quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Lembranças com mais de meio século de um menino remediado que via o Mundo da sua janela, contava automóveis, assistia à pequena comédia humana, com as suas pobrezas e misérias, analisava comportamentos e estéticas, copiava tiques de macho e, em dias de menos movimento, se deixava adormecer e sonhava, tendo esquecido quase todos os sonhos, com duas pequenas e construtivas excepções


Sei que em 1962 ainda não tinha televisão em casa porque me recordo de ter parado em frente da montra de uma loja de electrodomésticos na Rua Augusta ou Áurea – ou talvez na Rádio Victória, candeeiros bem bonitos, modernos, originais, compre-os na Rádio Victória não se preocupe mais, porque na Rádio Victória, Embaixada do bom gosto, quem lá vai é bem servido e sai sempre bem disposto -, a ver, por cima do ombro de outros como eu, os últimos dramáticos minutos da final da Taça dos Campeões Europeus, em Berna, durante os quais o Benfica sofreu a bom sofrer para aguentar aqueles 3 a 2 contra o Barcelona, que tanta alegria e orgulho nos deu. Depois chegou também o desejado aparelho, um NordMende, mas até esse momento a minha janela para a cidade (o meu Mundo) era aquela da casa de jantar da Travessa do Moínho de Vento, 23, que dava sobre a Quinta do Tobias e o cosmos humano que a mesma abrigava (ver a minha crónica de 3/4/2014), e os campos verdes com ovelhas a pastar que existiam onde depois se abriu a Avenida Infante Santo até à Cova da Moura. Pois dessa janela, antes e depois dessa abertura, ia vendo o meu Mundo, gravando o que nele se passava e fazendo juízos sempre pessoais, mas nem sempre correctos, de quanto ia acontecendo diante dos meus olhos.

Ia também ao cinema de vez em quando, ao Paris (hoje, que vergonha!), ao Europa ou ao Cinearte, raramente aos grandes, Império, S. Jorge, Condes, Éden, Politeama, Monumental, Odeon, etc…, mas o que ali via com desmesurado encanto, desdenho ou terror – lembro-me de ter visto “As Diabólicas”, para maiores de 18 anos, apenas com 12 – era de tal modo distante da minha realidade que me influenciaram tanto como hoje a visão de “Avatar” ou de “Terminator”. Quando não havia “telenovela” entre os membros da fauna que me passava debaixo da janela, ou não havia o semanal espectáculo de Robertos, os carros que desciam o tobogan da Rua de Sant’Ana, virando depois à esquerda para a Tenente Valadim que era um beco contra o muro do Hospital da Estrela (até já esse se foi!), seguindo em frente em direcção à Rua de Buenos Aires ou, mais tarde, virando à direita para a nova Infante Santo, raramente não pretos, a esses conhecia-os todos por marca, modelo, origem e motor, tendo feito, calculem, desafios de contagem por marcas, ganhos a partir de certa altura, sempre e com grande diferença, pelo Carocha, e antes dividindo a vitória entre o Opel, o Ford, o Austin, o Morris, o Renault, o Peugeot, o Chevrolet e o Fiat, poucas vezes pelo Citroën, o DKW ou o Simca,  nunca pelo Javelin, o Volvo, o Alfa Romeo, o Jaguar, o Sunbeam Talbot, o Mercedes ou o MG;  o Japão, com os Toyota e Datsun chegou depois, e a Coreia, com os Hyundai e  KIA, já eu não era “português”.

Em momentos de acalmia, durante os quais nem os “rapazes da rua” desciam a Rua de Sta’Ana com os carrinhos de esferas, nem o Alfredo maluco dava as suas correrias espalhando nuvens de perdigotos com a imitação do barulho da moto idealizada, nem a preta das alfaces apregoava a sua fresca mercadoria, acontecia-me adormecer e prolongar pelo sonho o espectáculo da vida. Ainda hoje, quando desperto noite funda a meio de um sonho, tenho vontade de me levantar para tomar notas sobre o mesmo a fim de não o esquecer, acabando invariavelmente por não o fazer, chegando de manhã sem qualquer memória e zangado comigo mesmo pela falta de força de vontade que tanto recomendo aos outros. É por isso muito estranho que ainda hoje me recorde de dois sonhos que fiz há mais de 50 anos, diante daquela janela, sentado no único cadeirão que existia na casa de jantar, e vou agora registá-los para não arriscar perder-lhes o tema e a trama. É curioso que, referindo-se ambos à construção de uma casa, possam ter condicionado a minha ambição juvenil de me tornar arquitecto, felizmente nunca concretizada já que corria o risco de nunca acabar qualquer projecto.

1º Sonho
Um homem jovem começou a construir uma casa pelo telhado e, das duas uma,  ou os sonhos são fantasia ou anjos lhe seguravam as telhas com fios invisíveis; a casa foi nascendo, depois das telhas seguiram-se as traves do telhado, a chaminé, o tecto, as paredes com vãos para janelas e portas, o soalho e a laje que o sustentava, mas não os alicerces porque o homem se descobriu incapaz de os construir. Diante da casa, que levitava a um metro da terra, o homem subiu por uma escada que apoiou à entrada da porta e entrou em casa, tendo-lhe agradado o que viu e, sobretudo, estar nela, pelo que começou a enchê-la com tudo aquilo que uma casa precisa, móveis, roupas, livros, pessoas, louças, banheira, fogão e outros pertences sem os quais uma casa não seria uma casa. Instalou-se e nela viveu como se fosse natural viver numa casa suspensa sem alicerces, mas onde incrivelmente tudo funcionava sem que ninguém desse pela extraordinária manutenção daquele estado de coisas. Então acordei e, embora tente ainda hoje encontrar uma explicação para o estranho sonho, nada me ocorre que jeito tenha e arquivo tudo na conta dos sonhos que, por definição, não pertencem à vida real. Ponto final.

2º Sonho
Um homem começou a construir uma casa como mandam as regras. Abriu os caboucos e neles começou a assentar os alicerces. Terminados estes, percebeu que não tinha conhecimentos nem ferramentas para começar a levantar as paredes e ali ficou diante da obra a magicar como havia de resolver o problema que lhe impedia continuar a construção da casa. Entretanto, tentava encher o espaço com tudo aquilo que uma casa precisa, móveis, roupas, livros,  pessoas, louças, banheira, fogão e outros pertences sem os quais uma casa não seria uma casa, mas percebeu que nada disso era possível. Então sentou-se junto dos alicerces da sua casa, que queria perfeita e equilibrada, e ficou ali à espera que um milagre acontecesse. Então acordei e, embora tente ainda hoje encontrar uma explicação para o estranho sonho, nada me ocorre que jeito tenha e arquivo tudo na conta dos sonhos que, por definição, não pertencem à vida real. Ponto final.

Abraço.       

Lisboa, 6 de Agosto de 2015
Octávio Santos

 

 

 

 

quinta-feira, 9 de julho de 2015

OXI- NE, 11/9 sem mortos que mudará as nossas vidas, heróis puros fora de moda dignos de Panteão Nacional nesta semana dos milagres, Jesus, Coelho e Barroso ressuscitam um leão, um Loureiro e um Relvas (animais 1 - plantas 2) , Califado destruidor de estátuas e Europa de certezas, bem falantes a tentarem baratinar-nos, ratas sábias a destilar venenos, etc., etc., etc.. Melhor falar de anjos porque juro que existem. E anjinhos também.

OXI-NE Entre um pirómano com 5 meses e uma vestal (sempre virgem) 10 anos a manter o fogo sagrado no templo da nossa decadência, prefiro o primeiro.  Quando se escrever a história da Europa vamos ler mais sobre o Joãozinho Barufas que deu um empurrão numa construção podre, que sobre um Cherne escondido nos destroços de um barco há muito afundado , alimentado pelos peixes pequenos que têm o azar de passar ao seu alcance. Mas hoje não me vai de falar de coisas sérias mas de utopias próprias de irresponsáveis, de coisas que não existem - aquilo que não vemos não existe? - mas que são muito mais importantes que aquelas que todos os dias nos enfiam pelos olhos dentro para nos provarem que não são virtuais. 
Na minha crónica de 21 de fevereiro de 2014 falei-vos de anjos - “Juro que os anjos existem…” que, pelos contactos contabilizados pelo Google interessou a muito  poucos - 53ª entre 62 -, mas como prefiro chegar a poucos que percebem que a muitos que não entendem ou fingem não entender,  apeteceu-me repetir a dose dos anjos e brindar-vos com mais 3 lembretes sobre a prova da sua existência. Como, com a idade, aprendi a ler no pensamento já vos estou a ouvir pensar: - O que tu és é um ganda anjinho! 

1 - Lucio Dalla, autor da música e letra desta canção, morto o ano passado, tinha mais 232 dias que eu visto ter nascido no dia 4 de março de 1943, que é o título de uma das suas geniais criações (Caruso também é seu). Foi o único italiano que compôs um fado, intitulado “Piazza Grande”. Servir-se de cenas do filme de Wim Wenders “In weiter Ferne, so nah! -Tão longe, tão perto! – como vídeo clip é a escolha certa para vos convencer daquilo que eu já tinha a certeza: Os anjos existem!

Se io fossi un angelo
Se io fossi un angelo
Chissà cosa farei
Alto, biondo, invisibile
Che bello che sarei
E che coraggio avrei
Sfruttandomi al massimo
È chiaro che volerei
Zingaro, libero
Tutto il mondo girerei
Andrei in Afganistan
E piú giù in Sud Africa
A parlare com l’America
E se non mi abbattono
Anche coi russi parlerei
Angelo se io fossi un angelo
Con lo sguardo biblico li fisserei
Vi do due ore, due ore al massimo
Poi sulla testa vi piscerei
Sui vostri traffici, sui vostri dollari
Sulle vostre belle fabbriche
Di missili, di missili
Se io fossi un angelo, non starei mai nelle processioni
Nelle scatole dei presepi
Starei seduto fumando una Marlboro
Al doce fresco delle siepi
Sarei un bom angelo, parlerei com Dio
Gli ubbidirei amandolo ma a modo mio
Gli parlerei a modo mio e gli direi
Cosa tu vuoi da me tu?
I potenti che mascalzoni e tu cosa fai li perdoni?
Ma allora sbagli anche tu ma poi non parlerei più.
Un angelo non sarei più un angelo
Se con un calcio mi buttano giù
Al massimo sarei un diavolo
E francamente questo non mi và
Ma poi l’inferno cos’è?
A parte il caldo che fà
Non è poi diverso da qui
Perchè io sento che, son sicuro che
Io so che gli angeli sono milioni di milioni
E non li vedi nei cieli ma tra gli uomini
Sono i piú poveri e piú soli
Quelli presi tra le reti
E se tra gli uomini nascesse ancora Dio
Gli ubbidirei amandolo
Ma a modo mio,  a modo mio
A modo mio… 


Se eu fosse um anjo
Se eu fosse um anjo
Quem sabe o que faria
Alto, louro, invisível
Que bonito que seria
E que coragem teria
Esforçando-me ao máximo
É evidente que voaria
Cigano, livre
Giraria por todo o mundo
Iria ao Afganistão
E mais abaixo à África do Sul
Conversar com a América
E se não me abatessem
Até com os russos falaria
Anjo, se eu fosse um anjo
Com olhar bíblico os fixaria
Dou-vos no máximo duas horas
Depois na cabeças vos mijaria
E sobre os vossos tráficos, os vossos dólares
Sobre as vossas belas fábricas
De mísseis, de mísseis
Se eu fosse um anjo não estaria nas procissões
Nem nas caixas dos presépios
Estaria sentado fumando um Marlboro
Na doce frescura das sebes
Seria um bom anjo, falaria com Deus
Lhe obedeceria amando-o à minha maneira
Lhe falaria à minha maneira, perguntando:
“O que é que tu queres de mim?”
“Os potentes, malandros, e tudo o que fazes é perdoar?
“Mas então também tu te enganas, e  não falo mais”
Um anjo, já não serei mais um anjo
Se com um chuto me fazem cair
No máximo serei um diabo
E francamente não gosto disso
Mas então o inferno oque é?
À parte o calor que lá faz
Não é tão diferente daqui
Porque eu sinto, tenho a certeza
Sei que os anjos são milhões e milhões
E não os vês no céu mas entre os homens
Entre os mais pobres e os mais solitários
Aqueles apanhados nas redes
E se entre os homens Deus voltasse a nascer
Lhe obedeceria amando-o
Mas à minha maneira, à minha maneira
À minha maneira…

2 - Um anjo era também a Avó materna de que vos falo no pequeno texto abaixo, senão não teria sentido que na sua aldeia todos a conhecessem como “Tia Misericórdia” quando o seu nome era Maria do Carmo. Palavra tão em desuso, agora ressuscitada pelo Papa Francisco, que tive de ir ao dicionário para me certificar da grafia correcta já que o que tinha nos ouvidos era “Ti Msicórdia”.
 
Recordação

Recordo-me de ver a minha Avó materna, aquela de quem herdei o nome, a desmanchar um xaile de lã que tinha tricotado com as suas próprias mãos.  Com o fio, agora libertado da sua forma, fez um novelo enorme, que começou imediata e freneticamente a trabalhar com as suas agulhas compridas e grossas e um pouco ferrugentas também, e a dar forma a uma camisola que lhe iria aquecer o corpo num Inverno que prometia frio de cortar à faca. Só porque lhe apetecera fazê-lo. Com as suas mãos e a sua vontade alterava a forma e o destino das obras que fazia.

Por vezes ponho-me a reflectir sobre as teias que construímos ao longo das nossas vidas, com os fios que vamos recolhendo e nos parecem os melhores e os mais robustos. E aí ficamos no aconchego das mesmas, não chegando mais o dia em que teremos a coragem de as desmanchar e construir outras, talvez por medo que a nova não venha a ser tão sólida, ou por outros medos que temos dentro de nós, porque alguém lá os enfiou, ou porque nos reservamos  o segundo lugar, estando à nossa frente sempre alguém com mais merecimento.

Hoje vi-me nu diante do espelho da casa de banho, e os meus olhos comandados por aquela parte do cérebro que, inconsciente, recusa a realidade, abriram-se desmesuradamente  até perceberem que aquele corpo velho, ridículo nas suas inevitáveis e cada vez mais notórias imperfeições e declínios, era o meu. Que não podendo ser desmanchado para adquirir uma nova forma e um novo uso, se recusa a refazer a sua teia que o protege de olhares indiscretos e de juízos cruéis, que não teria coragem de encarar e aceitar ou porque simplesmente não lhe é consentido o apetite de o fazer, preferindo sonhar com maravilhosas coisas quase não vividas.
 

3 - Porque, tendo-vos já dado um soneto a semana passada, e sendo o soneto a forma mais requintada e difícil da poesia, no dizer do meu professor José Fanha (juro), reincido agora com outro só para dizer a alguém aquilo que não lhe digo todos os dias.
 

Anjo de Guarda 

Depois de morrer gostava de ser Anjo da Guarda
E se me dessem a escolher alguém para  guardar
Desceria rápido  voando sobre braseiro que arda
Guiado pela brilhante luz dos faróis  do teu olhar.

Sempre que me chamasses lá estaria ao teu lado
Esperando calmamente pelos teus movimentos
Em guarda e vigilante aos perigos disfarçados
Não te deixando afastar dos meus olhos atentos.

Sempre assim, noite e dia, voando em teu redor
A proteger-te com a sombra destas asas minhas
Pagava tudo quanto em vida me deste por amor

Replantava a tua árvore que arranquei pela raiz
Restituindo-te a paz de coração que dentro tinhas
Que é tua, não renegas, e só com ela eu te sei feliz.


Abraço.
 
Lisboa, 9 de Julho de 2015
Octávio Santos

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Continuando a curto de ideias, o cronista mete os pés pelas mãos confundindo ginásios com alfarrabistas, escritas com cadeiras, pianos com apara-lápis velhos, mulheres de heróis e de políticos venais, euros com dracmas, não conseguindo desenvencilhar-se, e tentando mesmo induzir o desprecavido leitor a cair na teia de aranha que teceu malgré lui em torno de si mesmo

 
A semana passada tive umas ideias no duche do Holmes Place mas hoje, para além de não me ter passado uma única pelo bestunto, tive um choque quando, depois do duche, ao dirigir-me ao alfarrabista do Elias Garcia passei à porta da AICEP diante da qual estavam três colegas a fumar um cigarrinho. De longe pensei que ia ter dois dedos de conversa mas ao aproximar-me dei-me conta que não conhecia nenhum deles, e daí o terrível choque do qual talvez não possam compreender a violência. Tive sorte (no fim tenho sempre sorte) porque, antes de ir ao ginásio cansar o corpinho, fui salvo por uma cadeira que me deu ocasião para vos poder dizer alguma coisa. É que ele há cadeiras e cadeiras, como há escritas e escritas. Explico-me. Quando temos necessidade de uma cadeira para nos sentarmos compramos uma que sirva para isso mesmo, pesando entre a beleza, o conforto e o preço. Se temos dinheiro a mais, e para nos sentarmos já temos cadeiras suficientes lá em casa, vamos à procura de uma cadeira de design, melhor se com uma assinatura prestigiosa, pouco importando se, ao chegarmos a casa, ela sirva para tudo menos para nos sentarmos. Quando vos disse hoje que a minha escrita “é cada vez mais confusa, inconsistente e aleatória, sem um fio condutor que separe alhos de bugalhos” foi para vos alertar que, para vosso descanso e tranquilidade, não devem ler esta minha escrita de design duvidoso, mas sim precipitar-vos a comprar “EL James” que tem muito mais para ler e é, sobretudo, muito mais confortável. E como não me vieram mesmo mais ideias, decidi ressuscitar hoje três textos meus de datas diferentes só para não dizer que não vos dava nada inútil e incómodo a ler. Se possível bem sentados. 


1 - Porque me propus contar todos os meus encontros com gente que conta, começando pelo mais fugaz.

O Menino era pobre, ou aquilo que se chamava de remediado, e nasceu na Lapa, em Lisboa, na parte errada da Travessa do Moínho de Vento. O Francisquinho era rico e nasceu na mesma Lapa, numa das ruas da parte certa do bairro, S. Caetano ou Sacramento, já não me lembro. À casa do Menino vinha em visita, em algumas tardes de Domingo, e falo das décadas de 40/50 do século passado,  uma prima direita do seu Avô materno, de seu nome Sofia, que tendo vindo muito nova, da sua aldeia natal, servir para Lisboa, estava naquela altura em casa do Sr. Henrique e da Sra. D. Maria Adelaide – que era bisneta de D. Pedro IV de Portugal e I do Brasil – onde era criada dos meninos do endinheirado casal. Um dos meninos da casa era o Francisquinho, que teria mais seis anos que o Menino. A Prima Sofia, assim era chamada, era muito forreta e aparecia em casa dos primos afastados de mãos a abanar,   nem uns bolinhos secos que fosse para acompanhar  o chá que a prima – Mãe do Menino – lhe oferecia.  Num dia 23 de Novembro, seria um Domingo,  a Prima Sofia,  depois dos cumprimentos e hipocrisias habituais, veio dar um beijinho de parabéns ao Menino, que fazia anos nesse dia, 7 ou 8, entregando-lhe um embrulhinho muito bem feitinho, que teria a dimensão de uma caixa de fósforos pequena.  – Então, o que é que se diz à Prima? - recomendou a Mãe do Menino, que,  após um rápido e ciciado  “Obrigado!”  abriu  o presente que era nem mais nem menos que um apara-lápis de plástico preto.  Voltou a agradecer, e num exame mais atento à prenda de anos, o Menino verificou que o mesmo era usado tendo mesmo um cantinho partido. Coisa sem a mais pequena  importância. Acabada a visita,  depois da meia hora de despedidas exigidas pela cerimónia, o Menino mostrou a prendinha aos seus Pais, fazendo notar a sua condição objetiva de segunda mão.  Foi uma risota, confirmou-se o “pãodurismo” da Prima Sofia,  que devia ter muito de seu, tantos anos a trabalhar em casa de gente rica, dizia a Mãe do Menino,  e tanto o objeto como o episódio  ficaram conhecidos naquela família como o “Apara-Lápis do Francisquinho”.  Mas, acabado o relato desta  história verdadeira, já é tempo para as apresentações:  o Menino, ou seja o prendado aniversariante,  chama-se (chamo-me) Octávio Carmo de Oliveira Santos,  e o Francisquinho,  tão amado bijou da Prima Sofia,  que de certeza não deu pela falta do seu afiador partido, dá pelo nome de Francisco José Pereira Pinto Balsemão, e quis o destino que, durante a apresentação de um livro,  nos cruzássemos  no El Corte Inglès na passada segunda-feira, tendo dele recebido, agora diretamente, a prenda da sua mão, que me estendeu para que eu apertasse. Assim, à distância de sessenta e poucos anos, as mãos que tinham segurado o mesmo objeto, encontraram-se finalmente numa demonstração da harmonia que rege este nosso Mundo. 


2 - Porque sempre fui atraído pela loucura.
 
Arturo Benedetti Michelangeli, que foi um dos maiores pianistas clássicos do século passado (1920-1995), era um génio irrascível e insuportável que, durante toda a sua longa carreira, concedeu um único bis, e esse em honra do seu amigo Sergiu Celibidache, maestro tão genial quanto ele. Uma noite, em Londres, recusou-se a tocar quando ao entrar na sala de concertos se apercebeu que eram mais os turistas que os verdadeiros amantes da música e da sua arte. E ninguém o demoveu. Estando um dia a escolher um piano de cauda para um seu concerto, decidiu-se, após experimentar uns quantos, e para espanto de todos os que o acompanhavam, por aquele que o representante da marca tinha desaconselhado. – Levante a tampa se faz favor, pediu ao seu interlocutor, que prontamente obtemperou. – Como vê, o escapamento deste martelo está montado defeituosamente! E efectivamente estava, tendo-se o representante prontificado a chamar imediatamente um técnico para solucionar o problema. – Deixe tudo como está, ordenou Michelangeli, por favor não lhe roube a alma! (a)

O seu amigo Enzo Ferrari vendo-o extasiado diante de uma Berlinetta num dia em que o maestro visitou Maranello, lha ofereceu; dizem que passou a conduzi-la a alta velocidade, como um louco, pelas estradas municipais da sua Lombardia. Perto do fim da sua carreira fez-se sócio de uma empresa discográfica, tendo-se posteriormente recusado a gravar para ela, o que a levou à falência, na sequência da qual o fisco italiano lhe confiscou todos os seus bens, incluindo os pianos (a). Amargamente desiludido com o seu país natal transferiu-se para os arredores de Lugano, tendo dado no Vaticano o seu último concerto na península itálica - única forma de não ver o cachet  confiscado - em 1987, em honra do Papa João Paulo II. 


3 - Porque tendo encontrado o Vara e a Mulher às compras no El Corte Inglès, cheguei a casa e escrevi este soneto.
 
Mulheres 

Deve ser chato ser namorada do Guevara.
Esperança ter, não na vida mas na morte.
O mesmo valendo p’rá mulher do Armando Vara
Que vi com ele às compras no inglês El Corte.

Compram de tudo, cebolas e batatas,
Laranjas, figos e um presunto inteiro.
Doce viver na Costa das Negociatas
Seguro de não ser p’ra si o Limoeiro. 

Estando em casa, com a esfregona e a lixívia,
A amante do Che tem a alma em polvorosa
Pressentindo o que se passa na Bolívia.
 
O coração apertado também tem a do Vara
No meio das prateleiras, tremendo ansiosa
Com medo que o povo lhes cuspa na cara. 

Abraço.

Lisboa, 2 de Julho de 2015
Octávio Santos 

a)    Lembrei-me agora, a propósito do que escrevi acima sobre Arturo Benedetti Michelangeli, que a Europa está em risco de cair na asneira, e erro histórico, de roubar a alma ao povo grego e de confiscar os pianos ao Siryza, quando num passado recente outros, então muito poderosos, não se atreveram a calar a música de Solidarnost.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

O cronista, curto de ideias, revela reflexões feitas no duche sobre episódios que condicionaram positivamente a sua vida e outros que o ajudam a viver melhor, volta a reincidir no plagiar preciosidades que outros produziram, como se a sua fraca poesia a metro pudesse ofuscar obras-primas buriladas ao centímetro.



Toda a gente sabe que nasci na Travessa do Moinho de Vento mas desconhece que todos os Domingos ia à missa do meio-dia à Basílica da Estrela, com algumas excepções quando me apetecia mais o recolhimento da Capela de Nossa Senhora dos Navegantes, na rua do mesmo nome, ou estava de férias em casa dos meus Avós maternos e então o templo era a Igreja de S. Tomé de Lamas que dava o nome à freguesia. Mas, já que estamos em tempo de números, 85,3% das vezes ia à Estrela e lembro-me que o que mais me agradava era o chamado Santo Sacrifício da Saída da Missa quando, acabada a função religiosa que comportava a soporífera homilia do Cónego António Campos, que Deus tenha a sua alma em eterno descanso no esplendor da luz perpétua, encontrávamos primos, tios, vizinhos, amigos e colegas, e aí as faces se abriam, os abraços e beijos não se poupavam, as novidades corriam como fogo posto nas serras de Portugal, os trajes, acessórios e penteados eram escrutinados, que não comentados que isso ficava para depois em casa, as conversas eram aquelas próprias dos interesses de cada grupo etário, conversas de longe mais substanciais  que as ladainhas ditas e ouvidas no interior da casa de Deus. 

Lembrei-me de tudo isto no duche do Holmes Place, onde faço um sacrifício do caraças a ir duas vezes por semana, porque os exercícios que lá sou obrigado a praticar durante uma hora me pesam, me cansam e são uma seca. Daí que o melhor seja mesmo o chegar ao fim da “obrigação” e ir para o duche refrescar sem pressas o corpo moído e a mente aliviada que teima em repetir “por hoje já está!” Agora perguntem-me lá porque que é que, se me pesa assim tanto, eu continuo a lá ir religiosamente? E eu, imitando os políticos de todas as praças, direi muito obrigado por me terem feito essa pergunta porque a resposta é muito fácil e transparente. Porque, estando no último quartel na minha vida e tendo espelhos em casa, sei que o que lá faço me faz bem ao corpo e me ajuda a ir passar melhor o pouco (ou muito, não devemos pôr limites à Divina Providência) que me resta para viver. E aqui lembrei-me novamente das missas do meio-dia na Basílica da Estrela, porque o que lá fiz e ouvi, embora uma seca, me ajudou e continua a ajudar, e muito, a ter passado uma vida melhor, e nem eu sei avaliar quanto. Custou mas valeu a pena, e refiro-me à igreja e, agora, ao ginásio. 

Mas não é só no duche, ou em qualquer outro acessório de uma casa de banho, que me vêm ideias; ainda a semana passada, acho que foi na quinta-feira, ao passar diante da Tabacaria Astória da Duque d’Ávila, mesmo ao lado da Dava (com porquinho de néon) dos óptimos queijos e alheiras e da Pérola de Chaimite do café, em grão ou moído, delícia daqueles que ainda não se renderam ao Nespresso, que tem os jornais pendurados à porta, tendo a sorte de ter todos os leitores penduras a acotovelarem-se diante das primeiras páginas com títulos garrafais sobre o Espírito Santo, Sta. Apolónia, Cruz, Jesus, Vitória, Marco, António, João, Pedro e Paulo (bons e maus ladrões?), que até pensei que todos esses órgãos da imprensa nacional fossem aparentados à revista Família Cristã, me sobrou o jornal “As Artes entre as Letras” que tinha em caracteres muito pequeninos uma poesia de Eugénio de Andrade que copiei para um envelope usado do Banco Novo que encontrei no passeio junto de um ATM, e a poesia é esta: 

"Despedida"

          Colhe

          Todo o oiro do dia

          Na haste mais alta

          Da melancolia.

 
Parti dali a deambular pelas Avenidas Novas como cada manhã e, com o envelope bem apertado na mão, ia repetindo o pequeno poema e a, mentalmente, servir-me dele como mote para dizer o que me vinha à cabeça em pequenas idênticas quadras. Depois foi só chegar a casa e transcrever tudo para o papel sem qualquer preocupação se estavam bem ou mal esgalhadas, se o conteúdo tinha nexo ou se tinham alguma ligação entre si e, sobretudo, com tudo aquilo que estamos hoje a viver. E é este exercício que vos deixo hoje como leitura, podendo cada um ordenar as 17 quadras como bem entender - de qualquer maneira para muitos não fazem sentido - como se estivessem a distribuir bandeirinhas por outros tantos vasos de manjerico, agora para o S. Pedro.

“Exortação”

Tenta

Compreender este mundo

Saber que os barcos da Líbia

Não são para ir ao fundo.
 

Mantém

Essa vontade de aço

A doçura de “Smile”

E ela te escolherá, palhaço!

 
Evita

Casar com rei pelintra

Que, sem trono

Te enclausura em Sintra.

 
Escolhe

Um que do Chapitô vem

Terás estilista com comenda

Cama e mesa posta em Belém.

 
Avanza

Fosun, Vinci Altice.

Aqui é Portugal!

Quem foi que te disse?

 
Pasma

Porque a tradicional

Garganta lusitana

São agora três para teu mal.

 
Recusa

Construir magiares muros

Que em vez das pontes de Francisco

Hipotecam todos os futuros.

 
Desconfia

Se pertenceres ao povo

Em conversa mole

De banco velho ou novo.
 

Afasta

Quem tem a inépcia

De reduzir a cifrões

A história da Grécia.

 
Esquece

A Carris e o Metropolitano

Que o pica do sete

Fala castelhano.

 
Vigia

No TAPa e desTAPa

Que o hub de Lisboa

Não saia do mapa.

 
Não deixes

Roubar-te a esperança

Por quem tem cheia

Só a própria pança.

 
Não permitas

Ser humilhado

Por tanto figurão

Presumivelmente honrado.

 
Não admitas

Perder toda a coragem

Diante de quem se arroga

O direito da pilhagem.

 
Não desistas

De gritar NÃO!

A quem a prestações

Vende a tua Nação.

 
Não te atrevas

A dizer que sim

Só porque está de moda

E agora é assim.

 
E não acredites

Em puras balelas

Daqueles que o Zambujo

Chama de Vilelas.

Abraço.

Lisboa, 25 de Junho de 2015
Octávio Santos