quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

O direito à imprecisão

Estava quase a cair na tentação de, por inércia, preguiça, outras afazeres ou falta de tema, falhar pela primeira vez o meu encontro de quinta feira com os meus leitores.  Felizmente que em Portugal basta pôr o nariz fora dos lençóis, da janela ou da porta de casa, ou dentro de jornais, revistas, sites  ou televisões, para que te venha vontade de dar a tua opinião, nem que seja para deitar cá para fora coisas que são facilmente desmentidas. E eu, que supliquei  “o inalienável direito à brincadeira” em nota de rodapé na página 98 do meu livro “Moínho de Vento, 23”,  invoco aqui  o direito à imprecisão; isto é, basta-me escrever o que bem me apetece, sem garantir a precisão do que afirmo, e os outros que se dêem ao trabalho de me desmentir se for caso disso.  Fácil, não ?
 
Habituado, como é sabido, a escrever para taxistas e barbeiros, senti-me hoje confortado com a companhia do Secretário de Estado da Juventude e Desportos, que alguém acusou de “comportamentos e frases ao nível de meras conversas de café”, porque afirmou “que o que se passou no Meco foram actos ilícitos”.  Por ter dito uma mais que possível verdade desceu aos “baixos” do Expresso, enquanto que o Ministro-adjunto e do Desenvolvimento Regional subiu aos “altos” por uma quase certa mentira.
Disse-o, até diante de gente séria, e repito-o agora, que a desobediência é um dos motores que faz avançar este mundo. Serei impreciso, mas sinto-me útil já que a imprecisão é um dos motores que faz mover este país, dando ocupação a muita gente.
Imprecisão que fez com que jornalistas cuscos levassem a Christie’s a adiar sine die o leilão dos Mirós do BPN, já que prejudicaram os cofres da nação pelo ruído que fizeram, no dizer do Secretário de Estado da Cultura, e pelo alarido que provocaram, na opinião de um conceituado deputado do PSD.  Serei impreciso se afirmar que o Secretário de Estado da Cultura não a tem, por não ter percebido que os milhares de “mirónes” que viriam a Portugal admirar as obras do mestre catalão, em museu condigno, seriam mais lucrativos que o resultado do leilão ?
Sem as imprecisões com que os membros deste Governo nos têm mimoseado sobre os swaps, o spread, o deficit, as PPP’s, as nacionalizações,  as declarações externas do Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros,  e fico-me por aqui para não fazer uma lista interminável que ninguém leria, o que é que restaria para discutir nas diversas e numerosas Comissões Parlamentares?  O desemprego, a nova vaga de emigração económica, a falência das famílias,  a tentativa de destruição do SNS, o miserável salário mínimo, os cortes de salários e pensões (as de sobrevivência só depois das eleições europeias), o estado da justiça, o caos do ensino ?
Sem as imprecisões dos árbitros e juízes de linha, o que fariam as dezenas de figuras públicas que todas as semanas, em todos os canais da televisão,  pública e privada, nos inundam por horas e horas com as suas doutas opiniões, horas que somadas representam mais tempo que aquelas de todos os jogos da semana juntos ?
Sem explorar as imprecisões das declarações das testemunhas, dos réus e dos ofendidos, os sofismas e subtilezas dos códigos, as vírgulas fora do sítio, os prazos não respeitados, as prescrições dilatoriamente provocadas, como é que os advogados teriam o seu ganha pão assegurado ?
Posso ser impreciso, mas causa-me espécie que na Alemanha tenham sido condenados corruptores, quando em Portugal os corruptos nem sequer foram beliscados. 1 P, 2P, submarino ao fundo, ou contrapartidas imprecisas ?
Serei impreciso se disser que um dos grandes travões do progresso desta nação,  temporariamente envergonhada é a corrupção que cresce em progressão geométrica, porque a impunidade é quase garantida ?
Se Ayrton Sena não tivesse sido impreciso naquela curva em Imola, ou os mecânicos de Maranello tivessem tudo afinadinho, não o teríamos ainda entre nós a subtrair a supremacia da Fórmula 1 a Michael Schumacher, cuja imprecisão na neve quase o levava para junto de Sena ?
Se as autoridades judiciais e investigadoras portuguesas tivessem usado de precisão, não teríamos junto de nós, e sobretudo das suas Famílias, a Maddie e o Rui Pedro ? E tantos outros !
Se não se tivessem dito tantas imprecisões sobre as armas químicas do Saddam Houssein, Durão Barroso estaria hoje em Bruxelas ? Quantos milhares de jovens norte americanos ainda  estariam vivos ? As primaveras  árabes teriam sido transformadas em inv(f)ernos ?
Estaríamos na situação em que nos encontramos se políticos, governos, bancos, fundos de investimento, agências de rating, impérios de consultoria, sociedades de advogados, etc. não nos impingissem diariamente imprecisões que só a eles próprios servem ?
Nixon não montou a operação Watergate com a necessária  precisão. Clinton não montou, com ou sem precisão, mas foi oralmente impreciso naquilo que contou à Hilary e ao seu país.  Hollande poderia ter sido “salvo” se não cometesse a imprecisão de usar sempre o mesmo tipo de sapatos; mudar de scooter ou de capacete não foi suficiente. O Presidente da República foi impreciso quando nos revelou o montante da sua reforma. O Vice-Primeiro Ministro e Ministro de Estado foi impreciso no uso da língua portuguesa e no significado que deu a certas palavras que todos sabemos o que querem dizer.
Muitos magistrados e investigadores italianos não foram  assassinados porque foram imprecisos na investigação e nas sentenças de casos judiciais que tinham como réus membros das diversas mafias transalpinas. Aqueles (muitos) que usaram de precisão, já cá não estão para se arrependerem de não terem sido imprecisos.
Por imprecisão de muitos, um jovem com um grave traumatismo craniano provocado por um acidente em Chaves, viajou 400 km de ambulância até ao primeiro hospital onde encontrou vaga: em Lisboa, no Santa Maria. Vou ser, por uma vez, preciso: ninguém vai ser considerado responsável.
Vou só repetir uma afirmação ouvida, a qual poderá ser imprecisa. A Oktober Fest é o evento mundial onde se bebe mais cerveja; o segundo é a Queima das Fitas em Coimbra.
Na segunda feira todos vimos no vergonhoso Prós e Contras,  cujo tema foi o escândalo das praxes académicas, um DUX de cabelo branco que estuda (?) na Universidade de Coimbra vai para 25 anos. Soube com um certo grau de imprecisão que os DUX Veteranorum são  estudantes crónicos que fazem de tudo menos estudar. Com que interesse ? Quem lhes paga ? Cúmulo da imprecisão: quem os sponsorisa ?  Os precisos, os sérios, os bem falantes , os cuidadosos, os professores que aconselham, parafraseando o Marquês de Pombal, a enterrar os mortos e a cuidar dos vivos, que se dêem ao trabalho de me desmentir. Com precisão sff!

Lisboa, 6 de Fevereiro de 2014
Octávio Santos

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Ruído de motores, e outros mais poluentes.



Hoje, para variar, decidi escrever sobre um assunto ligeiro e fútil. E vou cumprir embora houvesse motivos sérios e tentadores para não o fazer:  efemérides, praxes e sondagens.

- Segunda-feira, 27 de Janeiro, comemoraram-se os 70 anos da Shoah;
- Benito Mussolini, Il Duce (DUX), foi o primeiro governante europeu a aprovar e aplicar  leis raciais, no caso específico,  contra os judeus, em 1938. Hitler limitou-se a imitá-lo e foi o que todos sabemos;
- Segunda-feira, 27 de Janeiro, alguém entregou na Sinagoga, no Museu Hebraico e na Embaixada de Israel, embalagens com cabeças de porco, e nas paredes da Escola Hebraica foram pintadas cruzes suásticas. Tudo em Roma;
- Em França, uma sondagem deu 23% de intenção de voto no partido da Senhora Le Pen, à frente de “gaulistas” e socialistas;
- Na Grécia, na Hungria, na Bélgica, na Escandinávia, partidos de extrema direita começam a subir nas sondagens e, em alguns casos, a eleger deputados;
- Quem decide das praxes em Portugal, toma, na hierarquia da Comissão das Praxes - COPA - o nome de DUX;
- As praxes, em Portugal, são um assunto privado das Universidades e dos Politécnicos, sobretudo dos estudantes, obedecendo a regras específicas internas, ouvimos na televisão a pessoas sérias e responsáveis;
- O Professor Marcelo disse à Judite que os caloiros aceitam as praxes para não serem excluídos e fazerem parte de um grupo, e desviou outras perguntas da Senhora.  Ocorre-me abusivamente a palavra rebanho;
- O Professor Marcelo foi excluído do seu grupo (rebanho?) por um animal de coelheira;
- Praxes sem lei num país sem lei, ou com leis específicas para cada grupo, consoante o berço, o partido ou a conta no banco.
Por questões de sanidade mental - o geriatra disse-me que não devo pensar muito - voltemos ao assunto que a imagem e o título dão a entender.
Dia 24 fui ao Casal da Mira, ali entre Famões e a Brandoa,  fazer umas fotografias numa garagem cheia de automóveis antigos daqueles que se alugam para os casamentos de Sto. António;  tiraram para a rua uma Arrastadeira para fazer espaço e avançaram com o “meu” carro;  não é que me calhou um Mercedes 190 SL, modelo de que fui feliz proprietário de 1969, ano em que o comprei ao cineasta Filipe De Solms por 48 contos, a 1972, e ainda por cima com um 23 no meio da matrícula. Coincidência que me levou a falar-vos dos meus automóveis, e logo, também por coincidência, aquele da imagem, um Wolseley Hornet, que alguém associou ao Jailhouse Rock, não era meu. Como não eram meus muitos dos que guiei, ou porque estavam à mão ou pelo prazer que tinha em experimentar carros novos.
Meus, realmente meus, não foram assim tantos, pelo que me é fácil fazer a lista, fornecer pormenores e linkar imagens, arriscando-me que o assunto não interesse ninguém. Mas tal como o “Moínho de Vento, 23” é só um testamento. Cheio de preguiça (de funcionário público ainda por cima reformado) não me apetece dar uma ordem cronológica, pelo que os semeio à toa segundo as minhas lembranças.
- Um Fiat 500 F de 1969, creme, em Roma, durante 10 anos e mais de 50 mil km, que julgo esteja no Porto. Saudades.
- Um Peugeot 304, verde, com o qual viajei de Lisboa para Sófia (O Vestido Azul de Clermont Ferrand), e acabou num grave acidente na Grécia, na estrada entre Larissa e Linavates. A esquecer.
- Um Jiguli 124, vermelha, carrinha soviética fabricada sob licença Fiat em Togliattigrad. Em Sófia.
- Um Citroen 2 CV, creme, que comprei a um oficial do COPCOM, no ano em Lisboa entre Paris e Sófia. Lembro-me de irmos em 9 até à praia; 5 eram pequenos e quase não ocupavam espaço. Inconsciência.
- Um Mercedes 250 SE, creme, comprado em Atenas por 1.500 dólares depois do acidente com o Peugeot 304, que me deixou apeado. Tinha um pneu Mabor e balançava aleatoriamente nas curvas.
- Um Volkswagen Golf I, preto, primeiro pequeno diesel do mercado, que fui de Sófia buscar a Wolfsbourg, e tive em Lisboa muitos anos para as férias.
- Um Mercedes 200, preto, que comprei ao Embaixador da Holanda em Sófia, levei para Roma e foi-me roubado num parque de estacionamento com guarda  na Base NATO de Bagnoli, perto de Nápoles. Neste momento já está dentro de um contentor com destino à Albânia, disse-me o polícia a quem apresentei queixa.
- Um Ford Fiesta, verde, que comprei novo em Roma após o roubo do Mercedes 200, e trouxe para Lisboa em 2002, conservando-o até que a Carla e o Octávio me deram o Golf IV, preto, que é o carro que tenho agora. Também dei o Fiesta a um familiar. Dois bons carros.
- Um Neckar Jagst Riviera 770, cinzento, coupé derivado do Fiat 600, fabricado na Alemanha Democrática sob licença. Eu tinha 18 anos e adorava acelerar nas ruas com pouco tráfico de Lisboa.  Era 1961.
- Um Fiat 128 - excelente carro -, vermelho, que comprei novo em Paris quando vendi o Mercedes 190 SL a um emigrante português, porque não tinha dinheiro para as reparações e porque só tinha 3 lugares e os miúdos estavam a crescer.
- Um NSU Prinz IV, verde, com o qual o pai do Pedro Lamy, que mo vendeu, me ensinou a fazer piões.  Não chegava aos 130 mas pintei-lhe o capot de preto baço para evitar os reflexos do sol a alta velocidade. Idiota.
- Um Hillman Imp,  break de chasse castanho. Lembro-me de entrar e sair com ele, durante 3 anos, os portões do Destacamento da Pontinha do Regimento de Engenharia 1. Muitas das vezes de serviço e armado, só para ir dormir a casa, arriscando um merecido cadastro que me teria vedado as portas da função pública.
- Um Fiat Pulmino 900, cor de abóbora, 9 lugares, que fui de Sófia buscar a Turim, e que fez uma viagem de férias Sófia-Lisboa-Sófia, ou sejam 7.000 km. Numa garagem em Sesimbra mandei-lhe construir um berço sob o chassis para alojar o pneu sobressalente que, de origem, tinha lugar diante dos joelhos do passageiro da frente. Engenhocas.
- Um Nissan Patrol, creme, que comprei ao Gabinete Militar da Embaixada Americana em Sófia, com oferta em envelope  lacrado, like is where is; ganhei-o com uma oferta de 1600 dólares. Vendi-o ao Encarregado de Negócios do Equador pelo mesmo preço.
- Um Mercedes 220 D, cinzento, que fui de Sófia buscar a Estugarda, conservei 6 ou 7 anos, acabando por o vender a um funcionário da Embaixada da Hungria. Lembro-me de o ter encomendado sem estrela, porque os meninos socialistas adoravam colecioná-las. Contradições.
- Um Triumph Mayflower, preto, todo em ângulos quase sem qualquer curvaturas na carroçaria, que comprei em Lisboa, antes da diáspora, com uns dinheiros que ganhei com um projecto de arquitectura.
- Um Peugeot 504, creme, que me foi oferecido pelo saudoso Embaixador Zózimo Justo da Silva quando deixou Sófia como Conselheiro. Vendi-o a um estudante congolês da Universidade Climent Ohridsky, chamado Barrabaz.
- Um Simca 1000, cinzento, com o qual fiz a viagem de núpcias - três dias na Serra da Estrela -, onde chegámos debaixo de um tremendo nevão. Já não havia jantar na Pousada, tão tarde era, e comemos ovos mexidos com presunto. Penso que as Seichelles e as Maldivas ainda não existiam.
Espero não ter esquecido nenhum, e já não tenho coragem para fazer o elenco daqueles que, não sendo meus, como o Wolseley Hornet da imagem, guiei por necessidade ou prazer, incluindo os Caterpillar da tropa, os dumpers das obras, ou de uma camioneta Hanomag F55 com que distribuía materiais de construção pelos estaleiros. E carroças de mulas, em casa da minha Avó materna, nas faldas da Serra de Montejunto. Menos mal, direis vós!
Abraço.
Herdade das Valadas, 30 de Janeiro de 2014
Octávio Santos 

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Venenos - bons, maus, vingadores, escondidos e outros

Vivemos num clima envenenado. Ambiental e humanamente falando. Venenos sempre existiram e célebres especialistas houve, como, por exemplo os Bórgias.  Alguns, mais sofisticados, eram denominados filtros de amor, o que, para mim e até agora, não tinha qualquer lógica. Só pensei nisso quando junto de uma cama com o número 23 no IPO de Lisboa, passei 4 horas junto do meu irmão pequenino a ver umas senhoras simpáticas, competentes e carinhosas, a trocar e vigiar os sacos com os venenos que desciam gota a gota para as suas veias e artérias, venenos sem nome doseados ad hoc por mãos sapientes e amigas para atacarem e matarem aquilo - que ele chama de ouriço – que se lhe aninhou no corpo, divertindo-se a cravar os seus espinhos por aqui e por ali sem ordem nem preceito. E lá estão eles, os venenos amigos, a executar a sua função de matar o inimigo para salvar o amigo. E vão atacar três vezes, em vagas sucessivas, com todas as suas forças, sempre mascarados, sem nome, como se de tropas de elite se tratasse.  

Como no filme “Guerra das Estrelas”, tribos menores de bons venenos, as Xelodas, capacitabinas citostáticassem ordem nem preceito. , desferram ataques diários, de manhã à noite, não dando trégua ao “ouriço” que, de certo só tem a derrota no horizonte.

Os velhos repetem-se, e eu já disse muitas vezes que nem tudo o que é legal é moralmente aceitável, repetindo-o agora, que ouvimos contar a história do condenado de Ohio que levou 25 longos minutos para morrer, porque o cocktail de venenos que lhe injectaram para o justiçar pelos seus crimes, não foram tão cuidadosamente estudados como aqueles que os médicos do IPO destinaram a salvar o meu irmão pequenino. Venenos vingadores que, mal doseados, torturaram por quase meia hora o irmão de alguém que estava a assistir. América, América! 

Há venenos que ganham batalhas, mas temos obrigação de batalhar contra certos, de entre eles. Políticos, por exemplo. Sócrates (o original) tomou voluntariamente a cicuta porque sentiu perdida a sua batalha cívica e política; a Napoleão e a Arafat, que não admitiam a derrota, teve a cicuta que lhes ser ministrada por terceiros. 

Os venenos da Síria - sarin, gás mostarda e VX -, que de atoarda ocidental, horrorizando o mundo perante as imagens do resultado da sua utilização, passaram a realidade tão gritante e palpável que foram capturados com o consenso de todos e, agora, por aí andam à espera de um destino. Retidos em bidões por especialistas, embarcados num cargueiro dinamarquês, não encontraram países que aceitassem recebê-los. Assim, terão de ser transferidos para um navio daqueles que continuam a ser os polícias do mundo, que depois decidirão onde e como os destruir, dizem que por hidrólise. Faltava decidir o porto onde efectuar tal transferência. Portugal ou Itália? Lages ou Gioia Tauro? 

O Governo português ficou feliz com esta segunda oportunidade de garantir a permanência militar americana na Base das Lages. A primeira correra-lhes bem, quando servindo de cenário à encenação da peça “Armas Químicas no Iraque”, salvaram a Base embora “perdendo” Durão Barroso, primeiro humanoide a ser teletransportado das Lages a Bruxelas. Mas como os americanos são pragmáticos, bread bread cheese cheese, e as Lages já não lhes serve desde a queda do muro, não estando dispostos a pagar o preço pedido pelos aliados lusos, fizeram agulha para a Calábria.  Logo o Ministro italiano das Infraestruturas declarou “considerar que o Porto de Gioia Tauro é o mais apropriado” citando razões técnicas e de segurança. A agência ANSA, antecipando-se ao anúncio oficial, referiu que a escolha se ficava a dever ao facto do porto calabrês ter características que tornam mais fácil “ a gestão de protestos contra a operação”.

Aqui entra em acção o meu mestre Claude Lévi-Strauss a espicaçar-me para fazer perguntas e eu, como sempre, obedeço:

- É verdade que pelo Porto de Gioia Tauro entra 80% da cocaína destinada à Europa, que o tráfico internacional de armas é uma das suas actividades mais reditícias, que o porto está nas mãos da ‘Ndrangheta, mafia calabresa, e das suas principais famílias, Piromalli, Alvaro, Mammoliti, Molè, etc…? 

- É verdade que a forma mais barata de reciclar resíduos radioactivos é aquela de os carregar em navios em desarme, e fazê-los afundar, muitas vezes com parte da tripulação (quem se importa com somalis, eritreus, etíopes, sudaneses, etc.?), evitando a porra das testemunhas? 

- É verdade que foi isso que aconteceu anos a fio, satisfazendo o interesse de industriais distraídos, a cargo da Ndrangheta, com a cumplicidade de políticos corruptos, ao largo da Calábria? 

- É verdade que a chamada “Ecomafia” afundou entre 40 a 100 embarcações nas costas calabresas, transformando o Mediterrâneo num cemitério de todos os resíduos, desde os inócuos pós de mármore até ao plutónio e ao césio? 

Se tudo isto for verdade, a agência ANSA tem razão quando afirma ser fácil a “gestão dos protestos contra a operação”, já que os pobres calabreses já se cansaram de chorar os seus mortos e de gritar e denunciar o escândalo mais bem guardado da Europa dita civilizada. Itália, Itália! 

Todos acreditamos que os norte-americanos partirão com os venenos sírios para águas internacionais, onde os destruirão legalmente por hidrólise. Mas se o navio, por acaso ou maldição, se afundasse ao largo da Calábria, o mais que poderia acontecer seria a criação de uma Comissão Warren que nos desvendaria uma parte da verdade daqui a meio século.

Voltando à nossa casa, porque tal desvario ninguém acredita ser possível na Costa das Negociatas, lembrei-me de fazer umas perguntas domésticas sobre um caso de venenos, quase esquecido. Durante muitos anos não houve transformador, condensador e gerador eléctrico que não utilizasse o chamado Pyralen (PCB), por ser este o fluído mais indicado para o seu correcto funcionamento. Mais tarde foi descoberto - por uns chatos de uns técnicos intrometidos -, que esse produto era altamente poluente, tóxico e cancerígeno, tendo sido ordenado pelas agências ambientais americanas e europeias, a inutilização desses equipamentos eléctricos, com a correspondente recuperação dos fluídos incriminados (PCB’s), e sua posterior destruição. Sabe-se que a EDP, e outras empresas utilizadoras desses equipamentos, tudo fizeram para cumprir a lei, entregando-os a empresas especializadas e certificadas, que parece terem feito bem o seu trabalho. E aqui voltam as perguntas, neste caso só uma:
 
- É verdade que a Companhia Portuguesa de Fornos Eléctricos entregou os seus equipamentos ao sucateiro Manuel Godinho, amigo do Armando Vara no tempo em que o Eng. Sócrates era Secretário de Estado do Ambiente, o qual, tendo recuperado o cobre e os restantes metais componentes, e não sabendo o que fazer com o famigerado Pyralen, o teria reciclado à sua maneira (de sucateiro), com prejuízo nosso presente e futuro, arriscando-nos a tê-lo no prato por via de peixes do rio ou de alfaces da horta? 

Venenos nacionais, escondidos debaixo do tapete dos brandos costumes e dos negócios entre amigos e compadres. - Portugal, Portugal!
 
Faço votos que o corte de verbas com que o governo presenteou venenosamente os IPO de Lisboa, Coimbra e Porto, não impeça as suas equipas técnicas de continuarem a preparar os seus cocktails venenosos que são a esperança de salvar tantas vidas, incluindo aquela do meu irmão pequenino, para que ele possa continuar a criar cavalos nobres e inteligentes, e eu a zurzir, denunciando, cavalgaduras reles e estúpidas.


Herdade das Valadas, 23 de Janeiro de 2014
Octávio Santos

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Crónica dos Sete Rios, ou " Sou agora um (feliz) cidadão dos Açores"


Alfacinha nos papéis, português porque a Pátria não se renega, sempre me senti apátrida por dentro, tentando muitas vezes aninhar-me em berços que não me pertenciam, chegando ao ponto de pretender antepor um “ribeiro” regional, o Tibre, a um senhor rio internacional, o Tejo, só porque  os costumes das terras banhadas eram mais consentâneos com o que me ia (e vai) na cabeça.


Nunca parigot  por repulsa ou incapacidade minha, não me sentindo à vontade nas margens do Sena ou do Marne, escassamente eslavo por não assimilar os cânones vigentes nas faldas  da “Velha Montanha” onde nasce o Sturma,  que com o nome de Strimonas desagua na Grécia, país que adoptei por mares quentes, mezzes frios e tantas outras coisas,  muito riso amaro e dolce vita  por atracção irresistível à beleza que, mesmo quando pobre e trágica, pode contagiar a vida, badio na alma por rebeldia natural e fugas estrategicamente defensivas, sampadjudo por músicas mornas,  pensei, um dia que passava entre Teimosas e Pouca Farinha, tornar-me cidadão da Costa Vicentina, projecto abortado por mau funcionamento dos pisca pisca.

Até que, por força da “maldita crise” que tudo cobre com o seu pesado manto da estupidez, que tudo permite ou interdita, tudo contamina, tudo endossa, tudo fecha, desde que cheguem ordens das margens do Reno, se lembrou, após transferir a estação dos correios para o café da esquina e de tentar adaptar a raça de fidelíssimos cães vermelhos nas planícies do Yang Tzé, de fechar também a Loja do Cidadão que foi Éden para tantos, deixando-me à deriva com o Cartão de Cidadão a caducar e na eminência de ter de rumar às Laranjeiras e arrostar com as inevitáveis filas que continuam a formar-se à porta, até ao dia em que se lembrem de encerrar mais esse templo do despesismo que só serve para albergar funcionários públicos inúteis e calaceiros. 

Como, afinal, tenho sempre sorte, alguém me indicou que na Loja dos Açores - mesmo ao pé de casa, na Elias Garcia - havia um serviço denominado RIAC – Rede Integrada de Apoio ao Cidadão, que tratava também do CC. Nunca acredito em facilidades, sobretudo nestes últimos tempos, mas para lá me dirigi para ver como era. Balcões, meninas bonitas, maquineta de débito de senhas, o robot que nos capta tudo, fotografia, dedos e assinatura (esperando que a nova geração não nos adivinhe pensamentos e desejos), e o principal, isto é, um espaço agradável e luminoso onde esperar aquela hora a que a senha 13 me obrigou, a bisbilhotar tudo aquilo que os Açores têm, não só para nos vender, mas também para nos dar uma ensaboadela sobre a cultura do arquipélago.

E essa foi a descoberta que vos passo a descrever em estilo telegráfico, como fiz uma vez que passei 5 horas com Um Olho na Luz para me dizerem que afinal não era  nada ,  já que será supérfluo  informar que saí da Elias Garcia com o CC renovado até 2019.

- Soube que o segredo mais bem guardado de cada família açoriana é a receita do licor que só naquela casa se sabe fazer, e daí, quando se visitam familiares ou amigos na quadra natalícia, se pergunta aos anfitriões, após admirar o Presépio ou a Lapinha: - O menino mija? -, pergunta que automaticamente faz aparecer o licor da casa que é servido copiosamente às visitas, as quais, caso visitem muitos Presépios, devem voltar para suas casas com um grão na asa por força dos diversos  xixis do Menino Deus, que, pelo que vejo nos rótulos das garrafas à venda, pode ser de maracujá, amora, baguinha, laranja, tangerina, canela, chá, ananás, leite, banana, anis, ginja,  nêspera e capucho (phisalia).  Doces há-os disto tudo e mais de goiaba, de uva de cheiro, de figo, de batata doce, araçá, gila, meloa, groselha e butiá.

- Soube que Vitorino Nemésio tem sucessores que dão pelo nome de Maria Eduarda Rosa, Daniel de Sá, Luís Mendonça, Helena Ranha, Maria José Alemão, Paulo Assim, Dias de Melo, Silvino Bettencourt, Alberto Peixoto, e sobretudo João de Melo, autor do romance “Gente Feliz com Lágrimas”, terceiro dos 11 que escreveu, editado em 1989,  multipremiado e adaptado ao teatro e, com muito êxito,  à televisão.

- Que o Vinho do Pico se bebia com deleite na corte dos Czares já se sabia, mas todos os outros que lá vi, brancos, tintos e rosés, de mesa, abafados, de lava, de cheiro, dos Biscoitos, do Chico Maria, têm de ser provados tal como as aguardentes de bagaço, de figo, com nêveda ou com bagas de faia,  para conhecermos todas as vantagens de ser patrício do Pauleta.

- Charutos e cigarrilhas, que matam como todos os outros, lá estão tentadores a lembrar-nos marinheiros sem pressas que matam a sede e desentaramelam a língua no Café Peter depois de terem perpetuado a cores a passagem das suas embarcações na Marina da Horta, e a recordar-nos duros baleeiros esculpindo dentes de cachalote, como se de homenagem se tratasse ao formidável animal que tinham acabado de abater por profissão e por necessidade.

- Falando de artesanato, as Lapinhas, típicos presépios/totens com alto conteúdo artístico, têm de ficar à cabeça, mas os bordados, de matiz ou outros, como os extraordinários bordados de palha, as preciosas composições florais de escamas de peixe,  as esculturas e jóias de pedra lávica, as “violas da terra”, as porcelanas de matiz e as faianças policromas, os meticulosos trabalhos de miolo de figueira e de hortênsia, os estandartes e capinhas bordados  para as festas do Espírito Santo, as miniaturas de fachadas de solares, igrejas e “impérios”,  as bonecas de capelo de milho ou de folhas de ananás, os patchworks e batiks, tem de ser nomeados,  e sei que estou a esquecer injustamente outras coisas importantes.

- Chico Ávila, Ermelinda Toste, Bruno Walter Ferreira, José Medeiros (autor da banda sonora de “Gente Feliz com Lágrimas”), Aníbal Raposo, Rafael Carvalho e Nuno de Brito, a par com inúmeros coros, bandas e agrupamentos musicais das diversas ilhas, são nomes lidos nas capas dos cd musicais à venda, e quem nos diz que não está ali algum tesouro escondido?

- Chás e ananases, sabemos serem os únicos da Europa, e ainda por cima bons, ou melhor, excelentes, mas outras maravilhas lá estão para tentação dos palatos mais finos e exigentes: queijos de todas as 9 ilhas, mel, enchidos, queijadas, pastéis e biscoitos, conservas de atum, manteiga, inhame e batata doce, molhos de vilão e de pimentinha salgada, açafrão, carne, carne, carne e mais carne, estão lá todas as partes nobres do bicho boi, fazendo-nos sonhar com um cozido das furnas.

- Cozido das furnas que é um cartaz turístico, como o são as touradas à corda, as festas Sanjoaninas, do Espírito Santo e do Senhor do Santo Cristo dos Milagres, as emoções de um mergulho num mar incontaminado, de cotejar com um vulcão vivo, de ver uma fajã do alto, do verde e do azul que contaminam tudo, água, ar e vegetação, de admirar currais “envideirados”, de olhar embasbacado para gigantescos prismas basálticos que apontam o céu onde as aves que deram o nome ao arquipélago planam seguras de habitar o paraíso,  que cada vez mais turistas escolhem seguros de umas férias inesquecíveis. Na minha terra.

E pronto, agora que sou cidadão dos Açores só me resta desejar que alguém que me considera um “corisco mal amanhado” no seu verdadeiro significado (descubram sff!), não me diga um dia: - Desapega-te!!

Lisboa, 16 de Janeiro de 2014
Octávio Santos
 

PS: No momento em que me declaro orgulhosamente cidadão dos Açores, sem qualquer mérito ou esforço da minha parte, gostaria que me explicassem quais os serviços prestados, e a quem, por Vitor Louçã Gaspar, Álvaro Santos Pereira e José Luís Arnaud para serem agora felizes cidadãos do FMI, da OCDE e da Goldman Sachs? 

PS2: Acaba de nos explicar o Dr. Marinho Pinto, no qual “bati” a semana passada por me ter beliscado o Eusébio, qual foi o mérito do José Luís Arnaud: participou activamente no processo de privatização dos CTT, dos quais a Goldman Sachs ficou com 6%. Esperemos que alguém nos venha explicar o “fenómeno” dos outros dois. Já fui tão feliz em Portugal, diria o Malato.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Quando a “Luz” nos chegou da África Oriental.


Já são mortos a mais.  14 entre o Meco e a Caparica.  Mais de 350 ao largo de Lampedusa. Centenas  na República Centro Africana.  Perdemos os milhares àqueles do Iraque e do Afeganistão. Estamos quase a perder a conta daqueles da Síria. Não há números certos acerca dos filipinos. Esperam-se as estatísticas sobre os mortos da crise, suicidas incluídos. Depois foi Nelson Mandela e agora Eusébio.

Na 2ª feira, dia de Reis, o Dr. Marinho Pinto, com o indisfarçado intuito de desvalorizar tudo o que todos viram da extraordinária homenagem que todos, e sublinho todos, prestámos ao nosso Rei morto, debitou uma lista de diversas personalidades que recentemente passaram a melhor vida, incluindo o Senhor Kalachnikov,  Hugo Chavez,  Giulio Andreotti,  Margaret Thatcher e outros que não me lembro já que deixei de o ouvir, embora tenha a certeza que não referiu o Dr. António Borges. Que merecia ser lembrado, em pé de igualdade com a Dama de Ferro, por ter sido encarregado pelos donos do dinheiro para, em nome da freenança, destruir o Estado Social no seu próprio país. E o seu desaparecimento prematuro, que todos humanamente lamentamos, em nada alterou os desígnios dos seus mentores, já que os seus herdeiros, jovens, sérios, determinados, magrinhos e mal dispostos, um até com apelido numismático, o que o honra visto que não se esconde, pensaram levar a sua “tarefa” até ao fim. Estaremos cá para ver. Uma coisa é certa; estes senhores partiram de uma premissa errada que só o seu (deles) obnubilado “cérebrozinho” poderia congeminar, e, passo a expor o meu ponto de vista sobre este erro histórico.
 
Tudo começou com a queda do Muro de Berlim, para designar assim o fim do socialismo real, ou seja, do comunismo,  “para chamar os bois pelos nomes”.  No seu anti-comunismo cego (também eu o sou mas já fui operado às cataratas), os donos do dinheiro sentiram-se senhores absolutos e vá de avançar à bruta, doa a quem doer.  Só que confundiram o comunismo ditatorial defunto com o Estado Social em democracia, vivo e de boa saúde, e não perceberam a diferença fundamental. O Estado Comunista, para se manter no poder à força, dizia ao povo: - Não penses, e não te preocupes; estamos cá nós!  O Estado Social, para que o povo continue a votá-lo, diz-lhe: - Deves pensar, e não te preocupes; estamos cá todos!
Mas só falei disto porque veio na onda dos mortos do Dr. Marinho Pinto, quando o que queria era falar do “nosso” morto.
É verdade. Domingo foi um dia triste. Não queria entrar no coro geral de elogios, não porque o Homem não o mereça, como deu a entender o ilustre causídico, mas porque não esqueço algumas coisas que agora é de bom tom não recordar. Sem nomear  os  responsáveis, porque para além de não me lembrar, não merecem a atenção de ninguém, é bom ter presente que aquele que foi o maior futebolista português de sempre, jogou no Arsenal Futebol Clube, no bairro de Mafalala,  no Sporting de Lourenço Marques, onde o Benfica o foi buscar por 250 contos, fazendo a sua brilhante carreira no clube da Luz. Na Selecção Nacional jogou sempre com a mesma alegria e empenho com que jogava no seu clube; mas os tempos eram outros. E os homens também. 
Quando o seu joelho começou a fraquejar, após a 5ª ou 6ª operação, e o Benfica deixou de precisar dele, o Eusébio, na ânsia de mostrar que ainda era o maior, foi ainda até ao Canadá, aos Estados Unidos e ao México onde foi campeão nacional.  Regressado a Portugal jogou no União de Tomar e no Beira Mar, onde alternou partes de jogos com o banco dos suplentes e humilhações não esperadas nem merecidas, marcando ainda assim mais alguns golos. Depois, o Benfica esqueceu-se que ele existia e que tinha necessidades, já que não ganhara durante a sua fabulosa carreira, o que jogadores de hoje, que tentam chegar-lhe aos calcanhares, ganham num mês, contabilizando juntos, golos e desodorizantes. Houve tempos em que Eusébio almoçava e jantava no Nobre, na Ajuda, porque atraía clientes que lá iam para, além de comer bem, trocar algumas palavras com ele e roçarem a intimidade de uma celebridade. Dizem que levava para casa refeições para a Família. Em 1980, alguém com vergonha e memória, e aqui o nome de Gaspar Ramos convém ser lembrado, o fez regressar à “sua casa” devolvendo-lhe a dignidade. Mas isto foi só um desabafo para provar a mim mesmo que ainda tenho memória, por mais incómoda que seja.
Um dia, quando escrever sobre os fugazes encontros que tive com pessoas conhecidas, não hei-de esquecer que almocei uma vez com o Eusébio. Lembro-me que estavam à mesa outros jogadores do Benfica como o Cruz, o Adolfo, o Malta da Silva, etc., que lhe chamavam “o nosso abono de família”, referindo-se aos prémios de jogo que os seus golos os faziam ganhar.   Quanto à grandeza deste Homem, alguém nos revelou que, poucos dias antes da sua morte, Eusébio mostrou o desejo de dar um abraço ao Artur Jorge, que perdera a sua filha Francisca na noite de Natal. De verdadeiro Rei!
Acham que um Homem assim merecia que alguém se lembrasse de retirar os cachecóis verdes e azuis da sua estátua, ou que o Dr. Marinho Pinto tentasse fazê-lo descer ao nível do inventor da AK 47?
Lisboa, 9 de Janeiro de 2014
Octávio Santos


quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Falar de pintura (mas não só): LIKA YANKO.




 
Hoje vou tentar matar dois coelhos com uma cajadada. O primeiro já eu andava a perseguir desde a abertura deste espaço: pedir a leitores amigos o favor de ciclicamente atenuarem o eco que dentro dele ressoa, pelo vazio resultante da falta de frequência, escrevendo sobre um assunto que dominem, dando-lhe assim um motivo de interesse e ajudando-me a mantê-lo vivo. O segundo, veio-me ao lembrar-me de uma rubrica das Selecções da Reader’s Digest, intitulada “Meu tipo inesquecível”, em que o autor falava de alguém que o tinha tocado particularmente, e é por isso que hoje vou relembrar a pintora búlgara Lika Yanko.

Como sabem, servi na Embaixada de Portugal em Sófia, como Encarregado da Secção Consular, de Junho de 1975 a Dezembro de 1987, e durante esses doze anos e meio, para além das tarefas inerentes ao cargo, andei a arredar cortinas (de ferro) para ver se descobria coisas escondidas. E uma dessas “coisas” foi a Lika, que visitei inúmeras vezes na sua casa/atelier no Boulevard Dondukov, mesmo no centro da Sófia.

Lika Yanko era - faleceu em 2001, com 73 anos - de origem albanesa, tendo nascido em Sófia em 1928. Entrou aos 15 anos para a Academia das Artes, onde estudou pintura na classe do Professor Detchko Uzunov, admirável mestre que, apesar disso,  não a consegue encarrilar nos cânones  vigentes, ou porque o espírito de Van Gogh a habitasse, ou pela sua incapacidade de ajustar o seu estilo original aos então requisitos da arte oficial que a obrigavam, a ideologicamente correctos retratos de operários e camponeses, cenas de heróicos actos militares ou a pujantes paisagens industriais. O certo é que acabou os seus estudos artísticos com a menção de suficiente.

Começando por exprimir livremente - terrível crime de lesa socialismo - o que a sua alma poética lhe transmitia às mãos, Lika Yanko preenchia as suas telas com conteúdos mitológicos, bíblicos ou fantásticos, sempre de uma originalidade absoluta, ressuscitando arquétipos tais como o Sol e o amor, a Anunciação e a maternidade, a fé e a esperança, Orfeu e Eurídice, Cristo e os Apóstolos, o auto-sacrifício e o destino, o mundo do circo, jardins de delícias, o homem e o mar, pescas milagrosas ou menos, enfim, o Universo. Utilizando materiais como redes, cordas e guitas, seixos e vidros coloridos, botões, molas e colchetes, ferragens minutas ou pequenos acessórios de cobre de uso eléctrico, que misturados sabiamente nas telas com tintas e vernizes, transformavam-se, por magia de uma alquimia muito sua, num todo com vida própria, poética e simbólica, transmitindo-nos a sua energia espiritual em obras que, respeitando as tradições bizantinas que impregnavam a velha pintura búlgara, fazem dela uma moderna recriadora de ícones sagrados, ou atrevendo-se pelas tendências da sua época, uma notável intérprete de um vanguardismo ocidental Europeu.

A sua primeira exposição individual teve lugar em Sófia em 1967, tendo sido encerrada seis dias depois; acusada de vanguardismo, formalismo e falta de disciplina, o seu nome foi considerado tabu, estando proibida de mostrar os seus trabalhos até 1981, ano em que Ludmilla Jivkova, então Ministro da Cultura, autorizou novamente uma exposição das suas obras, fruto da sua condição de Filha do ditador Todor Jivkov, que a mantinha imune aos ataques dos cães de guarda do regime, imunidade que lhe custou cara, tendo falecido aos 37 anos, nesse mesmo 1981, em condições nunca bem esclarecidas.

Em Março de 2013, por ocasião dos 85 anos do seu nascimento, foram expostas numa galeria em Sófia, com um enorme êxito, 23 das suas obras, tendo alguém dito que se tratava de uma das mais expressivas artistas búlgaras do século XX.

Ora, durante os últimos dos seus 14 anos de ostracismo e segregação, e também depois da sua reabilitação, que acabou por ser minimizada pela morte da sua “patrona”, tive o privilégio de frequentar, como já acima referi, a casa/atelier de Lika Yanko, de adquirir algumas das suas obras que guardo ciosamente, e de me ter tornado seu amigo, como são prova os inúmeros trabalhos que ofereceu aos meus Filhos e pelo episódio que passo a descrever:

Na sala onde nos recebia, tinha muitos dos seus quadros nas paredes e, entre eles um, enorme, representando o sistema solar com todos os seus planetas, obra magnífica que, pelas palavras secas da Lika sempre que alguém se propunha adquiri-lo, não estava à venda. Uma das pessoas que mais insistentemente perguntava quanto quereria ela para o vender, era a Embaixatriz de França, Madame Le Breton (mais tarde Embaixatriz em Lisboa), que recebia sempre a mesma resposta: - Este quadro não está à venda! Acontece que numa das minhas últimas visitas à Lika, senão a última para dela me despedir, ela subiu numa cadeira, retirou a tela da parede e, estabelecendo um preço modestíssimo, entregou-mo dizendo que o quadro era meu. Está hoje em Paris em casa da minha Filha Margarida.

Antes da sua morte, Lika Yanko doou 82 das suas obras à Sofia City Ar Gallery,  onde se encontram em exposição permanente, e quadros seus são propriedade de inúmeros diplomatas ocidentais que, tal como eu, depois de arrumarem o carro em posição discreta ou em rua paralela, visitavam “às escondidas” o antro de produção de maravilhas que era aquele 1º andar do Boulevard Dondukov, onde éramos recebidos pela Lika, que falava pouco, pela sua irmã Denka, que falava muito, e ouvindo uma voz misteriosa que provinha de um quarto a que não tínhamos acesso, e que, no dizer das manas, era Maman que estava sempre reclamando qualquer coisa. Não tendo os visitantes alguma vez visto tintas, pincéis, cavaletes e outras ferramentas da arte, com excepção de uns frascos de verniz que apanhavam a luz do Sol directamente de uma janela, afirmava uma Embaixatriz de Portugal que a pintora era a personagem misteriosa escondida e que, tanto a Lika como a Denka eram apenas marchands d’art que vendiam as obras da soi-disant Maman. Para adensar este mistério, as fotos que se encontram na net como se de Lika fossem, são, e sou eu a jurá-lo, de Denka, porque a Lika, e sou sempre eu a jurá-lo, é aquela que aparece no quadro com um cão pela trela, que vi durante anos pendurado na sua sala e que também não estava à venda.

Abraço

Lisboa, 2 de Janeiro de 2014.
Octávio Santos

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Natal 2013, perdão, 2013 Natais!

É Natal. Perdão, foi Natal ontem, porque hoje é 26, dia de Santo Estevão que foi o primeiro mártir cristão, apedrejado por aqueles que não lhe perdoaram o seu proselitismo, não lhe dando tempo para ele próprio perdoar quem o martirizou. E o Menino que nasceu ontem, com o ADN que lhe tocou, estaria já a congeminar a forma de perdoar a quem pensou calá-Lo só porque decidiu mudar este Mundo.
Sugeriram-me que tratasse este Natal com ironia; sentei-me a escrever com esse propósito, não fui capaz, e penso que já todos perceberam que onde quero chegar é ao perdão, palavra de fácil pronúncia, igualmente fácil compreensão do conceito, mas muito difícil de levar à prática como programa.
 

Ontem, por ser Natal, e porque vi ultimamente na televisão dois filmes relacionados – “Maria de Nazareth” e “A Bíblia” -, durante os quais assisti a uma multidão enfurecida suspender, perdoando, a lapidação de Maria Madalena, e ao nosso Diogo Morgado, circunstancial Cristo, a perdoar os seus algozes porque não sabiam o que estavam a fazer, resolvi finalmente perdoar a todos, sempre com um olho na reciprocidade.

 

Assim, começo por pedir perdão ao dito Diogo Morgado, porque escrevi há tempos, por inveja, que ele era muito credível no papel de Jesus Cristo, principalmente depois de morto, e perdoo àqueles que, por motivos promocionais, fizeram descer a imagem de um “Smurf” (proximamente nesta rede!) durante a cena do filme “A Bíblia”, na qual os Apóstolos reunidos esperavam a descida do Espírito Santo. Gato por lebre!
 
Perdoo os autores dos relatórios dos swaps, dos bombeiros mortos este Verão, e da queda do avião da LAM, porque sei que as suas conclusões vão servir para perdoar políticos, banqueiros e seguradores profissionais, e banqueiros e seguradores amadores que já foram políticos. Seria um desperdício perdoar os que já não contam, vivos ou mortos que sejam.
 
Lamentando que Cristo não tenha sido perdoado por ter expulso os vendilhões do templo e por ter anunciado a destruição do mesmo, quero perdoar aqueles que programaram a destruição do edifício das nossas certezas, não deixando pedra sobre pedra, e que permitem aos negociantes da nossa desgraça, manter aberta a lucrativa banca onde depositamos as nossas almas em troco dos tostões com que nos matam a fome.
 
Durante o Angelus, na Praça de São Pedro, Francisco chamou a atenção para a banda de tecido branco que rezava:
 
 “I Poveri non possono aspettare!” (Os Pobres não podem esperar).
 
Embora seja Francisco o homem bom que quase todos reconhecem, não me pareceu vislumbrar no seu gesto o mais pequeno perdão para Barrabás.
 
Ao ler o nome Galilei Saúde, envergonhado no rodapé de um exame médico, lembrei-me de perdoar, num gesto magnânimo, tanto os bons como os maus ladrões: os primos zangados, “o aguenta! aguenta!”, os rebentos da Goldman Sachs, os filhos putativos da troyka, que seriam os bons, metendo-os no mesmo saco dos mentores do BPP e do BPN (SLN agora Galilei- há sempre uma tábua de salvação), quais Donas Brancas apresentáveis e com amigos nos lugares mais altos da Nação (ainda o é?), que seriam, digamos, os maus. Sem qualquer rancor.
 
Perdoar Bagão - que nos quer convencer que a nossa palavra "desenrascanço" faz muita falta aos anglo- saxónicos - e César das Neves – amigo dos “pobrezinhos”enquanto tiverem salários de miséria -, que continuam a debitar-nos os ecos das sacristias impermeáveis ao pensamento de Francisco. Perdoar Soares, o laico, e Freitas, o católico que, afinando pelo mesmo diapasão, dizem agora aquilo que os ignorantes e néscios sempre disseram; que o templo vai cair e que o Rei vai nu! Perdoar insignes e mediáticos economistas, de Lourenço, o Vingador, que continua a defender a justeza dos princípios caducos da ciência económica, a Ferreira, o Reciclado, que desceu até ao Sénior (jornal dos velhinhos a quem roubaram as reformas), para nos convencer da bondade da austeridade que, segundo ele (agora) foi o remédio justo para sair da crise, só não tendo resultado mais cedo porque o Tribunal Constitucional cumpriu a sua obrigação. Mal, segundo ele.
 
Não me compete, nem tenho de perdoar, mas aplaudo o perdão que o Senhor Ministro da Administração Interna concedeu ao ex-Director da PSP, “culpado” do triste episódio das escadas de S. Bento - uma espécie de “secos e molhados” em tempo de lei seca -, tendo-o remetido para Paris com cerca de duas dúzias de salários mínimos nacionais.
 
Perdoo sinceramente a revista Exame por ter eleito uma empresa compradora de ouro como a melhor PME do país, tanto mais que empresas do mesmo ramo estão a fechar, talvez devido ao facto de já não termos mais nada de valor para vender. No meu prédio, o boneco dourado sem cara em fundo verde (esperança), que nos convidava a entrar para deixarmos os anéis, deu lugar a uma Bodycare muito atractiva, onde cuidar os dedos entre outras coisas, como a depilação completa masculina. Entrarei um dia destes.
 
É tal a minha ânsia de perdão que, tendo ouvido ultimamente duras críticas ao Papa Francisco pelo seu perigoso populismo, quero desde já perdoar àqueles que, invocando que Santa Marta era irmã de Maria Madalena, comecem para aí a insinuar que o Papa sul-americano (o próximo será negro! ouvi eu) prefere habitar numa casa, cuja patrona tem esqueletos no armário, que viver protegido no seu apartamento de função na ala direita do Vaticano.
 
A propósito de Francisco, gostaria que me perdoassem o meu desejo de, tal como Jesus Cristo ordenou a Lázaro: - Levanta-te e anda!, este repetisse a mesma frase a todos os espoliados e humilhados deste mundo, em nome da freenança. Mas temo que a cólera, mesmo legítima, seja imperdoável.
 
Quero firmemente perdoar à Europa o facto de existir quando isso convém à Alemanha, e de se dissimular, camuflando-se, quando os interesses são outros. Por exemplo: a natural porta de entrada do Velho Continente para todos os refugiados africanos e médio-orientais é a Itália que, por força dessa predisposição geográfica e por incapacidade organizativa, tem essa imensa massa de infelizes amontoados em locais que não é um exagero denominar “lagers”. Agora que umas dezenas desses desesperados e maltratados“hóspedes” coseu literalmente a boca com agulha, linha e dedal, em sinal de protesto, estou mesmo disposto a perdoar a Itália por incapacidade, e a Europa por cinismo e hipocrisia.
 
Desejo ainda perdoar todos os fiéis de balança que, por estarem ao serviço de entidades com peso, são tarados para afixarem resultados enganadores. Que servem os seus interesses e, principalmente, os da sua Família.
 
E também aqueles que não suportando desvios a regras precisas de vestuário na corte do faz de conta, votam ao ostracismo todos os que não usam avental, incluindo aqueles que não sabem cozinhar.
 
Por último, perdoo todos aqueles que se apresentaram no funeral de Mandela, ou dele escreveram rasgados elogios fúnebres, por oportunismo político, fingindo que se adaptaram aos novos tempos.
 
Acabo pedindo humildemente perdão pela minha incapacidade de Vos transmitir um texto tranquilo de Natal, como todos desejariam, e mereciam, coisa que não perdoo a mim mesmo. Bom 2014, malgré tout!

Lisboa, 26 de Dezembro de 2013.
Octávio Santos