quinta-feira, 17 de março de 2016

Sempre Eco, jockey mercenário de palavras vencedor de todos os Pálios, fantasma dos coveiros da cultura, dentro e fora das muralhas, professor de magalas, exímio contador de anedotas de judeus, viaja agora com salmões na Nave de Teseu rumo à eternidade, com a benção judaica do ateu Ovadia.


Umberto Eco dizia que desejava que os seus leitores se divertissem tanto a lê-lo como ele se divertia a escrever. Como é que os meus leitores se podem divertir a ler-me se é com grande sacrifício, e trabalho, que me sento para escrevinhar esta meia dúzia de linhas por obrigação semanal? Em Siena, na Toscana, realiza-se todos os anos uma (na realidade, duas) corrida de cavalos, o Pálio de Siena, em que cada cavalo, que representa um dos bairros da cidade, é montado em pelo por um jockey mercenário, corrida com algumas regras mas sem quaisquer princípios éticos, na qual todos os comércios são tolerados. Uma das regras é aquela que, dando a primazia ao quadrúpede, diz que o primeiro cavalo a cortar a meta é o vencedor independentemente de ter ou não o jockey em cima. Isto para vos dizer que, quando acabo de escrever cada crónica, me sinto como o cavalo vencedor sem cavaleiro, não percebendo bem como aconteceu, só certo que o perdi pelo caminho. Uma coisa que sonhei escrever, caso para isso tivesse saber e capacidade, era um ensaio comparativo entre o Pálio e a política italiana, mas terei de deixar isso para uma próxima reincarnação, limitando-me talvez a rascunhar qualquer coisa sobre aquela portuguesa à luz das Lendas e Narrativas com uns pós do Pátio das Cantigas, tudo acompanhado com a música dos Xutos e Pontapés, que é como apetece tratar os protagonistas.

Eco, se alguma vez tivesse participado no Pálio, acabaria à frente, ele e o cavalo, provando que a força a nada serve sem a inteligência. E a sua está toda expressa no seu penúltimo livro “Como viajar com um salmão”, já publicado pela sua casa editora “A Nave de Teseu”, livro que é composto por textos que mais não são que uma divertida súmula de instruções para uso: como desmentir um desmentido, como sobreviver à burocracia, como fazer filosofia em casa, como evitar o carnaval, como tornar-se Cavaleiro de Malta e, como diz o título, como viajar com um salmão. Para aqueles que aconselham os aspirantes a escritores a não se meterem em política porque esta não passa esta de um facto circunstancial, Eco “ensinou-nos a não separar nunca a arte da ciência e da política. Nos vinte anos do consulado de Berlusconi teve valor simbólico para a resistência de toda a cultura europeia”, e isto são palavras do grande filósofo alemão Rüdiger Safranski. Eco era “claro, divertido e mordaz” disse Giovanna Cosenza, Professora de Filosofia, Comunicação e Teoria da Linguagem da Universidade de Bolonha, com um doutoramento em Semiótica sob a orientação de Umberto Eco, seu docente de referência: “Claro, porque tinha a capacidade extraordinária de traduzir sempre em palavras simples e concretas os conceitos mais difíceis, as relações lógicas mais abstractas, as reflexões filosóficas mais importantes. Divertido, porque nas suas lições alternava o alto com o baixo, um léxico rebuscado com palavras de todos os dias (asneiredo quando necessário), a argumentação mais complexa com anedotas, e era frequente os alunos desatarem a rir: nada é mais eficaz que ligar conceitos a emoções, e ele fazia-o. Mordaz, porque era sempre directo e imediato, isto é, dizia o que pensava no momento em que o estava a pensar; de fazer medo, tanto era o que ele sabia comparado o teu pouco, o tudo e o nada”.

“Como é que faço a explicar à minha Mulher que quando estou à janela estou a trabalhar?”, perguntava ele que, no dizer de um dos seus alunos “nunca um chapéu cobriu tanta inteligência, para além de toda a biblioteca que a sua cabeça continha”, aluno que um dia lhe perguntou quem eram para ele os clássicos: “– São aqueles que estudamos na escola, aprendemos a amá-los depois da escola, e nos prolongam a vida”, foi a resposta do mestre que, talvez sem o saber, falava de si próprio.  Um dos maiores troféus do “semiólogo por antonomásia” foi, no contar de Furio Colombo, jornalista e comunicador, obtido durante uma conferência em Pequim, onde deparou com uma sala cheia, a rebentar pelas costuras, mas de velhos. Dos jovens que esperava nem o cheiro! Eco, só com o seu saber, a aterrorizar um inteiro regime preocupado com o que ele poderia transmitir às novas gerações. Conta ainda Furio Colombo, seu amigo desde os bancos da escola e agora sócio de “A Nave de Teseu”, ter-lhe recomendado quando assentou praça, de não ir para a tropa armar em culto pois que isso poderia prejudicar as suas relações com camaradas e superiores. Um dia passou pela caserna para o cumprimentar e, ao informar a sentinela ao que ia, teve como resposta: “- Agora não é possível porque o Professor está a ensinar”.

Recordando que acaba de ser publicado em Itália, em 26/2/2016, o seu último livro “Pape Satàn Allepe” (ver crónica da semana passada), deve ser dito que isto foi um gesto de militância, para além de um acto de fé. O livro foi publicado pela nova editora “A Nave de Teseu”, que Umberto Eco fundou com um punhado de amigos em Dezembro de 2015. Tal como os outros accionistas fundadores, Eco quis meter areia na engrenagem do monopólio da edição italiana após a aquisição da Rizzoli pela Mondadori, propriedade do clan Berlusconi. Ao financiar o projecto com 2 milhões de euros, declarou: “- É para mim uma forma de luta contra o Alzheimer, mais eficaz que as palavras cruzadas”. Todos os livros de Eco serão doravante editados pela nova casa editora, à medida  que se libertem dos direitos.

Na minha crónica de 3/3, há 15 dias, falei-vos do seu amigo Moni Ovadia, judeu que passava com ele noites e noites trocando entre si  “furiosamente” as suas anedotas, a ponto de Eco lhe ter perguntado numa dessas noites: “- Agora que já sei todas as tuas e tu sabes as minhas o que é que vamos fazer? Não te preocupes, respondeu Ovadia, porque a piedade do Alzheimer e da arteriosclerose nos fará esquecer todas para depois recomeçarmos. Acontece que Ovadia referiu tudo isto na cerimónia de despedida de Umberto Eco, e ainda uma anedota judaica que este lhe tinha contado, tendo acabado a sua intervenção com uma bênção que considerou um dever judaico, de não crente a não crente: “Que Deus te abençoe e te proteja, sobretudo porque não o crês...o bom Deus, na sua infinita misericórdia, suporta os crentes mas prefere os ateus”. Deixo-vos aqui a oração de Ovadia, não para que ouçam a anedota, mas para que se dêem conta da atmosfera que envolveu a cerimónia fúnebre – que não teve nada de fúnebre -, e sobretudo pela bênção que, sem saber se seria desejada pelo seu amigo, lhe deu por dever da sua religião, da qual se declarou não crente. Paradoxo a provar que, mesmo para homens sem fé, há qualquer coisa a eles superior.

Para acabar volto à sua aluna Giovanna Cosenza que disse nestes dias: “Engana-se quem pensa que Umberto Eco nos deixou. O Professor está vivo, está ainda no meio de nós, não só porque vive nos textos que produziu e estão espalhados por todo o mundo, mas porque vive nas dezenas de milhares dos seu ex- alunos que tiveram a sorte de se apinharem nas salas onde leccionava, e o fizeram por meses e anos.”

Como é que faço a explicar aos meus Netos que quando estou enfronhado num livro, numa revista ou num jornal, ou de nariz levantado a cheirar o ar pelas Avenidas Novas e arredores, ou na Avenida da Liberdade, estou a trabalhar, talvez também para eles? Ou bastará dizer-lhes que “é preciso ser como as girafas para se comerem só as folhas melhores ao mesmo tempo que nos aproximamos do céu”, como dizia o Mestre.
 

Abraço.


Lisboa, 17 de Março de 2016
Octávio Santos

quinta-feira, 10 de março de 2016

Ecos, imagens de Eco com eco, canetas autónomas, novos e intricados conceitos para uso global, César e Cleópatra, torturas à sombra das pirâmides, Giulio do Cairo e Luaty de Luanda, ambos real people porque Fizz não é só gin, BANIF e CPLP, tudo ecos sem força para fazer eco, ideias e fósforos, erros que redimem, tradução sem eco de um Eco intraduzível (pelo menos por mim).


 
Já vos disse que escrevo conforme a caneta que escolho e hoje, que queria continuar a escrever sobre Umberto Eco, agarrei aquela errada – uma Parker 51 com 40 anos – e aqui estou a dar-vos conta daquilo que percebi sobre um conceito reservado àqueles que de política entendem, ou seja, de real politik. Aqui há uns anos percebi também o conceito das contrapartidas tendo-vos impingindo como quem não quer a coisa, sob a forma de “e-mailico triálogo”, nas minhas crónicas de 6/2/2014 (acesso a um link) e de 1/10/2015 (directamente no texto), pedindo agora desculpa pela repetição mas os velhos são chatos e têm o hábito de repetirem aquilo que lhes parece importante, sem se preocuparem se interessa também aos outros; eu, que tenho o meu baricentro dentro de mim e não tenho o código de barras colado na testa, estou-me mesmo marimbando para aqueles a quem estas coisas não interessam, seja por preguiça ou por interesse. Mas vamos lá à real politik que, não sabendo eu explicar teoricamente, vos transmito através de dois exemplos recentes:


1 - Itália/Egipto

Os dois grandes países mediterrânicos tiveram desde sempre relações estreitas e privilegiadas, bastando pensar a Cleópatra, César e Marco António, à Dinastia Ptolomaica, que se seguiu à conquista de Alexandre Magno, e governou a província romana do Egipto desde o ano 120 a.c., às pesquisas e descobertas arqueológicas levadas a cabo durante os dois séculos anteriores (XIX e XX) por equipas técnicas italianas ou, mais recentemente, a faraónica transferência do Templo de Abu Simbel por via da construção da barragem de Assuão, tudo executado por empresas e técnicos transalpinos. Hoje, em termos económicos, a Itália é o primeiro fornecedor europeu de bens e serviços ao Egipto (90 milhões de consumidores) – 3º mundial depois dos EUA e da China -, cifrando-se o montante anual das trocas em 3 mil milhões de euros da Itália para o Egipto (maquinaria, equipamento e bens de consumo), e em 2,5 mil milhões no sentido contrário (petróleo). O PM italiano Matteo Renzi, que acaba de assinar em Roma com o Presidente Al Sisi, acordos de comércio (elevar as trocas para 6 mil milhões em 2016), indústria, tecnologia e inovação, e foi o único PM dos G7 a participar na Conferência de Sharm el Sheik, disse: “ Neste momento o Egipto salva-se somente graças à leadership de Al Sisi. Tenho muito orgulho na minha amizade com ele e apoiarei os seus esforços de paz, porque num Mediterrâneo sem o Egipto não haverá paz. O Egipto é crucial para a Itália, não só para pôr fim ao caos líbico, mas também porque é um grande parceiro económico”. O ENI descobriu ultimamente as maiores jazidas de gás e petróleo do Mediterrâneo, na zona de Zohr, offshore egípcio. No meu e-mail de 10/2/2016, alertei-vos para o caso de um jovem que deve ter metido o bedelho onde não era chamado, tendo pago o seu atrevimento com a vida:

Giulio Regeni, 28 anos, mestrado em Cambridge, torturado e assassinado no Cairo porque se atreveu a tentar compreender o que se passa no Egipto de hoje.   O resultado é que as autoridades egípcias desmentem, maldestra mas categoricamente, aquilo que todos sabem: o rapaz foi levado pela secreta tal como outras 75 pessoas presas em 25/1/2016, noite em que Giulio desapareceu, a somar às 40 mil detidas durante o regime de Al Sisi, 90 das quais desaparecidas. O Governo italiano apresenta condolências à Família Regeni (o egípcio também), declarando que descobrir a verdade é a sua primeira prioridade, manda uma equipa de técnicos ao Cairo para auxiliar os inquéritos, puxa as orelhas com jeitinho ao sorridente Embaixador egípcio em Roma, faz boletins da situação a toda a hora; “felizmente” que foram entretanto assassinados dois técnicos italianos na Líbia, passando o caso Regeni para segundo plano na opinião pública, o que significa que morreu ou que será embalsamado em vida. Real Politik?


2 – Portugal/Angola (CPLP)

Não vos vou fazer um desenho das relações luso-angolanas como vos fiz acima das italo-egípcias, porque seria uma perda de tempo e só repetiria aquilo que todos já sabem, de El Dorado a Boca do Inferno, mas posso-vos aconselhar a leitura do livro de Filipe S. Fernandes “Segredos e poder do dinheiro””, que descreve exaustivamente o carrocel Santoro Finance S.A. movido a pulso de ferro pela nova DDT Isabel dos Santos, para terem uma ideia de onde estamos metidos. Mas tendo ouvido uns zum-zuns sobre a “Operação Fizz”, que não sei se foi baptizada neste andaço de moda do gin, e lido o editorial do Jornal de Angola do passado dia 4/3, intitulado “Caso ManuelVicente é vingança de colono, confessando não ter percebido grande coisa, resolvi especular sobre o assunto à minha confusa e abusiva maneira:

“Era uma vez um Procurador do Ministério Público Orlando Figueira que tendo a seu cargo a investigação dos dossiers BESA e BANIF corrupção transferência de fundos branqueamento de capitais e associação criminosa que implicavam políticos e generais angolanos o BAI o BCP o Activo Bank a Sonangol e a sua filha Primagest a Portmill Investimentos e Telecomunicações S.A. os advogados BAS e Paulo Blanco e calculem a compra de 8 apartamentos, 8 em Cascais no valor de 8 milhões de euros pelo vice-presidente Manuel Vicente começou a receber atenções por parte de figuras gradas do país das palancas foi até lá fazer conferências sobre assuntos da sua especialidade a saber corrupção branqueamento de capitais falsidade informática e veio de lá de tal maneira iluminado pelo sol da baía de Luanda que arquivou o processo do BESA com o Sobrinho de algibeiras a abarrotar e tudo tudo lícito por amor de Deus e pediu para ir para casa descansar mas aí não teve  nojo de mentir e foi exercer as suas especialidades no complience do BCP do qual a Sonangol é a principal accionista tendo-se agora lembrado um juiz picuinhas de o acusar daquelas que eram as suas especialidades e repito corrupção neste caso passiva de forma agravada branqueamento de capitais e falsidade informática tendo mesmo tido a desfaçatez de implicar no caso por corrupção activa o dito Manuel Vicente mais o advogado Paulo Blanco os quais evidentemente não têm nada ver com isso o que no meu entender vai ser dado como provado era melhor não ser e bem pode o Luaty Brandão mais os seus 14 compinchas esperar deitados e com fome e o Rafael Marques continuar a jurar a pés juntos que tudo o que escreveu no livro “Diamantes de sangue” são verdades como punhos que do lado de cá ninguém nem Marcelo nem Costa vai mover uma palha por eles e neste caso também por nós porque somos todos vítimas. Real politik?  

Lembrei-me agora mesmo, sem ter de mudar de caneta, que, quando fui à Guiné Equatorial em 2009, eu que sou picuinhas como o juiz do Fizz, assentei tudo no meu caderninho, bati até foto onde não se podia bater, mas só mais tarde percebi porque é que nos dois únicos empresários portugueses que o ditador Obiang aceitou receber junto com o MNE Luís Amado, não entrou o representante da CGD (que ficou danado) e, quando já acabada a visita, estávamos todos sentados no hotel em Malabo à espera do transfer para o aeroporto, cheguei-me ao MNE e disse-lhe, contrariando uma ranhosa de uma assessora que me fazia desesperados sinais com as mãos (e as pulseiras) para não incomodar Sua Excelência, que seria a primeira vez que não ia poder fazer um relatório fiel do que vira e ouvira para o Presidente da AICEP, respondendo-me Sua Excelência que não via o porquê. E eu escrevi tudo, só não falando do BANIF porque nesse tempo Horácio Roque era vivo e o banco era sólido e não tinha problemas, não constando qualquer seu representante da lista das empresas convidadas. Real politik?

E agora, porque não vos posso defraudar, pego na Caran d’Ache prenda do meu Irmão pequenino na última vez que foi ter comigo à Cidade da Praia, e vou-vos traduzir o primeiro texto da rubrica intitulada “A Carteirinha de Minervadatada de 31/3/1985, rubrica que, semanal até Março de 1998, tornada depois quinzenal por força, não só da sua actividade didáctica, mas também, e sobretudo, dos convites que recebia de todo o mundo para lições, cursos académicos e conferências, e que Umberto Eco manteve até ao fim na última página da revista “L’Espresso”, o último dos quais em 27/1/2016, tendo telefonado ao director pedindo desculpa de ter de a interromper “por um mês ou dois”. Os textos de “A Carteirinha de Minerva” (A) foram compilados nos volumes “O Segundo Diário Mínimo” e no homónimo “A Carteirinha de Minerva”, estando agora para serem publicados aqueles de 2000 até ao último (27/1/2016) num livro intitulado “Pape Satàn Aleppe”, “citação dantesca que não quer dizer nada, e portanto suficientemente líquida para caracterizar a confusão dos nossos tempos”, com o sub-título “Crónicas de uma sociedade líquida”. Em nome da precisão, Eco começou a colaborar com “L’Espresso” muito antes desta rubrica; desde 1965 que escrevia para o semanário artigos de todos os géneros, desde a semiologia, sua matéria de estudo e de ensino, à filosofia, à história, à política e à ética. Aí vai a indigna tradução (B) do texto, que para além de ser uma extraordinária lição, tem um título que, “celebrando o erro e o acaso como instrumentos de descoberta”, é para mim um conforto:

Que belo erro!

Estou iniciando uma rubrica. Já me aconteceu mais vezes e tive sempre força para desistir durante o primeiro ano. O encontro obrigatório semanal corrói. Desta vez talvez desista antes, estou só a experimentar, para agradar ao Director, homem poderosíssimo e vingativo, à procura de novidade. Intitulo-a à carteirinha de Minerva, sem referência à deusa da sabedoria, mas aos fósforos. Quando acontece que a carteirinha esteja internamente virgem de publicidade, os homens pensantes têm o hábito de aí tomar nota de ideias vagantes, números de telefone de mulheres que um dia será oportuno amar, títulos de livros a comprar, ou a evitar. Valentino Bompiani escrevia (e talvez escreva ainda) as ideias que lhe passavam pela cabeça na parte de trás dos maços de refinadíssimos cigarros turcos. Penso que conserve milhares de recortes de maços nos seus arquivos, e muitas das suas iniciativas editoriais começaram assim. Dado o número das fichas felizmente acumuladas, direi que o fumo não faz mal.

Tenho para mim que seja útil tomar notas de ideias nas carteirinhas de Minerva, e também Husserl fazia qualquer coisa do género. Em Lovaina não conseguiram ainda decifrar tudo aquilo que escreveu, e o reitor da universidade, que tem de destinar fundos para a pesquisa sobre aqueles criptogramas, dizia-me entre o preocupado e o chistoso que um homem que escreveu tantos folhetos (creio que sejam cem mil) não pode ter sempre escrito coisas sensatas. No entanto as coisas que publicou são cheias de sentido. Isto significa que a humanidade pensante se divide entre quem se limita aos Minerva e quem depois coordena estes apontamentos num discurso orgânico. E é aí que o pente tropeça no cabelo enriçado. De momento carteirinhas: sobre o último livro não lido, sobre a intuição que nos atravessou a mente na auto-estrada quando se travava para não acabar atrás de um Tir, sobre o ser e o nada, sobre passos célebres do Fred Astaire. Depois se verá. 

Primeiro pensamento. Ando a seguir o Colombo televisivo, e não tenho intenção de roubar o trabalho ao titular da rubrica atinente. Simplesmente (e acontece todas as vezes que se relê a história de Colombo) admira quanto se pode ir longe com uma ideia errada. Mais, com um saco de ideias todas erradas: errado o cálculo das dimensões da terra, errado o crédito dado a certos cartógrafos, errado o projecto de redenção dos selvagens asiáticos, errado até o investimento económico. Pobre Cristóvão acabado assim tão tristemente. E, no entanto, a sua descoberta revolucionou o nosso milénio. Para este género de descobertas, feitas por engano, os ingleses têm um termo que não existe no nosso léxico a não ser por decalque: “serendipidade”. É curioso que o termo entre no léxico inglês por causa da história dos três princípios de Serendip, escrita no século XVIII por Horace Walpole. Na verdade, a história destes três princípios, que encontram alguma coisa procurando outra, vem de uma antiga novela persa, depois traduzida em italiano no Renascimento e passada a outras culturas europeias, como também nos repetia Carlo Ginzburg no seu famoso ensaio sobre o paradigma indiciário. O facto é que todas as grandes descobertas acontecem por uma ou outra forma de serendipidade. E não estou só a pensar em Madame Curie que deixou, por distração, a pecheblenda  em cima da cómoda, ou ao desventurado Bertoldo il Nero que, à procura do pó de projeção descobre a pólvora. Cada grande descoberta acontece porque o cientista (ou o filólogo, ou o detective) em vez de seguir as vias normais de raciocínio se diverte a pensar que coisa poderia suceder se se hipnotizasse  uma lei de todo inédita e idealmente possível, a qual fosse capaz de justificar – se fosse verdadeira – os factos curiosos aos quais,  com as leis existentes, não se consegue dar explicação. Mas esta lei inédita não aparece assim do pé para a mão: vai-se, digamos, borboletando, passeando com a mente em territórios não nossos. No fundo, o pensador criativo é aquele que decide fazer, em ciência e consciência, o que Colombo fez por engano: “Dado que não encontro uma resposta a este problema, porque é que não procuro a resposta a um outro problema, se calhar completamente extravagante?”.

Treinar-se a arriscar o erro, com a esperança que alguns sejam fecundos. No fundo, até escrever nas carteirinhas de Minerva pode ter a mesma função. Depende naturalmente se lá escreve Kant ou se escrevo eu (a quem Luís Pancorbo atribuiu uma vez o angustiante pensamento: “I can’t be Kant”). Às vezes temo que quem nunca descobre nada seja aquele que só fala quando está seguro de ter razão. Não é verdade aquilo que os nossos pais nos recomendavam: “Antes de falar pensa!”. Pensa, está bem, mas pensa também noutras coisas. As ideias melhores vêm por acaso. Por isso, se são boas, nunca são tuas completamente.”

Que maravilha! (Nota do tradutor)

 Abraço.

Lisboa, 10 de Março de 2016
Octávio Santos
 

A)    “A Carteirinha de Minerva”, minha tradução de “La Bustina di Minerva”, não se refere, com explica o autor do texto aqui traduzido, “à deusa da sabedoria, mas aos fósforos”. Conhecem bem os fumadores a existência de carteirinhas de fósforos (QUINAS - Swedish Match), muito mais cómodas no bolso que as caixinhas  desde o tempo em que os isqueiros pagavam licença (ideia para o Centeno), e era naquelas da marca Minerva que Eco tomava as suas notas. Como ele gostava muito de brincar com as palavras, permiti-me escrever na carteirinha da imagem desta crónica o único anagrama do seu nome que me veio à caneta (com a Parker não teria lá chegado): E BEM O CURTO!!! Espero que todos vós também.


B)    Tentei ainda dar um último retoque na minha tradução mas foi pior a amêndoa que o cimento, e daí saiu um outro anagrama: RETOCO… E BUM! Mas fico à espera que me respondam com outro: RETOCOU BEM!  Tudo serendipidade…

quinta-feira, 3 de março de 2016

Sto. Agostinho, Eco, Lourenço, em rigorosa ordem alfabética, tudo misturado num caldeirão, como faziam os monges medievais, filmes sobre roubos, memórias com música, Pessoa com Gioconda, passado com presente, ensaios com anedotas sobre judeus e alentejanos, Nívea com Nutella.


Aprende-se sempre. Para tentar perceber alguma coisa fui ver o filme “A Queda de Wall Street” e lá pesquei mais alguma coisa da tramóia daquela dúzia de idiotas fechados, que o excessivo poder do dinheiro transformou, na ausência de autoridade, pela via verde da nossa ignorância, em bando de perigosos criminosos à solta. Os quais, afirma-se no filme, odeiam os poetas, que por seu lado, os detestam. Nesta conformidade, Umberto Eco foi o seu contrário (era também poeta), já que utilizou o máximo de autoridade, com o mínimo de poder, para nos tornar menos ignorantes. Filósofo, semiólogo, ensaísta, escritor, eu diria, um homem curioso que soube ler o mundo, interpretando-o para nos oferecer qualquer coisa nos antípodas daquilo que nos “deu” a freenança tão bem retratada no filme, isto é, a estrada justa para pensarmos e agirmos por nós próprios. E aqui volto às coincidências que ultimamente me atenazam, porque Eco viu durante anos, da janela do seu apartamento de Milão, onde viria a falecer, o Castelo Sforzesco, cenário daquilo que foi a sua exaltação, porque me parece redutivo e pífio chamar-lhe velório quando a música, por ele escolhida, foi o “Elogio da Loucura” de Arcangelo Corelli, música que ele próprio tocava na sua flauta ao serão com os amigos, muitos dos quais o vieram recordar. Gostaria muito de saber o que escreveria ele sobre este facto e em que termos o faria, ele que, para além de ser o grande mestre da interpretação dos sinais era senhor de uma ironia infinita.

Quando escrevi no título “Sto. Agostinho, Eco, Lourenço…” não tinha em mente qualquer ligação entre os três; tendo sido uma espécie de impulso, tenho agora de tecer a trama para não ter de o mudar ou para que o mesmo arrisque não fazer sentido, como para mim não faz sentido, na minha falta de saber, o título do último livro do mestre, acabado dois dias antes da sua morte (a), “Pape Sàtan Aleppo”. De Sto. Agostinho, pensando em Eco, saltaram-me logo ao caminho estas confissões do santo:

 “Quando ganhei mais coragem, afastei de mim aquele denso nevoeiro e convenci-me de que se deve acreditar mais nos que ensinam no que naqueles que mandam”.    

“Tudo o que for insuficiente ou excessivo, porque desprovido de medida, encontra-se submetido à indigência. A sabedoria é a medida da alma”.

De Eduardo Lourenço, que, se não fosse por mil outras coisas, teve o mérito de nos explicar os porquês de sermos como somos, fazendo com que um povo mais propenso a acreditar nas fáceis e aliciantes verdades das “Wall Street”, do dinheiro ou da grandeza, todas falsas, comece a considerar e a rever-se naquelas de Eco que, em Portugal, podem ser aquelas de Jorge de Sena ou José Augusto França, ressalto os dois textos abaixo:

“ Os portugueses vivem em permanente representação, tão obsessivo é neles o sentimento de fragilidade íntima inconsciente e a correspondente vontade de a compensar com o desejo de fazer boa figura, a título pessoal ou colectivo. A reserva e a modéstia que parecem constituir a nossa segunda natureza escondem na maioria de nós uma vontade de exibição que toca as raias da paranóia, exibição trágica, não aquela desinibida, que é característica de sociedades em que o abismo entre o que se é e o que se deve parecer não atinge o grau patológico que existe entre nós”. 

“Os portugueses não convivem entre si, como uma lenda tenaz o proclama, espiam-se, controlam-se uns aos outros; não dialogam, disputam-se, e a convivência é uma osmose do mesmo ao mesmo, sem enriquecimento mútuo, que nunca um português confessará que aprendeu alguma coisa de outro, a menos que seja pai ou mãe…”.

Estudioso da língua, questão que para ele continuava aberta, ousando classificar a escolha de Dante (língua toscana tornada italiana) como uma “confusa veleidade vanguardista”, dizia que na língua nada é inocente e tudo é política, até na pontuação: “A Itália é uma república fundada nas reticências” dizia, parodiando o artigo 1º da constituição “A Itália é uma república fundada no trabalho”. Por cá poderíamos dizer fundada na inveja e na falta de vergonha, e já não tanto no parece mal, porque parece que já tudo parece bem. Eco, que em jovem foi dirigente da acção católica e escolheu S. Tomás de Aquino para a sua tese, admitiu a sua “definitiva apostasia” de qualquer fé religiosa a começar por aquela católica, trocando a apologia do catolicismo por aquela do relativismo ateu. Não sabia, no entanto, explicar as razões da sua perda de fé: “Foi com se se interrompesse um circuito eléctrico”. Posso atrever-me a apontar-lhe uma incoerência quando afirma, referindo-se à morte, que “Para lá daquelas portas de bronze é o caos, a escuridão. Ou então o Nada, um deserto plano e desolado, sem fim”, declarando pouco tempo depois que “no além se poderia vir a entender com Jesus”. Não é obrigatório gostar de Eco, mas é uma pena não gostar de Eco, e isto foi-me sugerido por Eduardo Lourenço que disse sobre Pessoa:

“Uma pessoa não se pode fixar na ideia de que é obrigatório gostar de Pessoa. O Eça de Queirós tem uma página admirável sobre o homem que não gostava da Gioconda. O meu amigo Vasco Graça Moura é o homem que não gosta de Pessoa. Tal como a personagem de Eça não gostava da Gioconda. Não é obrigatório gostar da Gioconda. Mas é uma pena não gostar da Gioconda.”

A influência de Eco no pensamento ocidental nos últimos 50 anos foi talvez tão importante como a de Sto. Agostinho em todos os séculos anteriores, salvo as devidas proporções e por vias opostas. Sto. Agostinho declarou “lamentar em particular a sua aproximação inicial à filosofia pagã, a qual jamais pode levar o homem à verdade como faz o cristianismo”, enquanto Eco, já vimos acima, trocou a “Cidade de Deus” pela “Cidade dos Homens”. Dizia ele que “nós somos a nossa memória. Se alguém perde a memória torna-se um vegetal e deixa de ter alma. Mesmo do ponto de vista de um crente não penso que o inferno faça sentido se lá se chegar sem memória. O sofrimento consiste em recordar o mal que se fez". Sto. Agostinho no “Milagre da Memória” diz:

“Há imagens que acodem à mente facilmente e em sequência ordenada à medida que são chamadas, as primeiras cedendo lugar às seguintes, e desaparecem, para se apresentarem novamente quando eu quiser. É o que sucede quando conto alguma coisa de memória. Ali se conservam também, distintas em espécies, as sensações que aí penetram cada qual pela sua porta: a luz, as cores, as formas dos corpos, pelos olhos; toda a espécie de sons, pelos ouvidos; todos os odores, pelas narinas; todos os sabores, pela boca; enfim, pelo tacto de todo o corpo, o duro e o brando, o quente e o frio, o suave e o áspero, o pesado e o leve, quer intrínseco como extrínseco ao corpo. A memória armazena tudo isso em seus vastos recessos, em suas secretas e inefáveis sinuosidades, para lembrá-los e trazê-los à luz conforme a necessidade. Todas essas imagens entram na memória por suas respectivas portas, sendo ali armazenadas. Tudo isso eu guardo na minha memória, assim como o modo pelo qual o aprendi. Também guardo na memória as muitas argumentações infundadas que ouvi contra essas verdades. Essas objecções sem dúvida são falsas, mas não é falso recordá-las. E lembro-me de ter sabido distinguir entre essas verdades e os erros que se lhe opunham. Vejo agora que uma coisa é essa distinção, que faço hoje, e outra o recordar ter feito muitas vezes tal distinção, ao considerá-las. Lembro-me, portanto, de ter muitas vezes compreendido isso, e confio à memória o acto actual de distingui-las e compreendê-las, para me lembrar, mais tarde, de que hoje as compreendi. Lembro-me então de que me lembrei; e se mais tarde lembrar de que agora pude recordar estas coisas, será ainda por força da memória.”

Não é obrigatório gostar de Sto. Agostinho, mas é uma pena não gostar de Sto. Agostinho, diria Eduardo Lourenço que, a propósito de memória se distraiu de si para se recordar de coisas mais altas, senão leiam:

“Estive sempre ao lado da minha vida distraidamente longa. Nunca estive atento. Vendo bem, vivi em dois registos. Como se a vida real não me dissesse respeito. Sempre a fingir que não estava lá, para não estar onde estava. No fundo sou pouco sério.”

“Tenho uma grande memória do simbólico. O mundo real é o mundo da poesia e da ficção. Há um diálogo constante com o que leio ou li. Com os livros e as personagens. São a minha família secreta.”

De Umberto Eco, que no segundo ano do liceu fundou uma revista intitulada “Não tenho vontade de estudar” onde, para além das suas reflexões, metia os seus desenhos e caricaturas, escreveu Nuccio Ordine, professor de literatura italiana e filosofia: “O desaparecimento de Umberto Eco deixa um vazio que não se pode preencher. Agora ficamos mais sós sem Umberto, sem a sua amizade. O seu bom humor, e as suas anedotas contadas mesmo durante as ocasiões mais sérias e os eventos mais formais, vão fazer-nos falta, como nos vão fazer falta a sua auto ironia e os seus contundentes comentários sobre os desvios culturais e políticos.” E é pegando nas suas anedotas que quero acabar esta crónica. O seu amigo Moni Ovadia, actor, escritor, compositor e cantor italiano, nascido na Bulgária de pais hebreus sefarditas, foi um dos que falou na cerimónia de despedida de Umberto Eco no Castelo Sforzesco, tendo lembrado que a cada encontro trocavam entre si as últimas anedotas ouvidas, tendo mesmo contado a última que tanto tinha feito rir Umberto, e que não repito aqui por ser longa como todas as anedotas de judeus. Lembrei-me então, e porque Eco foi cremado, se por um bambúrrio da sorte o tivesse encontrado lhe teria contado aquela do alentejano que morre e a Mulher vai à loja que vende tudo da sua terreola, onde compra todas as embalagens de creme Nívea disponíveis nas prateleiras, o que espantou o tendeiro que não resistiu a perguntar-lhe: “ - Mas p’ra que raio é que quer tanto creme? - Ao que a recém viúva retorquiu: - É que o meu homem morreu e pediu para ser cremado!” Fico a imaginar o Eco a rir-se por trás da barba, que usava, dizia ele, para esconder a fealdade, e a dizer-me que no seu caso, já que era piemontês, seria cremado com Nutella!

Para acabar de maneira séria e não dizerem que levo tudo para a galhofa, lembro, a propósito do filme que fui ver, que Eco escreveu no seu ensaio “Construir o inimigo” : “Para manter o povo sob controlo, é necessário inventar constantemente inimigos, e pintá-los de maneira a inspirarem medo ou repugnância.”. No filme é dito expressamente que hoje os inimigos são “os pobrezinhos e os emigrantes”.

a)   Ao folhear a revista “L’Espresso” de 25/2, dei com isto na página 4: «A rubrica semanal “A Carteirinha de Minerva”, de Umberto Eco, não é publicada por uma indisposição do autor».

Abraço.
 

Lisboa, 3 de Março de 2016
Octávio Santos
 

P.S. - Já me tinha referido a Umberto Eco na minha crónica de 24/9/2015; hoje, após a sua morte, voltei ao mestre, mas o que deixei por escrever não pode ser guardado só para mim e, por isso, vai ser novamente objecto da(s) minha(s) próxima(s) crónica(s),  pedindo desde já desculpa pela monótona insistência.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Prometidos restos de Sanremo requentados, melhores de um dia para o outro tal qual os carapaus fritos, música e muito, muito, mais de um génio predestinado e brincadeira amarga à beira mar de um palhaço pobre com lágrimas.


Quando prometo cumpro, com excepções que confirmam a regra, e lembro-me de ter anunciado na crónica da semana passada que vos faria ver e ouvir os dois momentos altos do Festival de Sanremo 2016 que foram aqueles protagonizados pelo maestro Ezio Bosso - Meu Deus, como é possível! -, e pelo cómico siciliano Nino Frassica -  chora palhaço, chora… -, mas abro aqui um parêntese para me corrigir porque me recordo de vos ter dito que não ouvi novidades musicais no citado festival, mas ao escutar repetidamente a canção vencedora “Un giorno mi dirai”, muito bem interpretada pelo histórico complexo “I Stadio”, mudei de opinião - só os burros e políticos aparentados não o fazem – porque é um belo rock, com uma bela letra – a carta de um Pai a uma Filha – que nos faz pensar, emocionar e comover. Fecho o parêntese.

Voltando aos dois momentos que aqui vos deixo com a respectiva tradução, digo-vos que, tanto o momento de Ezio Bosso, incluindo a interpretação da sua composição  Following a bird”,  como aquele  em que Nino Frassica nos diz o poema “A mare si gioca”, não podem deixar de vos fazer correr uma lagrimazita, e de provocar uma reflexão sobre os mistérios da vida que tantos tentam desvalorizar, ou mesmo destruir, sem razões válidas, mesmo que a alguns pareçam aparentes. Acrescento, no que toca ao maestro, tratar-se de alguém praticamente desconhecido no seu próprio país, com uma brilhante carreira feita entre Londres e Nova Iorque, que aceitou apresentar-se numa manifestação menor, em relação à sua  música, no que foi uma espécie de perdão à sua terra que nunca até agora lhe tinha dado nada, e só por isso foi admirável.  Quanto ao cómico, devo dizer que sendo ele, neste momento em Itália, o expoente máximo de uma comicidade surreal e non sense, consegue, como todos os grandes actores cómicos, dar um enorme dramatismo à sua interpretação, dramatismo esse suportado por poucos e essenciais gestos, perfeitas pausas e inflexões e expressões faciais que, sendo aquelas próprias da sua veia cómica, se suspendem no momento em que normalmente explodem em graça: único e sublime, como a música que acompanha o poema de Tony Conto. 

Seguem as traduções, seguramente com erros e omissões, para aqueles que não conseguirem captar tudo o que foi dito e recitado, e isto para memória futura, pois que, como afirmava Umberto Eco “ A memória está na alma”:

Ezio Bosso (com o apresentador Carlo Conti):

Carlo Conti: - Ezio, estás em Sanremo!

Ezio Bosso: - E o que é que faço aqui?

C.C.: - O que fazes? É a tua arte que te traz cá! Tu és famoso em todo o mundo, mas sei que quando eras pequeno a porteira da tua casa te dizia que um dia irias a Sanremo. É verdade?

E.B.: - Sim, já me lixaste!

C.C.: - Porque é que te lixei?

E.B.: - Porque penso naquela Senhora bonita que traduz tudo quando falo, porque agora estou emocionado e falo pior do que é costume… Devo fazer uma coisa que me faz estar bem: quando começo um concerto digo CIAO, é uma palavra belíssima, e aquela Senhora quando era rapazinho, todos os dias, eu andava ao Conservatório, me dizia: Espero ver-te em Sanremo… e eu respondia…não Senhora, eu não canto!!!! Não, não, quem sabe… talvez dissesse agora “eu tinha-te dito”.

C.C.: - O mundo tem necessidade de música?

E.B.: - Certo, porque a música somos nós, a música é uma riqueza que partilhamos, que aqueles que se nos aproximam nos ensinam que nós pomos as mãos mas a coisa mais importante que existe é escutar.

C.C.: - É verdade…é fundamental. Amanhã estará na Royal Opera House de Londres, e depois estreia um espectáculo no Royal Ballet com as suas músicas… . Sábado estará em Vilnius. Mas onde encontras toda esta energia?

E.B.: - A música é uma verdadeira magia, de facto sabem que não é por acaso que os maestros têm uma varinha como os magos. Pensa que a música me deu o dom da ubiquidade; a música que escrevi está em Londres, dirigida por um bravo maestro com o ballet mais importante do mundo ... junto com o da Scala ... e eu estou ali, tenho o dom da ubiquidade, a música é uma riqueza e sobretudo, como dizia o grande maestro Claudio Abbado, é a nossa verdadeira terra.

C.C.: - Há poucos meses saiu o teu último CD que é “A 12ª câmara” (a), porque, segundo uma antiga teoria, 12 são as câmaras da nossa vida.

E.B.: - Sim. Eu gostei… levo sempre um pouco de água ao meu moinho…

C.C.: - Claro, obviamente,  também eu gostei…

E.B.: - Mas, neste momento, nós os homens somos estranhos porque damos por adquiridas as coisas belas…

C.C.: - Estão ali…são belas…

E.B.: - As câmaras são uma coisa…inventámo-las nós, para nos protegermos, e demos-lhe nomes e então eu que às vezes… temo-las todos uma câmara que não nos agrada mas onde entramos. O nome original da canção era câmara, os trovadores não vendiam canções mas câmaras…como acontece neste momento…Então, a mim que gosto de bisbilhotar, explorar o que por vezes damos por adquirido, encontrei uma coisa belíssima, às vezes sucede… a santos e a cães… mas a todos, dentro e fora, uma câmara que é escura, que nos é fechada, é pequena… eu encontrei esta teoria que diz que nós não somos uma linha, mas somos 12 câmaras e na última, que não é a última ... porque tudo muda ...Recordemos a 1ª… porque quando nascemos não podemos recordar porque não vemos… mas ali recordamo-las e estamos prontos a recomeçar, e ali somos livres.

C.C.: - Quando chegaste disseste-me atrás do pano: És um louco por me teres convidado…  e eu estou feliz por ser um louco, mas mesmo feliz. Agora vais executar “Following a bird” que tem um significado especial, particular?

E.B.: - Sim. Gosto de a tocar, e faço só uma pequena parte desta peça, que para mim é importante e com que abro todos os meus concertos. Eu sou um desastre com os títulos, mas este é em inglês (porque assim pareço mais engraçadinho) porque “Seguir um passarinho” não era nada interessante, não é…

C.C. : - É, em inglês, “Following a bird” é muito melhor…

E.B. : - Então seguindo aquele passarinho que voava perdi-me e pus-me a raciocinar sobre a importância de perder-se para aprender a seguir; nós dizemos que perder-se é feio, mas não, porque perder os preconceitos, o medo, a dor, aproxima-nos e faz-nos andar em frente. Agora tentarei tocar… mas estou agitado.

C.C. : - “Following a Bird”, maestro Ezio Bosso! 

(Segue-se a execução, magnífica na sua simplicidade; não deixem de ver mesmo que tenham coisas mais importantes). 

C.C.: - Não só tocaste em Sanremo mas tiveste até uma standing ovation, não só ao artista mas também ao homem.

E.B.: - Posso dizer uma coisa: recordem sempre que a música, como a vida, só se pode fazer de uma maneira: juntos! CIAO!

C.C.: - Obrigado! EZIO BOSSO!
 

(a)  Em italiano “La 12ª stanza” que se pode traduzir, como fiz, por “câmara”, mas também quarto ou sala, e lembrei-me agora das “Casas do coração” de El Rei D. Duarte no “Leal Conselheiro”, e pergunto-me se não seria esta a melhor tradução.
 

Nino Frassica (com o apresentador Carlo Conti) (A):
 
Carlo Conti: - Qual a canção de Sanremo que te agradou mais?

Nino Frassica: - A canção de Sanremo que me agradou mais ainda não foi cantada.

C.C.: - E a cantará esta noite Nino Frassica. Melhor, afasto-me e anuncio com atenção: “No mar brinca-se”, de Tony Conto, dirige a orquestra o maestro Pinnuccio Pirazzoli, e aconselho-os a estarem com atenção a esta interpretação de Nino Frassica!
 

No mar brinca-se

No mar brinca-se!

Podem fazer-se castelos de areia

Pode-se estar debaixo do chapéu de sol

A fazer  palavras cruzadas

Pode-se jogar com as raquetes e a bola

Podem-se fazer voar papagaios

E pode-se escrever o próprio nome na areia.

 

No mar brinca-se!

Podem-se dar umas voltas num barquinho

Pegar no colchão e tomar banho com o menino

Podes pôr-lhe as braçadeiras, a máscara

E quando sai da água estarmos juntos

E brincar com ele, com a pá e o balde

Porque no mar brinca-se.

 

No mar brinca-se!

As gaivotas sabem-no

Por isso voam rente à água…e gritam

E depois sobem, sobem, altíssimo…

E fingem ser nuvens.

Os pescadores são seus amigos

E lançam-lhes peixes

E elas agradecem, enchendo de alegria branca

Os quadros, os céus, as águas, a vida.

 

No mar brinca-se, brincam todos!!!

Pode-se brincar ao jogo do barco

Sobem todos para um de borracha

Até o encher para lá do inverosímil

E quando aquele que guia o barco,

Aquele que comanda,

Dá ordem de se lançarem todos ao mar

Lançamo-nos ao mar

É um jogo.

 

Quando eu era jovem trabalhava

Na Guarda Costeira, em Lampedusa

Quantas coisas eu vi!

Uma vez durante uma patrulha

Vimos 366 golfinhos enredados nas redes,

Tinham fugido das águas de onde tinham nascido,

Talvez por fome,

Talvez porque havia uma guerra submarina entre os peixes,

Libertámo-los todos das redes

E vimo-los nadar velocíssimos,

Saltar fora de água, e seguir-nos…

Brincavam!!!!!!

 

No mar brinca-se, brinca-se!!!

Há meninos que brincam

A estarem imóveis com a cara na água

Sem respirar, porque sabem bem

Que está para chegar a mão forte do pai

Que os levantará e os fará brincar.

 

No mar brinca-se!

No mar brinca-se! (vozes de crianças)
 

C.C.: - Em Sanremo 2016, um grande Nino Frassica.

N.F.: - Obrigado. 
 

(A) Uma tarde destas estava a ouvir música no carro estacionado no parque dos Inválidos do Comércio, quando vi chegar voando, com palradeira estridente, um casal de periquitos de colar vermelho que poisou numa nespereira, e ali se pôs a comer nêsperas durante um bom quarto de hora. Fiquei a admirá-los e notei que os melros, rolas, pardais e outros pássaros que por ali andavam a encher o papo e a tratar das suas vidinhas, nem por um momento se insurgiram contra aqueles intrusos que, vindos sabe-se lá de onde, se banqueteavam tranquilos nas suas barbas.

Abraço.

Lisboa, 25 de Fevereiro de 2016
Octávio Santos