e o tempo se encarregava de o fazer dormir. O espaço, o silêncio, o tempo.

Ao longe a mancha verde do campo descia até ao aqueduto da Cova da Moura onde a chaminé da fábrica das lâmpadas assinalava como um padrão o limite do seu espaço para a esquerda e do lado direito o Alfredo Maluco descia na sua tábua com rolamentos de esferas a Rua de Sant’Ana quase até chegar ao beco que era o centro cívico social comercial e artístico do microcosmos que a virtual câmara de 8 mm que o menino montara na janela, não porque tivesse partido a perna como o James Stewart do Hitchcok, mas porque queria ver e saber tudo que gravava para memória futura.
O Tarolo palitava os dentes podres encostado à sua caminheta vermelha esperando clientes para um serviço que muitos dias não chegavam, as mulheres das caves gritavam pelos filhos para se despacharem para ir para a escola de bibe e com os livros e cadernos na sacola, “- Oh Zé Manel, oh Alfredo!” -, os pais indiferentes saíam para o trabalho de fato macaco azul e desapareciam rumo à oficina ou à obra, no pombal da quinta do Tobias a Cabeça de Avião de pé atrás da filha sentada num degrau catava-lhe os piolhos, “- Está quieta com a cabeça Assunção, raios partam a rapariga!” -, para o barracão metade moradia metade armazém de materiais para as obras entrava cedo o Júlio Peres conhecido fadista das noites de Lisboa todo afiambrado e penteadinho para o merecido repouso diário após a noite a ganhar com a garganta afinada o pão de cada dia e quem sabe a acender sonhos e paixões com os requebros da sua voz, que a mulher coitada depois de um dia a lavar e a passar a ferro a roupa de outros só tinha que lhe apresentar à noite os sapatos de verniz preto a brilhar o fato engomado e a camisa branca sem pregas no peito e rugas no colarinho; para o menino era um mistério que se renovava cada dia como podia sair daquele tugúrio uma pessoa tão bem posta aparentemente lavada apostando até que cheirava a Madeiras do Oriente mistério que descobriu já grande no Jardim das Hespérides onde bastava trocar o fado pela morna.

Numa janela do rés-do-chão do único prédio em frente o Sargeta que tinha sido sargento na tropa mas que a sua propensão para os soldados rasos lhe afivelara a alcunha entabulava conversações para um comércio carnal com um magala em licença enquanto a plaina descansava sobre os costados de um guarda vestidos  para uma Senhora da Tenente Valadim,  do 3º andar abria-se uma janela de par em par e o Escarrador de camisola de alças que diziam ser irmão do Sargeta mas tinha vergonha pigarreava  tossia e lá arrancava às entranhas a lostra matinal que se despenhava até ao chão de terra batida do beco, “- Se tivesse casca era ovo!” - gritava  com a sua voz de aguardente o Tarolo até ali a observar a cega das alfaces a mijar em pé como fazia todos os dias depois da primeira ronda de venda pelas freguesas dos quarteirões vizinhos,  abria as pernas aliviava-se e sempre com a cesta à cabeça agarrava a saia com ambas as mãos e limpava a fonte e o escorredouro das suas necessidades líquidas,  o menino nunca percebeu porque é que a cega só vendia alfaces e não as apregoava se calhar era muda enquanto que a preta  vendia todas as verduras da horta e gritava com a sua voz de corneta “ -  Oh freguesa o meu grelo é tão fresquinho!”.

Os rapazecos do beco jogavam à bola e diziam palavras feias e as suas irmãs penteadas e de laçarote lançavam o ringue longe deles para não os ouvirem e não empoeirarem os vestidos que exibiam as únicas flores do cenário; acontecia mas de raro uma zaragata entre mulheres que se resumia a uma ofensa esganiçada com as mãos nas ancas e uma sonoras palmadas no próprio traseiro para reforçar conceitos um puxão de cabelos mas isso uma vez por ano, rixas de homens nunca porque o Nove Dedos que era o Chefe da Polícia da Lapa tinha fama de violento e resolvia essas coisas à porrada no recato dos calabouços da sua esquadra e ao abrigo da autoridade que a Lei lhe conferia e casos desses eram para ele uma chatice pois só queria viver pacatamente com a sua Família com o seu ordenado de agente da ordem e dos proventos que arrecadava da sua actividade de gestor de duas ou três casas de tolerância que eram as mais recomendadas pois que as suas meninas passavam todas as semanas a inspecção sanitária nas Francesinhas, a ordem e o respeito da Lei eram sagradas e ele estava ali para isso.
O Macaco e o Sacalhoa dois já espigadotes com idade para trabalhar mas que apareciam por ali regularmente a fumar a sua beata e a avaliar o ambiente com as mãos nos bolsos das calças eram personagens que povoavam o cenário do menino e os únicos que lhe provocavam um certo temor não gostando nada de se cruzar com eles pela rua quando a Mãe o mandava à padaria do enfarinhado Sr. Branco ou à leitaria do gordo Bebe Leite mas era um medo seu sem uma razão; naquele dia um dos operários que mudara de roupa de manhã cedo no barracão para ir para a obra regressando ao cair da tarde deu pela falta do relógio que tinha deixado no bolso das calças e pelo ruído de vozes alteradas que subiram até à janela do menino este ocupou o seu posto de observação e percebeu que a coisa desta vez era séria com o queixoso a acusar de furto a torto e a direito começando pela mulher do fadista e menos mal que o marido não saltou a terreiro para a defender já que tinha de dormir e além disso não se metia com gente daquela, era um artista, ela jurava pela alma da mãezinha que Deus tem que não era uma ladra nunca tinha mexido nem com as pontas dos dedos em nada que não fosse dela, o Tarolo avisou logo “ - Não olhes para mim com essa cara porque senão quando menos esperares estás de perna a pino e a contar os dentes no chão” -, o mulherio juntou-se a criançada aumentava a confusão começava-se a tomar partido e a lançar bitaites, o Escarrador veio à janela sem cuspir não era hora, o Sargeta não deu acordo de si entretido que estava a abrir malhetes numa gaveta ou a ensinar truques da sua especialidade a um 1º Cabo de Preboste, a Cabeça de Avião andava na lida fora e a sua Assunção aproveitando a ausência da mãe estava no pombal a namorar, chama-lhe namorar, e todos juravam a pés juntos não ter visto nada nem ninguém estranho a rodar pelo beco pelo que o cerco se apertava aos habitantes do barracão e a pobre mulher já chorava baba e ranho de todo o tamanho quando chegou a viatura da esquadra da Lapa “ - Vamos mas é a circular não queremos aqui curiosos hoje não há robertos tira mas é cá para fora o que é que aconteceu e quem é que pensas que foi que isto resolve-se depressa” -, e o roubado esbracejava explicando tudo tintim por tintim, repetia a marca e o preço do seu querido relógio de dois em dois minutos, os agentes entravam e saiam do barracão perscrutavam o olhar dos suspeitos e vendo que não tinham mais nada ali a fazer embarcaram o queixoso e toca para a esquadra para lavrar os autos.
Estranhamente as janelas das traseiras das casas das famílias remediadas do Moínho de Vento permaneceram todas fechadas, os polícias bem olhavam para cima para ver se alguém teria visto alguma coisa mas as pessoas ou não estavam em casa ou estavam a espreitar por detrás das cortinas porque isto não é para eles e até parecia mal estarem a ligar às tricas daquela gentalha do beco, a Mãe mandou o menino fechar a janela não fosse o diabo tecê-las não é nada connosco “ - Esta gente está sempre a arranjar sarilhos, vai fazer os trabalhos da escola e amanhã não fales disto com os teus colegas podem pensar que vives não sei onde nalgum bairro da lata e depois riem-se de ti e põem-te de parte ainda vão contar ao Irmão João a história toda e depois podes ser tomado de ponta e começarem a embirrar contigo não quero que deixes de ter boas notas” -.
Dizem os Jesuítas que se lhes entregarem uma criança nos primeiros anos eles garantem saber qual vai ser o seu comportamento durante todo o resto da vida e o menino que não estava nas mãos dos Jesuítas mas tinha a aproximação já começava a dar razão a essa convicção clerical tanto que tendo uma vez ao regressar da escola tido a tentação de tirar uma castanha de um saco que estava à porta de uma mercearia dormiu mal nessa noite passou a andar de monco caído que até a Mãe lhe perguntara “ - O que é que tens, aconteceu-te alguma coisa?” - mas o menino respondia que não que não era nada mas logo no domingo seguinte se pôs na fila de um confessionário na Basílica da Estrela e chegada a sua vez depois dos ritos preambulares deitou fora o sapo que o engasgava, “ - Roubei uma castanha a um comerciante” - que até o padre confessor se deve ter rido para dentro por tão pouco e lá lhe deu umas Salvé Raínhas de penitência e o menino foi ouvir a missa com uma leveza recuperada e até brincou no adro durante o santo sacrifício da saída da missa fartando-se de rir com os irmãos e as primas.
No outro dia o menino ao voltar da escola à hora de almoço achou estranho estar a porta da rua entreaberta, empurrou-a e teve a presença de espírito, que nem ele próprio soube onde foi buscar tanto sangue frio, de fingir que não viu que o Macaco e o Sacalhoa  estavam escondidos atrás da porta no escuro da escada a dar corda a um relógio tendo ambos desandado mal o menino subiu a escada de dois em dois e só respirou quando a Mãe lhe abriu a porta e ele a empurrou “ -  Fecha a porta Mãe, está cá o Pai? – “ -  Mas o que é que aconteceu que parece que viste bicho? “ -, mas bicho e bravo parecia o coração do menino que batia descompassadamente mesmo depois que fez um urgente xixi que se não chega tão depressa à sanita tinha feito nos calções e ele sabia a vergonha que isso era pois já lhe acontecera uma vez num carro eléctrico quando voltava a casa da Tapadinha um domingo que fora com o Pai ver um Atlético-Benfica no tempo de Ben David e do Julinho,  e já mais calmo contou tudo ao Pai  “ -  Vi,  tenho a certeza,  o Macaco e o  Sacalhoa a darem   corda a um relógio atrás da porta da rua mas acho que eles não viram  que eu  vi mas tenho  medo do que é que  eles  me podem fazer se desconfiam que eu os vi e me apanham na rua, tenho medo Pai!” -, “ - Não deixes o menino ir à escola esta tarde dizes para lá que ele chegou a casa com um febrão, está descansada que eu trato disso “ -, e o menino ficou tranquilo porque o Pai resolvia sempre tudo mesmo a coisa mais complicada e até adormeceu depois do almoço não se esquecendo de fechar as portadas de madeira das janelas do quarto.
À noite o Pai voltou e disse à Mãe “ - Está tranquila que fui falar com o Nove Dedos contei-lhe a coisa à minha maneira e amanhã já ele pode ir à escola porque os gandulos já esta noite vão dormir à esquadra e não queria estar-lhes na pele” -,  o menino não fez perguntas jantou e dormiu tranquilo porque quando o Pai dizia uma coisa ele acreditava  e adormeceu até um pouco orgulhoso de ter contribuído a repor aquilo que lhe tinham ensinado em casa e na escola que o bem é o bem que o mal é o mal e que quem faz bem tem de ser premiado e quem faz mal tem de sofrer o castigo embora seja bizarro que nunca tenha esquecido até hoje os nomes dos gandulos que de vez em quando afloram como post-its  de cor viva à sua  memória cada vez mais fugidia. Se o menino soubesse…
Lisboa, 3 de Abril de 2014
Octávio Santos
a)     Título digno de um filme de Lina Wertmuller, sem qualquer alusão, Deus me livre, àquilo que se passa hoje em Portugal.







 

quinta-feira, 27 de março de 2014

Escrita criativa com massa de letrinhas na borda do prato fundo da canja

O único barbeiro que compreenderia o meu texto de hoje seria o Celestino se fosse vivo porque me contava a história da formiguinha que entrava no buraquinho pegava um baguinho de trigo e saía cá para fora e repetia, repetia, repetia cem vezes se preciso fosse enquanto me cortava o cabelo e Deus sabe o que era ficar para ali imóvel com medo que uma tesourada distraída por uma das formigas me cortasse uma orelha ou que aquela máquina alicate infernal me entalasse um sinal no pescoço fazendo-o sangrar e isso era morte certa no dizer dos velhos isso e um calo agravado que era ainda pior que nem com ventosas ou sanguessugas havia salvação mas o Celestino teria compreendido se fosse vivo e não o é há pelo menos meio século porque ouvia a Mãe do menino perguntar: “- Sempre queres a canja com pevides cuscos cotovelinhos aletria ou letrinhas?” - e o menino invariavelmente respondia debaixo da toalha cheia de cabelos “- Letrinhas Mãe.” E a Mãe já sabia que nesse dia ao almoço depois do Celestino arrumar as tesouras receber o devido e despedir-se "- Até para o mês que vem se Deus quiser!", o menino ia comer a canja fria pois começaria a procurar letras com a colher de sopa para as alinhar na borda do prato fundo e escrever palavras quanto mais complicadas melhor pois que seria mais difícil encontrar as letras todas que serviam mas isso fazia parte do gozo da escrita “- Olha que comes a canja fria!” - dizia a Mãe, “- O Pai está a chegar e sabes como ele é tem goela de pato come tudo quente e a correr e já ele terá engolido a última sopa de pão que ensopou no molho do guisado e tu ainda aí a espiolhar a massa nem sei para quê.” Mas o menino sabia para quê e escrevia palavras esdrúxulas e proparoxítonas e capicuas e nomes de pessoas de cidades de animais de rios de artistas de cinema Myrna Loy era dificílimo porque o i grego não era fácil de encontrar como o cromo do Costa Pereira nos rebuçados da bola que se trocava por três Matateus e também Errol Flynn mas Vasco Santana era mais fácil como  Jean Gabin  ou Cantinflas ou Pamplinas e um dia, escrevendo cidades, descobriu que Roma ao contrário era amor e começou a fazer um carrocel de Roma à volta da borda do prato fundo para se perder na palavra e já ninguém saber o que é que ele queria realmente escrever e o ovo amarelo e a pata da galinha e os pedaços de moela fígado e coração e pescoço, não porque a Mãe sabia que o menino não gostava de pescoço mas adorava chupar os ossinhos todos da pata andava tudo por ali a boiar e a esfriar no meio do caldo com olhinhos de gordura e umas farripas de cenoura e cebola, não podia faltar a cebola às vezes com um cravo de cabecinha espetado que lhe dava aquele sabor das Índias a que os portugueses se habituaram, como se seu fosse, e o menino procurava letras e escrevia, escrevia, escrevia por vezes coisas sem nexo mas que lhe soavam bem repetir como a truta a trote tropeçou e estatelou-se na trampa ou a escola só para jogar à bola porque sou um estarola e as letras saíam da borda do prato fundo que tinha um filete dourado a desaparecer de tanto ser lavado com sonasol no alguidar de zinco e entravam na cabeça do menino que as fazia passear pelo cérebro e algumas ficavam lá perdidas e já não saíam cá para fora e é agora em dias como o de hoje melancólicos em que a esperança se esvai e a fé precisa de uma saponária,  que elas saem sem sentido nem nexo para comporem coisas incompreensíveis como esta que só o Celestino poderia ler, intervalando as letras do menino com as suas formiguinhas que saíam do buraquinho do celeiro, já sem os baguinhos de trigo mas com o seu produto acabado, as letras já formadas que formavam palavras por milagre, lembro-me de ver as formiguinhas do Celestino em fila indiana a carregar frases feitas como "foge menino foge” e era o diabo ou “come a canjinha que arrefece” e era o anjo e as palavras e as frases as das formiguinhas e as outras volteavam no ar como que enroladas por um torvelinho e entravam nos ouvidos do menino que as guardou todas e algumas eram bem feias e são aquelas que lhe custam mais a dizer mas às vezes é preciso porque há sempre um filho de Putin que a isso o obriga mas ele tenta ser gentil mas não sempre consegue,  mesmo com aqueles que mereciam que houvesse Kalaschnikovs carregadas com palavras pesadas para lhes disparar contra o coração mas qual quê eles têm cotas de malha anti-palavras  e advogados com olhos de zombies que fazem as palavras disparadas fazerem ricochete e atingirem-te a ti e o menino sabe isso muito bem, por isso errou quando brincava com palavras na borda do prato fundo da canja e que hoje não lhe servem para nada porque a palavra que já serviu para derrubar colossos com pés de pastilha gorila, já eles descobriram como a tornar inócua com um sorriso uma mentira e uma desfaçatez, uma calúnia mesmo um crime, desde que sem provas que mesmo essas se destroem com outras palavras porque as palavras se tornaram maleáveis indecifráveis eles inventam significados novos para baralharem os dicionários e pôr-te às aranhas sem saberes bem o que dizes ou pior com medo de usar as palavras que inventaste na borda do prato fundo da canja com miúdos a esfriar diante dos novos inventores de palavras novas que só querem dizer o que eles querem que seja naquele dia mudando no outro, e assim, se o menino tem respondido “- Mãe, hoje quero pevides ou cotovelinhos.” talvez hoje não estivesse tão perdido, soubesse falar com eles todos para os desmentir ou estar de acordo e escusasse de andar a meter-se em táxis sem destino aparente só para ter em quem vai ao volante  interlocutores para as suas inúteis palavras ou tentar pateta convencer a Odete Miranda cabeleireiro unissexo da 5 de Outubro, que no canto do seu salão há um buraquinho por onde entram formiguinhas a correr em fila indiana e em fila indiana saem carregando um grãozinho de trigo, que todos sabemos não serão distribuídos igualmente por todos nem em pão nem em massinha de letras para a canja. Repousa em paz Celestino, barbeiro do menino arrependido de ter brincado com letras e formado palavras vãs na borda do prato fundo da canja, que sempre comeu fria por sua exclusiva culpa.

Lisboa, 27 de Março de 2014
Octávio Santos

quinta-feira, 20 de março de 2014

"Com respeito às palavras” - A indignada narrativa sobre a coluna vertebral de um esqueleto sem dedos.

A semana passada fui ver “A Grande Beleza”, filme italiano que venceu o Óscar para melhor filme estrangeiro, e gostei. Gostei porque a verdadeira protagonista é Roma, “a minha cidade”, cuja beleza contrasta com a sua ausência nos comportamentos dos protagonistas secundários - homens e mulheres -, porque o génio de Federico Fellini está presente do princípio ao fim do filme, porque a visão de um mal por todos aceite e cuja banalização lhe dá estatuto de normalidade, nos indica os caminhos do bem, porque fazer desaparecer uma girafa nas Termas de Caracalla é só um truque, ensinando-nos que é escusado varrer o lixo para debaixo do tapete; alguém, um dia, se encarregará de descobrir um, levantando o outro. Não gostei que o filme durasse mais de duas horas e meia: uma montagem que reduzisse as cenas de imprinting felliniano - os mestres não se copiam, citam-se -, poderia tirar-lhe uma boa meia hora sem nada perdermos. Não gostei nada, mas isso não tem a ver com o aspecto artístico do filme, do premeditado e imediato aproveitamento desta vitória como arma de marketing, e passo a explicar-me: a FIAT, já há alguns anos em parceria com a Chrysler, acaba de a “comprar” definitivamente, tendo agora todo o poder de decisão sobre a grande marca norte americana, sabendo-se já que o próximo modelo Jeep será construído em Itália e não em Detroit. Ora, no dia seguinte à noite da atribuição dos Óscares as televisões transalpinas passaram a transmitir insistentemente um anúncio, no qual vemos Paolo Sorrentino, realizador do filme, a conduzir um Fiat 500 (o modelo da marca mais apetecido nos EUA) pelas ruas da Roma da película, anúncio intitulado “La Grande Belezza”, o que me indignou pelo facto de tudo se ter tornado “indignado”, no rigor do Latim.

Por isto, embora tencionasse escrever hoje sobre o filme, e também porque mão amiga me levou à Culturgest para assistir a uma conversa/debate sobre o texto que a escritora Hélia Correia (HC) publicou no suplemento “Ipsilon” do jornal Público no dia 15/01/12014, intitulado “Com respeito às palavras” , virei-me para este outro assunto que, além de não nos induzir em engano, nos alerta para o uso indevido e indiscriminado de armas ao serviço desse engano, como podem ser, neste caso, as palavras. Mas, tal como HC, que declarou não ter “competência para escrever sobre os eventos da realidade”, também eu não a tenho para comentar o seu magnífico texto, pelo que me limitarei a tecer algumas banais considerações sobre as frases e conceitos que mais chamaram a minha atenção, e também sobre quanto disseram na ocasião, a autora e os seus companheiros de mesa, António Guerreiro (AG) e Diogo Vaz Pinto (DVP).
Eu, que, como todos sabem, escrevo para taxistas e barbeiros desde 2004 e vejo agora gente que há dez anos era insuspeita de entrar por essa via, dizer agora na rádio e na televisão, e pôr preto no branco em jornais e revistas, coisas que os mesmos me tinham ensinado que eram indignas de propalar para além das conversas de café com os amigos, confesso que tenho muita dificuldade em opinar sobre um texto que, pela sua seriedade e profundidade, teria sido melhor fingir ter-me passado ao lado e deixar a outros o ónus e a responsabilidade de sobre ele falar, tanto mais que ouvi a HC afirmar, que a humanidade é um artifício, e que a linguagem é um artifício da humanidade: como falar então de um artifício ao quadrado senão de uma forma redonda? Mas vamos a isso, digo eu de mim para mim, como se estivesse para entrar no Labirinto de Creta, numa arquitectura de Escher ou nos recônditos lobos cerebrais de quem nos impinge austeridade como virtude, para que fiquemos contentinhos com a ideia de “emagrecer” com sacrifício sim, mas com a consciência de um dever cumprido, saindo do processo doloroso como que rebaptizados e livres finalmente da nova versão do pecado original.
Uma coisa é certa; o uso generalizado deste dialecto da “novilíngua” orwelliana com que nos martelam os ouvidos, é imposto pela obrigação de pertenceres a uma casta, fora da qual não tens, com o pouco que sabes, qualquer espaço vital ou hipótese de sobrevivência, não estando eu, por isso, de acordo com HC porque com motins destes vale a pena perder tempo, mesmo que o riso alarve e alvar dos pseudo vencedores nos faça estrebuchar no vazio. E para acabar depressa com os meus desacordos com HC, direi que não gostei nada de a ouvir dizer que não faz falta sonhar, que não gosta nada de sonhos (aqueles acordados) porque “ sonhar leva a que a musculatura se atrofie”, para além de se correr “o risco de hipnose”, e que, ao contrário do que disse o poeta, estes não comandam a vida, que a “Poesia do Pensamento”, de Steiner, é mais importante que toda aquela feita hoje “ no país de poetas”  a),  que “raramente dá bons textos”, o que a mim, acabado de ter 7 lições, 7 de poesia com o José Fanha me deixa muitas e fundadas dúvidas, deixando-vos propositadamente “O Desempregado com Filhos”, de Gonçalo M. Tavares,  que não me parece  seja fruto do amolecimento pelo sonho, e,  finalmente,  que a catarse, provocando o alívio do mal, é neste caso negativa.  Fim dos desacordos!
Que a desumanidade é um mistério todos nos demos conta a ver filmes de alliens e zombies, mas agora, ao vê-los a voltear entre nós, em carne, osso e estupidez, a reivindicarem, e conseguirem, a condição e estatuto de humanos, e mesmo de sobre-humanos, o mistério adensa-se tornando-se insondável, se bem que saibamos que os “monstros” que nos afligem, chegam das Jotas e das consultoras fabricantes de robots à medida das exigências dos manipuladores dos cordelinhos da freenança. Como a metáfora é contagiosa - eles obtêm sempre o que querem – ponho-me a imaginar que a Rainha de Copas da Alice, com o estupor do coelho a atrasar-lhe o relógio, já estivesse à coca quando a Europa saltou para o dorso do touro branco (ariano puro) que a levou raptada para Creta, tendo escolhido nesse momento por que país começar a reinar, e esta a é minha “narrativa” pessoal, vazia e jocosa, já que a metáfora virtuosa é reservada aos políticos. Valha-nos Zeus como valeu a Europa.
Depois, já sem fôlego e embalado no baloiço das palavras, perco-me no texto da HC, que merece um profundo estudo que não é para mim nem para agora, mas que tenho a certeza será visto à lupa, linha por linha, porque, como disse o jovem DVP, é uma coluna vertebral, mesmo um esqueleto, ao qual cada um, com as suas capacidades, deverá acrescentar músculos, veias, nervos e órgãos vitais para formar um corpo que, erguendo-se, possa novamente dar mapa e farol àqueles que se refugiaram no “ não vale a pena”, recobrando força e coragem para começarem a fazer perguntas – escrutinar – a quem terá de prestar contas pela falsa ideia de democracia que tentou fazer passar como boa. Se bem que, mesmo que conseguíssemos, com este sobressalto de cólera legítima, recuperar os anéis perdidos, já não teríamos os dedos, que até esses nos levaram, como disse na TV o politólogo Joaquim Aguiar.
Confesso, na minha ignorância, que compreendi pouco do que disse AG que, a meu ver, atacou o “politiquês” com o “intelectualês”, ainda por cima de sentido único. Quando nos fala da linguagem a que os fascismos obrigavam os povos submetidos, pensava seguramente na frase de Roland Barthes “o fascismo não é impedir-nos de dizer, é obrigar-nos a dizer”, mas eu, que vivi quase 13 anos para lá da Cortina de Ferro no país que conheceu, em 1923, o primeiro regime fascista europeu, a Bulgária, sei que na frase de Barthes a palavra fascismo é perfeitamente intercambiável com a palavra comunismo, e isto para ser brando e não ressuscitar a frase de Mao “comunismo não é amor, comunismo é um martelo com o qual se golpeia o inimigo”, e o inimigo, para o fascismo ou o comunismo - que ainda hoje disputam entre si a honra de saber qual fez mais vítimas -, é sempre o povo.
Vou terminar fazendo uma lista daquilo que gostei muito na sessão da Culturgest:
- Do brilho nos olhos da HC quando nos contou a história daquela pequenina que os pais levaram pela primeira vez a uma manifestação, e que, ao ouvir gritar “Fascismo nunca mais”, perguntou, se as pessoas não queriam mais “sismos”. Quem nos vai salvar são aqueles que, com a mente limpa, conseguem dar outro significado e sentido às palavras;
- Da clareza do DVP que nos pôs diante do dever de ajudar a “vestir o esqueleto” com a nossa acção quotidiana, fazendo cada um a sua obrigação. Eu penso fazer a minha com a simples acção de estar atento;
- Da visível falta de paciência do DVP para ouvir as intervenções “rançosas” que vieram da assistência, respondendo sem entusiasmo ou excedendo-se, sempre com um abanar de cabeça que traduzi por “não vale a pena perder tempo e verbo com gente desta”;
- Da tocante modéstia da HC. Uma pessoa que escreve um texto destes, eu diria essencial para o nosso despertar colectivo, está ali sorridente a ouvir de tudo e a dizer o essencial, como se estivesse na apresentação de um livro para crianças. Que também os há importantes. E como!
Mentiroso contumaz que sou, prometi acabar com o que gostei muito mas tenho a tentação - estrago sempre tudo, diria alguém – de vos aborrecer com aquilo que não gostei nada, e foi muito pouco:
-Que nenhuma das pessoas que pediram para intervir no fim da sessão, se tivesse apresentado, identificando-se. Ou foi a troyka que nos tirou também a boa educação?
- Que a primeira Senhora que pediu para falar tivesse começado por dizer que tinha muita pena que o Rui Nunes (?) não estivesse na mesa, porque, segundo ela, era a pessoa indicada para falar sobre o texto. Não sei se o AG e o DVP se sentiram ofendidos, mas como são mais educados que a Senhora, para mim anónima, nada disseram;
- Que tendo algumas pessoas na assistência, uma das quais eu próprio, pedido o microfone para intervir, o “dono” da geringonça tenha virado a cara para o lado cortando o pio aos postulantes.
Foi melhor assim, pois se tenho falado, talvez já não tivesse escrito este texto, e me tivesse posto a comentar a sentença que o Chef José Avilez pronunciou na Cruz Vermelha, ao fazer publicidade do restaurante “Belcanto” - onde é sabido que todos os portugueses têm mesa posta -, de que não conhece nenhum português que não se sinta orgulhoso de ser português. Apetece-me passar um dia destes por lá, caso não se pague para franquear a soleira da porta, para lhe apresentar o primeiro exemplar.

Mas foi melhor assim, repito, porque no fim é tudo inútil, e refiro-me tanto ao que não me deixaram dizer como ao que deixo aqui escrito, mas nunca à inutilidade do voto, como nos pode levar a inferir uma frase que li não me lembro onde: “Democracia é a liberdade para eleger os nossos próximos ditadores!”
Lisboa, 20 de Março de 2014
Octávio Santos

a)     Já que acima citámos “o país dos poetas”, permito-me transcrever o convite recebido da Chiado Editora, e de vos obrigar mais uma vez a ler o meu poema “Viagem de fim de semana em ascensor” porque ele faz parte da Antologia citada no convite. 
“ Caríssimo Autor,        

É com o maior prazer que a Chiado Editora O convida a dar-nos a honra da Sua presença no lançamento da Antologia de Poesia Portuguesa Contemporânea "Entre o Sono e o Sonho" - Vol. V.
A obra conta com mais de 1.000 poetas portugueses contemporâneos antologiados, e afirma-se definitivamente como a mais completa das Antologias Poéticas publicadas actualmente em Portugal.
O lançamento terá lugar no Sábado, dia 22 de Março, pelas 16 horas no Salão Preto e Prata do Casino Estoril. Será uma tarde de poesia memorável, na qual todos os Autores antologiados presentes subirão ao palco do Salão Preto e Prata.
A entrada é livre e são todos bem-vindos.
Chiado Editora
Break Media Holding”

quinta-feira, 13 de março de 2014

Partir ou Ficar? Prós e Contas versus Pós e Contras.



Uma dúvida não tenho, e penso que ninguém terá: Portugal está a ser bem governado e no caminho certo. Se assim não fosse não estaria agora um grupo de 70 antipatriotas invejosos, tão diferentes entre eles, a envidar todos os esforços para desacreditar a acção do governo e dar a saber lá fora que nem tudo são rosas. Lembra o Henrique Galvão a desviar o Santa Maria. Que depois voltou. Todos voltam. Lembra-me, como se fosse hoje, o Dr. Salazar no cais de Alcântara a debitar a frase da vitória: - Portugueses, a Santa Maria está de novo entre nós! Como a capa da Visão desta semana: Porque ri Relvas? Porque voltou. Todos voltam. Só estes 70 não se vão embora, destilar o veneno pessimista das suas calúnias nas margens do Quanza ou do Orinoco. De Leite a Louçã venha o Coelho e escolha. Aliás já escolheu, com o apoio musculado de Belém: todos culpados se o país não for para a frente como programado – agora com o Relvas novamente ao leme do Partido – porque estas coisas não se dizem para mercado ouvir. Já o que o Ministro da Defesa disse ao General Garcia Leandro, confessando que não percebendo nada de defesa tinha mais capacidade para fazer reformas e cortes, revela competência, sentido de Estado e patriotismo. Assim, sim!

Já na semana passada me tinha referido ao mal barbeado Paulo Rangel que achava que o PS não devia andar por aí a badalar o seu desacordo. A Bem da Nação. Como o Dr. Mário Soares não deveria ter escrito o “Portugal amordaçado”. Tenho a sensação que os relógios em Portugal não andam, mas como Deus é português e os relógios parados dão horas certas duas vezes por dia, lá vamos escapando. Quem não está de acordo, agora que Caxias e o Tarrafal são só praias, mude-se! Ele há tantos países para onde emigrar, verão que vão ter sucesso e a televisão aberta para o documentar diante do olhar basbaque daqueles que não tiveram ainda a coragem de dar o grande passo. É que depois volta-se, muitas vezes a rir; ou depois do 25 de Abril para ocupar as cadeiras dos que saíram, ou porque o balbuciar pateta da Grândola tenha caído no esquecimento, ou porque já se amealharam uns pobres cobres em francos suíços, em euro/marcos ou euro/francos para fazer a casa na terra, todos voltam. Porque ri Relvas? Porque voltou. Porque é que os jovens investigadores da saúde se mostram risonhos, via skipe, de Londres, nos Prós e Contras? Porque partiram. Partir ou ficar, eis a questão.
Até o Tordo do “Vává” – nada de depreciativo, mas era aí que o encontrávamos no tempo da Tourada -, teve de pegar na guitarra e ir até ao Recife. Com carta do Filho – todos os Filhos escrevem coisas exageradas quando falam dos Pais – ou sem carta do Filho, com polémicas estéreis e invejosas (até o Henrique Monteiro, um dos 70,  se confessa invejoso no prefácio dos meus Hieróglifos), ou na banalidade de mais um que se sentiu prisioneiro num país bloqueado pelos cadeados da Troyka/EMEL que os agentes da ordem nacional distribuem alegremente com a consciência do dever cumprido, o certo é que uma figura da cultura deste país bateu com a porta. Um país sem cultura não tem futuro. Estarão à espera 20 ou 30 anos que ele volte encaixotado para que, em abaixo assinado, as forças vivas da Nação lhe proponham o Panteão? O último proposto para tal honra póstuma teve de emigrar para os Estados Unidos, para o Canadá e para o México quando os joelhos fraquejaram. Para além da falta de cultura temos também falta de memória? Ou será este Portugal umas eternas Obras de Santa Engrácia que, acabadas após séculos de indecisões e esperas, são objecto de discussão para decidir quem entra e quem não entra?
Eu também parti. Tinha 27 anos, uma Família, dois Filhos, e a minha partida que, por eu não ser ninguém, passou despercebida, teve dores e resultados cuja dimensão e intensidade só são conhecidos por um número tão restrito de pessoas que sobra um dedo de uma mão para os contar. Mas que importam estes pormenores àqueles que fazem partir as pessoas?  E também voltei. Todos voltam. E, se a partida da partida foi, no meu caso,  aparentemente ganha, que dizer da chegada?  Porque chegar a um lugar que chegou ao estado a que chegou, tira a alegria de chegar a qualquer um. Também porque nunca se chega definitivamente a lado nenhum. Não se chega, está-se. Em Angola está-se, dizia um cartaz de propaganda no tempo da outra Senhora. Em Angola volta a estar-se para os que, partindo, escolheram o país da Senhora Dona Isabel. Deus sabe se para voltarem como da outra vez, agora com a “ajuda” das taxas aduaneiras.
No êxodo bíblico que Moisés guiou, com milagres à mistura, para fazer chegar o seu povo à Terra Prometida, para, uma vez  nela instalados  deixarem  matar um que dizia a Verdade,  para séculos depois voltarem a partir e pagarem na pele o seu “pecado” por esse mundo fora, e voltarem a voltar depois de quase banidos da face da Terra, e chegarem a casa para descobrirem que não era só deles, e que os novos inquilinos não falavam a mesma língua nem rezavam ao mesmo Deus, e, ou tu ou eu, vamos mas é discutir isso com uma linguagem que cheira a pólvora e sangue dentro das fronteiras, e a dinheiro nos areópagos internacionais, onde tanta coisa já foi decidida para não ser cumprida, como é uso entre as pessoas de bem que os frequentam. E que sabem muito bem o que fazem.
Não sei se serão também 70 os componentes do coro que, na ópera “Nabucco”, de Verdi, cantam a ária “Va, Pensiero”, conhecida como “Coro dos Escravos”, mas estou seguro que mais de 70 ou mesmo 700 milhões de pessoas já se emocionaram a ouvi-lo. Escravo era o povo hebreu sob o jugo de Babilónia, cujo implacável Rei Nabucodonosor saqueara o Templo de Jerusalém antes de os levar feitos escravos para as margens do Eufrates; e é nestas margens que os hebreus acorrentados cantam para celebrar a Pátria perdida. Quando Guiseppe Verdi escreveu a partitura de “Nabucco”, todo o norte da Península Itálica estava sob o domínio do Império Austro-húngaro e o desejo de liberdade do povo lombardo, veneziano e piemontês, é exprimido pelo compositor na ária que passou, desde a primeira vez que foi cantada na Scala de Milão em 1842, a ser o seu hino de liberdade, tanto que começou a aparecer escrito nas paredes de Milão, Turim, Verona, Pádua e Veneza, “Viva Verdi”, que mais não era que um disfarçado “Viva Vittorio Emanuele Re d’Italia”,  que no dia do seu funeral, em Milão, o povo entoou espontaneamente o coro, e que, ainda hoje, quando se fala em mudar o Hino de Mamelli, venha sempre à baila o “Va, pensiero”.  Cada povo tem a sua ânsia de liberdade e a sua maneira de a exprimir.
Hoje, em Portugal, temos a liberdade de partir ou ficar, consoante o partido ou a casta a que pertences, o apelido que te calhou em rifa ou obtiveste por aliança, o grupo mais ou menos secreto em que estás filiado, ou o grau de importância dos segredos que conheces dos palácios, de todos os palácios, daqueles do governo aos da finança. Na Segunda-feira passada o programa “Prós e Contras” versou o tema “Ficar ou Partir?”, da sua nova sede na Fundação Champalimaud, e eu pergunto-me, ingénuo, se esta nova sede é a apropriada para se poder ter opiniões em total liberdade sem medo de perder o emprego, e falo daqueles que ainda têm a felicidade de o terem. Foi, digamos, um Prós e Contras à medida do medo generalizado. Recordo só o fenómeno de alucinação colectiva que levou quase todos a considerarem “A Gaiola Dourada” como um grande filme, chegando a falar-se de uma nomeação ao Óscar – os mesmos que querem candidatar o Carnaval de Torres Vedras a Património Imaterial da Humanidade -, quando, sem falar nas perigosas mentiras que veicula (propaganda?), é, na minha opinião, um filmezeco da treta.
Como todos sabem sou incapaz de fazer o relato de quanto vi e ouvi de uma forma sistemática e ordenada, recorrendo por isso a alguns flashes que chamaram a minha atenção, e que passo a repetir sem ordem ou nexo entre eles, jurando não inventar nada como é pecha minha; digamos, um puzzle para os leitores comporem à sua vontade, já que as peças são de fácil encaixe e no fim bate sempre tudo certo. Como dizia António Gedeão: Vê moinhos, são moinhos, vê gigantes, são gigantes!
- Havia mais Prós que Contras, e do lado dos Contras havia, ainda assim, uns pós de Prós;
- Que os Prós, cujas contas lhes devem sorrir neste momento (em tempo de crise há sempre quem tire as castanhas do fogo), eram, desculpem a leviandade, todos feios, mal amanhados, arrogantes e, o pior, detentores da verdade;
- Que as PPP’s, a dívida pública, o BPN e as sinecuras, favores e mordomias dadas de mão beijada a banqueiros e golden boys, não eram responsáveis pela situação e não eram para ali chamadas, segundo as contas dos Prós;

- Que, segundo os milagrosos pós dos Prós, nunca como hoje houve tantas oportunidades em Portugal, e que temos é que encontrar soluções e dar um pontapé na crise (um ou mais, lembrando-me do CR7 contra a Suécia);
- Que Portugal é um país em que se desperdiçam oportunidades. Um dos feios (porcos assim assim, nunca maus), disse que quando se fizeram os descobrimentos se gastaram os proveitos a fazer a Torre de Belém e os Jerónimos. Tinham os leitores consciência de pertencer a um povo perdulário, pergunto eu atónito?
- Que há dois países em Portugal, e o que lhes interessa é aquele que produz e cria emprego, citando o Engº. Belmiro de Azevedo como exemplo a seguir, e que os salários que hoje se pagam em Portugal são aqueles possíveis, e são um dos atractivos para o investimento, mesmo se insuficientes para dar uma vida digna a quem trabalha no outro país que não lhes interessa;
- Que em Portugal não há respeito pelas instituições porque estas não se dão ao respeito, isto para dar valor à tese que o Estado está a mais, ou seja, a estorvar a “freenança”;
- A única, toda Contra na mesa – Raquel Varela, investigadora e formadora -, sem contas a defender nem pós de perlimpimpim a usar, que teve de chamar mal educado a um dos “brilhantes” Prós que lhe perguntou quantas pessoas ela empregava (um cavalheiro!), lá ia dizendo que:
     - As pessoas estão fartas;
     - Há crianças gordinhas com fome calórica;
     - As únicas coisas que unem os portugueses são o desemprego e o desespero;
     - Os jovens saem porque não têm futuro;
     - A política de terra queimada da Troyka, aceite e apoiada por quem nos governa, usou bombas inteligentes num  bombardeamento humanitário. Com efeitos colaterais, isto é, nós.
Um dos jovens Contra na sala, desempregado como quase 30% dos seus coetâneos, disse que havia dois países em Portugal, concordando com os Prós. Basta descer a Avenida da Liberdade de dia e de noite. De dia as grandes firmas a resplandecer para os seus endinheirados clientes. De noite a miséria a dormir na soleira das suas portas e montras. Disse ainda que, a emigração é uma coisa boa se não for forçada. Como válvula de escape económico e social, é uma violência que destrói uma geração, ajudando a criar racismo e xenofobia nos países receptores, como estamos a assistir todos os dias.

Em Portugal estão a ficar aqueles Contras que não contam nem têm conta no banco, desempregados ou com salários de miséria, e aqueles Prós premiados com uns pós de magnanimidade, traduzidos em salários e prémios de nível europeu; para os amigos e os amigos dos amigos, vai sempre chegando.
Cheguei à conclusão, se bem compreendi tudo, que há sempre uns pós para compensar quem nunca é Contra, mesmo que se trate da omissão de regulamentação que competia ao Banco de Portugal; Vitor Constâncio é o exemplo. E sempre umas contas para os Prós que ajudam a enterrar os Contras com declarações tipo “- Ai aguenta, aguenta!”, da qual o banqueiro Fernando Ulrich tem direitos de autor.
Permitam-me dois anúncios:
Ricardo Araújo Pereira vai ter, a partir de Abril, um tempo de 5 minutos após o telejornal das 20.00 horas da TVI, intitulado “Melhor que falecer”, para dizer aquilo que os jornalistas não podem dizer (sic).
Daniel Oliveira dá uma conferência no El Corte Inglès, dia 14/3, às 19.00 horas, intitulada “A morte lenta da democracia”.
Peço desculpa por terminar plagiando uma admirável frase do teólogo, escritor e poeta José Tolentino Mendonça, que encerra a crónica "Obrigado, Luís Miguel Cintra”, na sua habitual rubrica semanal “que coisa são as nuvens”, publicada na revista do Expresso de 8 de Março último. 
 “ Na política não há nada mais fácil do que conseguir um milagre. Mas se me disserem que é política, eu respondo que não é.”
Ajudem-me sff porque já não sei onde vivo e esqueci o caminho de casa. Deve ser da idade.
Lisboa, 13 de Março de 2014
Octávio Santos