quinta-feira, 31 de julho de 2014

Liberdade (e amizade) a quanto obrigas, ou Parte Primeira da crónica chata e miudinha de quem pensa poder ser restaurador da verdade na toponímia de Lisboa, não para criar a Travessa do Medo ou o Beco da Miséria, ambas perpendiculares à larga Alameda da Corrupção que desemboca no Largo da Incompetência Premiada, mas para que, possa na Avenida da Liberdade, lembrando a República Democrática da Alemanha, dar a bota com a perdigota.


Quando sufocamos com falta de uma qualquer coisa, o melhor é entregarmo-nos a ela mesmo que se sinta a inutilidade da acção. Por isso passei um dia inteiro na Avenida da Liberdade. Por isso, mas também porque, tendo decidido abrandar, abandonar ou fazer outras coisas, recebi do Recife, dos meus amigos Lectícia e José Paulo a curta mas imperativa mensagem: “Não queremos substitutos. Exigimos Octávio!”. Poderia não ter dado importância, até porque o José Paulo ultimamente não tem estado de acordo comigo em quase nada, mas seja pelo seu exemplo de ter passado 8 anos de vida a trabalhar 4 horas por dia na sua monumental  biografia de Fernando Pessoa, seja para desmentir esta velha e persistente crença portuguesa que quem não está comigo é contra mim, aqui estou novamente a escrever coisas que ele seguramente não vai gostar, mas que me “obriga” a fazê-lo. Voltaire continua vivo, felizmente.

Assim, de manhã cedo comecei a descer a Avenida da Liberdade, que antes era um braço do Tejo e depois Passeio Público, mas isso são outras histórias e eu, acreditem ou não, não sou desse tempo.

Na esquina com o Marquês, no 270, temos a beleza do pequeno palacete neoclássico onde está instalado o Camões -Instituto da Cooperação e da Língua - que espero tenha fundos para executar pelo menos quanto implícito no seu novo apelido -, com acrescentos arquitectónicos que não o desvirtuam nem lhe tiram dignidade, o que, em Lisboa, raramente se consegue. No 266 está o histórico edifício, Premio Valmor 1940, que alberga o não menos histórico Diário de Notícias, cujo lettering sempre me fascinou, que vê agora todos os que nele trabalham em luta pela sobrevivência, própria e do jornal, já que andam Mosquitos africanos por cordas, de parceria com o "Genro da Nação", na tentativa de os meter na nova ordem, juntamente com os seus companheiros da TSF, do Jornal de Notícias, do Jogo e da agência Global Imagens. Segue-se, no 262, um belo prédio de habitação (era assim que se dizia) tão no estilo da velha Avenida, digamos um pombalino tardo e mais ligeiro que saiu da Baixa e começou a subir pelo Passeio Público, que sei ser propriedade e moradia de um dos mais brilhantes jovens Embaixadores que as Necessidades conseguem ainda conservar para sua honra e prestígio, e para bem de todos nós. Para além disso, há vida lá dentro no Colégio da Avózinha!

No passeio, um cartaz anuncia a exposição de uma colecção de pintura do Banco Europeu de Investimento, no Banco de Portugal de 16/5 a 14/9, “Within/Beyond Borders”. É bom que os bancos nos proporcionem cultura (tiram-nos tanto!), mas a quem, se passamos o nosso tempo que deveria ser livre na fila do Fundo de Desemprego, do Centro de Saúde, da Loja do Cidadão, na Repartição de Finanças, na Caixa Geral de Aposentações, e estou a esquecer outras tantas salas de espera nacionais? Isto sem falar naqueles que estão na fila da sopa dos pobres ou na da Jonet dos Bifes, que isto de cultura não engorda ninguém, se exceptuarmos a Joana Vasconcelos.

No 258 temos uma anónima construção moderna onde estão a aicep Portugal Global (antes Aicep Capital Global, que perdendo o capital ganhou o Portugal que capital não tem) e uma Sociedade de Advogados idêntica às outras, e foram muitas, que detectámos na Avenida. Em baixo duas lojas de trapos de luxo: a Trussardi (cujo fundador Nicola morreu num estúpido acidente de automóvel e o Filho anda agora de amores com a ex-Mulher de Eros Ramazotti, Mãe da sua Filha Aurora: diz-se gossip?), a Marina Rinaldo, para Senhoras fortes, candidatas a uma dieta na Carregueira, nome da Avó do Senhor Maximiliano Maramonti (Max Mara), velho padre/padrone que tantos problemas teve com os sindicatos italianos por teimar em gerir as suas empresas como era de uso no século XIX (também gossip?). No 252 antigo edifício recuperado com grande cartaz que anuncia a abertura de escritórios. Se, como este, mais de uma dezena de edifícios idênticos, ou modernos, anunciam o mesmo na mesma avenida, começo a acreditar na lengalenga da lenta mas segura recuperação económica em curso, galopante ao virar da esquina; terei seguidores? Em baixo os tapetes Tricana na triste escuridão da sua loja. Não é que do 244 só me saltou à vista o azul da Confeitaria Marquês de Pombal! Monstro de mau gosto, dinossauro sobrevivente na era das padarias, ou é assim que a malta da geração perdulária gosta?

Foi bom chegar ao 242 e ver o nome TRANQUILIDADE, em verde BES, a proteger todo o enorme edifício na esquina com a Alexandre Herculano. Em baixo aluga-se loja. Apetece-me abrir uma agência de venda de jogo da Santa Casa; ao menos enganávamo-nos entre pobres com uma réstia de esperança. Na outra esquina, no 240 A, a Cartier com os seus discretos seguranças que me tiraram a vontade de, com mochila, bloco notas e caneta na mão, entrar só para dar uma olhadela. Depois, no 240, o Étoile, já concluído, onde se alugam escritórios, seguido de um outro, no 238, ainda em restauro pelo ES Property. Estamos a renovar Lisboa para quem? Tive a resposta no 236, Edifício Ópera, também ele em restauro: “Na Avenida mais exclusiva, o Palco para a sua nova Vida”. Na minha idade cheirou-me a cemitério com fosso de orquestra.

No 234 a Oficina Mustra, discreto armazém de roupa italiana de alta qualidade, onde encontrei, nos primeiros dias da sua chegada a Lisboa, o Álvaro Santos Pereira (o mesmo que agora nos dá conta das contrapartidas imaginárias) que, acompanhado da Mulher, uma miúda giraça, estava a renovar o seu guarda roupa canadiano para se pôr nos trincos à moda da Horta Seca (nada de polos, só camisa clássica de mangas arregaçadas). Fui-lhe falar desejando-lhe as boas vindas e dizendo-lhe que não sabia ainda se ia ou não ser seu funcionário, dada a indefinição das tutelas; pediu-me o cartão de visita para “ termos uma conversa um dia destes”, disse. Como a história pode mudar devido à promessa esquecida de um Ministro! Como dizia o outro, a vida é feita de encontros falhados!

No 232 outro belo edifício clássico estilo Avenida da Liberdade, que já designei acima como pombalino tardo e ligeiro, esperando agora os puxões de orelhas dos conhecedores, sem nada de especial a assinalar. Segue-se, no 230, o Edifício BF, novo, todo em vidro com dragão voador metálico em voo picado a ameaçar quem compra o que é nosso na Fly London, em baixo. Seja pelos sapatos que pelo dragão, pensas duas vezes antes de transpor a soleira. Ao seu lado, no 226/228, um magnífico exemplar de arquitectura veneziana. Será que o do dragão substituiu um idêntico ou parecido, destruído pela ganância de políticos e patos bravos? No 224, o Deutsch Bank, a poupança que cresce com os seus filhos, reza na montra. Quais, vem-me de perguntar estupidamente esquecendo que somos todos europeus, os nossos ou os dos alemães? Do outro lado a Vilebrequin, calções de banho iguais para pais (168 €) e filhos (85€). Por cima uma grande Sociedade de Advogados, só com 4 letras mas grandessíssima…. O BBVA ocupa todo o imponente edifício com as fachadas em granito rosa que se estende por todo o quarteirão na esquina da Barata Salgueiro (face ao BES do outro lado da Avenida). No princípio era o Lloyds Bank, onde agora pontifica o grande banqueiro António Horta-Osório, nosso orgulho a par do CR7 que está do outro lado a aturar a D. Inércia. Um homem de meia idade dirige-se a mim: - Não me leve a mal, Senhor… e eu corro a atravessar a Barata Salgueiro com o semáforo no vermelho para fugir a quem me ia contar uma desgraça e pedir uma esmola. Não é que me senti assim tando Senhor! Na outra esquina, no 220 A, está o Empório Armani e em matéria de elegância, seja masculina que feminina está tudo dito. Abençoados outlets que, como nos tempos de Roma, me dão a terminação como nos bilhetes da lotaria. Por cima, no 220, médicos, esteticistas, designers e comunicadores. Do 206 ao 218 temos a Prada da Senhora Miuccia, mas principalmente do Senhor Patrizio Bertelli, seu consorte, que patrocinou o yacht “Luna Rossa” que durante anos a fio defendeu, e bem, as cores italianas na Louis Vuitton Cup e na Copa América. Lembram-se quando tudo isto era o stand de vendas da Mitsubishi acabada de chegar a Portugal? Por cima, entrando pelo 212, mais médicos (será que Portugal é um país de doentes?), um Press and PR Office e uma consultora de negócios em parceria: como soa bem tudo isto, é como se o cardápio da tasca da esquina anunciasse Trachurus Trachurus infantes e siameses, polvilhados de farinha de grão sarraceno e acomodados em azeite virgem fervente, em vez de jaquinzinhos.

No 204, numa outra excelente construção clássica em perfeito estado, está a mítica alfaiataria Rosa & Teixeira, para mim as melhores montras para o gosto tradicional do português que veste bem, muito parecidas com as que me habituei a ver nos ghettos de Roma e Veneza. Que contraste com as montras da Armani ou da Prada! Por cima, mais uma Sociedade de Advogados e a Christie’s: seria ali que foi cozinhado o negócio dos Mirós de todos nós? O 202 é igual ao 204 e alberga o velho Hotel Don Sancho I, 2 estrelas 2, e consultórios e mais consultórios. Julgo que não voltarei à Avenida sem ir ao médico; primeiro escolho a especialidade e depois estudo bem os sintomas para ser credível durante a consulta. E chego ao 200 onde, naquilo que me atrevo a chamar na minha completa ignorância da arte da arquitectura, um moderno monstruoso: o Edifício Victória. No plano térreo a loja Burberry fechada e em obras. A Furla, com as suas malas caras em promoção, marca que vi nascer em Roma, salvo erro na Via del Leoncino, com sacos e bolsas baratas, que até a Manuela comprou uma azul que ficou ruça de tanto ser usada, e que mesmo assim a Margarida herdou quando de uma das suas viagens Paris-Roma-Paris, porque tinha tralha a mais para transportar. Bons tempos em que se podia levar sempre mais um saco para dentro dos aviões; hoje há uns provadores que te lambem o pincel da barba para ver se sabe a pólvora. Depois a Timberland com saldos a 40%, e a Tod’s do genial Senhor Diego Della Valle, filho de um honrado sapateiro da Região das Marcas, penso que de Porto Sant’Elpídio, que é a capital dos sapatos italianos. E digo genial porque, sabendo que os seus patrícios mais endinheirados preferiam os sapatos ingleses, começou a dar aos fabricados por si as marcas Tod’s e Hogan, e também chamou Fay a uns impermeáveis copiados daqueles que os bombeiros canadianos usam, e passou a vender tudo caríssimo no seu país e fora dele. Devo dizer em abono da verdade que é tudo da mais alta qualidade. Nos andares de cima temos as Chancelarias das Embaixadas da Eslováquia, da Irlanda, do Canadá e da Austrália, e também o Centro Económico e Cultural de Taipé, os Seguros Victória, os FOX e National Geographic Channels e ainda a NYSE-EURONEXT que mais não é , como os sapatos do Senhor Della Valle, que a Bolsa de Valores de Lisboa.

Aparece então encostadinho um edifício cuja estrutura revela uma certa modernidade, mas já a ser refeito de alto a baixo, tudo indicando que vai levar mais uma fachada de vidro. Mais um hotel, mais escritórios, uma clínica ayureveda, a sede da Jorge Mendes, Xutos e Pontapés, SARL, a Liga dos Amigos de Boliqueime? O que for soará!  No 192, outro edifício moderno que se não existisse ninguém daria pela sua falta, está a outra parte do Camões que era o IPAD, e em baixo a loja multimarcas Fashion Clinic, que só agora descobri girar na órbita do Rei da Cortiça, o Homem mais Rico de Portugal e sócio da Mulher mais Rica de África. Não nos damos conta mas de vez em quanto sai a sorte grande a Portugal. Primeiro foi o Senhor Calouste Gulbenkian, e ainda estamos a viver de renda, agora a Senhora D. Isabel dos Santos a cavalgar um chaparro, e que Deus faça durar a parceria. Já no 190, que é um belo edifício clássico bem acrescentado em altura, na esquina da Rua Manuel de Jesus Coelho, estão a Longchamp e a Louis Vuitton, supra-sumo da marroquinaria francesa; a segunda ocupa hoje o espaço que era do Pestana & Brito, um dos templos da moda masculina dos anos 60. Atravessando a rua, do 182 ao 188, o velho Tivoli onde tantas vezes fui ao cinema com a minha Avó, Irmãos e Primas, e onde tantos saquinhos de carnaval cheios de serradura atirei às pequenas nas matinés de Entrudo. Agora Teatro, Sala de Concertos, restaurante. Nunca mais lá entrei, como nunca mais voltei a Paris, a Sófia, a Roma ou à Cidade da Praia, por medo do que vou encontrar. Coisas de velho. O 180 é o pequeno e belíssimo edifício, única peça já existente do lego que lhe montaram em cima para fazerem o Tivoli Forum. Está lá a loja Adolfo Dominguez. Na enormidade a que deu origem cabe lá de tudo e passo a fazer a listagem:  a outra Fashion Clinic, esta para Senhoras, e já agora a Gucci que pertence também ao reino da cortiça por interposta Filha, lembrando-me que Maurizio Gucci foi mandado envenenar pela Mulher, Patrizia Reggiani,  por uns problemas de dinheiro: hoje a senhora está na cadeia (foi condenada a 26 anos) e o pobre Maurizio é o homem mais rico do cemitério da sua terra natal. Acontece sempre assim. E lá me distraí da lista que estava a fazer: o Hotel NH, o Crédit Swiss, a Iberdrola, a Dexia Sabadell, a Visa, o BES Angola (olá!), a Missão do Brasil junto da CPLP, e lojas como a Philosophie, a Maison (Atendimento Privado), a b/code, a Machado Joalheiros e o Cocho, cantinho muito agradável do Alentejo onde se comem umas coisas boas e uma sopa nova cada dia da semana, todas deliciosas. Em baixo, comida, comida, comida, e sobretudo cheiro a comida que invade todo o espaço sem respeito nem pelo “atendimento privado”. É como se num voo da Emirates os passageiros não carregassem no botão do autoclismo e deixassem a porta do WC aberta. Um must!

No 170, no antigo Hotel Vitória, extraordinário exemplar arquitectónico de Mestre Cassiano Branco, está instalada a sede do PCP que tem à porta um enorme cartaz com todo o programa da Festa do Avante. Gostei da ideia do “Concerto para cravos e orquestra - Opus 40”, e continuei a ler os nomes dos artistas que participarão, lembrando-me de Cristina Branco, de Jorge Palma, de Camané, de Sérgio Godinho, e de mais não sei. Para mim que vivi quase 13 anos atrás da Cortina de Ferro, o comunismo é um universo à parte que eu já não perco tempo a discutir. Estando a ler o livro “Greguerías” de Rámon Gómez de la Serna (obrigado Dr. Bagão Félix!), que é uma selecção de metáforas mais ou menos bem humoradas, algumas delas extraordinárias, e eu,  com esta mania que tenho de copiar os outros, escrevi também uma greguería dedicada ao PCP na Avenida: Com o martelo foi-se a Liberdade.

Mal passo a sede do PCP, sou abordado por um casal que delicadamente pediu desculpa de me estarem a incomodar, e vá de contar a história que seguramente repetem subindo e descendo a Avenida da Liberdade a todos aqueles com cara de parvo como eu. Resumindo, eu sou o Petro e ela é a Marta, somos húngaros e viemos para Portugal enganados por alguém que prometeu arranjar-nos trabalho. Vivemos na Amadora num quarto com dois filhos pequenos, já nos cortaram a luz e agora não temos dinheiro para comprar uma bilha de gás, e também precisávamos de ir ao Porto para tratar de uns papéis no Consulado da Hungria, rebéubéu pardais ao cesto. Como não sou polícia e queria livrar-me deles o mais rapidamente possível, não perguntei se não havia um Consulado em Lisboa nem como é que falavam tão bem português estando por cá só há 8 meses, como me informaram, e dando-lhes a satisfação de terem pescado um perfeito Tótó, puxei de 20 euros dizendo-lhes que era para a bilha de gás, ao que ele retorquiu que aquilo não chegava para pagar o bilhete dele para o Porto, quanto mais para os dois. Balbuciei que era já uma ajuda e que não podia dar-lhes mais, ao que me viraram as costas e foram à vida.  

Passei para a zona central de peões, sentei-me num banco e lembrei-me que estando em Roma, o meu Filho Octávio, que estava então, fazia 6 meses, na ES Contact Center como Director, e bastante satisfeito com o seu novo trabalho, nos telefonou feliz para nos dizer que os seus superiores, seja do Contact Center que do Grupo Espírito Santo, o tinham convidado para jantar no dia dos seus anos, 26 de Outubro, não posso precisar o ano. Bela notícia, finalmente tinha um trabalho estável que lhe agradava, num grupo cuja seriedade e solidez ninguém punha em causa, e as coisas vão-me correr bem desta vez. Ora o dia 26 calhou a uma sexta feira, o jantar correu bem, brindes, abraços e até segunda se Deus quiser. Na segunda era dia 29, data em que completava os seus 6 meses de prova, chegando ao seu posto de trabalho foi chamado ao gabinete de quem estava directamente por cima, e quando julgava que era para lhe anunciar que iria ficar ou, pelo menos, assinar um novo contrato por mais 6 meses, ouviu dizer que infelizmente, por alteração de estratégia da empresa, iria ser dispensado, o que aconteceu no próprio dia. Quando nos telefonou à noite a contar o sucedido, recordo-me de ele nos ter dito: com um grupo como o Espírito Santo quem é que vai acreditar que eu trabalhei bem e que a culpa não é toda minha, acertado raciocínio que o diminuiu durante anos perante todos aqueles, e eram tantos (todo o Portugal?) para quem só existia Deus no céu e a “Família” na terra. Mandei-lhe então umas palavras, à guisa de conforto,  que gostava que lessem para perceberem porque é que liguei este facto à trapaça dos húngaros que, infelizmente, não foi a única urdida e praticada na Avenida da Liberdade.

Abraço.

Lisboa, 31 de Julho de 2014
Octávio Santos

quinta-feira, 24 de julho de 2014

FESTIVAL DOS BOXERS MOLHADOS - 24 | 25 | 26 de Julho - Maçãs de Dona Maria

Caros leitores amigos

Sendo já impopular ser reformado, esta ideia de ir de férias é, no mínimo, indecente. O facto é que aos velhinhos também apetecem coisas, e estou a falar de descanso, não querendo que me entendam mal. Assim, neste país de Festivais de Verão (no intervalo dos incêndios), não quis, para colmatar a indesculpável ausência do meu texto semanal, deixar de vos dar notícia do único festival a que não faltarei activamente na tentativa de ganhar o prémiozito em concurso, eu que nunca ganhei uma raspadinha. Se regressar darei notícias no blogue de 31.
Abraço.

Octávio Santos



quinta-feira, 17 de julho de 2014

O Nevão de 51, ou estadia na Carregueira, cena com solário tipo “Holmes Place”, sauna finlandesa e dieta mediterrânea, para políticos desonestos, ou talvez não, Senhoras obesas e histéricas, com o milagre da multiplicação dos pães para todos os inquilinos improváveis


Ouvi ontem a uma grande repórter de guerra que as qualidades necessárias para fazer o seu trabalho eram a curiosidade e a honestidade. Lembrei-me então da foto do meu texto da semana passada e, se é certo que foi a curiosidade, mas também o sentido de oportunidade, que a grande repórter omitiu referir, que me levaram a encostar o telemóvel à figura daquele velho desgraçado, talvez não tivesse usado a necessária honestidade para o fazer. À primeira vista aquele morto adiado pareceu-me uma imagem forte para ilustrar o que tinha já em mente escrever de acusatório contra circunstâncias, poderes e pessoas que o levaram àquela situação de dormiente no portal da Igreja do Corpo Santo. Mas vamos que aquele homem não quis estudar quando era pequeno, preferindo a trapeira à sacola dos livros e cadernos, começou a fumar aos 12 e a meter-se nos copos aos 15, na ganza aos 16, não suportou a dureza da construção civil aos 17, andou nas putas a partir dos 18, fez o seu primeiro pequeno roubo aos 20, recusou a Casa Pia (porra!) ou a Casa do Gaiato para não perder os proventos que lhe vinham dos diversos tráficos que entretinha com a marinhagem americana e francesa no Cais do Sodré, quem é o culpado senão ele próprio? Se assim foi, é certo que não usei de honestidade servindo-me de um ícone fácil para apontar leviana e imerecidamente o dedo à corja que nos governa por interposta freenança, mas apetece-me reincidir para dar um rebuçado àqueles crentes, e são muitos, que veem em Deus um ser vingador pronto a castigar quem se comportou sempre mal, deixando-o “justamente” a apodrecer diante da porta fechada da sua (deles) Igreja, sempre escancarada para quem bater no peito é um acto de contrição automático e gratuito, que tantos juros dá neste Vale de Lágrimas, esperando que se perpetuem no Reino dos Céus.

A escrita, que é feita de palavras alinhadas, tendo as mesmas virtudes e defeitos destas, tal o de serem como as cerejas, leva-me, a propósito de honestidade, direitinho ao Isaltino por o ter visto sair da Carregueira, magro, bronzeado e com um saco de plástico preto, habitualmente para lixo (longe de mim qualquer alusão ao GES), que continha, suponho, os seus parcos pertences de presidiário, a entrar para um Audi dos grandes igual ao da factura da sorte. A Carregueira, que não tinha a notoriedade de hoje quando eu fiz a tropa, estando ainda à espera da parte da reforma que me compete por via desses 43 meses, ou seja, 5% da minha vida caso morresse hoje, era uma Carreira de Tiro onde íamos exercitar a pontaria que nos havia de servir em África contra alvos móveis e ainda por cima escuros, e não uma unidade carcerária do Sistema Prisional Português (lindo!), onde o quem sabe se honesto Isaltino saiu agora de pulseira com a pompa mediática que lhe foi reservada.

Soube agora, mas nem sob tortura revelarei a minha fonte, que um nutrido grupo de Senhoras obesas, histéricas, ou com tendência para ambas, fartas de não obterem resultados palpáveis (salvo seja) com as dietas do Dr. Tallon, Dr. Atkins, Herbalife, Detox, Dukan, dos 31 dias, das Princesas, das lojas LEV - comer para emagrecer -, Celeiro e Miosótis, se estão a organizar para fazerem uma manifestação junto do Ministério da Justiça a fim de exigirem o internamento a tempo indeterminado na citada unidade carcerária com as mesmas regalias e benesses de que usufruiu o ilustre predecessor. Em comunicado que está para vir a público, ameaçam, em caso de recusa por parte da Senhora Ministra, vir a cometer acções passíveis de detenção, tais como roubar peças de roupa interior nos caixotes dos saldos do El Corte Inglès, dizer em público do Senhor Presidente da República e Excelentíssima Família aquilo que Bin Laden não disse da entremeada, promover um abaixo assinado para impedir a Guiné Equatorial de entrar na CPLP, pedir a demissão do Paulo Bento e o retiro da nacionalidade ao Pepe (não sendo a Madeira ainda independente não podem pedir outro tanto para o CR7), fazer chichi na escadaria de S. Bento com o rabo virado para a Fundação Mário Soares para não ofender o recato do ancião patrono, revelar que o porta voz do BES já foi substituído pela porta voz da SIBS, e outras acções subversivas anti regime em estudo. Estamos atentos para ver se conseguem levar a água ao seu moínho.

Juro que me daria muito gozo, mas estou disposto a apostar que não vai acontecer, ver a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, também por si trina devido ao milagre da multiplicação dos pães (A), a dividirem com as acima citadas empreendedoras Senhoras as celas da Carregueira, o Sol no pátio se o preferirem ao solário, a canasta ou o king no fumoir, o escolher da ementa biológica do dia no refeitório e do programa televiso da tarde: Pinheiro ou Goucha? Por questões higiénicas dividiria a sauna por géneros, pois que não estou a ver pombas tão alvas a mancharem as penas de gordura se, por acaso ou imperativo hormonal, na estreiteza do local, se encostassem às Senhoras que estão lá para a destilarem.

Com o calor deste Verão que tardou a chegar, fechado em casa a escrever, e esta imagem das saunas finlandesas, uma a escorrer banha e a outra a contaminar-nos com a criptococose (B), ligo o ar condicionado, mas mesmo assim não satisfeito ponho-me a recordar o nevão que embranqueceu Lisboa em 1951 e, como esse foi um ano importante na minha vida, lá descaí para a pieguice e a minha alma de poeta de feira (também há poetas pimba?) acaba por vir ao de cima, até como acção de desintoxicação dos temas  acima versados.

O Nevão de 51

Quando se tem apenas sete anos feitos

Ter em casa novidade assim

Que maior que um novo Irmão não pode ser

E pensas ser feliz em Maio

Embora paire no ar um estranho peso

Que está para se abater sobre o menino

Abalando tudo aquilo que o rodeia

Sem saber o porquê desta lei parva

Que obriga a que alguém vá quando outro chega

Lei que só mais tarde

(muito mais tarde)

Percebeu justa e defensora

Porque separa as águas

Evitando roturas dolorosas

Neste mundo mutante

Habitado ontem por heróis

Hoje por espertos

Que fez de Pombal um salvador

Quando hoje seria um bom estupor

Endeusou a Terceira Pessoa

Como luz e pão de uma nação

Abrindo nós agora a boca

Ao lixo acumulado

Só porque um tapete é levantado.

Entre esse Maio de aleluia

(que agora amargamente choro)

E o Dezembro da agonia

Que me levou o único Avô

Que me sentava ao colo

E me ensinava malandrices

(O meu amor é da música

E toca clarinete

Quando vai para o ensaio

Lava o cú com sabonete)

- Não digas nada à Avó!

Veio o nevão, novidade absoluta

Que pregou o menino à janela

Das traseiras do Moínho de Vento

A ver brancos os campos da Tenente Valadim

E a passar os carochas, as joaninhas e os matateus

Todos rigorosamente pretos

Com os tejadilhos e os capôts

Alvos daquele pó branco do céu

Que para o menino era maná

De aproveitar hoje que amanhã já não há!

Abençoada neve de mil novecentos e cinquenta e um

Precedida de um Irmão, que já foi para onde ela veio

Cinco dias antes de completar 63 anos

E prenunciadora da partida de um Avô

Dezassete dias antes dos seus 64 anos.

Tudo se repete por ordem desta lei parva

Que obriga a que alguém vá quando alguém chega

Coisa que agora o menino já percebe.


Um abraço

Lisboa, 17 de Julho de 2014
Octávio Santos

 

(A) Pão, em português do Brasil, significa Borracho, isto é,   macho bonito e apetecível, daqueles que matam cabras com o olhar

(B) Criptococose é a doença que ataca os pombos metropolitanos, tornando-os nocivos para os humanos

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Oi! BEStial fotografia de um cidadão português a repousar (dormiente, segundo Michelangelo e Caravaggio) junto à porta da Igreja do Corpo Santo, dedicada ao Presidente da República e sua Família, à Presidente da Assembleia da República, ao Primeiro Ministro e ao seu Governo, aos Conselheiros de Estado (incluindo os que opinam nos mass media) e, avulso, a Bavas, Bentos, Mexias, Moedas, Ratos e outros génios sempre prontos junto ao pote que se diz estar onde acaba o arco-íris


Saía eu da primeira parte de uma sessão séria e internacional no Ministério das Finanças, que teve a presença de um membro do Governo que não sabia o que dizia ou que dizia aquilo que nós ainda não sabíamos, mas que ficámos a saber pouco depois, que não por ele, para rumar até à Pombalina - não sem antes ter aspirado o odor de uma certa pia no Martinho da Arcada para matar saudades de Pessoas que por ali passaram -, café/tasca na esquina das ruas da Madalena e do Comércio, onde se comem as melhores sandes de leitão da capital, e de onde, após satisfazer a gula, parti a deambular do Município a S. Paulo - magnífico o trompe l’oeil do tecto da Igreja -, passando pela Rua Nova do Carvalho, onde escorts de um turismo íntimo esperam, não só pelos clientes que anseiam conhecer uma realidade mais profunda dos lugares que visitam, mas também pela carteira profissional que as meta em regra com o fisco (não as estou a ver com o terminal multibanco no cinto de ligas), pela Praça da Ribeira em obras, pela Travessa do Cotovelo, onde só o lixo se acotovelava, pelo Largo do Corpo Santo, onde bati a foto que ilustra e foi pretexto deste texto tão fora do contexto, pelo Terreiro do Paço onde, para além dos tão alfacinhas rickshaws de aluguer, o que mais me chamou a atenção foi a nova especialidade lisboeta, na senda do estrondoso êxito do pastel de nata de bacalhau, que é o pastel de bacalhau que, quando se morde deita cá para fora um cremoso queijo da serra, tudo anunciado em belos posters, no limite do pornográfico, pespegados nos pilares pombalinos dos ex-Ministérios transformados em locais de lazer e engorda. Vem-me de perguntar se nos não ex-Ministérios não é a mesma coisa. Ao regressar às Finanças, desta vez pela porta da Rua da Alfândega, dei comigo a apressar o passo na Rua dos Bacalhoeiros para fugir da visão proporcionada pela fachada do estabelecimento de mercearias finas “Silva & Feijó”, pensando estar perdido e em perigo no kasbah de Marrakech ou no souk do Cairo, e não em Lisboa, melhor cidade europeia para estadias de curta duração segundo a World Travel Awards.   

Mas todo este preâmbulo para lembrar figuras desta Lisboa como o dormiente da foto, os párias da Liberdade, e refiro-me à Avenida, o casal Florindo e Flora (nem inventado) que vai para 23 anos está à porta da Procuradoria Geral da República reclamando justiça, sem que nenhum dos Procuradores que por lá passou anos a procurar, e aos quais dedico também a foto da imagem, ou justiça lhes faça ou os mande internar num manicómio, porque uma coisa é certa: há ali um caso de loucura, a dois, ao sol e à chuva, se for do lado de fora daquela porta, ou colectiva, no conforto dos silêncios secretos do Palácio, se for do lado de dentro. E também a Liana. Mas para Vos falar da Liana terei de explicar tudo. Para aqueles que conhecem a Marcella (com dois LL) vai ser fácil perceber, mas para aqueles que não a conhecem terei de ser muito sucinto para não encher três páginas. Vou tentar.

A Marcella Reis é uma cidadã brasileira que vive em Portugal há já 15 anos, poeta e escritora com uma formação de animação artística ministrada no Chapitô, que conheci numa sessão de poesia na Livraria Barata, tendo o seu poema “Descendente do Mundo” me impressionado a ponto de lhe pedir para o dizer na Biblioteca José Saramago, em Loures, quando da apresentação do meu segundo livro. Para isso propus-lhe uma espécie de apanhados, ao que a Marcella imediatamente aderiu. E assim aconteceu. Podia ter corrido muito mal devido à intervenção de alguns presentes na sala que não perceberam a marosca, o que se pode considerar um êxito na óptica dos apanhados, com a Marcella a ter de despachar a leitura do seu poema a gritar para ser ouvida. Não sei se todos gostaram, para mim foi um sucesso, para a Marcella uma loucura, tanto que estava feliz, tão feliz como naquela noite em que eu disse umas palavras na apresentação do seu segundo livro, no Hotel Real Palácio. Entendimentos entre “palhaços” que nem todos entendem. Ora a Marcella, depois de tudo isto, mandou-me faz tempo um e-mail contando-me que uma Senhora de nome Liana passava os seus dias sentada num degrau à porta do Centro Comercial de Alvalade, sobrevivendo das poucas moedas que lhe deixavam cair no regaço e da caridade de algumas Senhoras um pouco mais sortudas que ela, como era o caso da Mãe da Marcella, a qual veio a saber da boca da Liana que, fruto da queixa de alguns lojistas do Centro Comercial, a PSP a tinha intimado a deixar de “estacionar” naqueles degraus, o que para ela representava uma ordem de despejo da sua sobrevivência. No Largo, Santo António, na sua estátua, nada podia fazer. Pedia-me então a Marcella no seu e-mail que tinha em anexo uma foto da Liana sentada no seu degrau - mas ou o apaguei ou não o encontro entre centenas de outras missivas electrónicas -, se eu me importava de assinar um papel a pedir a revogação da sentença que iria complicar a vida já de si complicada da Liana.

Em vez de responder, peguei em carta e pena e escrevi um poema para a Liana, certo que, apenso ao abaixo-assinado teria mais força e impacto que uma simples minha assinatura. Transmiti-o então à Marcella que se desfez em agradecimentos exagerados, passando-me um certificado falso de genialidade e de solidariedade, o qual arquivei no file “Brasil” da minha memória. Não constitui notícia o facto de, depois deste episódio, nunca mais ter ouvido falar da Liana nem ter tido conhecimento do desfecho da sua história, mas o que é para mim estranho é que a Marcella nunca mais se comunicou comigo, embora eu lhe transmita sempre à quarta-feira a edição deste meu blogue. Dizia alguém que falava bem que a vida é feita de encontros falhados, e foi o que me aconteceu com a Marcella, mas, digo agora eu, que a minha efémera ligação literária com a Liana foi um desencontro conseguido.

Mas eu que vivo de livros e de sonhos, não poderia deixar passar o ensejo de Vos relatar um quase/sonho que se entrelaçou com a leitura de um não/livro, em noite de insónia mal dormida de Sábado para Domingo nas margens do Rio Seixe, fronteira entre o Alentejo e o Algarve. Se considerarem relevante posso adiantar que a cama estava do lado algarvio. O quase/sonho, e chamo-lhe assim porque foi daqueles que, qual telenovela, continuava após sucessivos estados de alerta e parecendo por isso muito longo, embora, como todos os sonhos que parecem não ter fim, nos deixam na memória imagens vagas e fugidias que se esvaem ao despertar. E foi para o fixar que peguei no não/livro e, enquanto o lia ou fingia lê-lo, ia memorizando o essencial que é facilmente resumível, como segue: Entrei num café com um longo balcão corrido, ficando o meu Irmão Vasco cá fora porque estava a cavalo. Pedi um sumo de laranja natural, mas daquela laranjas sanguíneas sicilianas, sumo que foi servido num copo alto que tinha três esferas de vidro a servir de base, e pelas quais o sumo se escoava lentamente sobre o balcão à medida que me iam enchendo o copo. Reclamei, e então meteram o copo dentro de um saco da plástico transparente continuando a enchê-lo, ficando eu na mão com um saco de plástico cheio de sumo vermelho com um copo roto lá dentro. Vim à porta para mostrar ao Vasco a insólita cena, mas a rua estava vazia, nem Vasco (a) nem cavalo, e voltei para dentro sem nada nas mãos já que o saco e o seu conteúdo se tinham também evaporado, tendo acordado definitivamente sem perceber nada, mas convicto que não iria incomodar Freud para uma explicação. 

Acordado, peguei nas 5 Cartas que Mário Cesariny escreveu a António Cândido Franco, de Poeta a Poeta, entre Março de 1977 e Fevereiro de 2000, e mal comecei a ler, agradeci de todo o coração a quem me proporcionou tal leitura, porque cada linha cada tesouro, e juro que Vos hei-de transmitir parte deles em escritos sucessivos porque, para além do interesse que os mesmos possam ter, sinto isso como uma obrigação. Desta vez, e lembrando-me das inúmeras leituras que faço da obra de Eduardo Lourenço “O Labirinto da Saudade - Psicanálise Mítica do Destino Português”, deixo-vos aquilo que Aquilino Ribeiro e António Sérgio disseram de D. Sebastião que, ai de nós, continua a ser o Desejado (Encoberto) que sairá do nevoeiro para nos salvar. Dele (da nossa salvação), disse Aquilino no seu livro “Príncipes de Portugal; suas grandezas e misérias”: «rebelde, impulsivo, desaparafusado, louco dez vezes, infelicitado por uma terrível paranóia congénita, impotente, incapaz de satisfazer ao débito conjugal, nevropata, dementado, louco, zorato, imprudente, estupidamente sôfrego». Sérgio foi mais comedido no primeiro volume dos seus “Ensaios”: «o vulto de um romântico pedaço de asno – desse inexcedível pedaço de asno que foi o senhor rei D. Sebastião». Boa vai a moenga, diriam aqueles que, na zona da minha insónia, dormiam o sono dos justos, caso estivessem acordados e descobrissem quais os recônditos desejos de um povo à espera da sua epifania, que lá tardar, tarda!

Liguei então as laranjas sicilianas do meu sonho, à juventude também siciliana de D. Isabel de Aragão, Avó do “pedaço de asno” e “maravilha fatal da nossa idade”, no seio de uma família que tinha o Papa como o seu mais perigoso inimigo, e que veio a ser canonizada por um seu sucessor três séculos depois e só após a Santa Inquisição ter mandado suprimir todo um capítulo do seu, digamos, curriculum vitae, que dava conta “dos desacatos e irreverências da rainha” fazendo “ de uma bruxa uma santa”, como escreveu Cesariny. Boa vai a moenga se é desta extirpe que os portugueses esperam o resgate!

Depois de haver lido este texto, parece-me ouvir a Manuela a lamentar-se pelo facto de eu nunca lhe ter dedicado um poema como o que fiz para a desconhecida Liana; bato com a porta sem sequer balbuciar uma desculpa, ouço-a ainda a recomendar-me para ter cuidado a atravessar a rua, mas não tendo talento para lhe dedicar um poema do tipo da Sagrada Família de António Gaudi, obra grandiosa e perenemente inacabada, apetece-me ter o fim do genial arquitecto catalão, atropelado anonimamente na sua Barcelona por um carro eléctrico, e dou comigo a atravessar sem olhar uma das ruas de Lisboa onde já não passam eléctricos mas subsistem os carris. “Alentejano num drome”, dizia o meu Amigo Francisco Maria Caramba, e os meus desejos estão a anos luz da espera de D. Sebastião. Boa vai a moenga!


Um abraço.


Lisboa, 10 de Julho de 2014
Octávio Santos


(a)  "Estás em cada pormenor, em cada pensamento, fazes parte de nós..... SEMPRE!!", como me escreveu a minha Sobrinha Rita Filipa no dia em que fez dois meses que o seu querido Pai e meu querido Irmão nos deixou.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

ÚLTIMA HORA: o pintor falsário que prestou falsas declarações sobre a última tela de Picasso, ataca novamente seguro de beneficiar da impunidade vigente no interior das quatro linhas do seu rectângulo habitacional.


Ele há sonhos que te complicam a vida, criando a confusão e o caos, e não me refiro ao sonho da anunciada vitória no Brasil nem àquele de viver num país decente, que esses, ao menos, nos deixam uma esperança para o futuro, mas de um sonho sobre pintura, provocado talvez pela impunidade com que escrevi a “Última Tela de Picasso”- pg. 141 do meu “Moínho de Vento, 23” -,  já que não houve uma única voz a denunciar o falso da minha pintura literária, havendo mesmo quem a transpusesse com grande arte  para a  tela, acrescentando valor àquilo que, para além de valor não ter, deveria ser punido por desrespeito da verdade. E ainda bem que falo de sonhos, até agora só meus, e de textos e pinturas circunscritas a um restrito número de pessoas conhecedoras dos factos, porque no âmbito do país a coisa fia mais fino e estes dislates não são aceites, ou então não seríamos a Nação que somos, e de que nos orgulhamos, com quase 900 anos de história que curiosamente se cumprem no ano do meu centenário. Cá estarei para festejar!

Mas vamos a factos que nos tranquilizem antes de entrar em divagações sonhadas que nos poderão desviar para uma outra realidade, esta virtual e inquietante. Temos, hoje e agora, grandes homens que o mundo nos inveja. A França ainda hoje vive do prestígio do General De Gaulle, o qual, para além do apelido se confundir com a Pátria, a punha acima de tudo em todos os seus gestos e acções, até no seu sempre repetido “Vive la France” quando testava um microfone. Depois, pobre França, com Sarkozy e Hollande, este com nome de outro país, não lhes resta que recordar o General e a sua “grandeur” e votar naqueles que ele combatia e desprezava. Nós, felizmente, temos o Presidente Cavaco Silva, a quem dei o meu voto sendo por isso o "meo" presidente (a), que acaba de receber o diploma de “Bom Aluno” das mãos do gauleiter germânico, após ter provado, sob interrogatório, ter aprendido a lição. Reparem na diferença: para De Gaulle existia a França e o sonho de uma Europa do Atlântico aos Urais, para Cavaco Silva existe “a minha Família” (sempre que possível no Salto do Lobo) e o sonho realizado do Atlântico à Arena MEO. Talvez por isto o Miguel Sousa Tavares lhe chamou palhaço - com a legítima indignação do Chapitô -, sem qualquer consequência, não por ser filho da figura ímpar que tardiamente mereceu o Panteão, e mesmo assim empurrada por Eusébio, mas por ser compadre do Dr. Ricardo Salgado. O mesmo não aconteceu ao desesperado anónimo que vociferou parte da sua cólera legítima sobre o ilustre personagem, que esse sim, caiu sob a alçada da lei, condenado a pagar uma coima igual ao valor da magra reforma declarada em tempos pelo ofendido. Uns perdoam-se porque estão encostados aos donos do país, outros castigam-se porque são fracos, restando a tríade de amigos incómodos que, também eles patriotas impolutos, pugnaram pela grandeza da Pátria, confundindo-a com as suas algibeiras, no Governo, na SLN, no BPN, na Galilei, em Maricá, Marrocos ou Cabo Verde, batatas quentes que não se sabe agora o que lhes fazer.

Tencionava passar já para o outro assunto que interessa a Nação para além da política, isto é, o futebol, mas devo deixar uma nota sobre o Dr. António Costa porque, passando várias vezes por semana na Avenida Edgar Cardoso - aquela das pegas, entre a Rua Castilho e o Parque Eduardo VII, e estou já a ouvir perguntar o que é que vou lá fazer com a minha idade -, e tendo de circular a 20 à hora tal é o estado miserável do piso, me pergunto se tal é devido a uma exigência de marketing da Associação Nacional das Peripatéticas para fazer abrandar os clientes, ou se para aquele que deu ultimamente razão a Unamuno, que disse que Portugal era um país de suicidas, é tudo normal e é assim que vai querer o país quando for Primeiro-Ministro: esburacado mas com um empreendedorismo agressivo.

Mas vamos lá ao desporto rei só para vos dar parte do meu orgulho pela maneira como os rapazes se bateram, pelos 5-1 à Irlanda durante a excursão aos States para ver se o clima era idêntico ao de Manaus, pelo justo spread que nos divide da Alemanha, pelos 2-1 ao Ghana que nos coloca no 18º lugar, só abaixo do Equador na segunda metade da tabela, pela excelente actuação do corpo clínico coadjuvado por um fisioterapeuta do Real Madrid, mas sobretudo pelas fortes convicções do seleccionador Paulo Bento que, não abandonando o barco (pávidos cobardes de outras selecções derrotadas demitiram-se ou puseram o lugar à disposição) e prometendo a mesma leal e esforçada tripulação para o Europeu de 2016, dando-nos a certeza que, se não foi desta será para a próxima, se Deus quiser e desde que o Diabo não se oponha. Do que não estou a gostar é da maneira como os comentadores desportivos (parecem aqueles comentadores políticos que opinam, dão bitaites e mandam recados, entre as reuniões do Conselho de Estado de que curiosamente alguns fazem parte, um havendo que até faz pequeninas revelações à sua medida), estão agora a revelar coisas que já sabiam antes: que para além do Godinho da sucata de Ovar há um outro que faz a chuva e o bom tempo na Federação, que o agente de Paulo Bento tem influência nas suas escolhas (quem diria!), que quem não tem a password fornecida pelo CR7 aos seus amigos não tem acesso à equipa de todos nós, que são as apostas on line que ordenam o que se faz e o que não se faz no mundo límpido e transparente do futebol. Apetece-me limar os caninos e emigrar para o Uruguay!  

E agora finalmente o sonho, pois já estava a esquecer o assunto principal que me moveu a escrever desta vez, mas que era indispensável explicar o porquê de não sentir medo das consequências do crime artístico cometido, lá isso era, porque quando o mal se confunde com o bem a prepotência sente-se com direitos. E foi isso que se passou no meu sonho. Eu conto, embora a normal confusão dos sonhos não permita um relato linear e verosímil. Num museu, não sei qual, não sei onde, uma exposição de obras de grandes mestres da pintura estava patente ao público. E eu estava lá, e também Ela (a mesma da Última Tela de Picasso), não dando porém pela minha presença como se eu fosse o Homem Invisível, no meio daquelas salas repletas de maravilhosos quadros, cada um na sua moldura, a ”Madonna col Cardellino”  e “La Fornarina”, de Raffaello, mulheres feias e malditas da Paula Rego que parecem acabadas de violar por um dos seu cães raivosos, também eles mulheres, “A Vénus ao Espelho” de Rubens, “Amore  Sacro ed Amore Profano”, de Tizziano, homens que reflectem na face e no corpo  disformes o horror  que lhes vai na alma, de Bacon, a “Donna con l’Ermelino” de Da Vinci, e tantas mas tantas outras maravilhas que não me vou pôr aqui a elencar até porque - os sonhos são estranhos -, não me lembro quais fossem, as cores esbateram-se-me na memória e começo a ver obras que não existem, ou se existem não estavam lá, ou eram apenas montagens feitas pela minha imaginação. Assim, vi um Hitler no “Cristo” de Mantegna, um “Retrato de Dorian Gray” em mosaico degenerativo com fim (in)Fausto à vista, a “Mulher Cão”, da Paula Rego a saltar para dentro do “Nascimento de Vénus”, de Boticelli, bonecada de Keith Haring a fazer ginástica numa geometria de Mondrian, rasgões de Fontana na Gioconda, uma paisagem marítima de Turner invadida pelos Pássaros de Hitchcock, Musas Inquietantes de De Chirico a povoarem um campo de trigo de Van Gogh e outras coisas, tantas e esquisitas associações de visões impossíveis na vida real.

Mas quando a vi virada para a parede do fundo da sala a admirar “La Fornarina”, de Raffaello, e a alçar a perna sobre a moldura para entrar na obra, estando eu, do outro lado, como que hipnotizado pelo homem sentado de Bacon, que espetou com pregos na tela a figura - Homem ou Mulher? - que a si se adapta, e seguramente merece, lembrei-me mais uma vez da “Última Tela de Picasso” e, como se não houvesse ninguém no museu que  impedisse a minha compulsiva, mas não por isso  menos execrável acção, atirei-me à tela de Raffaello, já com Ela lá dentro, cortei-a com fúria à medida da tela dentro da outra tela do fumador de Bacon, e, entrando nela,  lá a espetei  arruinando com o meu acto insano duas obras de arte e, ao mesmo tempo, a existência dos que nelas habitam. Impunemente, espero, mas não sei por quanto tempo. O futuro o dirá.

 Um abraço.


Lisboa, 3 de Julho de 2014
 
Octávio Santos

(a) O meu Presidente, com P maiúscula, foi, e continuará a ser, o Dr. Luís Fontoura. Boa Viagem, e vemo-nos um dia destes se Deus quiser.