quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Parte Sexta e finalmente última desta já longa crónica sobre a Av. da Liberdade, obrigatoriamente monótona porque as duas áleas centrais são substancialmente idênticas, com a virtude de servir também de errata às cinco crónicas anteriores, não só para emendar erros e registar mudanças ocorridas mas, sobretudo, para reparar imperdoáveis omissões indignas de um cronista minucioso que já está a ver leitores a esquadrinharem a Avenida seguindo o guião por si proposto, na mórbida expectativa de o apanharem em falta.


Começo esta última etapa do meu contar a Avenida, agora que estou a iniciar a álea direita de quem sobe, transcrevendo o que escrevi sobre a outra, a direita de quem desce, porque serve também, como disse, para esta:

“…, temos a parte central ajardinada, ladeada por largos passeios com dois renques de árvores, de diversos tamanhos (pré e pós Metro) e espécies, nunca palmeiras,  uma fila de bancos de jardim e duas filas de candeeiros públicos, altos e duplos aqueles que dão para as faixas de rodagem e, digamos de jardim, os adjacentes ao verde central. A calçada é a dita “à portuguesa” profusamente decorada com temas geométricos ou botânicos estilizados, alguns símbolos heráldicos e poucas inscrições,  desconhecendo eu se o seu autor é o mesmo do pavimento do passeio central dos Restauradores, o grande João Abel Manta.”

Deixando os Restauradores, após as entradas para o seu parking - uma para viaturas e outra para peões -  e do “aquário” que encerra o ascensor de acesso ao mesmo, temos o primeiro canteiro gradeado, com relva, plantas diversas, flores, uma palmeira a sério vestida de heras e uma outra daquelas pequenas e magrinhas, com seis troncos, e ainda uma outra árvore.  Segue-se um outro canteiro, este circular e também gradeado, com relva, flores e uma árvore; tem, dos dois lados, a mesma inscrição na calçada: MCMXXV. Depois um pavilhão do Bananacafé com esplanada e mais um canteiro rectangular gradeado com relva, flores e uma palmeira com dez troncos, que serve de moldura a um busto de Manoel Pinheiro Chagas (1842-1895), com figura feminina, altiva no seu rico vestido com crinolina - tudo em bronze - identificada como sendo a “Morgadinha de Val-Flor” na inscrição na calçada sob o nome do esculpido; a base do busto tem gravado «Por subscripção promovida pela “MALA DA EUROPA” em Portugal e no Brasil». No fim do canteiro mais uma inscrição na calçada: “1925”. E chegando à vista do Largo da Anunciada chama-me a atenção um cartaz com a cara bonita mas enegrecida de uma bombeira e a escrita “Vamos equipar os nossos bombeiros! - Uma iniciativa Banco BIG”. Gostaria mais de ver o Banco BIG, ou qualquer outro banco, por bom ou mau que seja, a sponsorizar uma campanha tipo “Vamos neutralizar os incendiários e quem lhes paga”, mas isto, evidentemente não faz parte da estratégia do sistema bancário e poderia até causar o despertar do regulador.

Depois começa o longo canteiro artisticamente gradeado que apresenta no início duas árvores, mais uma palmeira e uma bananeira com três ramos, tudo junto da foz subterrânea do “rio” que, como o seu irmão da álea oposta, é ladeado por plantas várias, tem açudes, um abrigo para patos ausentes, fechado, vazio e sujo, uma ponte de ferro (onde turistas me pedem para os fotografar), terminando eu onde ele começa, isto é, na sua nascente alegórica, figura de velho que lança água de uma ânfora do alto do poleiro da sua “rocaille” cheia de avencas e fetos; atrás dele uma palmeira com três troncos e plantas diversas. No passeio, mais um pavilhão, o Quiosque da Avenida da Liberdade, com esplanada. Aqui, atravessando à altura da Rua das Pretas, temos num canteiro com relva e plantas, este já sem gradeamento, uma estátua de Simon Bolívar (1783-1830), com a inscrição «O “Libertador”, Herói da Independência Sul-Americana». Na calçada a inscrição é outra: “João Vaz Côrte-Real - Descobridor da América”. Será que antes lá estava a estátua deste e foi substituída? Girando a estátua de Bolívar no sentido dos ponteiros do relógio pode ler-se no pedestal “La libertà es el único objeto digno del sacrifício de la vida de los hombres - Bolívar (1815)”. Na face seguinte temos os nomes dos países libertados, Venezuela, Colômbia, Equador, Perú, Bolívia e Panamá, e a inscrição “Homenagem da Comunidade Portuguesa da Venezuela e da Câmara Municipal de Lisboa, em 17.XII.1978”. Na última, temos: “Con alta estima mira la América a quien abandonando su própio país viene trayendo ciencias, artes, indústrias, talentos e virtudes - Bolívar (1820)". De um lado e do outro deste canteiro temos duas inscrições na calçada: “Terra Nova” e “Grofiandia”.

No passeio do lado direito desta álea estão agora 11 esculturas em ferro, de Rogério Timóteo, penso que temporariamente, representando figuras humanas; gostei muito da figura de mulher que está junto do Quiosque Tivoli e do homem de braços abertos (anjo ou crucificado?), com cabeça de encomenda postal, e não gostei da cabeça puzzle.

Segue-se uma entrada do Metro, um canteiro oval, relvado,  com uma palmeira com seis troncos, mais um outro rectangular  com relva e ainda outro com relva, plantas e duas palmeiras.  Entre o primeiro e o segundo lê-se na calçada “Homenagem à América Setentrional”, entre o segundo e o terceiro “Câmara Municipal de Lisboa - MCMXXXII”, e depois deste uma Cruz de Cristo precedendo a inscrição “Descoberta da América - 1472”. Neste último temos, novamente de ambos os lados, duas inscrições na calçada: “Canadá” e “Labrador”.  Fico com a impressão de estar a assistir a uma guerra de alecrim e manjerona, latente e surda, entre as Américas, na qual a CML não quer tomar parte nem partido, contentando todos ao longo dos anos, ou tudo não passa de um meu exercício epigráfico mental sem qualquer sentido. O costume. Atravessando por altura do Monumento aos Mortos da Grande Guerra, temos um canteiro rectangular com relva e arbustos que emoldura um busto em bronze de Fryderik Chopin (1810-1849), com uma inscrição que reza: “Monumento inaugurado por Sua Excelência o Presidente da República da Polónia, Brosniraw Komorowski e por Sua Ecelência o Presidente da Câmara de Lisboa, António Costa - 19 de Abril de 2012”, canteiro que comporta ainda três palmeiras. Após mais uma entrada do Metro, um outro canteiro rectangular com relva, arbustos e uma palmeira, depois do qual temos o único verdadeiro quiosque da Avenida, aquele histórico e vermelho do Tivoli, que hoje serve de ponto de venda dos jogos da Santa Casa. Nem a propósito, estava a ser fotografado por um casal de turistas japoneses que me inspiraram mais este haiku:

          No meio destes falsos bosques

          Lançamos a sorte nos quiosques

          Mas a fortuna deu de frosques!

Atravessando para lá do Tivoli, um canteiro circular com relva e uma palmeira de três troncos, mais dois canteiros rectangulares com relva, arbustos, flores e quatros palmeiras cada. No meio dos dois, um monstro metálico, cilíndrico e cinzento com antenas e um cartaz que anuncia ser a “Estação da Avenida da Liberdade - Rede de Monitorização da Qualidade do Ar na Região de Lisboa e Vale do Tejo”, a que alguém de má-fé acrescentou um ponto de interrogação entre parêntesis, assim: (?). Segue-se mais um canteiro absolutamente igual aos precedentes, com quatro palmeiras e tudo, e depois um circular com relva e uma palmeira, e assim chegamos à altura da Barata Salgueiro. Do lado de lá, mais um canteiro circular com uma palmeira de três troncos, relva e flores, um rectangular com relva e plantas diversas, e com uma escultura moderna em ferro preto - quatro pernas metálicas com catorze esferas a trepar por elas acima -, que se lá não estivesse não faria diferença a ninguém excepto ao autor, Rui Chafes, a quem peço desculpa da minha insensibilidade estética, e mais quatro palmeiras, e depois outro, similar, mas sem honra de estátua e com cinco palmeiras. No passeio mais um pavilhão, Hot Dog Lovers, com esplanada. Depois, um canteiro circular relvado com uma estátua de pedra de Oliveira Martins (1845-1894) - Câmara Municipal de Lisboa, 1950 -  e já estamos a atravessar a Alexandre Herculano e, do outro lado, temos a estátua, em tudo idêntica à precedente, no seu canteiro circular, mas desta vez de Almeida Garrett (1799-1854) - Câmara Municipal de Lisboa, 1950 -, que parece levantar os olhos para a Tranquilidade perdida . Uma palmeira no passeio, uma entrada do Metro (e também saída, como é que me tinha passado este pormenor?), e um canteiro rectangular com relva, plantas, flores e  cinco palmeiras,  mais uma daquelas bocas de ventilação do Metro que te dão vontade de tapar ou de arquitectar de outra maneira. A seguir, com o fim à vista, começo a ficar impaciente mas não é que há já muito para dizer, mais um canteiro rectangular com tudo e uma palmeira, um outro pequeno e rectangular com relva e plantas várias, e o último, já a entrar no Marquês, este só com relva como o seu irmão gémeo do outro lado.

Cansado, volto a descer até ao primeiro banco de sentar que encontro e vejo aproximar-se uma Mulher com aquele aspecto físico que, talvez superficialmente, nos faz pensar em dependência de drogas, e arrependo-me de me ter sentado ali. Em vez de me abordar, como eu temia, passou por trás do meu banco, tocou-me na cabeça ao de leve e disse: "- Eu estou aqui!" Segui-a com os olhos, a pensar no porquê da sua atitude, quando a vejo a apalpar o rabo a um jovem turista que no meio do passeio consultava um mapa com a sua companheira, seguindo o seu caminho, Avenida da Liberdade abaixo, como se nada fosse com ela. Mistérios da vida contidos nesta Avenida que permite a cada um a Liberdade que lhe resta.

Arquivo definitivamente a Avenida da Liberdade com algumas notas avulsas que servem para emendar erros, remediar omissões e referenciar mudanças de última hora, e elas aí vão:

- O edifício do Diário de Notícias, Premio Valmor em 1940, é da autoria do arquitecto Porfírio Pardal Monteiro;

- No nº 262, para além do Colégio da Avózinha, está o cabeleireiro Le Salon e mais duas Sociedades de Advogados;

- No nº 258, atraído pela presença da aicep Portugal Global, esqueci o AIM Group, a Proventus-Consulting, a ALCIR-Neolickserve, a Consultan e a FAF-Produtos siderúrgicos;

- No nº 244, encandeado pela Confeitaria Marquês de Pombal, não referi que, por cima, estão a Adifisio - Fisioterapia, a Medilabor e a Previmed-Medicina do Trabalho, o cabeleireiro 224 Avenida, a Data E, a Clínica CMC, a Body Concept e a DIF- Brokers;

- No nº 252, estão já instalados o BANC - Banco Angolano de Negócios e Comércio e o Emerald Group;

- Que no Edifício BF, a loja Fly London encerrou para remodelação e que nos andares por cima estão a Orey, a Horizon, a Faber Ventures, a F5C, a UBB- University Brand Brigade e a GR Marketing;

- No nº 164, por cima das malas Rimowa, está o Hotel Valverde;

- Disse que não guardei memória do Edifício Tony Miranda, e só pode ter sido por cansaço porque convido todos a olhar para ele com atenção porque tem a beleza da perfeição;

- No nº 40, o Edifício Mapfre, estão também a CPP Portugal, a ITSE Map, a Ibero Assistência e a Consejeria de Educación da Embaixada de Espanha;

- No nº 36, o Edifício MetLife, estão também a Martini e a Bacardi, a Manpower, a Liberdade Globality e uma outra Clínica Médica;

- Chamei Odeon ao Politeama. Este está vivo e tem em cena uma revista à portuguesa; mais abaixo, o Odeon está a hibernar à espera do negócio das Galerias Lafayette;

- No nº 58 dos Restauradores, a geladaria “Cone ou Copo”, talvez aborrecida com a minha brincadeira (7/7), fechou dando lugar a mais uma “Padaria Portuguesa”;

- Do nº 13 dos Restauradores desapareceu o néon que anunciava “Fios para tricot - L. Neto Raposo, Lda., - Fabricantes”, e é mais um sinal dos tempos:  dinossauros só no cinema;

- Por altura do nº 11, onde não está a Médis como escrevi por lapso, está mais um pavilhão, o “Bambu - feed your spirit";

- No nº 69, por cima do David Rosas, perante o inquérito do porteiro que achou que eu não andava ali por bem, nem fornecia razões válidas para a minha curiosidade, limitei-me a decorar estes nomes, não garantindo a sua grafia: PPM Coacher, Ecoys-Comkork, Imperium, Provalliance, Semko Portugal, Metaloviana e, estes sim certos, a Embaixada da Turquia e mais duas Sociedades de Advogados;

- No belo edifício com os nºs 131/151, a loja Ermenegildo Zegna deu lugar à Hackett London, a abrir brevemente;

- A Ribadouro tem na álea central, conforme descrevi, um pavilhão com esplanada. O que me passou é que esse pavilhão é o único da avenida a ter necessidade de um gerador de corrente, que ao mesmo tempo gera ruído, fumo, mau cheiro e poluição para indígenas e turistas que, incautos, ali se sentam para se alimentarem e gozarem a Avenida;

- Deu-me agora para perguntar o que é que foi feito da segunda lápide que a fachada do nº193 ostentava em tempos? E o que é que teria gravado?

- O busto de Rosa Araújo tem inscrito o nome do autor: “Castro Motta Sobrinho - 1836”;

Fim da errata.

Só mais umas coisas para que constem nas estatísticas; a Avenida tem, ou tinha no momento do meu recenseamento:

- 13 estátuas, bustos e outras esculturas, sem contar o Monumento aos Mortos da Restauração;

- 11 esculturas em ferro, de Rogério Timóteo, representando o corpo humano, em exposição  temporária;

- 170  candeeiros altos com dupla iluminação, alta para as vias com trânsito e baixa  para as áleas centrais;

- 123 candeeiros de jardim;

- 147 bancos de jardim, com o milagre de apenas um estar partido;

- 1 lago;

- 997 árvores, das quais:

- 919 árvores diversas (apenas 11 ausentes dos seus redondéis), excluindo palmeiras e bananeiras;

- 75 palmeiras, a grande maioria daquelas que “ancoram o céu à Terra";

- 3 bananeiras;

- Número indeterminado de pombos e nenhuma gaivota, o que é sinal de bom tempo;

- 8 pessoas a dormir nos bancos, cedinho de manhã,  mas isto é circunstancial e não merecia ser referido.

Ao encerrar esta minha maratona na Avenida da Liberdade, e o certo é que quando lhe chamei maratona não imaginava ter de fazer à volta de 40 km, guardados cadernos e folhas com notas na mochila, dirigia-me a uma entrada do Metro, quando deparo numa velha como eu, sentada a ler um livro num dos 147 bancos da Avenida, mas atenta ao carrinho de bebé que tinha junto a si com um cãozinho dentro. Desço as escadas, atinjo o cais da linha Amarela, entro na carruagem, sento-me e pego no jornal grátis “Metro” de 2/9 que alguém deixou por ali e, já são coincidências a mais, depois de ler aliviado que o Otávio é reforço portista, deparo com a página 10, que vos deixo, onde alguém vem em defesa da minha dama.

Abraço.

Lisboa, 4 de Setembro de 2014.

Octávio Santos

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Parte Quinta e penúltima da crónica sobre a longa e larga Avenida da nossa curta e estreita Liberdade, para reportar fielmente ao leitor as suas áleas ajardinadas, o que obrigou o nosso cronista a descer aquela da direita de quem desce, com uma paragem compulsiva nos Restauradores para refrescar a noção de independência que tende a esquivar-nos, e a subir a da direita de quem sobe, sem perder pitada, irresoluto pela falta de áleas esquerdas, e envergonhado por ter de deixar para a semana que vem o anunciado relato desta direita de quem sobe.


De tanto subir e descer a Avenida já deu para saber que tem 1.100 metros, do Marquês aos Restauradores, pelo que hoje devo ter completado uns 10 km, contando com as vezes que atravessei os seus 90 metros de largura porque qualquer coisa me chamou a atenção do outro lado. De cada um deles tem um passeio e uma via para veículos, as quais se transformaram há já uns tempos em “transtransitais“ (desculpem o neologismo) dado que se desce por aquela que se deveria subir e se sobe por aquela que se deveria descer, como se tivéssemos pontualmente virado ingleses, suecos ou moçambicanos, mas mesmo assim só até um certo ponto - tudo volta à normalidade por altura da Travessa da Glória e do Largo da Anunciada - porque no complicar é que está o engenho. Quando o António Costa for Primeiro Ministro o que irá ele inventar para infernizar gratuitamente a nossa vida? Menos gratuitamente se levar consigo o socialista-novo José Sá Fernandes que, esse sim, sabe como nos fazer pagar as suas birras de quando era do esfarelado bloco de esquerda e fez parar o túnel. Mas isto são só divagações e não estamos aqui para perder tempo, mas apenas para vos reportar quanto vi nas duas áleas ajardinadas (afinal de uma só) que separam as vias laterais da via central com quatro faixas de rodagem, duas descendentes e duas ascendentes, e nestas já se conduz à direita como em todo o resto da cidade e do país.

Iniciando no Marquês (a preguiça deu-me para começar a descer) pela álea da direita, temos um canteiro só com relva. Depois, e despacho aqui também a outra álea por ser igual nestes pormenores, temos a parte central ajardinada, ladeada por largos passeios com dois renques de árvores, de diversos tamanhos (pré e pós Metro) e espécies, nunca palmeiras, uma fila de bancos de jardim e duas filas de candeeiros públicos, altos e duplos aqueles que dão para as faixas de rodagem e, digamos de jardim, os adjacentes ao verde central. A calçada é a dita “à portuguesa” profusamente decorada com temas geométricos ou botânicos estilizados, alguns símbolos heráldicos e poucas inscrições, desconhecendo eu se o seu autor é o mesmo do pavimento do passeio central dos Restauradores, o grande João Abel Manta. Ao primeiro canteiro segue-se um outro rectangular com relva e arbustos, e dois outros idênticos, o primeiro com duas palmeiras e o segundo com três; neste, uma boca de ventilação do Metro, que é a primeira nota dissonante que encontramos: será que os paisagistas da CML não poderiam ter projectado uma coisa menos desgostosamente esquálida? Entre este último e a estátua de pedra de Alexandre Herculano (1810-1870), em canteiro circular relvado, está uma entrada do Metro e uma outra palmeira. Quando digo palmeira refiro-me a árvores altas e direitas com a sua cabeleira lá bem no alto, algumas com o tronco coberto de heras, pensando que todas as 75 (setenta e cinco) que contei na Avenida venham do século XIX. Há dias o Dr. Bagão Félix falou na televisão de um livro intitulado “Greguerías”, de Rámon Gómez de La Serna, que é uma selecção de frase metafóricas mais ou menos bem humoradas inventadas pelo autor, que também inventou a palavra do título para as designar. Li lá duas sobre palmeiras que não resisto a transcrever:

“As palmeiras levantam-se mais cedo do que as outras árvores”

“A palmeira ancora o céu à Terra”

Atravessando à altura da Alexandre Herculano temos um canteiro circular com relva e flores, que serve de moldura à estátua de pedra de António Feliciano de Castilho (1800-1875), um pavilhão (tipo falso quiosque) Bananacafé, com esplanada, e um canteiro rectangular com relva, arbustos, plantas várias e cinco palmeiras. Segue-se um busto de bronze de Rosa Araújo (1936), dando as costas à sua rua, encimando uma base de pedra com uma figura de mulher coroada e seminua que lhe oferece com a mão direita rosas de um ramo que tem na mão esquerda apoiada sobre a anca. Muito belo e sensual. Depois mais um canteiro rectangular, igual em tudo ao precedente, até nas suas cinco palmeiras, mais um canteiro circular com plantas e flores, tendo no centro uma palmeira de um outro tipo, esta baixa e com cinco troncos magrizelas. A proximidade da sede do Novo Banco, a lembrança dos cinco ramos da Família que agora esconde a pomba atrás da borboleta e a passagem de um casal de turistas japoneses, inspirou-me este haiku: 

Cinco braços da palmeira

Verde antídoto para quinteto

Que nos aliviou a carteira? 

Atravessando ao nível da Barata Salgueiro temos outro canteiro circular com relva, flores e uma palmeira no centro, e mais três canteiros rectangulares com relva e plantas diversas, com quatro palmeiras cada um. Ali pela Travessa da Horta de Cera, de um lado um canteiro circular com relva e flores à volta de uma palmeira com sete troncos, do outro exactamente a mesma coisa, só que a palmeira tem dez troncos. Uma entrada do Metro divide um canteiro rectangular com relva e arbustos, no meio dos quais uma caixa de correio vermelha dos CTT, daquelas modernas e quadradas que antes também vendiam selos. Se é só para enfiar cartas de que lhe serve ser tão grande e alta? E também um pavilhão da Ribadouro, com esplanada, e mais um canteiro rectangular com relva, arbustos floridos e flores, e já estamos à altura do Parque Mayer e da estátua aos Mortos da Grande Guerra, que lhe dá as costas. A estátua está emoldurada por um amplo canteiro octogonal com relva, flores e quatro pequenas coníferas podadas em cone. O monumento, em pedra, com uma figura de Mulher com bandeira, que representa a Pátria, a coroar de louros um soldado com um joelho em terra, é sustentado de ambos os lados por duas hercúleas figuras masculinas seminuas. De cada lado tem a inscrição “GRANDE GUERRA”, na frente a legenda “Ao serviço da Pátria, o esforço da Grei” e, numa placa em bronze, a dedicatória “Aos combatentes mortos pela Pátria - Homenagem dos Combatentes da Grande Guerra -XI 1918 - XI 1968 -. Atrás pode ler-se “9-3-1916 - A Alemanha declara guerra a Portugal - 11-11-1918 - Armistício - 28-6-1919 - PAZ”, e ainda os nomes do arquitecto, G. Rebelo de Andrade, e do escultor, Maximiano Alves. Ler tudo isto hoje não faz sentido senão para saber que há 100 anos as guerras eram declaradas por alguém, tinham um princípio e um fim, e os que morriam tinham uma noção do porquê, embora isso não tivesse qualquer aparente utilidade para o próprio. Seguem-se três canteiros rectangulares em tudo idênticos, com relva, arbustos e flores, e uma entrada do Metro entre o segundo e o terceiro. Não pude deixar de olhar para cima para as varandas floridas da Emília e do António Romano, como se tivessem ligação com os canteiros cá em baixo.

Passada a Praça da Alegria temos um canteiro com gradeamento baixo artisticamente trabalhado, com duas palmeiras e uma bananeira com seis ramos - no passeio um pavilhão Maritaca, food and fun, com esplanada - canteiro que comporta um alto amontoado de pedras tipo “rocaille”, coberto de fetos e avencas, no alto do qual uma imponente figura de velho com longas barbas e cabelos, metáfora da nascente, despeja água de uma ânfora (“a água solta o cabelo nas cascatas”, mais uma greguería de La Serna) que alimenta o arremedo de rio que desce pelo centro do canteiro que lhe reverdece as margens, multiplicando-se em açudes, com uma romântica ponte de ferro que o atravessa e, a jusante, mais uma “rocaille”, abrigo para cisnes e patos ausentes (onde param os da minha infância?), fechado e sujo. O “rio” acaba no fim do canteiro, que tem ainda duas palmeiras e uma bananeira de cinco ramos. De cada lado, uma entrada para o parking, uma para viaturas e outra para peões. À altura da Travessa da Glória, num novo canteiro gradeado que tem, entre duas árvores, uma base de pedra que suporta um artístico vaso metálico com duas asas apoiadas em cabeças humanas, árvores e vaso que se repetem no fim do canteiro já à vista dos Restauradores. Entre as duas pontas deste cenário, um lago de pedra de bela traça, sem água, que apresenta três bases também de pedra. Da primeira e da segunda estão ausentes os elementos decorativos em bronze que lá devem ter estado, apoiada esta suposição no facto de a terceira  ostentar um belo leão alado (Grifo) pintado de verde. Pena que dentro do artístico gradeamento do canteiro estejam duas bocas de ventilação do Metro que têm o condão de desvirtuar tudo. Ladeando o canteiro, e já com um pé nos Restauradores, duas inevitáveis entradas do Metro e uma de ascensor, em vidro, lamentavelmente suja. E agora é só atravessar para olhar o obelisco com olhos de ver!

O monumento, que é basicamente um obelisco com 30 metros de altura, com uma base alargada com oito artísticos candeeiros, e uma outra que sustenta o obelisco propriamente dito,  comemora a reconquista da independência de Portugal, que ocorreu no dia 1 de Dezembro de 1640, após 60 anos de jugo “filipino”. Visto do Rossio, tem  na segunda base uma estátua de bronze, figura de Mulher alada,  com palma e coroa de louros, que representa a Vitória e, no obelisco, diversas inscrições que indicam datas de acontecimentos importantes relacionados, com destaque para as batalhas da Guerra de Restauração que se seguiu à independência, para consolidação e definitiva conquista da mesma. Assim, de alto a baixo, temos:

Angra - 16 de Março de 1642

Lisboa - 15 de Dezembro de 1640

Aos Restauradores de 1640

1º de Dezembro de 1640

Em 1886 por subscrição nacional erigiu a Comissão Central Primeiro de Dezembro de 1640

A Sociedade Histórica da Independência de Portugal no Centenário do Monumento aos Heróis da Restauração - 1886- 1986

 

Girando no sentido dos ponteiros do relógio, temos na outra face um elemento escultórico em pedra com armadura, bandeiras, espadas, tambores, bocas de canhão e outros elementos relativos às batalhas, e as seguintes inscrições:

Castelo Rodrigo - 7 de Julho de 1664

Almeida - 2 de Junho de 1663

Évora - 4 de Junho de 1663

Elvas - 14 de Janeiro de 1659

Ameixial - 8 de Junho de 1663 

Já virados para o Rossio temos outra estátua de bronze, figura de jovem alado, com bandeira, espada e cadeias quebradas, que simboliza a Liberdade reconquistada e, de alto a baixo, novas inscrições: 

Tratado de paz - 13 de Fevereiro de 1668

Vila Viçoza - 14 de Junho de 1665

Montes Claros - 17 de Junho de 1665 

Na última face do monumento, aquela oposta ao Eden, temos novamente o elemento escultórico (diferente mas igual) presente na face oposta e mais inscrições, sempre de alto em baixo: 

Badajoz - 22 de Junho de 1658

Pernambuco - 17 de Janeiro de 1654

Angola - 15 de Agosto de 1648

Sto. Aleixo - 12 de Agosto de 1641

Montijo - 26 de Maio de 1644 

Pondo tudo por ordem cronológica, até para termos a noção que passaram 25 anos entre a declaração de independência e a última batalha, e mais 3 para a obtenção da paz, temos: 

Lisboa, 1/12/1640: Proclamação da Independência; Lisboa, 15/12/1640: Aclamação de D. João IV como Rei de Portugal; Batalha de Sto. Aleixo, 12/8/1641; Batalha de Angra, 16/3/1642; Batalha do Montijo, 26/5/1644; Batalha de Angola, 15/8/1648; Batalha de Arronches, 8/11/1653 (omissa no monumento); Batalha de Pernambuco,17/1/1654; Batalha de Badajoz, 22/6/1658; Batalha das Linhas de Elvas, 14/1/1659; Batalha de Almeida, 2/6/1663; Batalha de Évora, 4/6/1663; Batalha do Ameixial, 8/6/1663; Batalha de Castelo Rodrigo, 7/7/1664; Batalha de Vila Viçosa, 14/6/1665; Batalha de Montes Claros, 17/6/1665; Lisboa, 13/2/1668: Assinatura do Tratado de Paz. 

Chamaram-me a atenção aquelas batalhas que se travaram fora do território ibérico e, nessa conformidade, tentei saber mais sobre aquelas de Angra do Heroísmo, Pernambuco e Angola, deixando-vos literatura sobre cada uma delas, o que me deu alguns esclarecimentos e vos poderá interessar. Devo dizer que não encontrei referência a estas batalhas em qualquer livro publicado sobre a Guerra da Restauração. Dada a complexidade e vastidão do assunto, e da importância que as mesmas tiveram na história de Portugal e do Mundo, muito maior que aquela que habitualmente aqui se lhes confere,  principalmente as duas Batalhas dos Guararapes (que alguns brasileiros designam por " o nosso Vietnam"), voltarei a interessar-me por ele se tiver tempo e disposição para tal.
 

Um abraço.

Lisboa, 28 de Agosto de 2014
Octávio Santos

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Parte Quarta da já longa e fastidiosa crónica sobre a Liberdade da nossa Avenida, com uma oitava entremeada em obediência a uma “ordem” vinda do lado de lá do Atlântico, memórias cinematográficas, psicólogos em retiro, encontros imediatos e inesquecíveis, bandeiras nas janelas e outros fenómenos lusitanos, como o do milagre da multiplicação dos bancos, entre os quais um falso, de telenovela, que fez do cronista um Totó.


Tínhamo-nos deixado entre o Parque Mayer, instalado no espaço antes ocupado pelos jardins do Palácio Lima Mayer, hoje Consulado de Espanha, esplêndido edifício de traça italiana que mereceu o primeiro Prémio Valmor em 1902. Deixada para trás a Rua do Salitre, para onde o palácio tem a sua porta principal, encontramos na outra esquina, nos 155/157, um belo e simples edifício pombalino - quando digo pombalino refiro-me sempre àquele estilo que abunda na Avenida e que é uma evolução do puro pombalino da Baixa que se foi descaracterizando à medida que subiu o Passeio Público -, que tem nos baixos a Ribadouro, Restaurante Cervejaria, onde comi talvez o pior Bacalhau à Brás da minha vida, ausentes que estavam o fiel amigo e o espírito do tal Brás, e nos andares superiores a Casa do Concelho de Idanha a Nova, a Inforpress e a Maria Karin, que mais não é que a jovem estilista portuguesa Carina Costa, que passa metade do ano a expor as suas extraordinárias e chiques criações de moda feminina nas feiras de todo o Mundo, com assinalável êxito.  Segue-se, no nº 159, um pavilhão de um só piso com um corpo sobrelevado ao nível do terraço, e de acesso a este, infelizmente coberto com telhas azuis (sim, azuis, porquê?), pavilhão com grandes montras que durante muitos anos mostrou e vendeu a turistas tudo aquilo que os turistas gostam de comprar por obrigação da sua condição, hoje triste, sujo e vazio, no seu todo mais uma mancha indigna na Avenida. No passeio um cartaz institucional onde o Homem que Mordeu o Cão nos oferece o seu cocó (o do cão!) em elegante embalagem com laçarote, sobrevoada por moscas. Tudo a condizer.

 E a subir pela Avenida,

(É só mais um bocadinho)

Vejam só, coisas da vida

Que o nosso dinheirinho

Dentro de um pacote igual

Nos dão para nosso mal

Transformado em porcaria

Gente séria, quem diria!

 Olhando para a esquerda temos turistas a fotografar a Travessa da Horta da Cera, e eu, que exagero sempre, estou a vê-los, no retorno das férias, a fazer inveja a familiares e amigos afirmando terem estado na faixa de Gaza, felizmente antes dos bombardeamentos. No 161 e seguintes, pelo pouco que se vê, está um belo edifício que alberga a Cambridge School e a Aristocrazy Jewels, tudo falso, agora a ser restaurado pela TaskDone e já com o anúncio da próxima abertura - opening soon - de uma nova loja Hugo Boss. Depois é o Cinema S. Jorge com a sua arquitectura particular, própria de uma grande sala de espectáculos, onde vi maravilhado filmes como Lawrence of Arabia, Trapézio, Dez Mandamentos, Oklahoma, Mundo do Silêncio, O Corsário Lafitte e tantos outros cuja lista não caberia nesta crónica, e onde hoje a EGEAC apresenta os seus programas; agora anuncia Gisberta, com Rita Ribeiro que, parece, nunca a vi, não desmerecer dos Pais que teve. À porta, um engraxador “internacionalizado” que afixa na sua caixa “sapatos, shoes, chaussures e schühe” e, na parede “shoe-shine”. Aqui, talvez por estar à porta do S. Jorge lembro-me do filme “Sciuscià” de Vittorio de Sica, de 1946, que conta a história de dois pequenos engraxadores romanos; o título é um neologismo que nasceu em Nápoles no dia em que os americanos libertaram a cidade e se viram rodeados por crianças esfomeadas que, para ganhar um “dime” ou mesmo um “fifty-cent”, se propunham limpar-lhes as botas gritando “sciuscià!”, corruptela de “shoe-shine”, que ainda hoje é de uso na cidade. Desculpem o desvio por Nápoles mas alguma coisa lá deixei. Voltando ao S. Jorge, que lemos em letras gordas sobre a pala que protege as portas 175A e 175B, hoje dormitório de dois Homens que vivem no meio do lixo numa miséria que exala à distância o seu perfume onde predomina o de urina retardada. Quando passei, a enxerga B estava vazia por ausência do seu inquilino, mas na A estava estendido um Homem esquelético com pinta de faquir dando as costas à Avenida e, esta circunstância permitiu-me copiar, sem ferir a sua dignidade, o cartaz autógrafo que idealizou para se proteger:

«Por favor, não me falem nem me molestem, pois estou iniciando um prolongado e particular “retiro espiritual” fortemente amparado por uma grata e profunda “meditação metafísica transcendental”. Respeitem o meu silêncio. Democracia, solidariedade e justiça, por onde andais que não vos encontro por lugar algum? Para todos: Feliz Natal e Ano Novo 2014. Lisboa, 01-12-2013. Enrique Perez Farrena – Psicólogo (cegado)”.  Alguém colou no fim do cartaz um pequeno círculo vermelho de papel com a escrita “saiu coroa”; seria ele próprio, o “cegado”, por auto-ironia, ou algum brincalhão de passagem?

O nº 177, na esquina com a Rua Júlio Cesar Machado, um digno pombalino onde se encontra instalada a Clínica do Coração, a Clínica Ortopédica e o ANPAT - Laboratório de Anatomia Patológica, - está em remodelação o espaço térreo onde abrirá brevemente a nova loja da Ermenegildo Zegna que, pelos vistos vai encerrar o espaço que tem lá mais para baixo ao lado da Hugo Boss, seguindo esta na subida da Avenida. Eixo italo-germânico, desta vez dos trapos, novamente em consonância? Depois vem o Hotel Tivoli, que não sei se está com os bons ou com os maus, supondo que haja bons, lembrando-me que, no espaço onde hoje está a Brasserie Flo, tive um encontro tête-à-tête com a Beatriz Costa, que habitou o hotel nos últimos anos da sua vida, para a convencer a deixar-se entrevistar e filmar por uma troupe do Canale Cinque que eu tinha acompanhado a Lisboa para realizar um promocional turístico sobre a nossa capital, o que ela recusou com uma gentileza enfastiada porque o que desejava era estar tranquila, pelo que não me permiti insistir, mas recordo que foi bom ter encontrado aquela Senhora. O Tivoli tem em baixo uma loja de malas Loewe.

No 189, está o Ever Lisboa, da Ever Hotels - why resist? -, três estrelas onde antes era o Hotel Veneza que tantas vezes recomendei a turistas italianos que me pediam conselho; pena a mudança de nome porque o edifício é mesmo uma bela ca’ veneziana. Na álea central filma-se o que me pareceu ser uma telenovela portuguesa com todo o aparato que isso comporta; o Nicolau Breyner andava por ali com ar absorto. Segue-se, na esquina com a Barata Salgueiro, no 193, um belíssimo edifício com torreão, Património do Estado, aparentemente vazio, que foi em tempos sede da Direcção-Geral da Aeronáutica Civil, ostentando na fachada uma lápide recordando o General Humberto Delgado, que foi Director-Geral. E aqui tenho de vos contar uma coisa daquelas que só a mim me acontecem. No dia em que passei para tomar as minhas notas, este edifício estava a servir de cenário para a telenovela, com transformações que me indignaram porque não percebi o que se passava, e então escrevi o que se segue, que peço o favor de não fazerem caso ou de levarem à minha conta de incorrigível Totó:

“Segue-se, na esquina com a Rua Barata Salgueiro, no 193, um belíssimo edifício com torreão onde está agora instalado o BBA Investimento - Banco Barroso e Albuquerque, confessando a minha ignorância sobre a existência de mais este banco (afastando um mau pensamento sobre o Durão e a Luis), cujos responsáveis resolveram retirar da fachada uma lápide que recordava a passagem pelo histórico edifício, que foi muitos anos a Direcção-Geral da Aeronáutica Civil, do General Humberto Delgado. Como se podem permitir? Quem autorizou? Quem terá poder para ordenar, mesmo tratando-se de um banco, a voltar a colocá-la na fachada? Lembro-me de lá ter entrado uma vez nos primeiros anos 60, talvez porque tivesse um Irmão na Força Aérea, e de ter encontrado o Director-Geral que era o Eng. Vitor Veres que, descobri depois, ser Marido da Carmen Dolores. Agora nas duas esquinas da Barata Salgueiro estão dois bancos: um (que são dois), grande, que não tem respeito por ninguém, e outro, pequeno, que não tem (pelo menos) respeito pela história. Como se faz a descer tanto como país? Será que mais vale ser atropelado no meio da faixa de rodagem da Barata Salgueiro que nos aproximarmos das suas esquinas?”  E aqui acaba a inútil e precipitada diatribe. Só ontem, quando voltei a passar para acertar estas notas é que dei conta do logro em que tinha caído; ele há dias em que a minha reputação cai a pique e que mais valia encher um pé de merda!

Finalmente o BES naquele «mamarracho incrível dos tempos pós-revolução em que “valia tudo” na construção», no dizer do meu caríssimo amigo Luis Filipe Pereira, agora sobrevoado por abutres vindos dos fundos. Ao “mamarracho” já me referi antes pelas suas grades de premonitória arquitectura, quanto ao “valer tudo na construção”, parece que que o sistema bancário foi contagiado por esse vírus que está a contaminar toda a sociedade portuguesa. Por um lado rende (CR7), pelo outro poupa (D. Inércia), numa confortável e lucrativa total inércia que ataca todos os intervenientes, mesmo aqueles aos quais pagamos para nos defenderem. E basta de BES, GES, BEST, ESAF, ESI, EST, ESP, Rioforte e da tranquilidade bucólica e campestre de Comportas alentejanas, brasileiras e paraguaias, e restantes membros da quadrilha que, posso apostar, nunca irão ser inquilinos de outros edifícios com grades que melhor lhes andariam. Depois um belo, grande mas decadente pombalino, aparentemente vazio, com apenas uma montra da Wickett Jones anunciando que a dois minutos dali, virando à Rosa Araújo, na Rua Castilho, se encontra todo o “gentleman’s ware” da marca. Na outra esquina cresce um monstro linear, o 225 Liberdade, no qual a WORX e a Jones Lang LaSalle anunciam arrendamento de escritórios, estando já instalada a prestigiosa Torres Joalheiros, com os Rolex em grande evidência. No 227, um edifício relativamente moderno mas já passado, com a fachada semeada de ares condicionados, onde está um balcão do Santander Totta, mais uma Sociedade de Advogados e a Câmara de Comércio e Indústria Luso-Chinesa. No 229, num digno mas anónimo pombalino, está, para além de um cardiólogo de apelido prestigioso, a Dunas Capital, Gestão de Activos, SGFIM, SA, e a Embaixada do Chipre - Kypryaky Prezvia -, cuja bandeira tive na minha janela, à maneira Scolari, quando foi anunciado que a freenança também queria pôr as mãos sobre aquele pequeno meio-país. Tentei envolver o Movimento “Que se Lixe a Troyka” para o milagre da multiplicação das bandeiras, mas não se dignaram responder-me. Paciência, que se lixem!

No 233, na esquina da Alexandre Herculano, é de pasmar diante do monumental e rico palacete excelentemente restaurado, com magníficas e sumptuosas varandas; está lá a Max Mara, da qual vi abrir a primeira loja em Roma, no fim dos anos 80, na Via Condotti, onde entrava só para apalpar os tecidos. Na outra esquina, no 243, o Hotel Marquês de Pombal, edifício tirado a régua e esquadro totalmente forrado de pedra. No 245, num longo monstro moderno, com uma coluna de alto a baixo, encimada por um baixo- relevo, tudo no mais puro estilo Estado Novo, a Galeria Comercial 245, um parking público a pagamento (APARC), a Revlon Professional, a América Crew - Oficial Supplier to Men -, a Embaixada do Japão, a Melià, um balcão da CGD e uma grande loja fechada mas limpa. Menos mal. No 247, o Hotel Turim Liberdade, um digno “vidrão” que acolhe também a Fancy Jewelry  e, em saldos, a loja Luis Onofre que expõe e vende as suas maravilhosas criações, enriquecidas com cristais Swarovski, para pés onde assentem pernas que as merecerem, condenadas a tornar-se fétiches. O 249 Liberdade, como foi baptizado o monstro de fachada ondulada lembrando ondas de mar agitado onde navega o Millennium BCP, do Jardim Gonçalves e do Carlos Costa (lembram-se?),  e estão também o BPI, a Ford - FCE Bank, Ford Lusitana -, a Magnum Capital, a AON e mais duas Sociedades de Advogados. No 259, já edifício verde do Marquês de Pombal que acolhe o Hotel Flórida, descubro o FI (letra grega em evidência cromada na fachada) Atlântico - Banco Privado Atlântico Europa (dizem-me angolano); também a Sata - the Atlantic and you -  e o Montepio Geral - quando o seu projecto ganha, ganhamos todos-; será mesmo assim?

Dos bancos da Avenida perdi-lhes a conta (até um falso encontrei!), mas contei 11 Sociedades de Advogados 11, podendo pecar por defeito que não por excesso, e aqui atrevo-me a transcrever o que disse a propósito há tempos numa entrevista televisiva o Professor Freitas do Amaral, assunto a que se referiu o único link da minha crónica de 7 de agosto. “ Antigamente éramos assaltados nas estradas por bandos de bandidos armados de escopetas e bacamartes, para nos roubarem jóias e cabedais. Hoje os assaltantes são os bancos e as armas as Sociedades de Advogados”.  Daí ser muito arriscado passear na Avenida, especialmente para idosos que, tendo já sido atacados pela incontinência verbal que tanto incomoda, estão na eminência de passar àquela urinária, não havendo já sentinas públicas na Avenida.

Por fim uma má notícia: esta crónica segue no próximo número para reportar tudo o que existe, e acontece, nas áleas centrais da nossa Avenida, e para me debruçar sobre o Monumento dos Restauradores e descobrir batalhas decisivas que tiveram lugar noutro continente. Nessa época Portugal era meio Mundo, e defendia a sua independência a milhares de quilómetros de distância, na Colina dos Guararapes.

Abraço.

Lisboa, 21 de Agosto de 2014
Octávio Santos

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Parte Terceira da minha expedição em busca da Liberdade na dita Avenida dela, que conta de como, entre tanta maravilha, e luxo e tanto lixo, vãs tentativas para transformar umas nos outros, e vice versa, encontrei a beleza bastando-me olhar para cima e ver varandas floridas, viradas para a Liberdade e por detrás delas os sonhos de um homem (e de uma Mulher).



Acabei a Parte Segunda a olhar embasbacado para o Elevador da Glória (sonhando com ela) que subia resfolegante calçada acima, arrependido de não ter corrido a apanhá-lo(a). Só que tinha prometido contar-vos toda a Avenida de fio a pavio e, como cumpro todas as promessas que faço, não vos podia deixar pendurados só porque me daria muito prazer subir até onde ele e o destino me levassem, mesmo que não fosse à glória.  

Mas fiquei cá em baixo e, como tudo começa pelo princípio, no nº 1 está o Palladium que tem no seu ventre confuso um Snack Lounge, um Rent a Car e um Real Transfer, no 3, no mesmo belo prédio cheio de consultórios médicos e de um Advogado, está a Sun Avenida - Energias Renováveis de Portugal, Lda. e a OPTEC - Cinema e Som. No 5 de notar apenas a Ginjinha Rubi e um recanto onde se vendem os Jogos da Santa Casa, no 7 a continuação da enorme confusão que reina dentro do Palladium e no 9, um prédio moderno, feio, com ar de abandonado, a loja fechada, sobrevive mais um recanto onde se vendem jornais e revistas e um Cartório Notarial num dos andares. Depois, o nº 11, mais um edifício pombalino pobre e sem cor, que aloja a Clínica de Diagnóstico Dr. Passos Ângelo, Lda., uma instituição privada positiva no sistema de saúde deste país em saldos (como tudo na Avenida), um balcão BES que promete ser Novo, a Médis e, na loja, a Foreva, calçado português para consumo médio/baixo interno, com um vitrinismo atrasado de meio século como muitas outras lojas na Avenida, havendo muito pior. No 15, um outro pombalino, este menos pobre, cor de rosa, as lojas estão ocupadas por uma Agência de Viagens El Corte Inglès e pelo Hippie Café - Convenient Store, que tem à entrada um pirata tamanho natural em papier maché, que de tão decadente e escalavrado não convida a entrar ou será que é mesmo disto que o turista gosta, levando consigo, deste país de piratas, junto com uma banana e uma cerveja, um very tipical souvenir? Recuso-me a acreditar e penso mesmo que um qualquer gabinete da CML se deveria ocupar destas indecências, impedindo-as. Podem dizer que não se pode, que vivemos em democracia, mas num país em que se fez uma lei que me proíbe de colaborar, mesmo pro bono, com qualquer entidade ou organismo público sob pena de perder o direito à reforma, lei  que o Dr. Bagão Félix classificou de aparentada à eutanásia, não pode uma autarquia legislar contra a poluição visiva da cidade? No 15/19, outro pombalino, este de azulejos castanhos e em reabilitação; em baixo o Calçado Guimarães (aberto 24 horas), idêntico à Foreva mas bastante pior, saldando saldos, e a loja fechada e suja que foi da Halcon Viagens. O seguinte é idêntico, exteriormente bem conservado nos andares visíveis já remodelados pelas BBON e CASAIS para ser o futuro Hotel Bessa que já anuncia contratar pessoal de hotelaria. Menos mal. Um jovem dirige-se a mim de mão estendida “excuse me, I’m hungry, please”, respondo-lhe sem o olhar enquanto finjo que escrevo no caderninho, “I’m working in this moment, sorry” e sigo caminho apressado, ocupado e nada “hungry” porque já tinha o pequeno-almoço no bucho.  

No nº 49, na esquina com a Travessa da Glória, um moderno edifício verde linear e sem alma, todo Visionlab em baixo - os portugueses, para além das outras doenças todas, são agora também míopes, presbitas, astigmáticos ou amblíopes -, em cima a Svenson – Hair Specialist, a Embaixada de Malta, a Willis, corrector de seguros, a Main Side Investement, SGPS, SA, a Masterjet - the way it should always be -, e a AMP/ADD, Management Partners. Digamos New York ou a City londrina. No 59, do outro lado da esquina, num pombalino pequeno mas interessante, com grandes mansardas, a Baiana, Pastelaria Leitaria, no 65 curioso edifício amarelo gema de ovo, antigo, pouco português, restaurado, que afixa uma lápide indicando que ali nasceu o pintor Carlos Botelho em 1899, lápide (quase pedra tumular) que ostenta o seu retrato e a data da morte, 1982. No 67 está aquela que eu chamo a loja dos horrores que vende, para além da mítica marca de calçado Doc Martens que tanto agradou (e continua a agradar) a sucessivas gerações de punks, góticos e afins, incluindo motards, tudo aquilo que faz parte do enxoval próprio de jovens e menos jovens que escolheram esta via de expressão cultural que se revela no próprio corpo e seus atavios. As montras atraem a vista do passante pela profusão e confusão de artigos expostos, anéis, amuletos, brincos, pins, porta-chaves, cinzeiros, pulseiras e penduricalhos vários, mas também outras coisas que representam um mundo subterrâneo - se eu fosse padre diria satânico ou das trevas - privilegiando a morte e todas as formas de representação do além-túmulo;  a peça que mais me chamou a atenção foi a estatueta de um esqueleto cantor feminino com soutien, xaile e microfone, uma horrorosa “beleza”  fadista kitsch. Entrei para rever o móvel que está à entrada da porta à sua direita e ocupa toda a parede; pena que esteja cheio de “lixo” porque é talvez uma das preciosidades escondidas desta Avenida. Trata-se de um enorme móvel/biblioteca completamente entalhado de alto a baixo, magnificamente esculpido e que, no meu entender, tem hoje um valor superior a todo o edifício que o acolhe. Lembro-me de o ter descoberto no fim dos anos 50 e de ter falado sobre ele com o proprietário da loja, que então vendia acessórios para automóveis (há lá ainda restos de espelhos retrovisores e maçanetas de mudanças), tipo “bolantes de pau e conta boltinhas para emeguebês guetês”, tendo-me ele afirmado que alguém já lhe tinha oferecido mil contos mas que não o vendia por dinheiro nenhum. Quem salva esta preciosidade? Eu, se fosse o actual inquilino, transformava o local em curiosidade turística, como se fosse um museu vivo com uma peça única - O Único Museu do Mundo com uma Só Peça! -, bastava uma limpeza, um cicerone que soubesse tudo dizer sobre o objecto exposto e a arte da talha em Portugal, umas mesas,  umas cadeiras  e poucos mas bons vinhos exclusivamente portugueses,  para animar os visitantes e promover o que temos de bom; era negócio, mas eu continuo a ser um “empreendedorista” sem cheta (xeta é, no Brasil, um beijo mandado de longe). Abençoado dicionário! 

No 67-B está um outro curioso edifício, como o 65, este já mais português, muito bem restaurado e pintado de vermelho escuro, com escritórios para alugar e um Notário já instalado; na esquina com a Rua da Conceição da Glória abriu agora a COS, loja de trapos a preços abordáveis mas com arranjo interior e vitrinismo dignos daquelas que vendem coisas muito mais caras; trata-se da linha mais alta da sueca H&M.  

Na outra esquina o Edifício Espaço Liberdade no nº 69, outro moderno e linear à Siza, com a loja ocupada pela David Rosas que ostenta nas suas luxuosas montras aquilo que há de mais tentador em ourivesaria, joalharia e relojoaria, incluindo os prestigiosos relógios da Officine Panerai, que mais não são que a redescoberta recente (estava eu em Roma) dos relógios Luminor usados pela tripulação dos submarinos italianos. É como se alguém transformasse tractores agrícolas em automóveis de prestígio e a moda pegasse: - Comprei um John Deere turbo intercooler, hibrid plug in, que é um espanto! – Se visses o meu New Holland Suv 4x4, diferencial autoblocante e caixa sequencial no volante, calavas a boca e até te passavas! No 75, um pombalino decadente e vazio nos andares, excepto talvez de consultórios e da Dimofel no 1º andar. Em baixo a Via Liberdade – Sport and Classic Cars, que não passa de um Rent a Car e a Cervejaria e Restaurante Quebra Mar. No 85, na esquina da Praça da Alegria (quando a sede da FPF era aqui ainda havia um grupo de rapazes a correr na relva sem agentes que nos dava algumas alegrias), aí sim está a Dimofel – Electrónicos, Lda., onde ninguém subia por aquelas escadas sem encontrar o que queria e, muitas vezes, acabando por comprar aquilo que nem sabia existisse, mais médicos, o LX Corner Hostel, um balcão da CGD e a Pastelaria Lusitânia. No 101/103, um belo pombalino azul água, onde está a Ideal Tower, a Pronoivos - quem continua a casar?-, e a Gilles, Fine Jewellery com as montras cheias de relógios Franck Müller, de Geneve, Master of Complication.

 
No 105, ao olhar para cima para ver quem lá está instalado, deparo com todas as varandas do segundo andar esquerdo floridas (imagem do texto) e, curioso, vejo que pertencem à Central Models, Agência de Modelos (25 anos a criar e a realizar sonhos), que é a agência da Sara Sampaio e também minha, modestamente. Subo e falo com o António Romano que tem a gentileza de me expor longamente e com paixão o seu projecto Eva Dream, já objecto de um seu livro, o qual consiste “só” em transformar Portugal num país florido, e das suas varandas que, como ele diz, não estão viradas para a Avenida da Liberdade, mas simplesmente para a Liberdade. Tenho a certeza que o António vai levar para a frente o projecto do seu sonho, muito facilitado por ter a Emília a seu lado. Esquecia, e é importante, que no 105 está também uma Sociedade de Advogados, obviamente sem flores, uma Foreva menos confusa e a Pastelaria Pomarense. No passeio, uma Senhora, entre os 30 e os 40, chora enquanto fala ao telemóvel e ouço-a dizer, entre soluços, ao seu interlocutor: - Mas o que é que tu queres que eu faça se ele exige que seja eu a entregar a carta de demissão? Diz que é melhor para mim! Vidas de hoje, e menos mal que não estamos na faixa de Gaza, digo eu que vejo sempre tudo pelo lado positivo. 

No 111 está a Mont Blanc da invejada estrela branca, quase tão difícil de alcançar como o cume do homónimo alvo monte alpino, só acessível aos João Garcias da freenança com todo o equipamento em ordem e sólidos apoios nos campo base. Em 2005, em Xangai, uma colega comprou dez canetas “garantidamente originais” por 60 euros. No 127 o moderno e bonito edifício do 5 estrelas Sofitel que atrai o apetite dos passantes com os sugestivos petiscos do cardápio do Restaurante adLib. Ao lado a Dara Jewels. No 129, um prédio novo de linhas direitas forrado de pedra, tem em baixo o Avenue Restaurant Bar Enoteca e a Boutique dos Relógios Plus. Do 131 ao 151 mais um belo e imponente exemplar pombalino, bem restaurado, cor de rosa; nos andares a Eaglestone, a Cushman & Wakefield, a AIG e, graças a Deus, mais uma Sociedade de Advogados que, pelo nome dos patronos, é ibérica. Em baixo as impecáveis lojas da Hugo Boss (casa fundada em 1923 e fornecedora exclusiva dos uniformes nazis) e da Ermenegildo Zegna.  Ao passar, veio-me à memória que naquele edifício, a cavalo entre os anos 50 e 60, existia um pequeno bar, tão pequeno que o balcão estava quase encostado à porta de entrada, cujo proprietário designava as bebidas que servia, bem como tudo aquilo de bom que lhes acrescentava, com o asneiredo mais soez que a sua inventiva empresarial lhe oferecia. Lembro-me que passava por lá com colegas da minha idade, exclusivamente machos, para nos acanalharmos com a linguagem corrente daquele local que hoje seria considerado  cult.  A bebida interessava pouco, até porque devia estar no limite do potável, mas o facto de entrar, pedir a mistela e ouvir nomear os acessórios a escolher, tudo em vernáculo, era o máximo da transgressão para putos de 16/18 anos. Há quem me ache atrevido na escrita e de, por vezes, derrapar para fora das linhas do aceitável mas, neste espaço dignificado pela imagem da Suggia, pela douta citação latina e pelo bom gosto e elegância de quem o idealizou, não me passa pela ante-câmara do cérebro repetir, escrevendo-a, uma só palavra das que disse e ouvi naquela que era uma “capela” iniciática da asneira livre, lembrando-me que “ a escrita fica quando um dia a palavra se retirar”. Será que sou o único velho que se lembra da existência deste local? Espero ansiosamente comentários pertinentes. 

Estamos na esquina da Travessa do Salitre e, olhando para a esquerda, vejo a entrada do Parque Mayer com as suas torres, entre Manhattan e San Gimignano, mas fica para uma próxima ocasião, até porque não é lícito violar um “santuário” quando se anda a fazer turismo de mochila às costas. 

Abraço. 

Lisboa, 14 de Agosto de 2014
Octávio Santos

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Parte Segunda da crónica da minha aventurosa viagem de desce e sobe a Avenida da Liberdade, com incursão nos Restauradores, a qual, se não fosse pedir muito, e a posteridade assim o viesse a decidir, poderia entrar de pleno direito na História dos Descobrimentos.


Recordo que a Parte Primeira desta crónica se ficou pelo nº 170, sede do PCP, acabando com um “ataque” húngaro que me levou a divagar sobre assuntos meus antigos que, estranhamente ou não, tiveram a intervenção do prestimoso grupo de empresas que tendo  vivido um século sob a asa protectora da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, se vê agora arrastada na lama,  não podendo voltar a brincar aos pobrezinhos na Comporta, sendo obrigada a ir brincar ao riquinhos no Brasil, onde a Odebrecht já acolheu parte da prole. Quem é amigo, quem é? 

Mas vamos lá continuar a descer a nossa Avenida deparando com um mosaico tipo bizantino - Domus quieta, Facultas certa - no nº 166, magnífico edifício que alberga a Eduardo Beauté, que massaja, penteia, desenruga, depila, bronzeia, drena, maquilha, hidrata, esfolia, lipoaspira  e embeleza as Senhoras alfacinhas que, ao de lá sairem, iluminam os cúpidos olhos machos (e não só) de patrícios e turistas. Está lá também a Chiado Editora, meritório agente de divulgação de cultura que acaba de publicar o Volume V da Antologia de Poesia Contemporânea - Entre o Sono e o Sonho -, que inclui no seu Tomo II uma pequena poesia da minha autoria. No 164, outro belo edifício dos que restam da Avenida pré-metropolitano, está a Rimowa, malas de viagem de luxo com garantia germânica. O que há de pior, em termos arquitectónicos, da antiga Avenida mora no nº 158; está lá a Agência Abreu, pioneira do turismo em Portugal desde 1840. No 144 temos mais um moderno “vidrão”, o Edifício M.C.B., aquele do hipopótamo, que se salva pelo belo baixo-relevo em azulejo que ostenta. Tem lojas: I Pinco Pallino, roupas italianas para crianças (passei lá dois dias depois e já se chamava Baby Liberdade, como este país muda!), Delta Q (o Nespresso de Campomaior), Carolina Herrera, de Portugal para a Venezuela e volta com amor e classe, Purificación Garcia, espanhola dois degraus abaixo, e ainda uma agência de casting; Figurantes televisivos…Casting cinema. Nos 138/142 está agora o “The Fonte Cruz Lisboa Hotel - Autograph Collection -, cinco estrelas num muito bem recuperado edifício antigo. Em baixo tem a A.Lange & Söhne Glashütte I/SA, vistosa e complicada relojoaria alemã, casa fundada na Saxónia em 1168 e renascida em 1990 após a queda do Muro de Berlim, que tivemos todos as esperança fosse o último: Gaza, Cisjordânia, Ceuta, Melilla, México e não sei quantos mais estão aí para nos desmentir. No 136, mais um belo edifício, está a André Ópticas e a Gatewit, que “lidera o Top do capital humano em Portugal”, frase que, com as minhas limitações, não sei traduzir, e que é também “uma plataforma de compras públicas”, idem.  

Um monstro moderno, depurado em estilo Siza Vieira, ocupa o nº 110, e lá estão a Massimo Dutti, a Mango e a H.E. by Mango (Inditex strikes again), a Hiskox, a Regus e mais uma Sociedade de Advogados. No 108,  outro tipo Siza na esquina com a Rua das Pretas, com alpinistas a furarem o mármore das fachadas, está a Clínica de Nutrição de Lisboa, a ES Property e a Michael Kors. Na outra esquina, no 102, está o belo e elegante pequeno edifício onde a Maria João Bahia fabrica, expõe e vende a sua sofisticada joalharia: uma beleza intemporal. Nos 92/100 está o agora designado Edifício Tony Miranda, com os seus azulejos azuis, em honra do estilista que veste as Ivanas Trampas e os Flávios Brilhadores da antiga Capital do Império, que subiu aos andares superiores, private clients, para deixar a loja à Miu-Miu que mais não é que a “Prada dos Pobres”. Crise a quanto obrigas! No 90 temos um edifício irmão daquele do Tony Miranda mas com azulejos verdes. Em baixo, em saldos como quase tudo o que são trapos na Avenida, está o Zadig & Voltaire, vindo-me à cabeça o slogan para a segurança nas nossas praias que o Mário Soares teria tentado impingir à son ami Mitterand: “Il y a mer et mer, il y a aller et Voltaire”. Quanto ao Zadig não sei quem era nem quero saber. No 88, Villas-Boas, Corrector de Seguros, no 86, ACLSI (IT Solutions), no 84, Unibanco, Vetop International (seguros espanhóis), Proccordena (o quê?) e CBS (mais seguros). Dos edifícios não guardei memória. Será que não tinham nada de particular ou que eu já estava cansado? Vou lá voltar para verificar. Se era cansaço, tive um sobressalto com o horror arquitectónico do Edifício MAPFRE que, talvez por vergonha, retirou as letras gordas da fachada do nº 40. 

No 38, atenuado (pouco) o mau gosto da arquitectura, encontrei a primeira pedinte (os húngaros eram profissionais), sentada no chão em cima de um cobertor que lhe tapava as pernas e que dividia com uma cadelinha e um chapéu alto como recipiente para as esmolas: - Estou a pedir para a minha menina! Despenteada, suja, gorda, com as mamas apoiadas na barriga, dir-se-ia um corpo entornado no passeio. Atrás dela a Porsche Design de um lado e a Elisabetta Franchi e a Gant do outro. Ao centro, subindo umas escadas, entra-se para um pátio arejado e ensolarado, do qual se tem uma magnífica visão da Igreja de S. José que dá para o Largo da Anunciada. Lá dentro a Stivali e o Holmes Place - One life. Live it well -.  Ao sair reparei num interessante painel moderno de azulejos azuis retratando uma cena no Passeio Público. No nº 36, edifício moderno e linear, nem carne nem peixe, temos mais seguros, a MetLife, e o enorme espaço fechado da Aeroflot; espreitei pelo vidro sujo onde alguém escreveu “FUCK”, e lá estava o logotipo pomposo e austero da transportadora soviética, no alto de 3 ou 4 degraus. É sempre necessário fazer um esforço para chegar ao alto. Não tem nada a ver, mas para subir ao trono que está na Sala VIP do Aeroporto de Bata, reservado ao Presidente da Guiné Equatorial, também é necessário subir 3 ou 4 degraus. Se não acreditam perguntem ao Dr. Luis Amado, ex-Ministro dos Negócios Estrangeiros e agora Presidente do Banif, que estava lá comigo. O edifício acolhe também os TACV – o prazer de viajar bem -, o que eu lhe concedo com toda a justiça, e a Penhalta, gosto espanhol para noivas e noivos portugueses. 

No nº 28 está o Hotel Heritage Lisboa, uma boa recuperação do edifício que faz esquina com o Largo da Anunciada, e aqui a vista foge-me ao longe para o Ascensor do Lavra; esta minha mania dos ascensores de Lisboa! Nos 20/24 fica o palácio onde está instalada s sede da EPAL. Águas livres por quanto tempo? Se o Arnaut sopra ao Moedas que a Goldman Sachs exige a privatização é como se já estivesse feito. No dia em que o patrão de ambos, e também do saudoso António Borges, comprou 2% do BES, a Moody’s tirou Portugal do caixote do lixo. Será que ninguém entendeu? No velho, feio e decrépito prédio com o nº 18, uma tabacaria com produtos decadentes e empoeirados para turistas, no 12, edifício de bela traça em recuperação. Tudo fechado. No 1º andar, as bandeiras das portas das varandas ostentam estes dizeres: BFB - Banco Fonsecas & Burnay. No 10 apenas o Focus Group - one stop solution. Já desisti de perceber. Do 4 ao 8 o velho Condes com a sua fachada única do Arquitecto Raul Tojal, agora Hard Rock Café. Progresso? Na outra esquina da Rua dos Condes são já os Restauradores, ou seja, fora dos limites da minha viagem, mas senti o impulso de passar a fronteira, quase uma obrigação, como se a liberdade tivesse necessidade de ser restaurada.

Entro então nos Restauradores e a primeira loja na esquina, no nº 46, é a Roca Lisbon Gallery, que expõe a sua produção de sanitários nas montras e que nos últimos dias nos pasmou com a “Sanitofone”, pequena orquestra cujos instrumentos são sanitas, bidés e urinóis, numa tentativa de dar um cheirinho à música portuguesa. Ao seu lado, para a Rua dos Condes, está o Cinema Odeon (quantos filmes de capa e espada!), que ainda anuncia revista de gargalhada e cujo edifício histórico tudo indica irá acolher as Galerias Lafayette, futuro único concorrente do El Corte Inglès. No 47 o tradicional Lourenço & Santos, tão agarrado à tradição que as suas montras são difíceis de superar em qualquer cidade israelita ou ghetto europeu. Saldos de 30 a 50 %, que se chegassem aos 90 talvez me tentassem. Nos andares de cima a POAO – Investimento Imobiliário (bilingue, em mandarim), a Sociedade de Turismo e Diversões de Macau, SARL, e a inevitável Sociedade de Advogados. No 48, um prédio triste com azulejos castanhos, ressalta o vermelho vivo da Viva, que mais não é que aquele do Continente. Do prédio contíguo, 53/55, apenas tomei uma nota: desabitado, um nojo! Por contraste afixa “Mil sorrisos” prometidos pelo Millennium BCP. No 57, edifício que só se pode dizer que é grande e está a ser restaurado pela UON - Imobiliária, tem na loja a Note! que vende livros, publicações, presentes, gadgets, etc... . Os CTT ocupam o nº 58, e  agora, para além de banco e Loja do Cidadão,  também vendem livros, publicações, presentes, gadgets, etc..., arriscando-se o utente que apenas deseja comprar um selo, a ser  pressionado para levar também um vigésimo da  Lotaria da Santa Casa. Ao seu lado tem a “Cone ou Copo!, gelataria e iogurteria de fabrico artesanal, cujo nome convém soletrar com atenção, nada de disparar para o grupo de amigos e amigas cansados de descer a Avenida e desejosos de se refrescarem: - Vamos à Conocopo! 

Atravessando a Travessa de Santo Antão deparamos com a enorme Servejaria (alguma coisa tinham de inventar) que anuncia “Leitão da Bairrada - Assado aqui”. Pobre animal que desce vivo da Anadia e da Mealhada, ainda na infância,  para ser aqui assado e bebido com serveja, por nacionais e turistas que são atraídos pelo “Bairrada's Suckling Pig”. Turismo, a quanto obrigas! No 65 pontifica a Tabacaria Restauradores, outra a fechar em nome da dignidade da Avenida, pela qual se sobe ao “Good Morning Lisbon Hostel”. Nos 66/68 está o Santander Totta (junto consigo somos melhores) em edifício falso pombalino pobre, no 70, em idêntica construção, a Alfaiataria J. Gomes dos Santos, o máximo em vitrinismo judaico-cristão de fins do século XIX, a Tabacaria Quintamar, Lda, menos má que as outras duas a que acima me referi (com uma limpeza escusa de encerrar), e uma loja fechada cujo aspecto exterior revela a mais completa falta de respeito pela Avenida e pela cidade, um verdadeiro tugúrio indigno do país turístico que realmente somos, e onde nem tudo deveria ser permitido. Mas quem fiscaliza um caso menor como este se não se fiscalizam coisas muito mais importantes? O 78, um pombalino com azulejos azuis, tem no último andar o Imperial - Chambres/Rooms, no 2º andar o Restauradores Apartamentos e, em baixo, a Vitaminas, a Money Exchange by Munditransfer e a Babock & Wilkox - tratamento de águas. No cantinho, o Pinóquio, casa de brinquedos no meu tempo de menino e agora restaurante e cervejaria (com C), onde se come o melhor bife do lombo (pica-pau) da Baixa de Lisboa. Solto, dando as costas à rua do Jardim do Regedor (por onde anda o regedor do meu Benfica?), o belíssimo quiosque que alberga a Agência ABEP, a precisar de restauro ou, pelo menos, de uma limpeza e arrumação. Apesar da tentação ser grande não entro na Rua 1º de Dezembro embora esta república precisasse também de ser restaurada. Sirvo-me da passagem subterrânea para atravessar os Restauradores, e já tenho um velho nas escadas a pedir uma esmolinha com a mão que segura o copo a tremer vistosamente, passo por muitas enxergas, óbvios dormitórios dos “sem abrigos”. Um Homem (ainda?) descansava no meio da mais incrível confusão de coisas sujas. Estive para lhe perguntar se não de tratava de uma instalação artística e que ele estivesse à espera dos fotógrafos para a imortalizar.  Tudo, a escada, o velho mendigo, os trastes por terra, o nicho do Homem,  cheiravam a urina retardada. O Turismo de Portugal (parabéns pelo Óscar!), deveria proibir os turistas de atravessar os Restauradores por baixo; é que por cima está quase tudo bem. 

Do lado de lá o Avenida Palace que tem apenas para este lado a porta nº 9 para a saída do lixo e a entrada dos empregados; tudo compatível. Nos baixos do mítico hotel lisboeta, nos 1/3, está a Calzedonia/Intimissimi, íntimo para Senhoras, a bom preço (vírgula essencial), no 4 um Espaço Emprego – deveria fazer-se um estudo sobre as expressões faciais dos utentes, ou contratar alguns dos palhaços que todos os dias nos contam histórias que, por inverosímeis, dão vontade de rir -, e a Money Exchange & Transfers, no 8 a Geladaria Veneziana, de Luca Giovanni, Herd, que há anos deixou o amplo espaço onde refrescávamos os nossos passeios domingueiros de verão na Avenida, para se meter neste cantinho escondido que continuamos a frequentar. No enorme edifício decadente no nº 13, um grande café, o Young Liberty, que nada tem a ver com Lisboa ou, pelo menos, com aquela Lisboa que todos gostaríamos de ter; ou estou enganado? Ao seu lado a Geostar Turismo. No 4º andar a Residência Restauradores c/elevador, no 3º um néon anuncia “Fios para Tricot - L.Neto Raposo, Lda, - Frabricantes”, no 2º, fazendo fé na lápide, começou a funcionar em 1925 aquela que foi a primeira sede da Sociedade Portuguesa de Autores. No nº 15 o Bar Pirata, onde comi a minha primeira chamuça acompanhada do inevitável Pirata, bebida da casa, tipo Eduardinho, o Express Foto Sport (outro nojo inadmissível) e a ampla Taverna Imperial a atrair turistas esfomeados e sedentos para a sua esplanada. Depois, o Éden Teatro, também do Mestre Cassiano Branco, que viu encerrar a Loja do Cidadão e tem agora um lençol da Jones Lang LaSalle a oferecê-lo a quem der mais, seja russo, chinês, qatari ou usbek; Portugal é um país de acolhimento afável e fidalgo, e com os complexos que ficaram da Pide/DGS não faz perguntas nem aos banqueiros. Somos uma Nação que aceita na CPLP até outras Nações onde ninguém, nem a Directora da Lusofonia, fala a língua de Camões, Craveirinha, Nhô Balta e Agualusa; haja gás ou petróleo, se ambos melhor. No nº 24 continua aberto a Aparthotel VIP Éden, hoje único inquilino do histórico edifício. 


No Palácio Foz, aquele do SNI do António Ferro, do Moreira Baptista e, depois do  25 de Abril, do Luís de Barros (as diferenças eram só de cor), há agora de tudo, como se fosse a farmácia da propaganda, de um “Museums and Monuments  Shop”, onde se vendem as habituais bugigangas a puxar para o artístico, a PSP – Tourism Police Station-, o “Ask me L?sboa-i, o IGAC- Inspecção Geral das Actividades Culturais (espero que ao menos estes inspeccionem, já que é inútil), o GMCS – Gabinete para os Meios de Comunicação Social, a Comissão da Carteira Profissional de Jornalista, o Museu Nacional do Desporto, a Cinemateca Júnior. Na montra está afixada toda a programação dos concertos a ter lugar no Salão Dourado do Palácio; a última vez que lá entrei foi para ouvir um concerto em honra do Presidente da República da Bulgária.  À esquerda, findo o Palácio, a Calçada da Glória; através da fila de turistas os meus olhos subiram para se colarem ao ascensor que me fugia cheio de vida(s) por ali acima. E eis-me novamente, com uma mochila, um bloco notas e uma caneta na mão, a meter o nariz em  tudo o que existe e acontece nesta nossa Avenida da Liberdade, mas fica para a próxima. 

Abraço. 

Lisboa, 7 de Agosto de 2014
Octávio Santos