quinta-feira, 29 de maio de 2014

Do Preço e da Liberdade dos Homens

Dizem os homens íntegros que não têm preço, e que em nenhuma situação se deixariam comprar, não se desviando um milímetro daquele que acreditam ser o caminho da rectidão, e eu, lembrando-me de figuras, e foram tantas, que tudo sacrificaram por estes princípios, não posso não estar mais de acordo, embora  sabendo ser alvo da risota discreta daqueles figurões  que, tendo percebido a estupidez e inutilidade desta atitude, estão a tratar da sua “salvação” com métodos muito mais fáceis, simples e eficazes, sem se curarem minimamente dos danados que semeiam pela sua estrada, ou sejam, quase todos nós, aqueles para quem um Jota continua a ser  uma consoante do alfabeto latino, e depois do filme, uma zona de Chelas, e não o produto de uma qualquer  escola partidária (madrassas para engodos e trapaças), e que Ovar é a cidade de origem das varinas e não um depósito de sucatas metálicas e humanas onde varas de porcos oficialmente certificados continuam a refocilar na certeza da impunidade ou da prescrição, armando em chico-espertos,  que é o que está a dar na Costa das Negociatas.


Não tendo a pretensão de fazer parte desses justos, lembro-me que uma vez, já lá vão quase 40 anos, estando eu em Sófia a exercer funções consulares, se me apresentou uma jovem que estudava na Universidade Kliment Ohrisdsky na capital búlgara, a expor-me o seu problema para o qual me pedia solução. Neta e filha de portugueses residentes em Moçambique e aí nascida, tendo, após a independência, por imposição de uma lei que não admitia o estatuto de dupla nacionalidade, optado, seguramente por questões ideológicas, por aquela moçambicana, sendo por isso titular de um passaporte do novel país africano. Em Sófia casara entretanto com um cidadão búlgaro e, dado que também a Bulgária não admitia tal estatuto, escolheu, desta vez por amor, a nacionalidade do marido, perdendo o passaporte moçambicano e adquirindo aquele búlgaro. Acontece que, tal como as convicções ideológicas, o amor não dura para sempre, e a nossa ex-lusa e ex-moçambicana se encontrava, por divórcio, também ex-búlgara já que as autoridades do país das rosas, sempre no respeito de uma qualquer lei, lhe retiraram o passaporte que adquirira pelo casamento. Em resumo, a jovem veio à Secção Consular porque se encontrava na condição de apátrida, o que lhe abria um futuro pouco risonho, tendo por isso começado a ter problemas com a bolsa de estudo, e desejava rumar a Portugal para recomeçar a sua vida. Expliquei-lhe tudo o que estava previsto na lei portuguesa, os documentos que teria de me apresentar para que, depois de enviados para Lisboa, ser organizado um processo que seria avaliado para uma posterior decisão que poderia eventualmente devolver-lhe a nacionalidade portuguesa. Percebendo quanto tempo tudo isso poderia levar, a jovem disse-me que o que queria era sair imediatamente do pesadelo em que se metera e deixar a Bulgária o mais rapidamente possível, começando a chorar copiosamente. Mesmo vinda do país de Cahora Bassa, provou-me que a maior força hidráulica conhecida é uma lágrima de mulher e aí “vendi-me”. Abri o cofre, tirei um passaporte, preenchi-o em seu nome, assinei-o, pus-lhe o selo branco e entreguei-lho contra o pagamento dos emolumentos previstos na Tabela Oficial dos Actos Consulares, porque sou intransigente quando se trata de cumprir a lei. E conheci o meu preço, que foi aquele da solidariedade humana, já que não gosto da palavra compaixão que sugere sempre a ideia de uma acção de alguém que está bem, e tem poder, em favor de alguém que está mal e depende desse poder. 

Preço que recentemente voltei a avaliar e conhecer, desta vez simplesmente por amor. Todos sabem que o meu Irmão pequenino nos deixou no passado dia 8 da Maio, cinco dias após ter completado 63 anos, dia em que teve os Netos a apagar-lhe as velas em dois Fofos de Belas, um nas mãos do Tomás e outro nas do António, e todos nós a cantar-lhe com um nó na garganta o parabéns a você. Repousa agora, a seu pedido, sobre o local onde há dois anos sepultou o Lidador, seu amado garanhão, no campo que está ao lado esquerdo do sobreiro caído, que é a imagem deste texto. 

Pois, o Vasco, na sua imensa fé em Deus e nos homens, quando me pôs ao corrente da sua gravíssima condição de saúde, avisou-me logo que, estando nas mãos do Serviço Nacional de Saúde, no seu caso no IPO Francisco Gentil de Lisboa, estava seguro que iria receber os melhores tratamentos hoje existentes no mundo, e os melhores cuidados da parte de todos quanto trabalham naquele hospital especializado, e que, com a ajuda de Deus, teríamos que o suportar ainda por muitos e bons anos.  Comecei então a estar ao lado do Vasco todas as vezes que ia ao IPO para as sessões de quimioterapia, e nessa altura escrevi o texto “Venenos - bons, maus, vingadores, escondidos e outros”, editado em 23 de Janeiro. Durante a primeira sessão o Vasco perguntou-me se não seria justo escrever um texto sobre a excelência dos serviços, médicos e outros, do IPO, e sobre a competência e disponibilidade de todos aqueles que nele exercem a sua actividade. 

Eu, que tenho sempre as antenas, áudio, vídeo e mesmo aquelas subliminares, em acção na sua máxima potência, e que tinha já visto coisas que eram opostas àquilo que ao Vasco parecia, pus uma surdina a todas essas minhas convicções baseadas na simples observação de factos, e escrevi o texto “IPO…hIPO…hurrah!!”, editado no dia 13 de Fevereiro, que creio terem todos percebido ser forçado e despudoradamente de parte, mas o preço recebido e a satisfação  proporcionada justificaram quanto fiz. Preço que, por amor, recebi e continuarei a receber enquanto viva, não desperdiçando um cêntimo dos exemplos e ensinamentos que o Vasco me legou, e não só a mim. 

E do preço passamos à liberdade. Posso eu, que desde sempre escrevi aquilo que me pareceu justo escrever, desde que tal correspondesse à verdade e servisse para denunciar o que está mal segundo a ética das pessoas de bem, pôr preto no branco, hoje e agora, tudo o que de reprovável observei, ouvi e sobretudo vi sofrer a quem estava mal, no IPO, de forma insuportável, e, em escala muito menor mas mesmo assim reprovável, no Hospital da Cruz Vermelha? A resposta é não, porque, assim como reconheço ter um preço, também sei pôr limites à minha liberdade, calando-me desta vez a custo, arriscando trair a memória do meu Irmão pequenino, em nome da tranquilidade de todos os que frequentam, doentes ou agentes de saúde, os acima citados hospitais, e porventura outros. 

Assim, como decidi, por um acto de auto censura, não ofender a sensibilidade de outrem, deixo-vos duas coisas que exaltam a memória daquele que nos deixou: 

- A peça que o nosso Amigo Bruno Caseirão quis escrever, lembrando o Vasco, na revista Equitação, e o vídeo que ilustra esta justa homenagem,  prova de quanto ele era apreciado no universo encantado do Cavalo Puro Sangue Lusitano.

- Uma parte do texto que me senti de escrever sobre o Vasco, destinado a ser lido durante a Missa de Corpo Presente, e ele aí está: 

“Escrevi umas coisas para dizer hoje aqui junto do corpo do meu Irmão pequenino, porque me recordo de, diante dele e da Maria Rosa - e de mais umas centenas de pessoas – ter embatucado as palavras que deveria dizer a fechar uma feira na Cidade da Praia, e ter feito um silêncio que, se foi de 30 segundos me pareceu uma hora, acabando por concluir com uma banalidade aquilo que não disse, envergonhado como um cão batido. 

E foi por isso que, desta vez, escrevi tudo direitinho para não passar por outra vergonha diante do Vasco. E a propósito dos 30 segundos que me pareceram uma hora, repito o que o Vasco me disse um destes últimos dias que passámos juntos: tendo-me perguntado que horas eram para saber quanto tempo faltava para lhe ministrarem uma das drogas que lhe aliviavam momentaneamente as dores, e tendo eu respondido que só faltava uma hora, replicou: - Uma hora é tanto para quem conta cada segundo! 

Tenho esta pecha de citar autores importantes, talvez para sentir, na imensa e estúpida vaidade dos homens, que posso fazer parte da estirpe, e hoje vem-me em mente o que Shakespeare pôs na boca de Marco António no funeral de Júlio César, para o contrariar quando diz aos romanos  “Estou aqui para enterrar César, não para o elogiar”,   porque eu estou aqui para elogiar o Vasco e não para enterrá-lo.  Mas também para concordar quando diz “O mal que os homens fazem sobrevive-lhes; o bem é muitas vezes enterrado com os seus ossos”, embora eu aqui esteja suplicando para que desta vez não seja verdade, com a certeza de ter do meu lado todos aqueles que lhe quiseram bem em vida e que nunca esquecerão o bem que o Vasco espalhou à sua volta. 

No Domingo passado fui ao seu santuário das Valadas encontrar-me com os meus sobrinhos Mafalda e David, e aquele sobreiro enorme, abatido atrás da casa pelo temporal, com as raízes ao Sol e as folhas a ficarem secas, representou-me o meu Irmão que, como ele, tanto produziu em vida de útil e valioso, ali à espera que lhe cortem os ramos secos para lenha. Resta-me a certeza que a força que ele transmitiu à Maria Rosa e aos seus Filhos, faça com que os ramos cortados sejam úteis para aquecer e sobretudo iluminar quantos a eles se aproximem. 

A última vez que vi o Vasco feliz - sem contar com o extraordinário encontro que teve com a minha Filha Margarida algumas horas antes de nos deixar, relâmpago em céu sereno - foi no passado dia 22 de Março nas Valadas quando o seu “mais novo amigo de infância” o visitou, a si, à sua Família e aos seus cavalos, acompanhado de Dona Lectícia. Pois esse amigo, o grande escritor brasileiro José Paulo Cavalcanti Filho, escreveu-me da sua Recife: 

Queridíssimo Octávio,

Há um conto de Cortazar em que homem e mulher, que nunca se viram, acabam se apaixonando. Se comunicavam por grafites escritos nos muros. Até que ele um dia escreveu " dói também em mim ", e desapareceu. É o que me ocorre, agora. Dói também em mim. Em nós, Maria Lecticia inclusive. Dor enorme, amigo. Pode acreditar. Aquele dia foi muito especial. Tivemos enorme prazer em compartilhar da alegria familiar. Dói em mim, Octávio. Como dói. Mas segue a vida. Abraços, José Paulo.” 

Termino, voltando novamente à tragédia de Shakespeare, citando a parte final do discurso de Marco António: - Desculpem-me; o meu coração jaz na urna com Vasco e devo calar-me até que ele volte para o meu peito. 

Tenho saudades. Pronto!

Lisboa, 29 de Maio de 2014
Octávio Santos
 

*Gostaria que relessem a última carta que escrevi ao Vasco, a qual está no texto “Escrita criativa de um menino em liberdade condicional com tempo para escrever uma carta de amor, não sabendo ainda se terá coragem para a remeter ao destinatário”, editado no dia 17 de Abril.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Escrita criativa IV


Era a última lição, e para mim foi incompreensível a presença mitigada de 8/9 pessoas em relação às quase 20 da primeira. Procuro os porquês das coisas e raramente os encontro. Mas não interessa para o caso, nem vou perder tempo com isso, o que importa é que tenho de escrever uma carta de amor a um quadro, mais uma vez do Pedro Casqueiro, e novamente a sorte me bafejou com uma figura de mulher, embora segundo as 3 Marias das “Novas Cartas Portuguesas” isso não tenha qualquer importância, dado que não é o destinatário de uma carta de amor que interessa, nem tão pouco a paixão que nela revelamos exprimindo-a, mas que tudo não passa de um exercício de escrita, sendo tudo o resto apenas um “pretextuoso” acessório, e como dizia Sir Hob, “tudo o que sai do contexto é pretexto, e nada que seja “pretextuoso” é nobre”. Não sei se elas, e o próprio Sir Hob, se entendem a si próprios, mas vá de segui-los. Sempre fui um “Maria vai com as outras”.

Assim, aquela figura desfocada (na imagem) tendo como cenário aquilo que me pareceram peles de zebra, levaram-me inevitavelmente à fantástica história de Edgar Rice Burroughs, e depois foi fácil compor o ramalhete e armar-me em homem-macaco à procura de emoções menos peludas, com a vantagem de trocar as estolas das epístolas do dorso de um burro para aquele de uma zebra, o que já é uma promoção quanto mais não seja em termos de moda.

E vá de me servir mais uma vez do cinema com alusões ao “Avatar”, ao “Tarzan do 5º Esquerdo” com o saudoso Solnado, e à Tóbis, templo do velho e também saudoso cinema português, e a uma conversa que tive com Julião Sarmento no seu antro da Várzea de Sintra, após uma sua digressão artística na Amazónia durante a qual trocou os seus brancos por verdes, quando lá levei uma troupe de uma das televisões de Sua Emittenza  Sílvio Berlusconi.

Depois foi só lembrar-me de inventar o que não foi, porque os sonhos são sempre melhores que a realidade, e idealizar os teus sussurros no meio da floresta para me sentir uma besta pelos gritos que dou, dei e continuarei a dar enquanto Deus me der forças e me seja consentido pelos avatares que a todo o custo estão a tentar, e conseguir, tomar conta da nossa floresta “com ideias estranhas na cabeça”.

E mais nada, encerrando aqui os 8 textos que dediquei à Escrita Criativa e voltando à outra minha escrita que de criativa tem pouco, limitando-se a contar episódios que vivi, que pensei ter vivido ou que gostaria de viver, e, por vezes, a descrever coisas reais que os outros não veem, não querem ver, ou não lhes é permitido ver na confusão da vida virtual que levam na ilusão de  ser verdadeira.

22 de Maio de 2014

Octávio Santos

Segue o texto que inspirou aquele editado em 17 de Abril, intitulado “Escrita criativa de um menino em liberdade condicional com tempo para escrever uma carta de amor, não sabendo ainda se terá coragem para a remeter ao destinatário”, no qual, por trágicas manigâncias do destino, escrevi uma carta de amor verdadeiro a um destinatário agora mais real que nunca.

 
Culturgest

Fundação da Caixa Geral de Depósitos

Escrita criativa

11 de Abril  de 2014

Exposição Marginalia de Pedro Casqueiro

 
Tema: Género epistolar

Obra: Sem título,2007

Serigrafia e acrílico sobre tela, Colecção Particular

 

Minha querida Jane,

Não me tinhas ainda visto, só ouviras o meu grito e saíste nua da cascata onde te banhavas, assustada porque não te pareceu um grito de zebra da manada que te rodeia, e eu escondido a ver-te envergonhado porque estavas nua, eu também, mas eu sou assim, sempre vivi assim e o meu sentimento de pudor é igual ao da Chita, ou seja igual a zero, e por isso não quero revelar-me para que não te envergonhes de me ver envergonhado. O Sol de África bate-te directamente na cara e não te vejo os olhos, só os cabelos caídos, uma boca que deve saber melhor que uma papaia, e o resto, todo o resto que não sei ainda se é verdade ou um holograma criado por Avatares para me confundirem. Sabes que têm aparecido seres estranhos ultimamente na floresta e eu, que nunca tive medo de leões e leopardos tenho receio destes bípedes como eu, com ideias estranhas na cabeça. As tuas zebras são verdes ou é apenas o reflexo da cor da floresta e da água da cascata? Talvez tu não saibas mas um dia falei com um pintor português, o Julião Sarmento, quando fiz “O Tarzan da 5º Esquerdo”, nos estúdios da Tóbis, e ele disse-me que na floresta o branco para ele era verde porque é essa a cor dominante, e a acreditar nele - não sei de os portugueses são de confiança – as tuas zebras são como todas as outras brancas às riscas pretas ou o contrário, mas para que é que eu estou aqui a perder tempo com estas conjecturas quando já sei o fim da história, que te vou aparecer em todo o meu esplendor, nu como tu, e vais perceber que fomos feitos um para o outro por força de não haver mais ninguém à nossa volta, como aconteceu ao Adão que só tinha a Eva, e corro para ti, paro a uma distância de segurança e agora consigo ver-te os olhos que têm um brilho que eu nunca vi, nem nas águias, e avanço uma mão para afastar os teus cabelos que te cobrem os seios, e tu deixas fazer, com um sorriso de aceitação, como se estivesses para sempre ali à minha espera para tudo o que uma mulher pode fazer com um homem-macaco, e agora sou só homem, e apesar de saber que a Chita está a espreitar nervosa e inquieta nos ramos do imbondeiro, deixei de ser o seu meio-macaco para ser o teu homem inteiro, e abraço-te, toco-te, roço os meus lábios pelo teu nariz até chegar à tua boca e ter a loucura daquele gosto que nenhum fruto tropical pode alcançar, e faço-te deitar nas folhas do chão e deito-me sobre ti, e colo cada centímetro do meu corpo a cada milímetro do teu, e eu que nunca percebi ter incomodado ninguém com o meu grito bestial nem que fosse às 4 da manhã, assusta-me ouvir os teus gemidos às 5 da tarde com medo que acordes os animais da selva com um som nunca antes escutado, mas que é música de vento e água a correr para os meus ouvidos, mas não sei qual é a reacção de antílopes e facocheros. Desculpa Jane se te escrevo esta carta, inventando o que não foi, mas só queria que percebesses que mesmo sem te conhecer, porque continuo à tua espera e caso venhas um dia é assim que tudo se vai passar porque te sonho assim, tens de ser linda e sensual senão quem vai querer contar a nossa história e dela fazer tantos filmes? Neste momento lancei o meu mais formidável e lancinante grito para que tu me ouças e saibas, em nome do nosso amor futuro, que tudo vai ser assim e podes vir já amanhã, porque todos os nossos amanhãs serão iguais.
 

Teu Tarzan, (cada vez menos animal porque te espera!)

Octávio Carmo de Oliveira Santos

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Escrita Criativa III


A Carlota tinha mesmo a intenção de nos pôr à prova; com aquele seu ar inocente viu-se que tinha o “dente afiado” para, ao espalhar armadilhas no percurso de obstáculos que nos propunha, nos saltar ao pescoço e fazer sangue.  E vá de citar Marivaux, Rodari e Paul Nougé, depois de nos fazer tirar à sorte uma carta de jogar enriquecida com uma frase simples, e escolher uma outra frase retirada de três obras gráficas, voltando à Marginalia de Pedro Casqueiro, desta vez com a colaboração de Ana Jotta.
 

O tema, corrompendo “O Jogo do Amor e do Acaso” de Marivaux - que criou o neologismo marivaudage para designar as questões morais de um indivíduo, particularmente em relação ao casamento -, seria “O Jogo das Cartas e do Acaso”, e teriam as “vítimas” de compor um texto usando a ausência de relação aparente entre as duas peças, aquela extraída do baralho e a outra escolhida a nosso bel-prazer. A carta que me calhou em sorte foi a manilha de espadas com um “Através das Janelas” que me abriu o mundo todo. Sempre sorte. A frase que retirei da obra de Casqueiro foi “A Eterna nos teus braços…Eu sou a Pequenina”. Ambas na imagem.

Mas porque é que eu, um técnico de comércio externo, me meto nestas coisas vendo-me aflito para me livrar delas? Paul Nougé, um dos citados pela Carlota, poeta e pintor belga amigo de Magritte, era da opinião que “o vocabulário do amor nos espanta pela sua pobreza”, mas escreveu também que “o interior das vossas cabeças não é essa massa cinzenta e branca que vos impingiram; é uma paisagem de nascentes e ramos, uma casa de fogo, melhor ainda, uma cidade maravilhosa que vos dará gozo inventar”.  Daí eu mergulhar de cabeça no desconhecido, porque mesmo sem a pretensão de inventar um vocabulário mais rico, me dá um gozo infinito inventar a minha cidade, e sobretudo os seus habitantes. Posta esta premissa, mais um tijolo mal cozido na minha “fama” de intelectual, vamos ao texto que alinhavei, sempre em 45 minutos. 

A primeira coisa que me ocorre é o Presidente da República, e perguntar-me-ão o que é que esse personagem tragicómico, que me lembra sempre um manequim da Rua dos Fanqueiros, associação de imagem abusiva porque os manequins nunca fizeram mal a ninguém, mas ao mesmo tempo pertinente porque ambos acabarão no lixo, tem a ver com a história? Ocorre-me porque o PR está, e estará, na China até Domingo para abrir aos Senhores do Império do Meio o catálogo de vendas de um Portugalzinho em saldos de liquidação, e eu aprendi que o 4 era o número da morte para os chineses quando lá estive integrado na comitiva do Presidente Jorge Sampaio há quase dez anos. Isto para dizer, não só, que a China não foi descoberta agora, mas também, para vos dar conta do meu espanto pela virtualidade da ausência do 4º andar nos hotéis onde alojei: não é que havia um vazio entre o 3º e o 5º, levitando o edifício daí para cima, mas que o 5º assentava sobre o 3º numa demonstração que quem manda pode fazer o que bem entender que as pessoas aceitam e aplaudem. Ainda na passada Segunda-feira, eu que não digo basta às touradas mas nunca entrei numa praça de touros, ouvi nos Prós e Contras da D. Fátima o ganadeiro/veterinário Joaquim Grave afirmar para quem o quis ouvir que os animais não têm direitos, o que arrancou uma salva de palmas à assistência e um sorriso alarve ao seu companheiro de banco. Não tem nada a ver com a China, mas reis e reizinhos, sejam de grandes impérios ou de alguns hectares no Ribatejo, podem continuar a passear nus pelas ruas das cidades sem que alguém disso dê conta. Arquivada a China recordando o fim do famoso “Bando dos 4”, só faço votos que os nossos 40 ladrões sejam poupados em nome da civilização, embora não desdenhasse vê-los, não como castigo mas como prova de coragem, no Campo Pequeno a pegarem um touro sem os cornos serrados e embolados; quer dizer, em igualdade de circunstâncias.

Depois foi só jogar às cartas e às flechas, fazer batota pegando em frases não escolhidas e citar o Rei Mago que nos roubou o ouro para se ir sentar num cadeirão dourado, porque me deu gozo inventar a minha cidade, numa roleta de emoções entre o sonho e o desejo e uma girandola de cadavre exquis num Disco de Festos, baralhar todos os naipes numa alusão ao pesadelo que estamos a viver, corromper “A Gramática da Fantasia” de Gianni Rodari, libertar as palavras acasalando-as de forma fantasiosa e criando a história impossível de um chinês Super-Homem para salvar a improvável possibilidade da criação de um binómio fantástico – sempre Rodari -, que cada vez mais distante não é impossível. Nada é impossível.

Nestes últimos dias aconteceram-me tantas coisas imprevisíveis, sem que um milagre me viesse retirar do cenário do meu filme, esperando-o agora para quando Deus quiser, embora veja muito nevoeiro através das janelas.
 
Lisboa, 15 de Maio de 2014
Octávio Santos


Culturgest

Fundação da Caixa Geral de Depósitos

Escrita criativa

4 de Abril  de 2014

Exposição Marginalia de Pedro Casqueiro

 
Tema: Jogo das Cartas e do Acaso

Elementos: Uma carta de jogar - 7 de espadas - com a frase “Através das Janelas”

Obras:

Pequenina cegueira, 1996 (da qual retirei a frase)

Colagem e acrílico sobre tela, Colecção A.J.

Solitaire Universal, 1994 (Pedro Casqueiro & Ana Jotta)

Fita Dymo  sobre caixas de cassetes, prateleira de madeira, vidro, Colecção da Caixa Geral de Depósitos

Sem título, 1995 (Pedro Casqueiro & Ana Jotta)

Fita Dymo sobre k-line, Colecção A.J.

A data de hoje tem 3 quatros número da morte para os chineses e se me tem calhado o 4 de espadas tinha saltado “Através das Janelas” do palácio e a história tinha acabado aqui. Mas tocou-me o 7 sempre de espadas prefiro o 3 mas penso que somado com 7 faz 10 que é o máximo no jogo das flechas e assim começo bem, É “Através das Janelas” que a carta me abre que vejo um 5 de espadas na parede dentro de uma mão e sonho com um universo sem pares só ímpares mas tenho de escolher uma frase porque a Carlota o impõe apetecia-me escolher mais e vou romper o regulamento porque duas frases se completam para uns uma esperança para outros uma ameaça:” o Gaspar está a chegar” e “a corrida aos cadeirões dourados” deve estar para começar ou continuar digo eu mas agora acabou a brincadeira não o jogo porque estou com as cartas na mão e vamos lá respeitar as regras da bisca ou da sueca e finalmente escolho a minha frase que me entrou nos tímpanos como se fosse gritada por alguém “Através das Janelas” alguém que se quer libertar de qualquer coisa e esse alguém existe e está vivo tanto que ao escrever isto senti qualquer coisa de muito doce a roçar-me os cabelos mas não dei importância porque ultimamente tenho lidado com anjos e a voz gritada talvez pelo anjo que passou por aqui dizia com um eco infinito “A Eterna nos teus braços, sou pequenina” e o eco repetia-se e repetia-se “Através das Janelas” do meu 7 de espadas que não são daquelas de ferir mas de defender e deixam entrar todas as frases do Pedro Casqueiro que se completam num cadavre exquis que como um tornado formam um Disco de Festos onde têm lugar todos os naipes copas paus e ouros embora nestes tempos em que muito necessitamos não de gramática mas de ginástica para não perdermos a fantasia eu prefira os paus para os usar contra quem nos está a roubar os ouros deixando-nos só as copas para bebermos o fel da nossa amargura e desespero. Debruço-me nas janelas por onde entra o grito/lamento da pequenina e vem-me a fantasia de imaginar que afinal sou chinês e me saiu o 4 de espadas ou de outro naipe qualquer e lanço-me “Através das Janelas” vendo com estupor que a pequenina dos lamentos que fazem eco volteia a cair no espaço e aí o chinês veste o macacão do Clark Kent e voa para a salvar agarrando-a no último momento e fechando este texto feliz por ter formado um binómio fantástico com “ A Eterna nos teus braços”. 

Octávio Carmo de Oliveira Santos

PS: Este texto inspirou aquele outro editado em 10 de Abril, intitulado “Escrita criativa (com prólogo de raiva adiada e inveja pertinaz) à mesa de jogo das cartas e do acaso, "marivaudage" bucólica de (des)educação sentimental e avulsa descoberta das coisas da vida”

 

 

 

 

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Escrita criativa II


Desta vez a Carlota avisou-nos logo que iríamos ter de escrever um policial, com enigma, de suspense ou simplesmente “noir”, partindo de duas obras da artista Luísa Correia Pereira, em exposição da Culturgest de 14/2 a 11/5/2014, intitulada “A Convocação de Todos os Seres”. Meti a mão no primeiro saco e saiu-me “3 elementos no verde”, que seria o cenário, tirando “Mãe e filha” do segundo saco, e esta seria a personagem, neste caso as personagens. – Vão lá, têm 45 minutos para escreverem uma história com princípio, meio e fim, disse a Carlota com ar de quem estava a lançar um desafio intrincado, se não impossível.

Lá olhei para as obras (ambas na imagem) e, habituado a ler Camilleri e, sobretudo a ver no pequeno ecrã a versão cinematográfica dos seus livros com um extraordinário Luca Zingaretti no papel do Comissário Montalbano, roubei a atmosfera repetidamente vista e lancei-me freneticamente sobre as páginas vazias. E aí fui tendo a ajuda das coincidências, como o “S” ao contrário, inicial do meu apelido paterno e fivela daquele cinto que uns diziam significar “Serviço” e outros “Salazar”, o verde da seara que o envolvia, o R4 do meu Pai, um dos carros que mais gozo me deu conduzir, entornando-o nas curvas, e a passageira contra mim quando eram à esquerda, em permanente desafio ao seu baricentro, as minhas recentes viagens ao Varatojo que me fazem passar por Catefica à saída da A8 para Torres Vedras Sul, a lembrança da canção de Bécaud "Le restaurante espagnol", hoje irrecomendável dado o seu tema. A cadeira atrás das grades com Mãe e Filha é de tal maneira transparente que me poupa comentários.

Depois, explorando a novidade dos casamentos homossexuais e a aceitação finalmente generalizada de tais relações, compus a trama que levou ao crime e acabei por pôr na cabeça do meu homónimo pensamentos que o leitor não acharia possíveis em tal personagem. Finalmente, tomei metaforicamente a perfeição dos seios da vítima, tendo para mim que já seria crime banalizá-los, desconhecê-los, desprezá-los ou desperdiçá-los por rotina, quanto mais desenhar-lhes “bocas vermelhas abertas por uma faca afiada”. E foi tudo, seguindo-se o texto que inspirou aquele outro “Escrita criativa com o mistério da subtracção da máquina do tempo a um operário por vadios amadores”, editado no meu blogue em 3 de Abril último.

Culturgest

Fundação da Caixa Geral de Depósitos

Escrita criativa

28 de Março de 2014

 

Exposição “A Convocação de Todos os Seres”, de Luisa Correia Pereira



Obras:
- 3 elementos  no verde, Xilogravura, 1973
- Mãe e filha, Água-forte, 1972
 
O Inspector Santos da Científica, chamado de urgência, tudo uma chatice, estava a almoçar pela primeira vez com uma garota a quem tinha posto o olho em cima, para examinar o local do crime, um campo verde de trigo, pediu desculpa, baby fica para a próxima mas dever é dever, escolheu um crachat verde para não dar nas vistas, pô-lo na lapela ao contrário coisa que fazia sempre para não confundirem o seu “S” com o do cinto da Mocidade Portuguesa, acelerou o seu R4 que já conhecera melhores dias e ala, sem GPS, dirigiu-se a Catefica que era a única indicação que tinha. O aparato dos carros da PSP de Torres Vedras, uma ambulância dos bombeiros, indicaram-lhe que era ali. Entrou no campo com o seu olho habituado a todos os pormenores e, afasta trigo à esquerda afasta trigo à direita viu vermelho na terra e nas espigas, baixou-se para recolher uma amostra para análise e seguiu no campo até ao fim onde começava a terra lavrada. Havia uma cabana, daquelas onde se guardam as alfaias agrícolas, empurrou a porta entrou; ao princípio não viu nada na penumbra, mas habituando-se deu com uma divisória gradeada atrás da qual distinguiu uma cadeira de espaldar alto tudo anónimo e cinzento, e voltou-se para sair. Um ligeiro arfar que lhe pareceu de um gato escondido fê-lo retornar sobre os seus passos, pegou na lanterna de algibeira e com espanto viu uma menina, entre neuf et dix ans, como na canção de Gilbert Bécaud, “Le restaurante espagnol”, que escondia a face com a saia. Magra, suja e despenteada, encolheu-se mais ainda sentindo-se descoberta. – Que fazes aqui? – Há quanto tempo aqui estás? – Quem és tu? – Fugiste de alguém que te queria fazer mal? Percebeu que cada pergunta aumentava a mudez da criança e mudou de táctica. – Estás só? - Onde estão os teus Pais? Começou a falar: - A minha Mãe estava sempre aqui comigo, eu debaixo da cadeira e ela sentada nela, atrás das grades fechadas com o cadeado e hoje vieram… - Quem, o teu Pai? – Não, não tenho Pai, vieram e levaram-na à bruta como se tivesse feito algum mal, voltaram a fechar o ferrolho e passado tempo ouvi gritos, pareceu-me a voz da minha Mãe e depois silêncio, nem os corvos ouvi grasnar, como se a morte se tivesse abatido sobre a seara. Santos pegou gentilmente na criança e levou-a pela mão evitando passar junto das manchas de sangue, e entregou-a a uma assistente social. Pediu ao Comandante da PSP para examinar o corpo: uma mulher magra, suja, desgrenhada, da blusa entreaberta vislumbrou uns seios que não eram para aquele corpo, grandes, brancos, perfeitos se não fossem as marcas da carnificina, bocas vermelhas abertas por uma faca afiada. Remexeu-lhe os bolsos do avental que tinha sobre os jeans, de onde tirou um papel dobrado em quatro. Minha vida, saio hoje da prisão e quero-te e à nossa Filha para desta vez vos dar uma vida diferente. Amo-te, Manel. Perguntou à assistente social se podia fazer perguntas à menina. – Já me disseste que não tens Pai, vivias sozinha com a tua Mãe? – Não, vivíamos as três, eu a minha Mãe e a minha outra Mãe; porque é que ela não está aqui?  Santos arrumou tudo na sua maleta de trabalho de investigador científico, dirigiu-se ao Comandante da PSP, puxou-o pelo braço para o afastar da multidão que se formara, e disse-lhe algumas palavras em voz baixa. Apertou-lhe a mão, entrou no R4 e desandou dali para entregar o que recolhera no Laboratório da Científica. O almoço com a garota ficaria para uma outra vez, ou talvez convidasse o colega novo chegado à sua Direcção, aquele jovem, alto, louro, com aqueles olhos que pareciam querer furar o Mundo.

Lisboa, 8 de Maio de 2014
Octávio Carmo Santos

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Escrita Criativa I


Na semana passada interrompi os meus textos sobre Escrita Criativa  para pagar portagem aos 40 anos do 25 de Abril, já que tendo todos escrito sobre esse tema eu não poderia ficar atrás. Mas arrependi-me porque o que eu disse não acrescentou nada àquilo que foi mal dito por uns, nem preencheu o vazio do que não foi bem dito por outros. Porque uns houve que lançaram com honestidade uma maldição sobre a efeméride, outros a cobriram com uma bênção hipócrita, e sobre a data a festejar só ficámos a saber que foi maldita ou bendita conforme as actuais conveniências da maioria dos escribas, dado que poucos se pronunciaram sem se colocarem no seu epicentro. Por isso, eu que distribuo mais facilmente anátemas que unções, fiquei-me pela ambiguidade que não me comprometeu nem com a verdade nem com a mentira, e  daí  o meu arrependimento. Agora voltemos à Escrita Criativa, terreno onde me movo mais à vontade, tanto mais que a tentação de escrever sobre a data de hoje, 1º de Maio, não voltou a assaltar-me após um  texto que escrevi em 2009 para o “AICEP Notícias”, boletim interno da AICEP, "Do vale das rosas ao vale de lágrimas" posteriormente publicado no meu primeiro livro “Hieróglifos Órfãos de Roseta”.


A Culturgest realizou um pequeno curso de Escrita Criativa em quatro sessões, e eu, convencido que se pode aprender sempre, lá fui cheio de curiosidade e vontade de fazer bem. A primeira sessão foi no dia 21 de Março e lá estavam, a responsável Carlota Gonçalves e mais 18 pessoas interessadas como eu, em saber como tudo se iria passar, e a Carlota, depois de nos dar as boas vindas, explicou-nos que iríamos escolher à sorte uma das obras do artista Pedro Casqueiro que fazem parte da exposição Marginalia, que está patente na Culturgest desde 14 de Fevereiro até 11 de Maio, observar bem aquela que nos calharia na rifa, e escrever sobre ela um texto à maneira surrealista, tendo, para isso, cerca de 45 minutos.

A mim tocou-me a obra intitulada “Punishing Piece, 1994”, que era um “acrílico e serigrafia sobre tampo de mesa”. Fotografei mentalmente a obra em todos os seus pormenores, pensei em Cesariny, O’Neil, França e Almada, sentei-me e escrevi o texto que segue abaixo *, não sem vos deixar algumas chaves de leitura para uma melhor compreensão do mesmo. Assim:

- Ao olhar para a “ minha” obra de arte e para todas as outras que faziam parte da exposição, lembrei-me do episódio verdadeiro da senhora da limpeza do Museu de Bari que descrevi no meu texto de 27 de Fevereiro sobre ARTE e arte;
- No seu romance “Os Adoradores do Sol”, Fernando Namora fala, no capítulo IX, página 116, de um pintor, dizendo-o vindo da Inglaterra, que viveu algum tempo com uma companheira num casebre em Monsanto, onde Namora exerceu medicina durante alguns anos. Por coincidência, entrei anos mais tarde naquele casebre, olhei em volta, havia somente uma mesa de cozinha e encostada a uma das suas pernas, um retângulo de platex com, pintada, uma natureza morta – um canjirão e umas malgas – em muito mau estado, mas que ainda hoje conservo apesar de ser aquilo a que os franceses chamam uma croûte. Perguntei pelo pintor descrito sumariamente pelo grande escritor, e foi-me dito que era um jovem americano fugido à Guerra do Vietnam, que ali aportou um dia com uma companheira e ali viveu, pintando e vendendo as suas obras a turistas, e assim como apareceu também desapareceu sem deixar rasto. Nem o seu nome me souberam dizer, e foi essa lembrança que me fez falar dele no texto;
- A ideia das tábuas roubadas à Passarola de Frei Bartolomeu de Gusmão foi só um flash provocado pelo facto de passar muito tempo com a minha mão direita sobre o tapete do meu rato que reproduz em mosaico a dita Passarola. Pensando melhor, à posteriori, não sei se liguei o falhanço da geringonça diante do Rei que representava a Nação, à “traição” do pintor diante de um Presidente que deveria representar a Pátria;
- Referi o “faraónico palácio” onde estava a escrever, relacionando-o com a actual crise e a sua origem, tentativa de imposição de um ultra liberalismo económico – para o qual o homem deixaria de ser o alfa e o ómega -, a que eu chamei freenança na poesia “Trocadilho da Treta” publicada no volume “Manifesto Anti-Crise”. Frequentando ultimamente o IPOFGL, veio-me a ideia peregrina de pensar se o dinheiro empregue na construção do “faraónico palácio” não teria sido mais bem empregue em Palhavã, tanto mais que agora sabemos que um outro banco vai ser criado para cumprir funções que pertenceriam ao prestigioso hóspede do “faraónico palácio”.  Só esperamos por um sobressalto de vergonha que impeça a construção de um outro “faraónico palácio” para a nova e indispensável instituição bancária.
E nada mais, pedindo desculpa pela repetição de “faraónico palácio” que foi intencional como contributo para tornar possível o tal sobressalto de vergonha, que também peço desculpa de repetir.
*Texto que inspirou a forma e o ritmo daquele outro intitulado “Escrita criativa com massa de letrinhas na borda do prato fundo da canja”, editado em 27 de Março. 
Culturgest
Fundação Caixa Geral de Depósitos 
Escrita criativa
21 de Março de 2014
Exposição Marginalia de Pedro Casqueiro
 Obra (na imagem):
Punishing Piece 1994
Acrílico e serigrafia sobre tampo de mesa
Colecção particular 
Entrar na Marginalia do Pedro Casqueiro sem a missão de cumprir um dever como fez a mulher da limpeza que deitou para o lixo 5 das 40 obras de uma instalação em Bari é sentir-se atraído pela única coisa viva na sala o olho azul que com ar brincalhão para ver quem está ou não com cara de parvo ou de boca aberta a olhar para aquilo tudo que é “arte” e o olho leva a olhar a parede oposta onde 5 tábuas 5 juntas com cola e se calhar pregos nos costados para se manterem unidas e levarem em cima com meio quilo de uma papa cor de ranho para esconder os veios naturais da madeira dando uma unidade de tampo de mesa de cozinha pobre do interior das aldeias podia mesmo ser da aldeia mais portuguesa de Portugal Monsanto na casa onde o pintor fugido à guerra do Vietnam pintava sobre ela só a preto e azuis que são as únicas cores e não cores que violam a monotonia do ranho que recordo tapa ou quase tapa 9 dos 16 furos redondinhos que as tábuas sofreram vamos lá a saber se quando eram solteiras ou já casadas com cola e pregos umas às outras para servirem para apoiar pratos pão vinho e talheres enquanto mesa de cozinha ou tintas e pincéis e trapos para os limpar quando a sua serventia era a arte do americano traidor da pátria que preferiu pintar na serra que apertar gatilhos na humidade da selva da Indochina que provocariam buracos na pele e nas entranhas de gente como ele mas amarelados e com os olhos em amêndoa sendo plausível por esta reflexão que tivesse sido ele a fazer os 16 buracos no tampo da mesa já que tinha sido programado para esburacar fosse o que fosse e com receio de ver sair sangue que violaria o preto e os azuis da sua mesa tapou 9 deles com os restos do ranho seco sempre com medo que a sua clandestinidade o seu dever de não estar ali e a sensação de se dedicar a um trabalho não seu acrescido tudo isto à feia acção de ter roubado as tábuas a uma réplica da Passarola de Frei Bartolomeu de Gusmão para as fazer voar vingando o original que parece não ter alçado voo para Rei ver mas que voa agora junto com outras ousadias artísticas ao redor de uma sala do mais faraónico palácio que alguém jamais ousou plantar no centro de Lisboa e voa voa voa com as outras companheiras como morcegos que entrassem sem password no reino da freenança mostrando que sendo ou não arte aceite por Da Vinci, Michelangelo, Caravaggio ou Raffaello são menos tóxicas e perniciosas que outras obras que voam e perigosamente saem do palácio.
Lisboa, 1 de Maio de 2014
Octávio Carmo de Oliveira Santos
 

 

quinta-feira, 24 de abril de 2014

25 de Abril - Os seus primeiros 40 anos.

Não vos admire o título porque foi mesmo isso que eu quis escrever. É ainda muito jovem para se saber o que vai dar. A Revolução Francesa, que começou idealmente no dia 14 de Julho de 1789 com a tomada da Bastilha (Caxias lá do sítio), e completa por isso 225 anos, ainda não assentou todas as ideias e um dia se dará conta da sua enorme importância. Só que nós portugueses, e alguém já o disse – porque não houve cão nem gato que não tivesse dito coisas sobre a data de amanhã -, queremos  sempre tudo muito depressa. Já,  e na hora!  Depois do 25 de Abril houve o 11 de Março e o 25 de Novembro, e antes houvera o 16 de Março, datas e datazinhas de somenos importância, tudo ali a vinte meses de distância. O 18 do Brumário foi em 1799, 11 anos depois da Revolução, e trouxe consigo o Consulado Napoleónico e o Império, adiando a desejada e preconizada democracia por quinze anos e 100 dias. Nós quisemos logo a democracia no 1º de Maio, e, a que temos, dura até hoje, embora o nosso 18 do Brumário esteja por aí à espreita, já se vislumbrando alguns sintomas, só que, no nosso caso, para durar muito mais e gostava muito de estar enganado.

E como já se disse tudo sobre o 25 de Abril e pouco ou nada resta para dizer, apetece-me relembrar o que uma figura grada desta nação, tão grada que influencia a justiça e enternece as finanças, o Dr. Jardim Gonçalves, disse, e dizendo, teve audiência nos jornais:
- Penso que o tema 25 de Abril está acabado, já teve o seu momento.

- Quem domina os bancos chega a todo o lado.
E isto dito por alguém que, após dominar um banco que chegou a ter 17 sociedades em paraísos fiscais, tem ainda força para fazer prescrever várias contra-ordenações imputadas pelo Banco de Portugal e pela CMVI e reduzir para metade uma multazita de 1 milhão de euros, não pode cair em saco roto, nem podemos assobiar para o lado e fingirmos que não tem importância. Porque é exactamente isto que tem importância e que, na impossibilidade de negar a existência da data que festejamos, a esvazia do seu significado e nos tira a esperança que os seus pressupostos sejam concretizados.

Valeu a pena? Perguntou o Dr. Balsemão aos três Presidentes eleitos da nossa democracia, e todos disseram que sim, que tinha valido a pena, tendo cada um contado partes da história à sua maneira, sendo unânimes no dizer que valeu a pena, mas… E aqui dois conceitos se perfilam frente a frente, como dois pistoleiros saídos de um western-spaghetti de Sergio Leone, ambos respeitáveis e impolutos mas defendendo campos opostos e inconciliáveis. Medina Carreira olhando friamente o “adversário” nos olhos, afirma, rendido ao 18 do Brumário: - Um país de pelintras não se pode permitir devaneios! Carlos Fiolhais, olhar doce, cândido e infantil, com a força hercúlea de quem acredita na utopia, replica: Eu sou um pelintra que me permito ter devaneios!
Para mim, que quero ter devaneios, também acho que valeu a pena, e as razões são tão claras e à vista de todos que, se não fosse tudo aquilo que neste momento nos ameaça, seria estultícia repeti-lo. Mas infelizmente não o é, e eu, que festejei há pouco os meus primeiros 70 anos, faço-o porque tendo já 30 no dia 25 de Abril de 1974, vi tudo com estes dois que a terra há-de comer. E o que é que eu vi?

Vi, por trás das cortinas, uma ramona parada à porta do meu prédio, a meio da noite, para arrancar ao sono o vizinho de cima, a mulher aos gritos. Quando voltou, semanas depois, tinha os cabelos brancos, usava uma bengala e não olhava os vizinhos nos olhos, quem sabe se por vergonha de ter razão. Vi, em Idanha-a-Nova, uma mulher com um filho descalço a comer meio pão com uma sardinha, que beliscava para levar, ora à sua boca ora à da criança, os pedacinhos de peixe arrancados com as unhas. Vi os malteses a chegarem de longe para as vindimas deitarem os corpos cansados na “cama” que lhes fora reservada no palheiro ao lado dos currais dos animais, para no outro dia pegarem no trabalho ao nascer do Sol para o largarem no ocaso, por 18 escudos para os homens e 14 para as mulheres. Vi emigrantes desertores a rondar a porta dos Consulados, mandando emissários a informarem-se a medo se era possível obterem os papéis necessários para a Carte de Travail, e o seu ar de felicidade e espanto quando descobriam que o Consulado nada sabia sobre eles querendo apenas arrecadar o dinheiro dos emolumentos devidos, a maior parte das vezes em dobro com a desculpa que os papéis eram preparados fora das horas de serviço por excesso de trabalho acumulado. Vi as autoridades portuguesas e francesas encerrarem o último bidonville, em Champigny-sur-Marne, onde, semanas antes, num incêndio, tinham morrido 5 crianças. Vi o Reitor do Liceu de Oeiras aterrorizado por não ter comunicado superiormente uma falta colectiva a um ponto (hoje diz-se teste) de matemática, limitando-se a dar uma descompostura e a suspender por um dia os “grevistas”  com a ameaça de sanções mais duras. Vi, todos os dias, na primeira página dos jornais uma espécie de carimbo “Visado pela Comissão de Censura”.  Vi o automatismo de baixar a voz em casa quando se falava de “certas coisas”.  As paredes terem ouvidos só se materializou quando, anos mais tarde, vi uma deputada do PSOE rasgar o papel de parede do seu quarto num hotel em Sófia para nos mostrar um minúsculo captador de som. Desculpem este desvio. Vi a Avenida da República a ser destruída na sua incomparável arquitectura - que inveja de Barcelona! -, porque um arquitecto filho de alguém resolveu ganhar dinheiro tendo dado “ordem” para autorizar tudo aos chamados “patos bravos” que lhe encheram os bolsos. Vi o Dr. Abel Silva, antes de sair da Travessa do Moínho de Vento, 23, 1º, onde esteve escondido duas ou três semanas depois das eleições de 1948, aquelas do General Norton de Matos, a espreitar pela janela para se certificar se não havia pessoas suspeitas a rondar. Vi um menino a ter de mudar-se três meses com toda a Família para casa de um amigo do Pai que vivia no Porto, sempre no rescaldo das eleições de 1948. Vi estudantes de bata branca, porque tinham tido laboratório de química naquele dia, a falarem alto e a fazerem tropelias próprias da sua idade na Rua do Arsenal, a terem de fugir, cada um para seu lado, diante de uns senhores à paisana que acharam que aquilo era tudo menos inocente. Vi, com a sorte de nunca ter de verter uma lágrima, chegar ao Cais da Rocha do Conde de Óbidos, o paquete Funchal cheio de caixões; soubemos depois que foram cerca de 19 mil em 13 anos. Vi tantas coisas, se calhar mais importantes, significativas e dolorosas que estas que digo ter visto, mas eu sou assim, ligo mais ao acessório que ao essencial, e também não estou a escrever um romance; apenas o texto de hoje para o meu blogue.
Valeu a pena? E sem querer esconder o PREC e o COPCON, as “legítimas” ordens de captura assinadas em branco por quem fez uma revolução para restabelecer a legalidade, as ocupações de terras e fábricas, a tentativa de sovietização, o drama dos retornados, a degradação do ensino, o nacionalizado nosso, o povo unido jamais será vencido, a aliança Povo/MFA, e tantas mas tantas outras coisas, afirmo que valeu a pena pelo simples facto de eu estar a escrever estas coisas sem qualquer medo. O que não quer dizer que hoje todos digam ou escrevam o que lhes vai na alma, e isto porque têm medo, não de ir cravar com os ossos na António Maria Cardoso, mas de perder o trabalho ou o emprego. A mim o mais que me podem fazer é aumentarem-me o CES porque não sou magistrado. Ah!, e também porque posso ir ao Porto ou ao Algarve em duas horas e meia em vez de levar um dia inteiro;  porque posso esperar viver até aos 80 em vez de 60. E por outras coisas que não quero nomear porque as estamos a perder e temo que falar delas possa acelerar o seu processo de decomposição, mas não resisto em fazer uma lista de palavras e frases ao acaso só porque me vêm à cabeça. Palavras que não incluirão quatro delas que eram pilares da ditadura e que hoje felizmente foram banidas do léxico e às quais foi retirada toda a sua importância e substância, caindo em desuso democrático: Família, Fátima, Fado e Futebol. Desculpem mas estava a gozar, com excepção da Família. E, como na atribuição dos Óscares, and the winner is, as palavras e as frases são:
 
- Liga dos ex-Amigos de Boliqueime, sucateiros, privacy, bancos, Big Brother (Orwell e Casa dos Segredos), auto-censura, Jotas, taxas moderadoras, golden visa, Face Oculta (não me refiro à burka), nepotismo, UE, justiça, placa roubada na António Maria Cardoso, universidades, Meco, Sociedades de Advogados, BPP (dinheiro a render no Rendeiro), Camarate, genéricos, corrupção, desemprego, Apito Dourado, hospitais, submarinos, prescrição, Casa Pia, santa aliança cortiça/diamantes, Agências de Rating, privatizações, PPP’s, PP (novo dicionário), troyka, Freeport, conflito de interesses, BPN/BCI, emigração económica, fome, Confraria da Cereja, a fractura da sorte (factura pedida a um ortopedista que te faz ganhar um Audi A6), Portucale.

Desculpem se não me lembro de mais, só para não vos aborrecer, mas devo fazer uma última confissão: na ânsia de fazer um texto de jeito formulei à esquerda e à direita a pergunta do Balsemão. Valeu a pena? E a melhor resposta foi: - Sabe o que é que definitivamente não mudou com o 25? A estupidez e a mesquinhez das pessoas.

Lisboa, 24 de Abril de 2014
Octávio Santos