Tínhamo-nos deixado
entre o Parque Mayer, instalado no espaço antes ocupado pelos jardins do
Palácio Lima Mayer, hoje Consulado de Espanha, esplêndido edifício de traça
italiana que mereceu o primeiro Prémio Valmor em 1902. Deixada para trás a Rua
do Salitre, para onde o palácio tem a sua porta principal, encontramos na outra
esquina, nos 155/157, um belo e simples edifício pombalino - quando digo
pombalino refiro-me sempre àquele estilo que abunda na Avenida e que é uma
evolução do puro pombalino da Baixa que se foi descaracterizando à medida que
subiu o Passeio Público -, que tem nos baixos a Ribadouro, Restaurante
Cervejaria, onde comi talvez o pior Bacalhau à Brás da minha vida, ausentes que
estavam o fiel amigo e o espírito do tal Brás, e nos andares superiores a Casa
do Concelho de Idanha a Nova, a Inforpress e a Maria Karin, que mais não é que a jovem estilista portuguesa Carina Costa, que passa metade do ano a expor as suas extraordinárias e chiques criações de moda feminina nas feiras de todo o Mundo, com assinalável êxito. Segue-se, no nº 159, um pavilhão de um só piso com um corpo sobrelevado
ao nível do terraço, e de acesso a este, infelizmente coberto com telhas azuis
(sim, azuis, porquê?), pavilhão com grandes montras que durante muitos anos
mostrou e vendeu a turistas tudo aquilo que os turistas gostam de comprar por
obrigação da sua condição, hoje triste, sujo e vazio, no seu todo mais uma
mancha indigna na Avenida. No passeio um cartaz institucional onde o Homem que
Mordeu o Cão nos oferece o seu cocó (o do cão!) em elegante embalagem com
laçarote, sobrevoada por moscas. Tudo a condizer.
(É só mais um
bocadinho)
Vejam só, coisas da
vida
Que o nosso
dinheirinho
Dentro de um pacote
igual
Nos dão para nosso
mal
Transformado em
porcaria
Gente séria, quem
diria!
«Por favor, não me
falem nem me molestem, pois estou iniciando um prolongado e particular “retiro
espiritual” fortemente amparado por uma grata e profunda “meditação metafísica
transcendental”. Respeitem o meu silêncio. Democracia, solidariedade e justiça,
por onde andais que não vos encontro por lugar algum? Para todos: Feliz Natal e
Ano Novo 2014. Lisboa, 01-12-2013. Enrique Perez Farrena – Psicólogo
(cegado)”. Alguém colou no fim do cartaz
um pequeno círculo vermelho de papel com a escrita “saiu coroa”; seria ele
próprio, o “cegado”, por auto-ironia, ou algum brincalhão de passagem?
O nº 177, na esquina
com a Rua Júlio Cesar Machado, um digno pombalino onde se encontra instalada a
Clínica do Coração, a Clínica Ortopédica e o ANPAT - Laboratório de Anatomia Patológica,
- está em remodelação o espaço térreo onde abrirá brevemente a nova loja da
Ermenegildo Zegna que, pelos vistos vai encerrar o espaço que tem lá mais para
baixo ao lado da Hugo Boss, seguindo esta na subida da Avenida. Eixo italo-germânico,
desta vez dos trapos, novamente em consonância? Depois vem o Hotel Tivoli, que
não sei se está com os bons ou com os maus, supondo que haja bons, lembrando-me
que, no espaço onde hoje está a Brasserie Flo, tive um encontro tête-à-tête com a Beatriz Costa, que
habitou o hotel nos últimos anos da sua vida, para a convencer a deixar-se
entrevistar e filmar por uma troupe do Canale
Cinque que eu tinha acompanhado a Lisboa para realizar um promocional
turístico sobre a nossa capital, o que ela recusou com uma gentileza enfastiada
porque o que desejava era estar tranquila, pelo que não me permiti insistir,
mas recordo que foi bom ter encontrado aquela Senhora. O Tivoli tem em baixo
uma loja de malas Loewe.
No 189, está o Ever
Lisboa, da Ever Hotels - why resist?
-, três estrelas onde antes era o Hotel Veneza que tantas vezes recomendei a
turistas italianos que me pediam conselho; pena a mudança de nome porque o
edifício é mesmo uma bela ca’ veneziana.
Na álea central filma-se o que me pareceu ser uma telenovela portuguesa com
todo o aparato que isso comporta; o Nicolau Breyner andava por ali com ar
absorto. Segue-se, na esquina com a Barata Salgueiro, no 193, um belíssimo
edifício com torreão, Património do Estado, aparentemente vazio, que foi em
tempos sede da Direcção-Geral da Aeronáutica Civil, ostentando na fachada uma
lápide recordando o General Humberto Delgado, que foi Director-Geral. E aqui
tenho de vos contar uma coisa daquelas que só a mim me acontecem. No dia em que
passei para tomar as minhas notas, este edifício estava a servir de cenário
para a telenovela, com transformações que me indignaram porque não percebi o
que se passava, e então escrevi o que se segue, que peço o favor de não fazerem
caso ou de levarem à minha conta de incorrigível Totó:
“Segue-se, na esquina com a Rua Barata Salgueiro, no 193, um
belíssimo edifício com torreão onde está agora instalado o BBA Investimento -
Banco Barroso e Albuquerque, confessando a minha ignorância sobre a existência
de mais este banco (afastando um mau pensamento sobre o Durão e a Luis), cujos
responsáveis resolveram retirar da fachada uma lápide que recordava a passagem
pelo histórico edifício, que foi muitos anos a Direcção-Geral da Aeronáutica
Civil, do General Humberto Delgado. Como se podem permitir? Quem autorizou?
Quem terá poder para ordenar, mesmo tratando-se de um banco, a voltar a colocá-la
na fachada? Lembro-me de lá ter entrado uma vez nos primeiros anos 60, talvez
porque tivesse um Irmão na Força Aérea, e de ter encontrado o Director-Geral
que era o Eng. Vitor Veres que, descobri depois, ser Marido da Carmen Dolores.
Agora nas duas esquinas da Barata Salgueiro estão dois bancos: um (que são
dois), grande, que não tem respeito por ninguém, e outro, pequeno, que não tem
(pelo menos) respeito pela história. Como se faz a descer tanto como país? Será
que mais vale ser atropelado no meio da faixa de rodagem da Barata Salgueiro
que nos aproximarmos das suas esquinas?” E aqui acaba a inútil e precipitada diatribe. Só ontem, quando voltei a passar para acertar estas notas é que dei
conta do logro em que tinha caído; ele há dias em que a minha reputação cai a pique
e que mais valia encher um pé de merda!
Finalmente o BES
naquele «mamarracho incrível dos tempos pós-revolução em que “valia tudo” na
construção», no dizer do meu caríssimo amigo Luis Filipe Pereira, agora
sobrevoado por abutres vindos dos fundos. Ao “mamarracho” já me referi antes
pelas suas grades de premonitória arquitectura, quanto ao “valer tudo na
construção”, parece que que o sistema bancário foi contagiado por esse vírus
que está a contaminar toda a sociedade portuguesa. Por um lado rende (CR7),
pelo outro poupa (D. Inércia), numa confortável e lucrativa total inércia que
ataca todos os intervenientes, mesmo aqueles aos quais pagamos para nos
defenderem. E basta de BES, GES, BEST, ESAF, ESI, EST, ESP, Rioforte e da tranquilidade bucólica
e campestre de Comportas alentejanas, brasileiras e paraguaias, e restantes
membros da quadrilha que, posso apostar, nunca irão ser inquilinos de outros
edifícios com grades que melhor lhes andariam. Depois um belo, grande mas
decadente pombalino, aparentemente vazio, com apenas uma montra da Wickett
Jones anunciando que a dois minutos dali, virando à Rosa Araújo, na Rua Castilho,
se encontra todo o “gentleman’s ware”
da marca. Na outra esquina cresce um monstro linear, o 225 Liberdade, no qual a
WORX e a Jones Lang LaSalle anunciam arrendamento de escritórios, estando já
instalada a prestigiosa Torres Joalheiros, com os Rolex em grande evidência. No
227, um edifício relativamente moderno mas já passado, com a fachada semeada de
ares condicionados, onde está um balcão do Santander Totta, mais uma Sociedade
de Advogados e a Câmara de Comércio e Indústria Luso-Chinesa. No 229, num digno
mas anónimo pombalino, está, para além de um cardiólogo de apelido prestigioso,
a Dunas Capital, Gestão de Activos, SGFIM, SA, e a Embaixada do Chipre -
Kypryaky Prezvia -, cuja bandeira tive na minha janela, à maneira Scolari,
quando foi anunciado que a freenança
também queria pôr as mãos sobre aquele pequeno meio-país. Tentei envolver o
Movimento “Que se Lixe a Troyka” para o milagre da multiplicação das bandeiras,
mas não se dignaram responder-me. Paciência, que se lixem!
No 233, na esquina da
Alexandre Herculano, é de pasmar diante do monumental e rico palacete
excelentemente restaurado, com magníficas e sumptuosas varandas; está lá a Max
Mara, da qual vi abrir a primeira loja em Roma, no fim dos anos 80, na Via
Condotti, onde entrava só para apalpar os tecidos. Na outra esquina, no 243, o
Hotel Marquês de Pombal, edifício tirado a régua e esquadro totalmente forrado
de pedra. No 245, num longo monstro moderno, com uma coluna de alto a baixo,
encimada por um baixo- relevo, tudo no mais puro estilo Estado Novo, a Galeria Comercial
245, um parking público a pagamento (APARC), a Revlon Professional, a América
Crew - Oficial Supplier to Men -, a
Embaixada do Japão, a Melià, um balcão da CGD e uma grande loja fechada mas
limpa. Menos mal. No 247, o Hotel Turim Liberdade, um digno “vidrão” que acolhe
também a Fancy Jewelry e, em saldos, a
loja Luis Onofre que expõe e vende as suas maravilhosas criações, enriquecidas
com cristais Swarovski, para pés onde assentem pernas que as merecerem, condenadas
a tornar-se fétiches. O 249 Liberdade,
como foi baptizado o monstro de fachada ondulada lembrando ondas de mar agitado
onde navega o Millennium BCP, do Jardim Gonçalves e do Carlos Costa
(lembram-se?), e estão também o BPI, a
Ford - FCE Bank, Ford Lusitana -, a Magnum Capital, a AON e mais duas
Sociedades de Advogados. No 259, já edifício verde do Marquês de Pombal que
acolhe o Hotel Flórida, descubro o FI (letra grega em evidência cromada na
fachada) Atlântico - Banco Privado Atlântico Europa (dizem-me angolano); também
a Sata - the Atlantic and you - e o Montepio Geral - quando o seu projecto
ganha, ganhamos todos-; será mesmo assim?
Dos bancos da
Avenida perdi-lhes a conta (até um falso encontrei!), mas contei 11 Sociedades
de Advogados 11, podendo pecar por defeito que não por excesso, e aqui
atrevo-me a transcrever o que disse a propósito há tempos numa entrevista
televisiva o Professor Freitas do Amaral, assunto a que se referiu o único link da minha crónica de 7 de agosto. “
Antigamente éramos assaltados nas estradas por bandos de bandidos armados de
escopetas e bacamartes, para nos roubarem jóias e cabedais. Hoje os assaltantes
são os bancos e as armas as Sociedades de Advogados”. Daí ser muito arriscado passear na Avenida,
especialmente para idosos que, tendo já sido atacados pela incontinência verbal
que tanto incomoda, estão na eminência de passar àquela urinária, não havendo
já sentinas públicas na Avenida.
Por fim uma má
notícia: esta crónica segue no próximo número para reportar tudo o que existe,
e acontece, nas áleas centrais da nossa Avenida, e para me debruçar sobre o
Monumento dos Restauradores e descobrir batalhas decisivas que tiveram lugar
noutro continente. Nessa época Portugal era meio Mundo, e defendia a sua
independência a milhares de quilómetros de distância, na Colina dos Guararapes.
Abraço.
Lisboa, 21 de Agosto
de 2014
Octávio Santos
Como já tive oportunidade de dizer noutro local, é bom que o autor comece a pensar numa outra zona de Lisboa, porque a Princesa do Tejo precisa – e merece – ser mapeada com a atentíssima e afetuosa elegância deste nosso amigo. Já estou a pensar num belo nicho de mercado, passeios pedestres, anunciados mais ou menos nestes termos, a turistas, nacionais e estrangeiros, amantes da cidade: «Venha conhecer a Lisboa do Octávio Santos». E não é que soa bem?!
ResponderEliminarFlorinda
Cara Florinda,
ResponderEliminarLisboa merece tudo, menos o que muitos permitiram se fizesse na Avenida da Liberdade. Pareceu-me, neste meu passeio, que essa acção demolidora e desvirtuadora se atenuou, e ainda bem. Depois destas 4 crónicas sobre a Avenida, a que se seguirá uma quinta e talvez uma sexta se se tornar necessária uma errata, só me abalançarei a artérias que requeiram menos trabalho: estou a pensar na Travessa do Fala Só por ser a que mais se adapta à minha condição de escriba do inútil. Quanto ao seu slogan, se eu continuar a incluir nas atracções turísticas fenómenos como o psicólogo do S. Jorge e o seu cartaz, o mesmo não mereceria a aprovação do Turismo de Portugal, nem do Vereador do pelouro na CML.
Abraço
Octávio
Como os artigos deste blog são longos (e ainda bem porque fica tudo bem explicado, fica para a História), eu vou lendo de vez em quando; hoje terminei e os meus comentários são dois: 1) A Avenida vista pelo Autor é impressionante, diferente e variada e o comentário de Florinda, logo no 1º dia, é simples e ousado e como tudo o que assim é merece o meu aplauso; 2) Mas pareceu-me que o Autor aparentemente considerou naive (talvez sim talvez não) ou digamos pouco viável. No entanto, dado o que se actualmente se vê no you-tube, no face-book, etc. parece-me que o clássico não tem audiência, não é viável, há que ter ousadia.
ResponderEliminarCara Deolinda,
ResponderEliminarSempre grato por continuar a merecer os teus comentários. Fico feliz por ter dado uma nova vida à nossa Avenida, ou pelo menos de a ter visto sob outro prisma, que não precisou de ser ousado, porque as ousadias já lá estão; só falta descobri-las. Falando de ousadia, e para lhe fazer a vontade, pode ser que na próxima crónica faça uma selfie com o Bolívar, uma belfie com a companheira sexy do Rosa Araújo, ou convença o psicólogo do S. Jorge a levar comigo com um balde de água gelada, desafiando o Paulo Portas para o duche.
Abraço
Octávio
PS: Quando acabar a Avenida prometo crónicas mais curtas, muito mais curtas.