quinta-feira, 10 de julho de 2014

Oi! BEStial fotografia de um cidadão português a repousar (dormiente, segundo Michelangelo e Caravaggio) junto à porta da Igreja do Corpo Santo, dedicada ao Presidente da República e sua Família, à Presidente da Assembleia da República, ao Primeiro Ministro e ao seu Governo, aos Conselheiros de Estado (incluindo os que opinam nos mass media) e, avulso, a Bavas, Bentos, Mexias, Moedas, Ratos e outros génios sempre prontos junto ao pote que se diz estar onde acaba o arco-íris


Saía eu da primeira parte de uma sessão séria e internacional no Ministério das Finanças, que teve a presença de um membro do Governo que não sabia o que dizia ou que dizia aquilo que nós ainda não sabíamos, mas que ficámos a saber pouco depois, que não por ele, para rumar até à Pombalina - não sem antes ter aspirado o odor de uma certa pia no Martinho da Arcada para matar saudades de Pessoas que por ali passaram -, café/tasca na esquina das ruas da Madalena e do Comércio, onde se comem as melhores sandes de leitão da capital, e de onde, após satisfazer a gula, parti a deambular do Município a S. Paulo - magnífico o trompe l’oeil do tecto da Igreja -, passando pela Rua Nova do Carvalho, onde escorts de um turismo íntimo esperam, não só pelos clientes que anseiam conhecer uma realidade mais profunda dos lugares que visitam, mas também pela carteira profissional que as meta em regra com o fisco (não as estou a ver com o terminal multibanco no cinto de ligas), pela Praça da Ribeira em obras, pela Travessa do Cotovelo, onde só o lixo se acotovelava, pelo Largo do Corpo Santo, onde bati a foto que ilustra e foi pretexto deste texto tão fora do contexto, pelo Terreiro do Paço onde, para além dos tão alfacinhas rickshaws de aluguer, o que mais me chamou a atenção foi a nova especialidade lisboeta, na senda do estrondoso êxito do pastel de nata de bacalhau, que é o pastel de bacalhau que, quando se morde deita cá para fora um cremoso queijo da serra, tudo anunciado em belos posters, no limite do pornográfico, pespegados nos pilares pombalinos dos ex-Ministérios transformados em locais de lazer e engorda. Vem-me de perguntar se nos não ex-Ministérios não é a mesma coisa. Ao regressar às Finanças, desta vez pela porta da Rua da Alfândega, dei comigo a apressar o passo na Rua dos Bacalhoeiros para fugir da visão proporcionada pela fachada do estabelecimento de mercearias finas “Silva & Feijó”, pensando estar perdido e em perigo no kasbah de Marrakech ou no souk do Cairo, e não em Lisboa, melhor cidade europeia para estadias de curta duração segundo a World Travel Awards.   

Mas todo este preâmbulo para lembrar figuras desta Lisboa como o dormiente da foto, os párias da Liberdade, e refiro-me à Avenida, o casal Florindo e Flora (nem inventado) que vai para 23 anos está à porta da Procuradoria Geral da República reclamando justiça, sem que nenhum dos Procuradores que por lá passou anos a procurar, e aos quais dedico também a foto da imagem, ou justiça lhes faça ou os mande internar num manicómio, porque uma coisa é certa: há ali um caso de loucura, a dois, ao sol e à chuva, se for do lado de fora daquela porta, ou colectiva, no conforto dos silêncios secretos do Palácio, se for do lado de dentro. E também a Liana. Mas para Vos falar da Liana terei de explicar tudo. Para aqueles que conhecem a Marcella (com dois LL) vai ser fácil perceber, mas para aqueles que não a conhecem terei de ser muito sucinto para não encher três páginas. Vou tentar.

A Marcella Reis é uma cidadã brasileira que vive em Portugal há já 15 anos, poeta e escritora com uma formação de animação artística ministrada no Chapitô, que conheci numa sessão de poesia na Livraria Barata, tendo o seu poema “Descendente do Mundo” me impressionado a ponto de lhe pedir para o dizer na Biblioteca José Saramago, em Loures, quando da apresentação do meu segundo livro. Para isso propus-lhe uma espécie de apanhados, ao que a Marcella imediatamente aderiu. E assim aconteceu. Podia ter corrido muito mal devido à intervenção de alguns presentes na sala que não perceberam a marosca, o que se pode considerar um êxito na óptica dos apanhados, com a Marcella a ter de despachar a leitura do seu poema a gritar para ser ouvida. Não sei se todos gostaram, para mim foi um sucesso, para a Marcella uma loucura, tanto que estava feliz, tão feliz como naquela noite em que eu disse umas palavras na apresentação do seu segundo livro, no Hotel Real Palácio. Entendimentos entre “palhaços” que nem todos entendem. Ora a Marcella, depois de tudo isto, mandou-me faz tempo um e-mail contando-me que uma Senhora de nome Liana passava os seus dias sentada num degrau à porta do Centro Comercial de Alvalade, sobrevivendo das poucas moedas que lhe deixavam cair no regaço e da caridade de algumas Senhoras um pouco mais sortudas que ela, como era o caso da Mãe da Marcella, a qual veio a saber da boca da Liana que, fruto da queixa de alguns lojistas do Centro Comercial, a PSP a tinha intimado a deixar de “estacionar” naqueles degraus, o que para ela representava uma ordem de despejo da sua sobrevivência. No Largo, Santo António, na sua estátua, nada podia fazer. Pedia-me então a Marcella no seu e-mail que tinha em anexo uma foto da Liana sentada no seu degrau - mas ou o apaguei ou não o encontro entre centenas de outras missivas electrónicas -, se eu me importava de assinar um papel a pedir a revogação da sentença que iria complicar a vida já de si complicada da Liana.

Em vez de responder, peguei em carta e pena e escrevi um poema para a Liana, certo que, apenso ao abaixo-assinado teria mais força e impacto que uma simples minha assinatura. Transmiti-o então à Marcella que se desfez em agradecimentos exagerados, passando-me um certificado falso de genialidade e de solidariedade, o qual arquivei no file “Brasil” da minha memória. Não constitui notícia o facto de, depois deste episódio, nunca mais ter ouvido falar da Liana nem ter tido conhecimento do desfecho da sua história, mas o que é para mim estranho é que a Marcella nunca mais se comunicou comigo, embora eu lhe transmita sempre à quarta-feira a edição deste meu blogue. Dizia alguém que falava bem que a vida é feita de encontros falhados, e foi o que me aconteceu com a Marcella, mas, digo agora eu, que a minha efémera ligação literária com a Liana foi um desencontro conseguido.

Mas eu que vivo de livros e de sonhos, não poderia deixar passar o ensejo de Vos relatar um quase/sonho que se entrelaçou com a leitura de um não/livro, em noite de insónia mal dormida de Sábado para Domingo nas margens do Rio Seixe, fronteira entre o Alentejo e o Algarve. Se considerarem relevante posso adiantar que a cama estava do lado algarvio. O quase/sonho, e chamo-lhe assim porque foi daqueles que, qual telenovela, continuava após sucessivos estados de alerta e parecendo por isso muito longo, embora, como todos os sonhos que parecem não ter fim, nos deixam na memória imagens vagas e fugidias que se esvaem ao despertar. E foi para o fixar que peguei no não/livro e, enquanto o lia ou fingia lê-lo, ia memorizando o essencial que é facilmente resumível, como segue: Entrei num café com um longo balcão corrido, ficando o meu Irmão Vasco cá fora porque estava a cavalo. Pedi um sumo de laranja natural, mas daquela laranjas sanguíneas sicilianas, sumo que foi servido num copo alto que tinha três esferas de vidro a servir de base, e pelas quais o sumo se escoava lentamente sobre o balcão à medida que me iam enchendo o copo. Reclamei, e então meteram o copo dentro de um saco da plástico transparente continuando a enchê-lo, ficando eu na mão com um saco de plástico cheio de sumo vermelho com um copo roto lá dentro. Vim à porta para mostrar ao Vasco a insólita cena, mas a rua estava vazia, nem Vasco (a) nem cavalo, e voltei para dentro sem nada nas mãos já que o saco e o seu conteúdo se tinham também evaporado, tendo acordado definitivamente sem perceber nada, mas convicto que não iria incomodar Freud para uma explicação. 

Acordado, peguei nas 5 Cartas que Mário Cesariny escreveu a António Cândido Franco, de Poeta a Poeta, entre Março de 1977 e Fevereiro de 2000, e mal comecei a ler, agradeci de todo o coração a quem me proporcionou tal leitura, porque cada linha cada tesouro, e juro que Vos hei-de transmitir parte deles em escritos sucessivos porque, para além do interesse que os mesmos possam ter, sinto isso como uma obrigação. Desta vez, e lembrando-me das inúmeras leituras que faço da obra de Eduardo Lourenço “O Labirinto da Saudade - Psicanálise Mítica do Destino Português”, deixo-vos aquilo que Aquilino Ribeiro e António Sérgio disseram de D. Sebastião que, ai de nós, continua a ser o Desejado (Encoberto) que sairá do nevoeiro para nos salvar. Dele (da nossa salvação), disse Aquilino no seu livro “Príncipes de Portugal; suas grandezas e misérias”: «rebelde, impulsivo, desaparafusado, louco dez vezes, infelicitado por uma terrível paranóia congénita, impotente, incapaz de satisfazer ao débito conjugal, nevropata, dementado, louco, zorato, imprudente, estupidamente sôfrego». Sérgio foi mais comedido no primeiro volume dos seus “Ensaios”: «o vulto de um romântico pedaço de asno – desse inexcedível pedaço de asno que foi o senhor rei D. Sebastião». Boa vai a moenga, diriam aqueles que, na zona da minha insónia, dormiam o sono dos justos, caso estivessem acordados e descobrissem quais os recônditos desejos de um povo à espera da sua epifania, que lá tardar, tarda!

Liguei então as laranjas sicilianas do meu sonho, à juventude também siciliana de D. Isabel de Aragão, Avó do “pedaço de asno” e “maravilha fatal da nossa idade”, no seio de uma família que tinha o Papa como o seu mais perigoso inimigo, e que veio a ser canonizada por um seu sucessor três séculos depois e só após a Santa Inquisição ter mandado suprimir todo um capítulo do seu, digamos, curriculum vitae, que dava conta “dos desacatos e irreverências da rainha” fazendo “ de uma bruxa uma santa”, como escreveu Cesariny. Boa vai a moenga se é desta extirpe que os portugueses esperam o resgate!

Depois de haver lido este texto, parece-me ouvir a Manuela a lamentar-se pelo facto de eu nunca lhe ter dedicado um poema como o que fiz para a desconhecida Liana; bato com a porta sem sequer balbuciar uma desculpa, ouço-a ainda a recomendar-me para ter cuidado a atravessar a rua, mas não tendo talento para lhe dedicar um poema do tipo da Sagrada Família de António Gaudi, obra grandiosa e perenemente inacabada, apetece-me ter o fim do genial arquitecto catalão, atropelado anonimamente na sua Barcelona por um carro eléctrico, e dou comigo a atravessar sem olhar uma das ruas de Lisboa onde já não passam eléctricos mas subsistem os carris. “Alentejano num drome”, dizia o meu Amigo Francisco Maria Caramba, e os meus desejos estão a anos luz da espera de D. Sebastião. Boa vai a moenga!


Um abraço.


Lisboa, 10 de Julho de 2014
Octávio Santos


(a)  "Estás em cada pormenor, em cada pensamento, fazes parte de nós..... SEMPRE!!", como me escreveu a minha Sobrinha Rita Filipa no dia em que fez dois meses que o seu querido Pai e meu querido Irmão nos deixou.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

ÚLTIMA HORA: o pintor falsário que prestou falsas declarações sobre a última tela de Picasso, ataca novamente seguro de beneficiar da impunidade vigente no interior das quatro linhas do seu rectângulo habitacional.


Ele há sonhos que te complicam a vida, criando a confusão e o caos, e não me refiro ao sonho da anunciada vitória no Brasil nem àquele de viver num país decente, que esses, ao menos, nos deixam uma esperança para o futuro, mas de um sonho sobre pintura, provocado talvez pela impunidade com que escrevi a “Última Tela de Picasso”- pg. 141 do meu “Moínho de Vento, 23” -,  já que não houve uma única voz a denunciar o falso da minha pintura literária, havendo mesmo quem a transpusesse com grande arte  para a  tela, acrescentando valor àquilo que, para além de valor não ter, deveria ser punido por desrespeito da verdade. E ainda bem que falo de sonhos, até agora só meus, e de textos e pinturas circunscritas a um restrito número de pessoas conhecedoras dos factos, porque no âmbito do país a coisa fia mais fino e estes dislates não são aceites, ou então não seríamos a Nação que somos, e de que nos orgulhamos, com quase 900 anos de história que curiosamente se cumprem no ano do meu centenário. Cá estarei para festejar!

Mas vamos a factos que nos tranquilizem antes de entrar em divagações sonhadas que nos poderão desviar para uma outra realidade, esta virtual e inquietante. Temos, hoje e agora, grandes homens que o mundo nos inveja. A França ainda hoje vive do prestígio do General De Gaulle, o qual, para além do apelido se confundir com a Pátria, a punha acima de tudo em todos os seus gestos e acções, até no seu sempre repetido “Vive la France” quando testava um microfone. Depois, pobre França, com Sarkozy e Hollande, este com nome de outro país, não lhes resta que recordar o General e a sua “grandeur” e votar naqueles que ele combatia e desprezava. Nós, felizmente, temos o Presidente Cavaco Silva, a quem dei o meu voto sendo por isso o "meo" presidente (a), que acaba de receber o diploma de “Bom Aluno” das mãos do gauleiter germânico, após ter provado, sob interrogatório, ter aprendido a lição. Reparem na diferença: para De Gaulle existia a França e o sonho de uma Europa do Atlântico aos Urais, para Cavaco Silva existe “a minha Família” (sempre que possível no Salto do Lobo) e o sonho realizado do Atlântico à Arena MEO. Talvez por isto o Miguel Sousa Tavares lhe chamou palhaço - com a legítima indignação do Chapitô -, sem qualquer consequência, não por ser filho da figura ímpar que tardiamente mereceu o Panteão, e mesmo assim empurrada por Eusébio, mas por ser compadre do Dr. Ricardo Salgado. O mesmo não aconteceu ao desesperado anónimo que vociferou parte da sua cólera legítima sobre o ilustre personagem, que esse sim, caiu sob a alçada da lei, condenado a pagar uma coima igual ao valor da magra reforma declarada em tempos pelo ofendido. Uns perdoam-se porque estão encostados aos donos do país, outros castigam-se porque são fracos, restando a tríade de amigos incómodos que, também eles patriotas impolutos, pugnaram pela grandeza da Pátria, confundindo-a com as suas algibeiras, no Governo, na SLN, no BPN, na Galilei, em Maricá, Marrocos ou Cabo Verde, batatas quentes que não se sabe agora o que lhes fazer.

Tencionava passar já para o outro assunto que interessa a Nação para além da política, isto é, o futebol, mas devo deixar uma nota sobre o Dr. António Costa porque, passando várias vezes por semana na Avenida Edgar Cardoso - aquela das pegas, entre a Rua Castilho e o Parque Eduardo VII, e estou já a ouvir perguntar o que é que vou lá fazer com a minha idade -, e tendo de circular a 20 à hora tal é o estado miserável do piso, me pergunto se tal é devido a uma exigência de marketing da Associação Nacional das Peripatéticas para fazer abrandar os clientes, ou se para aquele que deu ultimamente razão a Unamuno, que disse que Portugal era um país de suicidas, é tudo normal e é assim que vai querer o país quando for Primeiro-Ministro: esburacado mas com um empreendedorismo agressivo.

Mas vamos lá ao desporto rei só para vos dar parte do meu orgulho pela maneira como os rapazes se bateram, pelos 5-1 à Irlanda durante a excursão aos States para ver se o clima era idêntico ao de Manaus, pelo justo spread que nos divide da Alemanha, pelos 2-1 ao Ghana que nos coloca no 18º lugar, só abaixo do Equador na segunda metade da tabela, pela excelente actuação do corpo clínico coadjuvado por um fisioterapeuta do Real Madrid, mas sobretudo pelas fortes convicções do seleccionador Paulo Bento que, não abandonando o barco (pávidos cobardes de outras selecções derrotadas demitiram-se ou puseram o lugar à disposição) e prometendo a mesma leal e esforçada tripulação para o Europeu de 2016, dando-nos a certeza que, se não foi desta será para a próxima, se Deus quiser e desde que o Diabo não se oponha. Do que não estou a gostar é da maneira como os comentadores desportivos (parecem aqueles comentadores políticos que opinam, dão bitaites e mandam recados, entre as reuniões do Conselho de Estado de que curiosamente alguns fazem parte, um havendo que até faz pequeninas revelações à sua medida), estão agora a revelar coisas que já sabiam antes: que para além do Godinho da sucata de Ovar há um outro que faz a chuva e o bom tempo na Federação, que o agente de Paulo Bento tem influência nas suas escolhas (quem diria!), que quem não tem a password fornecida pelo CR7 aos seus amigos não tem acesso à equipa de todos nós, que são as apostas on line que ordenam o que se faz e o que não se faz no mundo límpido e transparente do futebol. Apetece-me limar os caninos e emigrar para o Uruguay!  

E agora finalmente o sonho, pois já estava a esquecer o assunto principal que me moveu a escrever desta vez, mas que era indispensável explicar o porquê de não sentir medo das consequências do crime artístico cometido, lá isso era, porque quando o mal se confunde com o bem a prepotência sente-se com direitos. E foi isso que se passou no meu sonho. Eu conto, embora a normal confusão dos sonhos não permita um relato linear e verosímil. Num museu, não sei qual, não sei onde, uma exposição de obras de grandes mestres da pintura estava patente ao público. E eu estava lá, e também Ela (a mesma da Última Tela de Picasso), não dando porém pela minha presença como se eu fosse o Homem Invisível, no meio daquelas salas repletas de maravilhosos quadros, cada um na sua moldura, a ”Madonna col Cardellino”  e “La Fornarina”, de Raffaello, mulheres feias e malditas da Paula Rego que parecem acabadas de violar por um dos seu cães raivosos, também eles mulheres, “A Vénus ao Espelho” de Rubens, “Amore  Sacro ed Amore Profano”, de Tizziano, homens que reflectem na face e no corpo  disformes o horror  que lhes vai na alma, de Bacon, a “Donna con l’Ermelino” de Da Vinci, e tantas mas tantas outras maravilhas que não me vou pôr aqui a elencar até porque - os sonhos são estranhos -, não me lembro quais fossem, as cores esbateram-se-me na memória e começo a ver obras que não existem, ou se existem não estavam lá, ou eram apenas montagens feitas pela minha imaginação. Assim, vi um Hitler no “Cristo” de Mantegna, um “Retrato de Dorian Gray” em mosaico degenerativo com fim (in)Fausto à vista, a “Mulher Cão”, da Paula Rego a saltar para dentro do “Nascimento de Vénus”, de Boticelli, bonecada de Keith Haring a fazer ginástica numa geometria de Mondrian, rasgões de Fontana na Gioconda, uma paisagem marítima de Turner invadida pelos Pássaros de Hitchcock, Musas Inquietantes de De Chirico a povoarem um campo de trigo de Van Gogh e outras coisas, tantas e esquisitas associações de visões impossíveis na vida real.

Mas quando a vi virada para a parede do fundo da sala a admirar “La Fornarina”, de Raffaello, e a alçar a perna sobre a moldura para entrar na obra, estando eu, do outro lado, como que hipnotizado pelo homem sentado de Bacon, que espetou com pregos na tela a figura - Homem ou Mulher? - que a si se adapta, e seguramente merece, lembrei-me mais uma vez da “Última Tela de Picasso” e, como se não houvesse ninguém no museu que  impedisse a minha compulsiva, mas não por isso  menos execrável acção, atirei-me à tela de Raffaello, já com Ela lá dentro, cortei-a com fúria à medida da tela dentro da outra tela do fumador de Bacon, e, entrando nela,  lá a espetei  arruinando com o meu acto insano duas obras de arte e, ao mesmo tempo, a existência dos que nelas habitam. Impunemente, espero, mas não sei por quanto tempo. O futuro o dirá.

 Um abraço.


Lisboa, 3 de Julho de 2014
 
Octávio Santos

(a) O meu Presidente, com P maiúscula, foi, e continuará a ser, o Dr. Luís Fontoura. Boa Viagem, e vemo-nos um dia destes se Deus quiser.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Morreu a escrita criativa e a poesia foi às urtigas; resta o Brasil, terra da promissão onde os Manuéis e Joaquins construíram um futuro, hoje já sem nós, centro de um mundo redondo não achatado nos pólos.


Sento-me para escrever qualquer coisa que jeito tenha, com a mesa de trabalho repleta de papelinhos com notas que fui tomando durante a semana, mas as coisas tornam-se confusas, os factos e os não-factos anotados entrechocam-se, o que ouço na rua, nos transportes públicos, no supermercado, em locais sérios onde fala gente séria e na televisão, não tem nexo ou desmente-se a si mesmo, como se as pessoas não tivessem memória ou fosse melhor não tê-la para continuarem a fingir viver neste faz de conta de purgatório que nos arranjaram, local de sobrevivência a recibos verdes para quase todos os que ainda têm a sorte de ter trabalho e de reformas de miséria para os que já não podem trabalhar, com a ténue esperança de atingir o céu onde se deleitam os poucos que arquitectaram tudo isto, expiando-nos lá de cima e decretando pontualmente quantos e quais às pazadas devem ser deixados cair para o inferno, e a conta-gotas os que, por apelido ou manha, podem elevar-se às delícias do seu habitat, porque poderão, talvez mais tarde,  ter préstimo para qualquer operação que lhes saia do BEStunto e  onde não queiram sujar as mãos.

Quando trabalhava, ou fingia fazê-lo, era uma chatice ter de escrever relatórios claros e circunstanciados, que muitas vezes se viravam contra mim por ter lá pespegado com tudo o que tinha visto e ouvido, como um principiante sem 52 anos de trabalho às costas. Mal me libertei destas inúteis, estúpidas e, para mim, prejudiciais e não lucrativas obrigações, a primeira vez que fui livre de não escrever  sobre um acontecimento onde estive presente, veio-me à cabeça de o contar não por escrito, mas com uma colagem que depois deu em poster, e falo do III Congresso Internacional Fernando Pessoa, ao qual me referi no meu texto de 12 de Dezembro de 2013, intitulado «Fim de semana do “Desassossego”». E assim me divirto nesta minha nova “dolce vita”.

Sem veia inventiva começo já por desmentir o título  e volto à escrita criativa e, sobretudo, ao “binómio fantástico” de Gianni Rodari,  a propósito do piquenique da Avenida da Liberdade, festa campestre promovida por um dos donos da ditosa Pátria sua amada (pudera!), que tantos protestos levantou vindos dos lojistas ultraricos que apostaram em transformar o velho Passeio Público em  Champs-Élysées, via Montenapoleone ou Kartner Strasse da parvónia, e têm agora de suportar o cheiro a estrume de vaca, a brunidura de porco alentejano e, sobretudo, a português mal vestido e suado em busca de uma entremeada, uns coiratos,  uma bejeca  ou do Toni  Carreira (tudo coisas que só lhe fazem mal), coitados deles que já suportam todos os dias os “sem abrigos” que habitam, isto é, comem e bebem, descomem e desbebem, e dormem nas soleiras das suas montras e portas douradas. Protestos justos e sacrossantos, já que, com franqueza, descer a Avenida da Liberdade, de dia ou de noite,  e ver o espectáculo destes portugueses, não de segunda como no tempo da outra Senhora, mas de quarta ou quinta, a despromoverem o turismo milionário que ronda as portas da Prada, Boss, Armani, Cartier, Villebrequin e mesmo Fly London (compra o que é nosso!), é altamente degradante por  antipatriótico. Será que estes piegas preguiçosos não se lembram que é necessário, para o seu próprio bem estar, atrair investimento estrangeiro?  E foi por ter visto um destes sem vergonha a coçar os pelos do púbis (tão inspiradores do Dr. Catroga) na selecta avenida, que peguei no “binómio fantástico” que fecha o título de hoje,  “achatado nos pólos”, e pensei que o incómodo e abusador comichoso, não estivesse a coçar-se só por provocação à sociedade que o evita,  ou vingança contra quem criou todas as condições necessárias para o empurrar para aquela  situação, mas simplesmente por que tivesse “ chatos nos pelos”. Tão simples como isso! 

E já que fui ao título buscar assunto para não vos deixar sem texto, agarro-me desta vez à boia dos Manuéis e dos Joaquins, nomes que no dizer dos brasileiros eram os únicos dos portugueses que chegavam ao país em busca da árvore das patacas, embora eu tivesse tido um Tio paterno chamado Edmundo que para lá rumou nos anos 20 do século passado, trabalhou nas árvores da borracha sem encontrar a das patacas,  regressando à pátria ainda jovem com uma mão atrás e outra à frente.  Mas não são só os brasileiros que gozam com os nossos nomes, pois por cá gente há, e daquela que conta,  que se pode permitir dizer em público coisas das quais se deveriam envergonhar, ou pelo menos pedir desculpa. Assim, ouvi há tempos na televisão - todos aqueles que contam vão à televisão – o Professor Valadares Tavares, que soube depois ser também Visconde, dizer, a propósito da política de austeridade, para ele justa, ser natural que o Senhor Santos da mercearia não percebesse o alcance dessas políticas e contra ela se rebelasse;  já tinha esquecido o episódio, ou pelo menos arquivado no rol das imbecilidades com que todos os dias alguém nos brinda, não fora vir agora, sempre na televisão, o Professor Marcelo Rebelo de Sousa declarar que o problema do Rei D. Juan Carlos eram os Silvas, referindo-se aos reais genros plebeus e com fama de pouco honestos. Gostaria de ouvir estas duas respeitadas figuras da cena nacional, ambos Professores com apelidos de peso, repetir estes mimos durante um qualquer evento na Fundação Calouste Gulbenkian, na presença do seu Presidente, Artur Santos Silva.

Voltando ao título, já que não tenho outra fonte onde pescar inspiração, relembro que o problema da 4ª melhor selecção do mundo, a mesma que tem o melhor jogador do mundo, está muito a montante das quatro linhas e de quanto lá se passa, e senão vejamos só três coisitas sem importância:

- Todos ouviram à exaustão as elegantes declarações do Presidente do SCP, Bruno de Carvalho, a propósito das eleições para a Presidência da Liga de Clubes; achei tanta graça que até escrevi a quente um papelito sobre o assunto;

- Um dos nossos centrais, o naturalizado Pepe, que já no seu clube, o Real Madrid, deu, num momento de nervosismo normal em qualquer atleta, seis pontapés na cabeça de um adversário caído por terra, para além de outros episódios reveladores do seu temperamento, continua a ser convocado e a fazer parte da equipa de todos nós que tantas alegrias tem dado aos portugueses, com a sua preciosa ajuda;

- Será que a culpa não é sua, já  que vemos sentado no banco destinado aos altos dirigentes  da Federação Portuguesa de Futebol, o João Pinto?  Não percebi porque é que no Domingo passado, com um árbitro argentino a dirigir o Portugal-Estados Unidos, não o afastaram desse banco como precaução contra a repetição de pregressas atitudes coreanas de “boa” e ainda fresca  memória.

Uma coisa é certa: vão correr rios de tinta sobre este novo Saltillo, todos os brilhantes comentadores televisivos se vão esgatanhar para ver qual deles diz o maior disparate, e ninguém vai lembrar a simples máxima - será coisa de velhos? - de que o exemplo vem de cima.

Termino,  fugindo ao título que já está espremido não tendo mais nada para me dar, lembrando as rábulas televisivas diárias do Ricardo Araújo Pereira - um dos meus mais jovens maître à penser -, intituladas “Melhor que falecer”, a propósito das viagens diárias que fiz no autocarro 738 até ao Largo do Rilvas durante os 11 meses que passei nas Necessidades, até que um qualquer Rosalino, não tendo mais que fazer, me mostrou o cartão vermelho , por falta não cometida, em forma de despacho ad personam do qual ainda hoje me orgulho, porque numa dessas viagens, de um grupo de teenagers saudavelmente barulhentas e irrequietas, bonitas, lavadas e bem vestidinhas, isto é, não provenientes da Zona J ou coisa que o valha, uma delas falava ao telefone com uma sua irmã, pedindo-lhe insistentemente que dissesse à Mãe que não iria chegar cedo a casa porque tinha um programa com as amigas: - Olha mana, diz à Mãe que vou estudar para casa da Joana, que ela assim não chateia!  A resposta da mana não deve ter sido de molde a satisfazê-la, pelo que a menina, visivelmente irritada gritou um “Oh mana vai levar no cú!” e desligou. Eu tartamudeei um ”Bem vinda Princesa!”,  fui  olhado de esguelha e tomado por mais um velhinho maluco daqueles que povoam os transportes públicos, as Senhoras da minha idade baixaram os olhos e deixaram de falar dos filhos desempregados, das promoções do Pingo Doce, dos baldes que têm no quarto para aparar a água que pinga do tecto, das suas doenças e das esperas no Centro de Saúde, e a sã alegria das jovens voltou a dar cor e luz ao machibombo. Melhor falecer, caro Ricardo, e, no meu caso, por incompatibilidade ambiental e por uma questão de higiene mental.

Ao reler tudo, como sempre faço, descubro que também falo de poesia no título, e então volto atrás e, agora que já só escrevo quadras para manjericos, dado o êxito do texto dedicado ao St. António,  acabo com esta à laia de digestivo para a comida pesada que hoje Vos servi:

Mando a poesia às urtigas

E com ela vou também

P’rás colher e fazer migas

Que me vão saber tão bem!

 
Abraço

Lisboa, 26 de Junho de 2014
Octávio Santos

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Arrumar galopes e vendavais que nos vão no peito




O título não é meu mas do Curso de Poesia que o Professor José Fanha ministrou no El Corte Inglès, de 10 de Fevereiro a 5 de Março. 7 lições, cada uma com um título que não teve qualquer atinência com o desenrolar das mesmas,  não se vislumbrando galopes e vendavais a merecerem arrumação, talvez porque, ao contrário daquilo que se esperava,  não foi dada oportunidade aos assistentes para falarem das suas experiências poéticas e muito menos para dizerem um pedacinho que fosse do fruto dessas experiências, embora, no decorrer das lições,  tivessem sido criadas excepções, a que me referirei no momento próprio


De 27 de Março a 22 de Maio, com um interregno para o “obrigatório” 25 de Abril, escrevi 8 textos sobre as 4 sessões de Escrita Criativa em que participei na Culturgest, vendo as audiências precipitarem, talvez porque quis fazer de mais. Aprendida a lição, não vou escrever 7 textos sobre as 7 lições do Professor Fanha, mas apenas um, no qual vou tentar contar tudo aquilo que aprendi, não sem dizer que a assistência, de 60 pessoas com uma média etária acima dos 50, era composta por 80% de Senhoras e menos de 10 % de falantes. Agora, folheando todas as notas que tomei ao longo das lições, vejo que me é impossível escrever em 3 páginas tudo aquilo que aconteceu e foi dito, pelo que, me limitarei a dar umas dicas, com a pretensão de pôr os meus leitores a pesquisar sobre aquelas que lhes despertarem mais interesse, transformando este texto em mais uma “lição”, desta vez livre e sem mestre, limitando-me a repetir o que disse Fanha (J.F.):

 

- A poesia é a linguagem dos símbolos e um dos pilares da construção de Portugal;

 

- J.F., que diz muito bem poesia, nitidamente inspirado por João Villaret, foi com Ary dos Santos, Mário Viegas, José Jorge Letria e outros, um dos jovens que fizeram tremer o antigo regime com as suas poesias;
 
- Poetas árabes houve que muito influenciaram a poesia portuguesa, como Al-Mu’tamid e Ibn El-Arabi, e destes e doutros e de muitas outras coisas, fala o arabista Adalberto Alves nas suas obras, “Ecos de um passado árabe”, “O meu coração é árabe” e “As sandálias do mestre”;
 
- Houve também poetas judeus com grande influência na nossa poesia, e não só, mesmo após a sua expulsão: Jorge Luís Borges, descendente de judeus portugueses, escreveu o poema “As chaves de Salónica” sobre a única coisa que os judeus expulsos da Península Ibérica levaram para o exílio, as chaves da casa que deixavam. Herberto Hélder é um dos nossos grandes poetas de origem judaica;
 
- Enquanto Miguel Torga disse que Camões era um cedro desmedido na pequena floresta portuguesa, Eduardo Lourenço afirmou que Fernando Pessoa tinha o sonho de ser um super Camões;
 
- No século XVII muitas freiras, inspiradas no Cântico do Cânticos, escreveram poesia: Soror Violante do Céu, Soror Maria do Céu e Soror Mariana da Glória, entre outras;
 
- No século XVIII a única Mulher a afirmar-se na poesia é a Marquesa da Alorna (Alcipe), primeira Mulher ligada à maçonaria, mas no século XIX não há nenhuma poetisa portuguesa digna desse nome;
 
- No século XX surge o escândalo Florbela Espanca, violenta nos temas e explícita na linguagem, que abalou a fechada classe elitista alentejana. Há ainda Judith Teixeira, poetisa sáfica, “vulcão e brasa ardente” no dizer de Zenóbia Collares Moreira, que viu a sua obra “Decadência” apreendida por “imoralidade” e por constituir “literatura decadente”, tal como “Canções” de António Botto e “Sodoma Divinizada” de Raul Leal;
 
- Afirmou J.F. que Sofia de Mello Breyner não fazia versos de amor; pedi licença e li o seu pequeno poema “Ausência”. Contrapôs J.F. que se quis referir ao amor carnal, sendo Sofia, nesse particular, muito diferente de Maria Teresa Horta que privilegiava o tema;
 
- Aconteceu que um rato, um pequenino mus musculus, apareceu a espreitar por baixo da toalha da mesa do buffet, atraído talvez pelo odor das bolachas. Um certo histerismo colectivo levou J.F. a alertar a responsável pelo Âmbito Cultural do ECI que prontamente compareceu, pedindo desculpa e dizendo que seguramente o animalzinho provinha do restaurante, e que deveria suspender a lição para permitir a intervenção da brigada de desratização, tendo sido contrariada unanimemente pela assistência que quis continuar a lição mesmo com a presença do inofensivo murídeo. Pensei em Ratatouille, o rato cozinheiro;
 
- No dia seguinte apareceu a mesma Senhora a pedir desculpa do episódio do rato (já neutralizado pelos colegas da manutenção, o que provocou ohs! de repúdio na assistência);
 
- J.F. falou das correntes literárias preponderantes durante o Estado Novo: Modernismo, Neorealismo e Surrealismo, referindo a propósito Fernando Pessoa, Manuel da Fonseca, Soeiro Pereira Gomes, Alves Redol, Joaquim Namorado e Políbio Gomes dos Santos;
 
- Falou da censura da escrita, da imprensa, do teatro, e disse que Snu Abecassis, casada com um industrial adepto do Estado Novo, escondia livros proibidos na Lusalite que era a fábrica do marido. Chico Buarque para escapar à censura da ditadura brasileira escreveu canções com o pseudónimo da Julinho da Adelaide, entre as quais “Acorda amor”;
 
- Pedi licença e perguntei se hoje não havia poetas que escrevessem contra o estado das coisas: disse-me que Nicolau Santos (Expresso) escreveu ultimamente um livro de poesia de denuncia. Falei-lhe e mostrei-lhe o livro” Manifesto Anti Crise”;
 
- J.F., saindo da poesia, disse que o neo-realismo começou em Portugal na pintura dez anos antes da escrita, com o quadro “O Almoço do Trolha” de Júlio Pomar, que o surrealismo nasceu em França em 1924 e chegou a Portugal em 41, que o movimento Dada nasceu em Zurique em 1916, por um grupo que recusou a barbárie da 1ª Guerra e resolveu fazer tábua rasa de tudo incluindo a arte, decretando a morte de todas as formas de arte existentes. Com Freud nasceu uma escrita e uma pintura inconsciente e automática. Falou ainda de Magritte, Dali, Klee, Kadinsky e Miró, e da recuperação tardia da arte negra e daquela infantil;
 
- Afirmou J.F. que o surrealismo tem dois lados, a liberdade prática e a provocação. Só houve, e há, uma Mulher surrealista em Portugal, a Isabel Meireles, ceramista com 85 anos. O último dos surrealistas, Alípio de Freitas, que foi padre, casou agora, cego, aos 83 anos, e foi cantado por Zeca Afonso;
 
 
- Para J.F., na mudança do século dois homens deram volta à cabeça da cultura europeia; Einstein e Picasso. Os impressionistas, que reproduziam os pontos de luz que lhes feriam os olhos, Balzac, Flaubert, Victor Hugo e Balzac, já o tinham tentado antes. Os futuristas D’Annunzio, Maiakowsky e Almada, endeusando a máquina, também deram a sua contribuição. Em Portugal, o Grupo de Orfeu, Amadeo de Souza-Cardoso, Santa Rita Pintor, Domingos Alvarez, Keil do Amaral, Leopoldo de Almeida e o próprio António Ferro, empurraram o país para uma espécie de Modernismo Lusitano. Depois, o 25 de Abril, feito por “militares que não viram os filhos crescer”.  O certo é que a verdade é sempre difícil de estabelecer: Mário Sá Carneiro suicidou-se no quarto do hotel com cianeto ou estricnina? Ou foi no metrô?
 
- Desta vez J.F. falou torrencialmente sobre poetas e outros artistas estrangeiros da sua predilecção, numa interessantíssima conversa que, acelerada pela pressa de sair mais cedo para assistir a um concerto de Pete Seeger, nos inundou de noções sobre os nomes abaixo citados e, sobretudo, vontade de os descobrir. Assim, percorreu uma galeria onde pontificaram Woody Guthrie, o citado Pete Seeger, Jacques Prévert, Berthold Brecht, Pablo Neruda, Gabriela Mistral, Wislava Szymborska , Czeslav Milosz, Jorge Luiz Borges, Federico García Lorca (Llantopor Ignazio Sánchez Mejías), Jean Cocteau ( que dedicou, tal como Pablo Neruda, um poema a Llorca), Tonino Guerra e Lawrence Ferlinguetti, último sobrevivente da beat generation, proprietário da livraria City Light em S. Francisco, o qual tem um poema sobre o Elevador de Sta. Justa, que atribui a Gustave Eiffel e não a Raúl Mesnais du Ponsard.  Pedi licença e disse a J.F. que, tinha comigo um poema de um poeta português sobre o mesmo tema, este sobre todos os ascensores de Lisboa, tendo dito, com sua autorização, o meu poema “Viagem de Fim de Semana em Ascensor”, sem revelar a autoria. Descobri depois que Vasco Graça Moura também tem um poema sobre o Elevador de Sta. Justa;
 
- Falando de traduções de poesia, J.F. considera que as traduções que fez de Berthold Brecht são melhores que aquelas de Paulo Quintela, e disse que há dois caminhos para a tradução: aquele representado por Vasco Graça Moura, com um rigor que espartilha o poema, e o de Eugénio de Andrade, menos rigoroso, o que lhe dá outra alma;
 
-Na quinta lição entreguei a J.F. um exemplar do livro “Manifesto Anti-Crise – Da revolução dos cravos à revelação dos cravas”, na sequência de ele ter citado os poetas que escreveram contra a ditadura, e de eu lhe ter perguntado se hoje não há poetas a escrever contra este estado de coisas. Nesta última lição, J.F. puxou do livro, diz à assistência que fui eu que lho fiz conhecer e começou a fazer considerações sobre o mesmo:
 
- Que bastava o título sem sub-título. As pessoas escrevem coisas inúteis que não acrescentam valor à obra, antes pelo contrário, dizendo que aquela tirada da “revelação dos cravas” era uma graçola descabida. Depois abriu o livro e anunciou que ia dizer uma poesia de uma tal Carmo Oliveira, intitulada “Seca” .
 
- Depois de a dizer, declarou que a mesma começava e acabava admiravelmente: “Nos rios quase secos do nosso desespero” era, para ele, uma frase poética de grande alcance. “O Governo por Despacho autorizou a importação de crocodilos”, era frase que ele usaria numa poesia anti-crise, como refrão entre cada verso de denúncia do estado das coisas. Achou inútil o jogo de palavras usando o nome dos políticos e dos partidos, que, segundo ele, nada acrescenta tirando espessura ao poema. Salvou esta parte:

 


“Portas do céu fechadas a qualquer pingo de chuva


 Secam os leitos dos nossos rios e barragens


 Vendo-se já aparecer os periscópios


 Dos submarinos da nossa vergonha,


 Assentes no fundo das docas de um país que está


 Na eminência de o tocar definitivamente, e nele ficar”.
 
Para mim, esta foi a melhor parte das lições do Professor José Fanha, como foi bom eu ter dito o poema “Ausência” de Sofia de Mello Breyner; mas o melhor foi eu ter dito o meu “Fim de Semana em Ascensor” na sexta lição, e estas foram as excepções de que falei no fim do primeiro parágrafo deste texto.

Nota - Deixo mais três links:

- O primeiro para uma lista de autores e obras citadas (algumas ditas) por J.F. no decurso das lições;
  
    - O segundo para a história de Pedro Oom  “O Coelhinho que nasceu numa couve”;
 
    - O terceiro para um vídeo no qual Mário Viegas recita  um excerto de “A Cena do Ódio”de
    Almada Negreiros.


Lisboa, 19 de Junho de 2014
    Octávio Santos






quinta-feira, 12 de junho de 2014

Santo António de Lisboa



Junho, de Portugal, Comu(od)nidades, poetas, Santos e cronistas falhados


 
                                                   Dez,  um zarolho poeta

                                                   Treze, um Santo bem amado

                                                   Me acreditem, não é peta

                                                   Vejo o meu texto adiado.




                                                     Escrevesse eu alexandrinos

                                                     E a nadar os salvasse

                                                     Tinha feito desatinos

                                                     P'ra que a escrita não falhasse.




                                                    "Comodidades", que fado!

                                                    Nos Santos fui-me à sardinha

                                                    Sem da pena ter cuidado

                                                    Não escrevi,  preguiça minha!

 

                                                    Se tivesse arco e balão

                                                    E fogueira p’ra saltar

                                                    Tinha tido inspiração

                                                    Para crónica vos  dar!

 

                                                    Mas seja por Portugal

                                                    Ou por Lisboa, bacana

                                                    Que não vos pareça mal

                                                    Mas fica para a semana!
 
Lisboa, 12 de Junho de 2014
Octávio (Santos), candidato a quarto Santo Popular,  poeta com dois olhos  e tudo!