quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Manta de retalhos feita de pobres “obras de arte”, umas ideadas e realizadas pelo cronista vencido em estádios e urnas, outra sonhada e obedientemente executada, fumadora de cachimbo que sequestra extra terrestre, pedras tumulares, e recortes de jornais e outros papéis, lápis azuis, arame farpado e tudo + um partido político utópico, fora do baralho.


Quem está danado com os resultados do futebol ou das eleições costuma engolir em seco, tomar um ar nonchalant e dizer no café ou no local de trabalho que cada vez liga menos ao futebol, atão agora cum gajo já sabe qué tudo a sacar e meter pó bolso, negócios do Blatter e do Platini que contagiam este país do Carvalho e do Carrillo (desgraças são outras coisas, seus palermas) e que,  como democrata que sempre fui (quem é que não teve um S na fivela do cinto?) só me resta aceitar os resultados e felicitar os adversários, nunca inimigos (peripatética que os deu à luz!), pela vitória, caté foi fácil comó carago tamém eu batia num ceguinho  coxo cuma mão atada atrás das costas. A mim dá-me para fingir que não foi nada e ponho-me a falar de arte, mesmo se pobre, isto é, paupérrima, porque da minha autoria.

Retalho 1 – O ET não voltou a casa

Penso ter sido esta a minha primeira tentativa artística na idade adulta. Andando eu a passear no campo, na fronteira entre o Alentejo e o Algarve, tecnicamente no Algarve porque na margem esquerda do Seixe, encontrei num tronquinho de esteva com um nó que me pareceu igualzinho à cabeça e pescoço do ET. Posto o bichinho de parte, fui para a cama pensar que se o pobrezinho tem vindo à Terra naquele momento, ou fugia a sete pés ou, não tendo transporte à mão, se suicidaria para não ter de ver o triste espectáculo levado à cena quotidianamente pelos terráqueos. Assim, mal me levantei, recolhi, naquele silêncio irreal da Serra de S. Miguel às 6 da manhã, quando nem os chocalhos das vacas se fazem ouvir, uma laje de xisto amarelo, que me serviu de base ao cadafalso, e um ramo seco de azinheira que, colado obliquamente na vertical, fez de forca. Depois foi só aprender a fazer um nó de corrediça num cordel, passá-lo à volta do pescocinho da vítima e pendurá-lo com todo o jeitinho para não o stressar ainda mais, como se faz hoje nas prisões americanas com os condenados à morte no momento fatal. Ficou bonito, admirei-o dias a fio como se de um espelho se tratasse, e resolvi levá-lo a uma galeria de arte (com restaurante japonês na cave) que ficava na esquina do Jardim do Príncipe Real com a Rua do Século, em frente da Tascardoso (bons os carapaus fritos), onde o deixei à consignação porque a proprietária, uma Senhora que fumava cachimbo chamada Paula Cabral, gostou muito da escultórica colagem e a colocou imediatamente numa das montras, conservando eu ainda o cartão comprovativo da operação. Depois, passei por lá uma noite para dizer poesia do Carlos Drummont de Andrade, beber abafado e comer castanhas assadas com meia dúzia de pândegos como eu. Ora tudo isto ocorreu por altura do lançamento do meu livrinho “Hieróglifos Órfãos de Roseta” e, a sua segunda apresentação, aquela inesquecível com a minha Filha Margarida a dar lição de amor e sapiência, passou-se lá, alguns se lembrarão, com a “obra de arte” do ET em cima da mesa dos oradores; lembro-me que a sala estava composta e que bebemos vinho de Bucelas. Depois disto ainda passei pela galeria para saber se a obra tinha sido vendida, obviamente não, e as minhas visitas foram-se espaçando no tempo até que, na última vez que por lá passei, deparei com a porta fechada, as montras e as prateleiras vazias, o telefone da Senhora do cachimbo tão morto como o meu ET, do qual não guardei nem uma selfie! Por onde andará? Dão-se chorudas alvíssaras a quem der notícias das cinzas de um extraterrestre  escondidas na fornalha de um cachimbo unisex!

Retalho 2 – Mausoléu do Basmati

O meu Neto André teve por mais de 4 anos um porquinho-da-índia de pelo dourado que se chamava Basmati. Ora, e não estou a dar uma novidade, tudo o que é vivo morre um dia, e o Basmati, tendo chegado ao fim do seu tempo, foi embora e o André resolveu enterrá-lo no Monte Crato, seu paraíso perdido com o contributo de quem empurrou as pessoas para fora da sua “área de conforto” e se arroga o direito de lhes trocar a alma por décimas na percentagem do déficit e, pasmem, com isso conquistam maiorias, sempre na margem esquerda do Seixe com a Serra de S. Miguel à vista. Acontece que tendo lá ido passar um fim de semana, não sei se aquele em que me diverti (e dei cabo de uma mão) com o Bernardo, o meu outro Neto, no Lago Dourado, resolvi construir, com o mesmo xisto amarelo da “estátua” do ET, um mausoléu para o Basmati. Assim fiz, e dele tenho uma foto, fracota mas perceptível. Tanto o André como o Bernardo fingiram que não gostaram (mais uma invenção do velho!), e todas as vezes que eu tinha a felicidade de passar uns dias no Monte Crato (Zambujeira de Baixo, Aljezur), gastava bem umas duas horas a arrancar ervas, limpar pedras, melhorar e compor aquele arranjo à la Stonehenge, actividade que me recolocava no nível em que eu devia estar, e aliás me competia, e que repeti por dois ou três anos uma boa meia dúzia de vezes. Na minha última visita/estadia, sabendo já que aquele pedaço de terra das serras algarvias tinha o estigma que o elevava acima das nossas possibilidades – e quando digo nossas refiro-me a todos aqueles que nunca roubaram nada a ninguém, e jamais aos donos das Comportas da Costa das Negociatas, que esses sim, têm possibilidades (as que nos roubaram) para serem seus donos por direito divino – e que lá não voltaria, desmontei o mausoléu do Basmati, numerando as pedras, uma a uma,  como se do Templo de Abu Simbel se tratasse, pedras que tenho guardadas religiosamente e não me perguntem porquê. Será que o homem é um animal racional? Só estava a pensar em mim.

Retalho 3 – Poster de Fernando Pessoa

Tendo assistido, e participado, no “III Congresso Internacional Fernando Pessoa”, que se realizou em Lisboa, de 28 a 30 de Novembro de 2013, e do qual vos dei notícia pela minha 2ª crónica em 2/12/2013, intitulada «Fim de semana do “Desassossego”», veio-me à ideia de contar tudo através de uma colagem de recortes de papéis inerentes ao Congresso, colagem essa que se transformou depois em elemento central de um poster que mandei executar em 25 exemplares, alguns dos quais já ofereci a familiares e amigos. Para os poucos que restam aceitam-se declarações de desejo, que serão contempladas rigorosamente por ordem de chegada e no limite do stock em armazém (atrás da porta do quarto). Pensem nos vossos bisnetos porque daqui a 200 anos poderão valer uma pipa de massa. Ao correr da pena vejo-me como um banco do avesso: em lugar de vos propor um investimento custoso, sabendo de antemão que não vou restituir o capital, imaginem os juros, impinjo-vos gratuitamente um bem artístico que só se pode valorizar no tempo. Pensem bem, ou consultem o vosso Spin Doctor.

Sonho 1 – A Colagem

Uma noite destas tive um sonho muito nítido e preciso, como quase nunca os sonhos são, no qual alguém me ordenava fazer uma colagem com recortes do Expresso, chegando ao pormenor de me indicar que a deveria fazer una e indivisível mas em 4 partes distintas (não me pareceu novo como conceito), não desperdiçar uma só folha do semanário e dos seus cadernos, e de contar tudo, mas tudo, o que se estava a passar neste momento no planeta azul. Depois pareceu-me ouvir um “Acorda e cola!” de lazaresca memória, saí do sono, e do sonho, lembrei-me de Moisés a descer o Monte Sinai (não faço a coisa por menos), corri a comprar o Expresso de 26/9 e sentei-me a trabalhar naquilo que se segue e que é o meu

Retalho 4 – Sataníssima Tetralogia

Comprei quatro telas 24x18 e duas caixas de lápis de cor no chinês “Mao Hua Litou” (na realidade cheirava mal da boca), oito parafusos com porca e um rolo de arame fininho no ferrageiro (o arame farpado só se vende aos rolos de 100 metros e teria de vender as sobras aos húngaros), e com tesoura, alicate, chave de parafusos, Black & Decker, serra, verruma, apara lápis, colas (de água para papel, para madeira e super 3), pincel, papel gaufré azul, uma Rotring 8, um trapo velho,  deitei mãos à obra, na realidade encomenda, que é a imagem desta crónica e cuja receita segue como se tratasse de um cozinhado.  Peguei nas quatro telas que dispus em cima da mesa num casamento que me pareceu poder cumprir quanto me foi ordenado. Pratiquei 8 furos 8 nos caixilhos, liguei-as com os parafusos e porcas só para ver o efeito, tendo-as novamente separado. Espalhei no chão o jornal com todos os seus cadernos, a saber: principal, economia, revista, emprego, vinhos, golf e publicidades várias. Atirei-me primeiro ao caderno principal e, corta daqui cola dali, lá compus a primeira parte da obra, que é aquela em baixo à esquerda na vertical. Em segundo lugar peguei no de economia, repetindo os gestos, e deu o resultado que se vê naquela em baixo à direita na horizontal. Seguiu-se a revista que sofreu o mesmo tratamento, e é aquela em cima à esquerda na horizontal. Por fim, e o rabo é sempre o mais difícil de esfolar e não estou a pensar na Jennifer Lopez, folheei todos os restantes cadernos e lá compus, não sem grande dificuldade conceptual e de escolha, o que vos aparece em cima à direita na vertical. Parece pronto, não é? Feito isto, pus tudo diante dos olhos e apeteceu-me ir para além da encomenda e pôr alguma coisa de meu sobre os recortes, resumindo-se a minha intervenção a isto: no caderno principal, escrever “BPN” num peixe que um palhaço está prestes a pescar em seu legítimo benefício (e da minha Família!), enquanto nos convence que o BES é seguro; na revista, riscar com lápis azul a tromba do imbecil Presidente da Altice, desenhar-lhe uma cruz suástica no peito da camisa e escrever “ESCRAVOS” e “IDIOTA” nas palavras cruzadas adjacentes; na economia, nada, porque está lá tudo muito claro e transparente, incluindo 7 pinóquios 7 e 3 asiáticos 3 (leio demasiados cartazes tauromáquicos) que “conquistámos”; nos restos, apenas a minha assinatura, OCOS 2015, num cantinho em cima. Posto tudo de lado para servir mais tarde, chegou a parte mais penosa da operação que foi a de pegar em todos os restos do jornal, e seus cadernos, e dobrá-los em leques com 2 cm de largo, os quais, depois de furados com a verruma, foram metidos entre as 4 telas prontas e aparafusados às mesmas, e elas umas às outras, com força até doerem as mãos, formando um todo, com o jornal completo em cumprimento da ordem recebida. Pronto agora? Nem pensar! Olhando para a obra, faltava encher o quadradinho deixado vazio pela arquitectura do casamento das telas e, inspirado pelo lápis azul de triste memória, mas do qual agora me servi sem pudor, transformei com a serra as caixas de lápis de cor do chinês (não calculam como é complicado afiar lápis chineses sem lhes partir o bico), em 45 lapinhos (não sei se se diz) que lá enfiei à força, com o azul, o 46º, ali em fálica evidência. Parecia já não faltar nada, mas ao reler tudo saltaram-me à vista a imagem do cartaz de uma manifestação que rezava “REFUGEES NOT WELCOME”, no caderno principal e, nos restos, a da publicidade de uma seguradora que destacava “ 1ª Prioridade. Proteger a minha família”. Assim, não resisti e, munido de alicate, fabriquei 96 cm de arame farpado artesanal, dividido em quatro porções de 24 cm cada, com que separei as quatro telas não fosse haver perigo de contaminação. E tendo iniciado a obra no dia 1, descansei no 7º dia não sem ter ainda colado uma fita de papel gaufré azul à volta do perímetro quadrilátero da obra, e acrescentado junto aos nossos governantes a bandeirinha que tanto gostam de exibir na lapela, máscara de patriotismo.

Nem retalho nem sonho, antes pelo contrário

Não era minha intenção falar hoje das eleições mas, ouvindo o que todos disseram antes e depois do voto, e constatando que o país, dividido em 40% à direita e 60% à esquerda (invoco o direito à imprecisão), só pode ser governado pela direita, que não é uma palavra feia não fosse a que temos fanática pela freenança, porque a esquerda, essa sim palavra feia para a democratura europeia, que estou convencido que não quer governar, se separa radicalmente do irmão mais crescido e se esgatanha entre si promovendo divisões e divisões de divisões, que nem o BE é Livre de Agir, PCTP - Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses + PCP - Partido Comunista dos Preguiçosos (?), dos verdinhos, dos velhinhos, dos bichinhos, da terrinha, por nós, pelo povo, pelo reizinho, pelos pintos marinhos, etc… etc.., tive a ideia de, tendo em vista as próximas eleições, formar o Movimento da Esquerda Reformadora Democrática e Autónoma – MERDA -, o qual, transformado num partido muito, mas mesmo muito, à esquerda (sede na Pontinha), declararia no seu programa eleitoral estar disponível para formar governo com o irmão mais crescido, que é o único que sabe manejar o arco, empurrando-o, depois de estar no poleiro, para as suas soluções de governação, claro que não à bruta (à Varoufakis) nem tudo de uma vez para não espantar a caça nem acordar Bruxelas do seu letárgico sono, nem Berlim dos seus sonhos hegemónicos de grandeza, mas devagarzinho, um passinho de cada vez, que grão a grão enche a galinha o papo. Já vos estou a ouvir dizer “lá vem este com as suas ideias, desta vez verdadeiramente de MERDA”, ou então “este faz lembrar o Menino Tonecas a querer ensinar a Guidinha a fazer redacções”.

Abraço.

Lisboa, 8 de Outubro de 2015
Octávio Santos

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Feliz por ver copiadas as suas arquitecturas de papel, o nosso cronista desenterra contrapartidas velhas de seis anos que, lidas hoje, ainda se conseguem entender.


Esta semana estava cheio de preguiça para começar a escrever uma coisa séria, porque, para além de  não saber por onde lhe pegar, não fazia a mais pequena ideia que  voltas havia de lhe  dar.  Mas como Deus vem sempre em ajuda dos preguiçosos, salvou-me a leitura do Expresso desta semana (26/09), onde apanhei na Revista um texto do Henrique Monteiro, escondido atrás do Comendador Marques de Correia – Marcos de Correio, de portinha ao centro, para quem se lembra do fado do Alberto Ribeiro -, no qual, sob o título “Ó Tsipras, pá, diz lá como se ganham eleições depois de se violar as promessas todas”, “inventa” umas cartas, uma do Coelho e outra do Costa, para o Tsipras, ambas pedindo conselho. Ao ler estas “Cartas Abertas”, que até têm piada para além de fazerem todo o sentido, veio-me à memória que, em 6 de Outubro de 2009 (como o tempo passa!) escrevi um texto para os colegas da AICEP, intitulado “Contrapartidas”, no qual também eu inventei três e-mails falsos para explicar a mim próprio que raio eram as tão badaladas contrapartidas que enchiam a boca a tão boa gente, e um era da Merkel para o Barroso, outro deste para o Sócrates, e o último do então PM para a Merkel, fechando assim o circulo epistolar. Como achei, no meu narcisismo crónico e infinito, que o Henrique Monteiro estava, seis anos depois, a “copiar”, senão o meu texto mas a sua arquitectura inventiva, aqui vos deixo tudo, safando-me ao exercício penoso da escrita por esta semana.


“Contrapartidas

6/10/2009

Caros colegas,

Ouvi ontem que Quentin Tarantino deixou a escola aos 15 anos e que a sua principal actividade daí em diante foi a de devorar tudo quanto era filme em cassettes VHS que alugava no vídeo clube da sua rua.  Deve ter a sua mente propriedades magnéticas, já que nela gravou as melhores cenas dos melhores filmes e absorveu o estilo e a maneira de contar histórias dos grandes mestres, qual salteador da arte dos outros, para hoje nos regalar as magníficas e únicas colagens que fazem deste eterno menino frankenstainiano com atestado de menoridade mental, o mais iluminado sacana à solta que, ao contrário dos nossos auto-convencidos intelectualóides “melhores do mundo”, nos revela a essência do génio. Não conhecemos o critério com que Deus distribui os talentos, mas geralmente usamos aqueles que pensamos ter e descuramos o que Ele nos deu. Quando o uso coincide com o dom divino o artista revela-se como é o caso de Tarantino.

Eu, que não tendo talentos não sei fazer nada, que represento o português médio, que alinho na conversa de café exprimindo à toa a opinião bacoca do cidadão comum, querendo embora mostrar sapiência colada com cuspo, ouvira até agora falar em contrapartidas fingindo perceber o que era já que todos percebiam, cultivando um respeito reverencial pelos colegas que, tratando dessa impenetrável matéria, tomavam um certo ar de misteriosa superioridade. Devo confessar que só este fim de semana compreendi finalmente tudo. Incapaz de explanar teoricamente o que quer que seja, limito-me a dar o exemplo que me esclareceu. O consórcio alemão que vendeu os submarinos que tanto jeito fizeram ao povo português, sentindo-se agora envolvido neste caso nebuloso, fez saber que a Volkswagen detém 30% desse consórcio e que, a ser posta em causa a lisura dos processos utilizados no negócio, poder-se-ia correr o risco de não estar garantida a manutenção da Auto Europa. Perceberam? Eu que sou vivaço e que não deixo que me façam o ninho atrás da orelha, comecei a topar. Mais vale os nossos submarinos levarem o escândalo para os abismos do oceano, ao abrigo de jornalistas metediços e juízes vingadores, que atirar para o desemprego uma grande percentagem dos trabalhadores do Distrito de Setúbal. Contrapartida não despiciente e com força suficiente para convencer os nossos políticos daquilo que estavam já convencidos e os mantinha descansados, isto é, que o crime compensa e não tem castigo. Nas minhas conjecturas comecei a imaginar que a Sra. Merkel teria já mandado um recado ao Dr. Durão Barroso. – Fala tu com o Zé para lhe explicar que não vale a pena meter-se connosco, ou terei eu de lhe dizer para continuar a ocupar-se do trivial, filetes de pescada e peras bêbedas, e deixar cair o caso dos submarinos que não o vai levar a bom, nem free, porto. Absorto neste exercício de tentar adivinhar, lembrei-me que poderia experimentar entrar no computador da Sra. Merkel para corroborar as minhas suposições, já que o nosso PR nos abriu os olhos para essa facilidade que não deixa os poderosos guardar os seus segredos, e pus mãos à obra. O mais fácil foi encontrar o endereço electrónico da Senhora: ange@mer.de. Depois, servindo-me de um hacker búlgaro que tinha de parte, dei com isto: 

Caro Zé Manel,

Não sei se ocupado com a Irlanda tens seguido o que se passa no teu país, de onde tiveste a sorte de escapar a tempo. Pede que te façam um briefing sobre o caso dos submarinos e diz qualquer coisa àquele pateta com nome de filósofo para ver se ele faz calar a canalha. Faz-lhe entender sff as ligações perigosas entre o caso e os interesses de Wolfsbourg, que até podem pôr em causa a geminação com Palmela. Caso ele queira levar os submarinos to a good and free port, deve pôr já água na fervura.

Abraço
Ângela 

A curiosidade levou-me também a encontrar o e-mail do Barroso, joel@dubar.eu, e lá pude ler preto no branco: 
 
Caro Engenheiro,

Tás porreiro, pá? Com pedido de reserva junto o e-mail da Ângela que está danada com o vozear que daí chega sobre o negócio que, segundo ela me confidenciou, serviu a muitos. Largou-me aquela dos 30% da Volkswagen como quem não quer a coisa, mas vi bem que por detrás daquela sua gentileza entrevi um flash de ubber alles que a doce Senhora tem na massa do sangue. Eu por mim já estou seguro por mais 5 anos e estou-me cagando, como o Cristiano Ronaldo, para isso tudo, não tendo satisfações nem provas a dar a ninguém. Vê tu se defendes o tacho, já que seria estupidez mandares tudo às urtigas só para atares as mãos ao Portas para que te deixe continuar no poleiro.

Teu
Zé Manel 

Nova busca e lá encontrei a caixa de correio do Engenheiro: jopisou@poleiro.pt, dando com esta pérola:

 

Caríssima Ângela,

Posso garantir que o lamentável caso dos submarinos não passou de uma ideia dos rapazes que, contra a minha opinião, acharam que era melhor entalar o Portas do que nomeá-lo Ministro da Defesa, solução por mim defendida. Já perceberam que se enganaram e que meterem-se com os teus patrícios foi areia de mais para a sua camioneta. Posso adiantar que já dei ordem para abafar tudo, classificando o juiz que tem o caso nas mãos com a mesma nota daquele da Casa Pia. Pedi também ao António Costa que dê ordem ao Zé Sá Fernandes para desacreditar o Berloque que está a levantar demasiadas lebres. Como sabes o meu carro oficial é,  já do tempo do Zé Manel,  um Phaeton; vou agora assinar o despacho que autoriza a compra de Passats CC para todos os Ministros e Secretários de Estado, tendo já encomendado um Scirocco para mim, um EOS para a Fernanda e um Sharan para a Fava levar as crianças à escola. Não te preocupes, mas peço-te um favor: não voltes a servir-te do Zé Manel como intermediário nos assuntos bilaterais dos nossos dois países, tradicionalmente amigos – lembra-te da nossa posição durante a última guerra – já que ele não nos grama, tendo inveja da tua inteligência e do meu físico. É daqueles a quem eu não compraria nem um Volkswagen em segunda mão. Desculpa lembrar-te, mas já que falamos de contrapartidas recorda-te daquele “coiso” típico da cidadezinha onde uma nossa rainha ia a banhos, que te mandei no Natal passado e de que tanto gostaste. Uma palavra tua, mando a Fernanda à Fava, e ofereço-te o original. Ias achar graça pois que, pensando em ti, tatuei-lhe um wurst pequenino, não para a Oktober Fest mas suficiente para um cachorro nacional. Sabes que os nossos cachorros são pequenininhos, como tudo em Portugal, mas são os “melhores do mundo”.

 Moral da história: Saibamos estar preparados contra as partidas de Carnaval que estes figurões nos estão sempre a tentar pregar.”


Já agora termino com uma citação: “O plágio é o melhor certificado de mérito do plagiado” – Carlos Drummond de Andrade.
 

Abraço.

Lisboa, 1 de Outubro de 2015
Octávio Santos

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Eco do nevoeiro (sem Pessoa) guiado por misteriosa chama, ecos de coisas lidas e ouvidas, livros e filmes, viagem contagiosa em busca de recordações, citações em fila como processionárias, pesca em desconhecidas águas turvas, peças de puzzle que encaixam às escuras, nonagenária Nini Pampam, cucos teutónicos, tomates de cão (de ornitorrinco não disponíveis), cocó feito na vinha à la recherche, com fim inusitado e arame farpado inibidor de fugas.

 
Após as reticências que vos deixaram em suspenso na última crónica, hoje repito que o romance de Eco, “A Misteriosa Chama da Rainha Loana”, é todo uma outra coisa. O nevoeiro que nos torna tudo desfocado e fluido, da sua Alessandria natal (Lissandria em piemontês, patrono S. Baudolino, tás a topar oh meu!), e não Alexandria (de Nasser) como se lê erradamente na badana, dos vales do Bormida, do Tanaro e do Pó, das montanhas piemontesas e da ausente memória autobiográfica do protagonista, fornece ao autor motivo para páginas e páginas de alta literatura, a começar pela citação de inúmeros textos que outros grandes seus pares lhe dedicaram, de Abott a Dickens, de Dante a Pirandello, de D’Annunzio a Pascoli, de Emily Dickinson a Shakespeare, de Savinio a Campana, de Flaubert a Baudelaire. Deste último não resisto a recitar, isto é, a citar a citação: “Agora um mar de nevoeiro banhava os edifícios, e os moribundos no fundo dos asilos”. Como não resisto a constatar que Eco não deve ter tido grandes relações com Tabucchi, senão não teria passado ao lado de Pessoa e do nevoeiro que envolve a sua “Última nau” (Mensagem, Mar Português) e o seu ilustre e desejado passageiro:
          Vejo entre a cerração teu vulto baço
          Que torna.
          Não sei a hora, mas sei que há a hora,
          Demore-a Deus, chame-lhe a alma embora
          Mistério.
          Surges ao sol em mim, e a névoa finda:
          A mesma, e trazes o pendão ainda
          Do Império.
 
          Ou o seu “Nevoeiro” (Mensagem, Encoberto):
          Ó Portugal, hoje és nevoeiro.
          É a hora!

Nesta onda poética, e querendo sempre chegar-me à frente em bicos de pés, escrevi agora esta:

Na Feira Popular

O algodão doce que levo à boca

É nevoeiro que faz com que a tua imagem

Me lembre uma pomme d’amour!

Então, entro descalço

(sem ninguém ver)

Na tua alma, que não sujo. 

Liberto-me já deste nevoeiro sem eco de Pessoa, para não me deixar envolver por ele que, tão denso que se poderia cortar à faca como se fosse manteiga (“…o fumo amarelo que esfrega o focinho pelos vidros…”), perpassa em cada página deste livro difícil, e tenho de fazer atenção para não cair na esparrela de me pôr também a contar sonhos já que não conseguiria nunca descrevê-los com esta mestria - “Adormeci logo, e sonhei com terras e mares do sul feitos de tiras de nata distribuídas em longas tiras no prato da compota de amoras”. Fora então do nevoeiro e dos sonhos, para minha salvação, pois que para mim, que escrevo simples, não é fácil entrar na literatura de Umberto Eco, e eu já o devia ter adivinhado porque o “recado” já me tinha sido dado, e por duas vezes. Quando foi publicado “O Nome da Rosa” comprei-o imediatamente e comecei a lê-lo num avião entre Sófia e Viena, tendo-o esquecido ao desembarcar. Novamente o adquiri, mas como estava a ler outra coisa emprestei-o a um cidadão búlgaro – alguns falavam português por via de estadias de serviço “fraterno” em Moçambique -, que tendo nas mãos coisa proibida, e como tal apetecida, saiu do meu raio de alcance, não mo tendo nunca devolvido. Assim, confesso que nunca li “O Nome da Rosa” embora tenha visto o filme, o que não é a mesma coisa e me põe ao nível daquele que nunca tendo lido a Bíblia, dizia não valer a pena já que tinha visto o filme um ror de vezes. Quem não leu “Se isto é um Homem”, de Primo Levi, pode ter visto todos os filmes, alguns extraordinários e estou a lembrar-me de “A Vida é Bela”,  que se fizeram sobre a Shoa, mas não tem a noção exacta até  onde o horror conseguiu chegar.

Não é fácil, como afirmei acima, entrar na literatura de um escritor difícil que, neste livro, revolve sótãos e baús das suas recordações perdidas na ânsia de compor um passado – “as lúgubres e duráveis recordações, este raio de morte que deixamos ao viver” - tornado ainda menos decifrável por se referir a geografias, cronologias, livros, jornais, discos, factos, ocorrências e episódios que só por vivência se podem conhecer, e que, mesmo a quem aí viveu por mais de uma década, passam por filtro de malhas demasiado largas, não retendo senão uma pequena parte, embora seja curioso, e para mim muito gratificante, que coisas desconhecidas deixem de o ser por se casarem com coisas conhecidas que nelas encaixam. Com isto não estou a dizer para não lerem o livro, antes pelo contrário. Já aconteceu a todos ouvirem hoje falar de uma pessoa, uma coisa ou um assunto, pela primeira vez, e logo no outro dia voltarem a ler ou ouvir algo sobre o mesmo tema, e a mim, que comecei a ler este livro dois dias após a morte de Oliver Sacks - outro velho de 82 anos como Khaled al-Assad, guardião de Palmira (ver crónica de 9/9) -, deparo, logo na página 15, com o protagonista a falar de um homem que confundia a mulher com um chapéu, e a fila de processionárias, animalzinho que desconhecia até nos fazer passar dois meses de complicações cutâneas só porque o vento nos soprou os seus pelos malignos no pescoço; depois foi a canção e o filme “Bellezze in Bicicletta”, com SilvanaPampanini, dita Nini Pampam, que faz 90 anos amanhã e conheci em 1994, já entradota nos anos, quando foi madrinha de “Lisboa, Capital da Cultura Europeia” na cerimónia da sua apresentação em Roma, e o Rei Umberto II, o Rei de Maio, que a imprensa fascista chamava de Estrelaça, o Herdeiro, perenemente em fuga que acabou em Cascais, onde me lembro bem de o ver na praia e de o meu Pai nos advertir: - Vá meninos, vão jogar à bola lá mais para longe porque está aqui o Rei da Itália e não quero que o incomodem. Coincidências e recordações!

Aprendi também que o relógio de cuco é bávaro e não suíço, coisa que desconhecia mas agora, pensando bem, me parece natural ou não fosse essa adorável avezinha a que põe os seus ovos nos ninhos dos outros para não ter de os chocar nem de lhes dar de comer no bico, mas não é por estas singularidades que o livro vale a pena ser lido, ou melhor, tem de ser lido. O facto é que o Umberto é um brincalhão que consegue com as suas brincadeiras dar ainda maior densidade e veracidade aos seus escritos, jogando com os conceitos e os episódios que, tenho a certeza, lhe vêm à cabeça no decorrer da escrita, encontrando a forma mais dissimuladamente cómica de os encaixar no seu texto, mesmo que seja para despertar uma memória adormecida como é o caso do protagonista deste seu livro. Senão vejamos:

- A Mulher aconselha-o a dar um passeio matinal pelas ruas de Milão, pedindo-lhe para lhe trazer um ramo de rosas. E ele vai, mas aparece em casa com um frasco contendo um par de testículos de cão, em formol, restos de um laboratório científico do século XIX. Um autêntico achado por 40 mil liras! Pena não ter consigo dinheiro suficiente para levar também os “de gato, de galo e de outro bicho, com rins e tudo mais.” Comentário da Mulher, que para a próxima vez o acompanhará para não arriscar “…que voltes para casa com uns testículos de dinossauro e a ter de chamar um pedreiro para alargar a porta para poderem entrar.”, – “Será que tens a consciência de que és o único homem no mundo, o único à face da Terra desde Adão, a quem a mulher manda comprar rosas e volta para casa com um par de tomates de cão?”. “Não foi por acaso que pediste um ornitorrinco à tua irmã! (que vivia na Austrália, nota minha).

- Ou quando, na casa de campo em busca do passado, entrou na casa de banho para acabar de ler o jornal, e lhe apeteceu ir fazer cocó à vinha, a ouvir os pássaros e as cigarras. Acabada a tarefa, “tinha comigo o jornal e rasguei a página dos programas televisivos" (parece que estava em Portugal – nota minha), para se limpar;  “levantei-me e olhei para as minhas fezes. Uma bonita arquitectura em caracol, ainda a fumegar. Borromini. Devia ter o intestino em ordem, pois é sabido se só nos devemos preocupar se as fezes são demasiado moles ou até líquidas”. Aqui lembro-me da cruzada que lancei contra o Renova preto por mais que evidente perigo para a saúde pública, mas não sou o Eco, que continua a sua incursão escatológica incomodando Proust. – “O cocó não era ainda a minha infusão de tília – estava-se mesmo a ver, como podia eu ter a pretensão de levar por diante a minha recherche com o esfíncter? Para reencontrar o tempo perdido, a diarreia não serve, mas a asma sim. A asma é pneumática, é sopro (embora penoso) do espírito: é para ricos que se podem dar ao luxo de ter quartos forrados a cortiça (anúncio Amorim? – nota minha). Aos pobres, nos campos, não lhes sai da alma, sai-lhes do corpo”, e termina muito elevadamente: “Os caminhos do Senhor são infinitos… passam também pelo olho do cu.”

Tenho a certeza, sinto-o já, que este livro de Umberto Eco, que é o primeiro que leio dele (e confessando-o estou a arriscar a minha reputação), vai ser tão importante para mim como foi para ele a descoberta daquele “…livro, de capa policromática…La Misteriosa Fiamma della Regina Loana… e deparei com a história mais desenxabida que alguma vez a mente humana pôde conceber….Enfim, uma história mesmo muito parva.” Mas que, mesmo assim, acordou o seu protagonista envolto em nevoeiro.

Cansado de Eco, ou defendendo-me para que ele não tome conta de mim, cito de memória uma brincadeira que repito muitas vezes aos meus Netos (chato de merda, devem pensar, mas limitam-se a dizer, já disseste isto cem vezes), e que agora, que a repeti mentalmente não me perguntem porquê, ou sei mas não digo, começa a ter sentido:

No tempo em que os submarães  alaminos

Atacavam Moscavém e Sacavide

No tempo em que os barbarós subiam às arvóres

P’ra comer os passarós

Alguém que por ali passia assim disava:

Mas que mudagem de linguança vem a ser esta! 

Tudo me torna à lembrança, coisas velhas e coisas novas, no meio deste nevoeiro, cerração para Pessoa, sem um fio condutor que as torne consumíveis por outros fora de mim; dizia Yambo, o protagonista de Eco, para Paola, a Mulher que acabara de conhecer sem reconhecer: “Sabes que as citações são os meus únicos faróis no nevoeiro”.

Abraço.

Lisboa, 24 de Setembro de 2015
Octávio Santos 

PS: Longe de mim querer dramatizar o que se passa nas fronteiras externas da União Europeia, mas deixo aqui o meu repúdio absoluto pela utilização do arame farpado, repúdio que sinto visceralmente desde que visionei este dueto. Apraz-me, no entanto, constatar que o produto em causa não foi ultimamente por nós exportado para a Hungria, e que, para a nossa vizinha Espanha, único caso em que as nossas exportações apresentam um incremento substancial (27,56%) nos primeiros 7 meses de 2015, em relação ao período homólogo de 2014, tal aumento sirva para conter ímpetos de vacas ou porcos, se bem que me assinalaram movimentos suspeitos do lado de lá da raia, na zona de Olivença (Olivenza).

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Sinal da Cruz sobre pelos no sinal, névoa partilhada entre Alessandria (que não é Alexandria) e o Cairo, os que vivem a chorar e os que morrem a rir, gorjeios, ais e delíquios da Piaf versus outros sons e movimentos, malas de alto design made in Portugal atrás de grades, Deus é morto ou Palavras perdidas?


Por muitas piruetas, cambalhotas e contorcionismos que faça no ginásio duas vezes por semana, não voltarei nunca mais a conseguir benzer-me com o dedo grande do pé direito – pelo sinal da Santa Cruz, livre-nos Deus Nosso Senhor, dos nossos inimigos… -, como fazia em cima da cama nas manhãs de domingo, em brincadeiras com os meus irmãos, agarrando o pé com ambas as mãos e levando-o à testa e ao queixo, lembrando-me de uma velha que vivia na aldeia da minha Avó e que tinha no queixo um sinal cheio de pelos, e era sempre uma risota pensando na velha a benzer-se e a dizer pelo sinal com o polegar em cima do sinal com pelo, recordando-me agora que uma vez a minha Avó estava no quintal sentada num banquinho a falar com uma vizinha/prima (eram todos primos) e eu cheguei-me e disse-lhe que a Mari Felícia (a velha) parecia uma cabra com aqueles pelos no queixo, e aí a minha Avó ficou muito corada e mandou-me embora: depois chamou-me para me ralhar porque ficara muito envergonhada com a prima Purificação porque ela era irmã da Mari Felícia, e nós temos de ter sempre cuidado com a língua pois nunca sabemos com quem estamos a falar, lição que nunca aprendi, o que se calhar até foi bom porque me sinto leve, tão leve que até os bolsos vazios ajudam, e não pensem que, nos dias de hoje, isso não contribui para esta estranha leveza que carrego comigo. 

Todo este intróito porque estou a ler dois livros ao mesmo tempo, ambos importantes (todos os livros são importantes), diferentes em tudo e que, por isso, se podem ler ao mesmo tempo visto não haver contaminação possível, embora eu tenha descoberto que o nevoeiro que domina todo o romance “A Misteriosa Chama da Rainha Loana”, de Umberto Eco, italiano de Alessandria, que me fez tornar à memória o episódio autobiográfico pio-circense que abre esta crónica, caiu sobre as ruas do Cairo e insinuou-se na alma dos habitantes do “Edifício Yacoubian” que assim se intitula aquele do escritor egípcio Alaa El Aswany.  Começo por este último que a minha Filha Margarida me ofereceu, numa tradução francesa do árabe (Egipto), talvez para que eu não falasse de assuntos que desconheço (os ignorantes são abelhudos), já que a única coisa que sabia do Cairo, para além dos postais ilustrados, é que na década de 70 viviam nos jazigos dos seus cemitérios mais de um milhão de pessoas, e isto foi-me dito por um dos “meus” saudosos Embaixadores (os de Sófia já se foram todos), e fala o mesmo sobre a vida quotidiana na capital egípcia, e também em Port Saïd, tendo por fundo, no nevoeiro da memória, a nostalgia do esplendor da monarquia no tempo em que o Rei Faruk reinava também na Via Veneto da Dolce Vita, a revolução do Movimento dos Oficiais Livres, de Gamal Abdel Nasser, a transformar tudo e todos em 52/53, os conflitos que se seguiram à nacionalização do canal do Suez, até aos dias de hoje, que, após a morte do raïs em 1970, abriu a porta a uma nova era de extremismos que deu no que deu, isto é, “uma sociedade dominada pela corrupção política, a ascensão do islamismo, as desigualdades sociais, a ausência de liberdade sexual, a nostalgia do passado” como li na contracapa. Não é meu hábito ler um livro sem sublinhar muitas passagens ou tomar muitas notas para uso futuro, mas desta vez, embora o romance seja didáctico e eu tenha aprendido muitas coisas que não imaginava, fui atraído principalmente por parte de um diálogo, a dez páginas do fim, travado entre um jovem torturado pela polícia que se põe, por raiva e desejo de vingança, à disposição dos Irmãos Muçulmanos, e o emir do campo de treino clandestino onde foi afectado à espera de uma missão:

- Juventude do islão, o vosso dia chegou. O alto conselho Jamaa escolheu-vos para levar a cabo uma operação importante, diz o emir.

- Que Deus seja louvado, Deus é grande!, responde o aspirante a mártir.

- É a vontade de Deus. Que ele vos abençoe e acrescente a vossa fé. É por causa disto que os inimigos do Islão tremem. Eles têm medo de vós porque vós amais a morte tanto como eles amam a vida, sentencia o emir pondo fim ao diálogo. 

O romance parece terminar com a descrição do nosso herói a ser abatido a tiro numa rua do Cairo: “Sentiu-se envolvido num bem estar estranho no mais profundo do seu ser. Depois, vozes longínquas, sobrepostas, chegaram-lhe aos ouvidos: toques de sino, cânticos, hinos murmurados em ladainha, vinham até ele como para o acolher num mundo novo”, mas o autor reservou ainda as 4 páginas finais para nos transportar ao restaurante Maxim, oásis de um passado faustoso, onde, Cristina, a proprietária grega, mantinha o mais alto nível de serviço e cantava Piaf ao piano (...non, je ne regrette rien...), para a festa de casamento entre um ancião rico proprietário de um apartamento de luxo no edifício Yacoubian, e uma jovem proletária que habitava num dos inúmeros tugúrios construídos no terraço do mesmo edifício após a revolução. Então, os convidados da noiva, de boca aberta diante da magnificência, nunca imaginada, do local, sobrepuseram a sua vontade àquela dos convidados do noivo e, afastando Cristina do piano, pediram à orquestra que tocasse música própria para danças orientais; os habitués, primeiro timidamente e depois com alegria e entusiasmo, começaram a bater as mãos, os homens, e a fazer youyous, as mulheres, invadindo a pista de baile. Será que vai acabar tudo assim? 

O romance de Eco é toda uma outra coisa. O nevoeiro que nos torna tudo desfocado e fluido… Não! Vou deixar este para a próxima crónica porque já me alonguei e não quero perder audiência, mas não posso deixar de vos servir, como sobremesa, o que ouvi cantar a duas Senhoras, ambas com mais de 60 anos. Não sei porquê, ou sei mas não digo, em Portugal é mais conhecida e apreciada a Laura “Pimba” Pausini que a hard roqueira Gianna Nannini ou a indefinível, indecifrável e insuperável Fiorella Mannoia, mas as canções, chamemos-lhe canções,Dio é Morto da primeira, e Le Parole Perdute da segunda, não podem deixar de ser ouvidas e apreciadas, música, canto, letra e mensagem. “Siamo ancora in tempo, amore mio” como nos grita a Fiorella, ou Deus, mesmo que no fim a Nannini o faça ressuscitar, nos virou definitivamente as costas? Quem vai ganhar esta luta entre o Bem(?) e o Mal(?)?  Os que desejam ardentemente a Vida como bem supremo, ou os que aspiram à Morte, já que os ensinaram que é esse o fim último a atingir? Há esperança ou não? 

Não se aprende só com o que vem nos livros, sejam de Umberto Eco, de Alaa Al Aswany ou de qualquer outro escritor, mas também com Iracy, brasileira detida em Tires que passa o dia a coser à maquina bolsas e malas de senhora, de alto design português (Compra o que é nosso!), e o tempo restante a ler, que escreveu no seu diário: “Somos o que fazemos, mas o melhor que temos a fazer é mudar aquilo que somos”. Seria uma citação? 
 
Abraço.

Lisboa, 17 de Setembro de 2015 
Octávio Santos

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Atabalhoada crónica de um maquinista inexperto que não sabe manter-se nos carris, amalgamando notícias boas e más, falsas e verdadeiras, artistas da bola e políticos de meia tijela, jornais e pasquins, bancos e mochos, países com tento e países com amnésia, pássaros que voam e pássaros do (das) Caldas, ais de 2015 e gritos de 1945 em cenário de filme de horror, tudo isto no oráculo de Delfos, no Templo de Apollo, Sibila a tentar adivinhar o resultado da guerra entre a Grande Muralha e o Grande Canyon, no Vale do Tejo, com o 33 do Alto do Pina confuso no horizonte, sonhando o Golfo de Nápoles e a magia dos seus sortilégios.


Sento-me com o objecto da minha escrita já todo arquitectado na cabecinha e no bloco notas mas, como um combóio que à entrada da estação recebe ordem para entrar na linha 1 em vez da 2, como estabelecido, qualquer coisa me obriga a fazer a agulha para uma linha cega onde não consigo estacionar a minha indignação sem o ruído de travões a fundo, para que se saiba. Acontece que à meia noite de 31 de agosto os nossos canais televisivos declararam em perfeita unanimidade que a notícia do dia era o fecho do mercado das transferências, fornecendo-nos todos os pormenores da compra/venda/empréstimo de atletas (ou de uma parte deles - 20, 35, 50%) de uma clube para outro, fazendo especial clamor o valor de dois pós-adolescentes  que valeram juntos 155 milhões de euros, perguntando-me eu quanto foi parar aos bolsos dos novos negreiros cujo expoente máximo é nosso compatriota, mais um “melhor do mundo” para nos fazer inchar o peito de orgulho, embora a nossa habilidade e aptidão para gerir o tráfico de pessoas humanas não fosse novidade para mim que conheço a Cidade Velha de Santiago, e a sua história, como as palmas das minhas mãos. Para segundo plano passaram os factos e as imagens das fronteiras da Grécia com a Macedónia e da Sérvia com a Hungria, da estação ferroviária de Budapeste, do matadouro do Mediterrâneo, de Lampedusa, Catania, Kos, Lesbos, Calais e tantos outros lugares que fingimos não existirem, e também aqueles de Palmira, onde um velho de 82 anos – Khaled al-Assad, seu guardião -, preferiu a morte a vender-se aos novos senhores, poupando-se a imagem de destruição daquilo que amava e pelo qual viveu, tudo aniquilado às mãos do DAESH ou ISIS (Islamic State of Irak and Syria) que, agora que domina territórios em 5 países, ou ex-países, incluindo a Líbia, o Yemen e a Nigéria, já poderia legitimamente denominar-se provisoriamente ISISLYN, até novas conquistas.  Confesso que agradeci à notícia das transferências dos novos gladiadores, o ter  relegado para terceiro plano a promoção do Paulinho das Feiras a Aldrabão de Feira pelo facto de ter emulado o seu compatriota Oliveira da Figueira que, risível  paradigma virtual das virtudes lusitanas, vendia chapéus de chuva no deserto aos beduínos e chapéus altos aos sheiks, não se sabendo ainda se o nosso caixeiro viajante conseguiu vender máquinas de limpar neve em Maputo. Consta que, sendo também exímio comprador quando a sua conveniência assim o determina, certo que a justiça rangeliana é cega para os compadres, deu ordem para fazer patrulhar as nossas costas pelos “nossos” submarinos, a fim de garantir o que a sua pupila predilecta determinou, ou seja, que a frota espanhola continue a pescar as nossas sardinhas nas nossas águas para que as mesmas não faltem nos nossos pratos, mas de periscópio alçado e atento aos caxineiros porque com a Europa não se brinca e Portugal não é a Grécia. Felizmente  para os gregos que, esses, ainda aprenderam qualquer coisa com os ingleses: My Country, Rigth or Wrong. Nós também, mas com a Alemanha: Arbeit (mal pago) macht frei (quem lucra). Cada um escolhe os seus mestres.

Ainda com a incisiva frase do VPM nos ouvidos – “Mais vale um pássaro na mão que dois voar” -, eu, que nunca lhe meti o pássaro nas mãos (nem em lado nenhum),  quanto mais o voto,  deixei definitivamente de o ouvir, a ele e a todos aqueles que esvaziam a palavra política do seu alto significado, servindo-se, porque outros valores nos foram lançados à cara como pedra da funda de David, e falo das fotos dos pequenos Aylan e Galip (sempre afirmei que os anjos existem) na praia turca. Não quero ser mais um a especular com a suprema desgraça e dor dos outros, primeiro porque felizmente não a sei avaliar, e segundo para não ser obrigado a recordar que há anos que assisto na RAI a cadáveres de crianças somalis, eritreias, sudanesas, nigerinas, nigerianas e outras nas praias do sul da Itália, não querendo fazer a mim mesmo a terrível e incómoda pergunta: - Será que acordámos agora porque os meninos curdos são da cor dos nossos Filhos e Netos ?  Os amores antigos vêm sempre à gala e eu, que fui accionista fundador do Correio da Manhã juntamente com o Prof. Ernâni Lopes, o Carlos Barbosa, o Nuno Rocha, o Vitor Direito e tantos outros, tapei as primeiras páginas de quase todos os jornais do mundo que publicaram as fotos de Nilüfer Demir em Bodrum, com a primeira página do jornal generalista mais vendido em Portugal que, no mesmo dia, publicou a foto de três milionários do futebol - L.F. Vieira, Jorge Mendes e Siqueira -  com a legenda “ Mendes incontactável. Telefone impedido trava Siqueira”. Com isto atribuí ao Correio da Manhã (porra para os primeiros amores!) a medalha de bronze; a de ouro vai para as autoridades da República Checa (país de Jan Mazarik, Jan Palach, Milan Kundera e Vaklav Havel) que marcaram com um número  no braço os refugiados que atravessaram as suas fronteiras, como os tanques russos em 1969, e a de prata ex aequo para a Austrália, o Canadá, a Hungria e o Reino Unido, a primeira porque se esqueceu que os seus primeiros habitantes brancos foram o que de pior havia nas prisões britânicas, o segundo porque teve a falta de pudor de oferecer um visto de entrada no seu território ao Pai (que teve a dignidade de o recusar) dos meninos mortos quando o negou a toda a Família em vida, a terceira porque ressuscitou o Muro que tão boas recordações lhe deve ter deixado em 1956, e o quarto porque persiste em teimar, na sua grandeza, ser continente entalado entre duas ilhas, a Irlanda e o resto da Europa.

Ah, a propósito gostava de vos lembrar que o “Documentário de Alfred Hitchcock”sobre os campos de concentração nazis vai ser, ou  já foi, projectado durante o 72º Festival de Cinema de Veneza”, a decorrer de 2 a 12 de Setembro. É sempre bom repetir certos conceitos para que não caiam em desuso por inércia ou falta de informação.
Abraço.

Lisboa, 9 de Setembro de 2015
Octávio 

PS (escrito em 4/9):  Afinal o aperitivo que vos neguei vai ser servido como sobremesa porque, para um que pensa que pode resolver puzzles complicados mesmo sem ter as peças todas,  a tentação é grande. Acontece que a Dra. Manuela Ferreira Leite disse à TVI (não é  só o Marques Mendes que dá bitaites) a propósito da anunciada iminente venda do Novo Banco à Fosun, que lhe causava muita admiração e estranheza que o Banco de Portugal e o governo permitissem que a empresa chinesa que fez o que fez com a Fidelidade, adquirisse agora aquele que foi a maior banco comercial português. E disse mais, que até a imprensa norte americana já se tinha ocupado do negócio, alertando para o que poderia vir a ser o primeiro banco comercial europeu comprado pela China, facto  não do agrado da Casa Branca. Alinhei  as peças do puzzle que a Senhora tinha posto em cima da mesa – com intenção, sem ela, simples recado? -, e não me admiraria se, obedientes como somos a ultimatos vindos de quem tem poder para os fazer, o Banco de Portugal nos continuasse a adormecer com a venda à Fosun, hoje até ao fim do dia o mais tardar até ao fim da semana ou do mês, e no recato dos gabinetes, isto é, nas nossas costas, estivesse a obedecer ao Tio Sam e a preparar a venda ao Apollo, anunciando-nos a sofrida decisão, em nome dos altos  interesses da Nação, nas vésperas das eleições (mais vale um pássaro na mão…). E o que é o Apollo Global Management?  Como não invento nada, tirei isto do seu site:

Apollo is a leading global alternative investment manager. We are contrarian, value-oriented investors in private equity, credit and real estate. We focus our investments in areas where we can capitalize upon our integrated platform. We have applied this investment philosophy over our 24-year history, deploying capital across the balance sheet of industry leading businesses, and seeking to create value for our investors throughout economic cycles.

Traduzam vocês porque em inglês só sou bom a ler nas entrelinhas, e o que não li assustou-me. E quem é o CEO do Apollo ? É um tal Leon Black, célebre misterioso comprador do quadro “O Grito”, de Eduard Munch, por 120 milhões de US dólares. Se as minhas desconfianças se concretizarem (se não for assim  peço desculpa, mas foi a Senhora que me apurou o faro), temo que o Sr. Black  pendure no seu futuro gabinete da Alexandre Herculano, ao lado do quadro de Munch, as fotografias dos funcionários que irá dispensar (pôr no olho da rua) para manter a estabilidade, rentabilidade e credibilidade da empresa em nome do princípio de “create value for our investors throughout economic cycles”, quando os seus persuasivos agentes especialistas de mercados (vendedores de fumo) os convencerem que é para seu bem que irão começar uma vida nova e, sobretudo, melhor, podendo dar largas ao seu espírito empreendedor, o que lhes abrirá um futuro risonho, constelado de Auroras Douradas que eles estão a ajudar a construir.  Como o BdP, o PM, o VPM, a Senhora Luis e o resto da quadrilha (mais vale um pássaro na mão que um Costa a dar tiros à toa como se estivesse na Quinta do Conde) continuam a vender-nos que a venda aos chineses está por horas, fico tranquilo porque mais uma vez devo estar enganado, mas é sempre bom repetir certos conceitos para que não caiam em desuso por inércia ou falta de informação.

PS 2 (escrito em 6/9): Não sei se repararam mas o Sócrates passou do 44 de Évora para o 33 do Alto do Pina, e faz hoje, 6/9, 58 anos. Curioso que sou, e interessando-me por numerologia, fui consultar a Smorfia, tratado popular napolitano sobre o significado dos sonhos e dos números, que continua hoje a ser indispensável para fazer a ligação entre ambos e jogar o resultado no Totoloto, e o que me apareceu foi isto: 44, A Prisão (transparente como a água), 33, Anos de Cristo (que mártir, nos salvou), 58, O Embrulho (conto do vigário), 6, A que tem os olhos no chão (a Nação Portuguesa, por vergonha), 9, A Geração (esta, a mais sacrificada). No comments. Já que tinha a lista dos números à minha frente, fui ver também o meu: 23, O Pateta! Saio a correr para jogar estes números. Esta semana não pode falhar!