quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Parte Segunda da crónica da minha aventurosa viagem de desce e sobe a Avenida da Liberdade, com incursão nos Restauradores, a qual, se não fosse pedir muito, e a posteridade assim o viesse a decidir, poderia entrar de pleno direito na História dos Descobrimentos.


Recordo que a Parte Primeira desta crónica se ficou pelo nº 170, sede do PCP, acabando com um “ataque” húngaro que me levou a divagar sobre assuntos meus antigos que, estranhamente ou não, tiveram a intervenção do prestimoso grupo de empresas que tendo  vivido um século sob a asa protectora da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, se vê agora arrastada na lama,  não podendo voltar a brincar aos pobrezinhos na Comporta, sendo obrigada a ir brincar ao riquinhos no Brasil, onde a Odebrecht já acolheu parte da prole. Quem é amigo, quem é? 

Mas vamos lá continuar a descer a nossa Avenida deparando com um mosaico tipo bizantino - Domus quieta, Facultas certa - no nº 166, magnífico edifício que alberga a Eduardo Beauté, que massaja, penteia, desenruga, depila, bronzeia, drena, maquilha, hidrata, esfolia, lipoaspira  e embeleza as Senhoras alfacinhas que, ao de lá sairem, iluminam os cúpidos olhos machos (e não só) de patrícios e turistas. Está lá também a Chiado Editora, meritório agente de divulgação de cultura que acaba de publicar o Volume V da Antologia de Poesia Contemporânea - Entre o Sono e o Sonho -, que inclui no seu Tomo II uma pequena poesia da minha autoria. No 164, outro belo edifício dos que restam da Avenida pré-metropolitano, está a Rimowa, malas de viagem de luxo com garantia germânica. O que há de pior, em termos arquitectónicos, da antiga Avenida mora no nº 158; está lá a Agência Abreu, pioneira do turismo em Portugal desde 1840. No 144 temos mais um moderno “vidrão”, o Edifício M.C.B., aquele do hipopótamo, que se salva pelo belo baixo-relevo em azulejo que ostenta. Tem lojas: I Pinco Pallino, roupas italianas para crianças (passei lá dois dias depois e já se chamava Baby Liberdade, como este país muda!), Delta Q (o Nespresso de Campomaior), Carolina Herrera, de Portugal para a Venezuela e volta com amor e classe, Purificación Garcia, espanhola dois degraus abaixo, e ainda uma agência de casting; Figurantes televisivos…Casting cinema. Nos 138/142 está agora o “The Fonte Cruz Lisboa Hotel - Autograph Collection -, cinco estrelas num muito bem recuperado edifício antigo. Em baixo tem a A.Lange & Söhne Glashütte I/SA, vistosa e complicada relojoaria alemã, casa fundada na Saxónia em 1168 e renascida em 1990 após a queda do Muro de Berlim, que tivemos todos as esperança fosse o último: Gaza, Cisjordânia, Ceuta, Melilla, México e não sei quantos mais estão aí para nos desmentir. No 136, mais um belo edifício, está a André Ópticas e a Gatewit, que “lidera o Top do capital humano em Portugal”, frase que, com as minhas limitações, não sei traduzir, e que é também “uma plataforma de compras públicas”, idem.  

Um monstro moderno, depurado em estilo Siza Vieira, ocupa o nº 110, e lá estão a Massimo Dutti, a Mango e a H.E. by Mango (Inditex strikes again), a Hiskox, a Regus e mais uma Sociedade de Advogados. No 108,  outro tipo Siza na esquina com a Rua das Pretas, com alpinistas a furarem o mármore das fachadas, está a Clínica de Nutrição de Lisboa, a ES Property e a Michael Kors. Na outra esquina, no 102, está o belo e elegante pequeno edifício onde a Maria João Bahia fabrica, expõe e vende a sua sofisticada joalharia: uma beleza intemporal. Nos 92/100 está o agora designado Edifício Tony Miranda, com os seus azulejos azuis, em honra do estilista que veste as Ivanas Trampas e os Flávios Brilhadores da antiga Capital do Império, que subiu aos andares superiores, private clients, para deixar a loja à Miu-Miu que mais não é que a “Prada dos Pobres”. Crise a quanto obrigas! No 90 temos um edifício irmão daquele do Tony Miranda mas com azulejos verdes. Em baixo, em saldos como quase tudo o que são trapos na Avenida, está o Zadig & Voltaire, vindo-me à cabeça o slogan para a segurança nas nossas praias que o Mário Soares teria tentado impingir à son ami Mitterand: “Il y a mer et mer, il y a aller et Voltaire”. Quanto ao Zadig não sei quem era nem quero saber. No 88, Villas-Boas, Corrector de Seguros, no 86, ACLSI (IT Solutions), no 84, Unibanco, Vetop International (seguros espanhóis), Proccordena (o quê?) e CBS (mais seguros). Dos edifícios não guardei memória. Será que não tinham nada de particular ou que eu já estava cansado? Vou lá voltar para verificar. Se era cansaço, tive um sobressalto com o horror arquitectónico do Edifício MAPFRE que, talvez por vergonha, retirou as letras gordas da fachada do nº 40. 

No 38, atenuado (pouco) o mau gosto da arquitectura, encontrei a primeira pedinte (os húngaros eram profissionais), sentada no chão em cima de um cobertor que lhe tapava as pernas e que dividia com uma cadelinha e um chapéu alto como recipiente para as esmolas: - Estou a pedir para a minha menina! Despenteada, suja, gorda, com as mamas apoiadas na barriga, dir-se-ia um corpo entornado no passeio. Atrás dela a Porsche Design de um lado e a Elisabetta Franchi e a Gant do outro. Ao centro, subindo umas escadas, entra-se para um pátio arejado e ensolarado, do qual se tem uma magnífica visão da Igreja de S. José que dá para o Largo da Anunciada. Lá dentro a Stivali e o Holmes Place - One life. Live it well -.  Ao sair reparei num interessante painel moderno de azulejos azuis retratando uma cena no Passeio Público. No nº 36, edifício moderno e linear, nem carne nem peixe, temos mais seguros, a MetLife, e o enorme espaço fechado da Aeroflot; espreitei pelo vidro sujo onde alguém escreveu “FUCK”, e lá estava o logotipo pomposo e austero da transportadora soviética, no alto de 3 ou 4 degraus. É sempre necessário fazer um esforço para chegar ao alto. Não tem nada a ver, mas para subir ao trono que está na Sala VIP do Aeroporto de Bata, reservado ao Presidente da Guiné Equatorial, também é necessário subir 3 ou 4 degraus. Se não acreditam perguntem ao Dr. Luis Amado, ex-Ministro dos Negócios Estrangeiros e agora Presidente do Banif, que estava lá comigo. O edifício acolhe também os TACV – o prazer de viajar bem -, o que eu lhe concedo com toda a justiça, e a Penhalta, gosto espanhol para noivas e noivos portugueses. 

No nº 28 está o Hotel Heritage Lisboa, uma boa recuperação do edifício que faz esquina com o Largo da Anunciada, e aqui a vista foge-me ao longe para o Ascensor do Lavra; esta minha mania dos ascensores de Lisboa! Nos 20/24 fica o palácio onde está instalada s sede da EPAL. Águas livres por quanto tempo? Se o Arnaut sopra ao Moedas que a Goldman Sachs exige a privatização é como se já estivesse feito. No dia em que o patrão de ambos, e também do saudoso António Borges, comprou 2% do BES, a Moody’s tirou Portugal do caixote do lixo. Será que ninguém entendeu? No velho, feio e decrépito prédio com o nº 18, uma tabacaria com produtos decadentes e empoeirados para turistas, no 12, edifício de bela traça em recuperação. Tudo fechado. No 1º andar, as bandeiras das portas das varandas ostentam estes dizeres: BFB - Banco Fonsecas & Burnay. No 10 apenas o Focus Group - one stop solution. Já desisti de perceber. Do 4 ao 8 o velho Condes com a sua fachada única do Arquitecto Raul Tojal, agora Hard Rock Café. Progresso? Na outra esquina da Rua dos Condes são já os Restauradores, ou seja, fora dos limites da minha viagem, mas senti o impulso de passar a fronteira, quase uma obrigação, como se a liberdade tivesse necessidade de ser restaurada.

Entro então nos Restauradores e a primeira loja na esquina, no nº 46, é a Roca Lisbon Gallery, que expõe a sua produção de sanitários nas montras e que nos últimos dias nos pasmou com a “Sanitofone”, pequena orquestra cujos instrumentos são sanitas, bidés e urinóis, numa tentativa de dar um cheirinho à música portuguesa. Ao seu lado, para a Rua dos Condes, está o Cinema Odeon (quantos filmes de capa e espada!), que ainda anuncia revista de gargalhada e cujo edifício histórico tudo indica irá acolher as Galerias Lafayette, futuro único concorrente do El Corte Inglès. No 47 o tradicional Lourenço & Santos, tão agarrado à tradição que as suas montras são difíceis de superar em qualquer cidade israelita ou ghetto europeu. Saldos de 30 a 50 %, que se chegassem aos 90 talvez me tentassem. Nos andares de cima a POAO – Investimento Imobiliário (bilingue, em mandarim), a Sociedade de Turismo e Diversões de Macau, SARL, e a inevitável Sociedade de Advogados. No 48, um prédio triste com azulejos castanhos, ressalta o vermelho vivo da Viva, que mais não é que aquele do Continente. Do prédio contíguo, 53/55, apenas tomei uma nota: desabitado, um nojo! Por contraste afixa “Mil sorrisos” prometidos pelo Millennium BCP. No 57, edifício que só se pode dizer que é grande e está a ser restaurado pela UON - Imobiliária, tem na loja a Note! que vende livros, publicações, presentes, gadgets, etc... . Os CTT ocupam o nº 58, e  agora, para além de banco e Loja do Cidadão,  também vendem livros, publicações, presentes, gadgets, etc..., arriscando-se o utente que apenas deseja comprar um selo, a ser  pressionado para levar também um vigésimo da  Lotaria da Santa Casa. Ao seu lado tem a “Cone ou Copo!, gelataria e iogurteria de fabrico artesanal, cujo nome convém soletrar com atenção, nada de disparar para o grupo de amigos e amigas cansados de descer a Avenida e desejosos de se refrescarem: - Vamos à Conocopo! 

Atravessando a Travessa de Santo Antão deparamos com a enorme Servejaria (alguma coisa tinham de inventar) que anuncia “Leitão da Bairrada - Assado aqui”. Pobre animal que desce vivo da Anadia e da Mealhada, ainda na infância,  para ser aqui assado e bebido com serveja, por nacionais e turistas que são atraídos pelo “Bairrada's Suckling Pig”. Turismo, a quanto obrigas! No 65 pontifica a Tabacaria Restauradores, outra a fechar em nome da dignidade da Avenida, pela qual se sobe ao “Good Morning Lisbon Hostel”. Nos 66/68 está o Santander Totta (junto consigo somos melhores) em edifício falso pombalino pobre, no 70, em idêntica construção, a Alfaiataria J. Gomes dos Santos, o máximo em vitrinismo judaico-cristão de fins do século XIX, a Tabacaria Quintamar, Lda, menos má que as outras duas a que acima me referi (com uma limpeza escusa de encerrar), e uma loja fechada cujo aspecto exterior revela a mais completa falta de respeito pela Avenida e pela cidade, um verdadeiro tugúrio indigno do país turístico que realmente somos, e onde nem tudo deveria ser permitido. Mas quem fiscaliza um caso menor como este se não se fiscalizam coisas muito mais importantes? O 78, um pombalino com azulejos azuis, tem no último andar o Imperial - Chambres/Rooms, no 2º andar o Restauradores Apartamentos e, em baixo, a Vitaminas, a Money Exchange by Munditransfer e a Babock & Wilkox - tratamento de águas. No cantinho, o Pinóquio, casa de brinquedos no meu tempo de menino e agora restaurante e cervejaria (com C), onde se come o melhor bife do lombo (pica-pau) da Baixa de Lisboa. Solto, dando as costas à rua do Jardim do Regedor (por onde anda o regedor do meu Benfica?), o belíssimo quiosque que alberga a Agência ABEP, a precisar de restauro ou, pelo menos, de uma limpeza e arrumação. Apesar da tentação ser grande não entro na Rua 1º de Dezembro embora esta república precisasse também de ser restaurada. Sirvo-me da passagem subterrânea para atravessar os Restauradores, e já tenho um velho nas escadas a pedir uma esmolinha com a mão que segura o copo a tremer vistosamente, passo por muitas enxergas, óbvios dormitórios dos “sem abrigos”. Um Homem (ainda?) descansava no meio da mais incrível confusão de coisas sujas. Estive para lhe perguntar se não de tratava de uma instalação artística e que ele estivesse à espera dos fotógrafos para a imortalizar.  Tudo, a escada, o velho mendigo, os trastes por terra, o nicho do Homem,  cheiravam a urina retardada. O Turismo de Portugal (parabéns pelo Óscar!), deveria proibir os turistas de atravessar os Restauradores por baixo; é que por cima está quase tudo bem. 

Do lado de lá o Avenida Palace que tem apenas para este lado a porta nº 9 para a saída do lixo e a entrada dos empregados; tudo compatível. Nos baixos do mítico hotel lisboeta, nos 1/3, está a Calzedonia/Intimissimi, íntimo para Senhoras, a bom preço (vírgula essencial), no 4 um Espaço Emprego – deveria fazer-se um estudo sobre as expressões faciais dos utentes, ou contratar alguns dos palhaços que todos os dias nos contam histórias que, por inverosímeis, dão vontade de rir -, e a Money Exchange & Transfers, no 8 a Geladaria Veneziana, de Luca Giovanni, Herd, que há anos deixou o amplo espaço onde refrescávamos os nossos passeios domingueiros de verão na Avenida, para se meter neste cantinho escondido que continuamos a frequentar. No enorme edifício decadente no nº 13, um grande café, o Young Liberty, que nada tem a ver com Lisboa ou, pelo menos, com aquela Lisboa que todos gostaríamos de ter; ou estou enganado? Ao seu lado a Geostar Turismo. No 4º andar a Residência Restauradores c/elevador, no 3º um néon anuncia “Fios para Tricot - L.Neto Raposo, Lda, - Frabricantes”, no 2º, fazendo fé na lápide, começou a funcionar em 1925 aquela que foi a primeira sede da Sociedade Portuguesa de Autores. No nº 15 o Bar Pirata, onde comi a minha primeira chamuça acompanhada do inevitável Pirata, bebida da casa, tipo Eduardinho, o Express Foto Sport (outro nojo inadmissível) e a ampla Taverna Imperial a atrair turistas esfomeados e sedentos para a sua esplanada. Depois, o Éden Teatro, também do Mestre Cassiano Branco, que viu encerrar a Loja do Cidadão e tem agora um lençol da Jones Lang LaSalle a oferecê-lo a quem der mais, seja russo, chinês, qatari ou usbek; Portugal é um país de acolhimento afável e fidalgo, e com os complexos que ficaram da Pide/DGS não faz perguntas nem aos banqueiros. Somos uma Nação que aceita na CPLP até outras Nações onde ninguém, nem a Directora da Lusofonia, fala a língua de Camões, Craveirinha, Nhô Balta e Agualusa; haja gás ou petróleo, se ambos melhor. No nº 24 continua aberto a Aparthotel VIP Éden, hoje único inquilino do histórico edifício. 


No Palácio Foz, aquele do SNI do António Ferro, do Moreira Baptista e, depois do  25 de Abril, do Luís de Barros (as diferenças eram só de cor), há agora de tudo, como se fosse a farmácia da propaganda, de um “Museums and Monuments  Shop”, onde se vendem as habituais bugigangas a puxar para o artístico, a PSP – Tourism Police Station-, o “Ask me L?sboa-i, o IGAC- Inspecção Geral das Actividades Culturais (espero que ao menos estes inspeccionem, já que é inútil), o GMCS – Gabinete para os Meios de Comunicação Social, a Comissão da Carteira Profissional de Jornalista, o Museu Nacional do Desporto, a Cinemateca Júnior. Na montra está afixada toda a programação dos concertos a ter lugar no Salão Dourado do Palácio; a última vez que lá entrei foi para ouvir um concerto em honra do Presidente da República da Bulgária.  À esquerda, findo o Palácio, a Calçada da Glória; através da fila de turistas os meus olhos subiram para se colarem ao ascensor que me fugia cheio de vida(s) por ali acima. E eis-me novamente, com uma mochila, um bloco notas e uma caneta na mão, a meter o nariz em  tudo o que existe e acontece nesta nossa Avenida da Liberdade, mas fica para a próxima. 

Abraço. 

Lisboa, 7 de Agosto de 2014
Octávio Santos

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Liberdade (e amizade) a quanto obrigas, ou Parte Primeira da crónica chata e miudinha de quem pensa poder ser restaurador da verdade na toponímia de Lisboa, não para criar a Travessa do Medo ou o Beco da Miséria, ambas perpendiculares à larga Alameda da Corrupção que desemboca no Largo da Incompetência Premiada, mas para que, possa na Avenida da Liberdade, lembrando a República Democrática da Alemanha, dar a bota com a perdigota.


Quando sufocamos com falta de uma qualquer coisa, o melhor é entregarmo-nos a ela mesmo que se sinta a inutilidade da acção. Por isso passei um dia inteiro na Avenida da Liberdade. Por isso, mas também porque, tendo decidido abrandar, abandonar ou fazer outras coisas, recebi do Recife, dos meus amigos Lectícia e José Paulo a curta mas imperativa mensagem: “Não queremos substitutos. Exigimos Octávio!”. Poderia não ter dado importância, até porque o José Paulo ultimamente não tem estado de acordo comigo em quase nada, mas seja pelo seu exemplo de ter passado 8 anos de vida a trabalhar 4 horas por dia na sua monumental  biografia de Fernando Pessoa, seja para desmentir esta velha e persistente crença portuguesa que quem não está comigo é contra mim, aqui estou novamente a escrever coisas que ele seguramente não vai gostar, mas que me “obriga” a fazê-lo. Voltaire continua vivo, felizmente.

Assim, de manhã cedo comecei a descer a Avenida da Liberdade, que antes era um braço do Tejo e depois Passeio Público, mas isso são outras histórias e eu, acreditem ou não, não sou desse tempo.

Na esquina com o Marquês, no 270, temos a beleza do pequeno palacete neoclássico onde está instalado o Camões -Instituto da Cooperação e da Língua - que espero tenha fundos para executar pelo menos quanto implícito no seu novo apelido -, com acrescentos arquitectónicos que não o desvirtuam nem lhe tiram dignidade, o que, em Lisboa, raramente se consegue. No 266 está o histórico edifício, Premio Valmor 1940, que alberga o não menos histórico Diário de Notícias, cujo lettering sempre me fascinou, que vê agora todos os que nele trabalham em luta pela sobrevivência, própria e do jornal, já que andam Mosquitos africanos por cordas, de parceria com o "Genro da Nação", na tentativa de os meter na nova ordem, juntamente com os seus companheiros da TSF, do Jornal de Notícias, do Jogo e da agência Global Imagens. Segue-se, no 262, um belo prédio de habitação (era assim que se dizia) tão no estilo da velha Avenida, digamos um pombalino tardo e mais ligeiro que saiu da Baixa e começou a subir pelo Passeio Público, que sei ser propriedade e moradia de um dos mais brilhantes jovens Embaixadores que as Necessidades conseguem ainda conservar para sua honra e prestígio, e para bem de todos nós. Para além disso, há vida lá dentro no Colégio da Avózinha!

No passeio, um cartaz anuncia a exposição de uma colecção de pintura do Banco Europeu de Investimento, no Banco de Portugal de 16/5 a 14/9, “Within/Beyond Borders”. É bom que os bancos nos proporcionem cultura (tiram-nos tanto!), mas a quem, se passamos o nosso tempo que deveria ser livre na fila do Fundo de Desemprego, do Centro de Saúde, da Loja do Cidadão, na Repartição de Finanças, na Caixa Geral de Aposentações, e estou a esquecer outras tantas salas de espera nacionais? Isto sem falar naqueles que estão na fila da sopa dos pobres ou na da Jonet dos Bifes, que isto de cultura não engorda ninguém, se exceptuarmos a Joana Vasconcelos.

No 258 temos uma anónima construção moderna onde estão a aicep Portugal Global (antes Aicep Capital Global, que perdendo o capital ganhou o Portugal que capital não tem) e uma Sociedade de Advogados idêntica às outras, e foram muitas, que detectámos na Avenida. Em baixo duas lojas de trapos de luxo: a Trussardi (cujo fundador Nicola morreu num estúpido acidente de automóvel e o Filho anda agora de amores com a ex-Mulher de Eros Ramazotti, Mãe da sua Filha Aurora: diz-se gossip?), a Marina Rinaldo, para Senhoras fortes, candidatas a uma dieta na Carregueira, nome da Avó do Senhor Maximiliano Maramonti (Max Mara), velho padre/padrone que tantos problemas teve com os sindicatos italianos por teimar em gerir as suas empresas como era de uso no século XIX (também gossip?). No 252 antigo edifício recuperado com grande cartaz que anuncia a abertura de escritórios. Se, como este, mais de uma dezena de edifícios idênticos, ou modernos, anunciam o mesmo na mesma avenida, começo a acreditar na lengalenga da lenta mas segura recuperação económica em curso, galopante ao virar da esquina; terei seguidores? Em baixo os tapetes Tricana na triste escuridão da sua loja. Não é que do 244 só me saltou à vista o azul da Confeitaria Marquês de Pombal! Monstro de mau gosto, dinossauro sobrevivente na era das padarias, ou é assim que a malta da geração perdulária gosta?

Foi bom chegar ao 242 e ver o nome TRANQUILIDADE, em verde BES, a proteger todo o enorme edifício na esquina com a Alexandre Herculano. Em baixo aluga-se loja. Apetece-me abrir uma agência de venda de jogo da Santa Casa; ao menos enganávamo-nos entre pobres com uma réstia de esperança. Na outra esquina, no 240 A, a Cartier com os seus discretos seguranças que me tiraram a vontade de, com mochila, bloco notas e caneta na mão, entrar só para dar uma olhadela. Depois, no 240, o Étoile, já concluído, onde se alugam escritórios, seguido de um outro, no 238, ainda em restauro pelo ES Property. Estamos a renovar Lisboa para quem? Tive a resposta no 236, Edifício Ópera, também ele em restauro: “Na Avenida mais exclusiva, o Palco para a sua nova Vida”. Na minha idade cheirou-me a cemitério com fosso de orquestra.

No 234 a Oficina Mustra, discreto armazém de roupa italiana de alta qualidade, onde encontrei, nos primeiros dias da sua chegada a Lisboa, o Álvaro Santos Pereira (o mesmo que agora nos dá conta das contrapartidas imaginárias) que, acompanhado da Mulher, uma miúda giraça, estava a renovar o seu guarda roupa canadiano para se pôr nos trincos à moda da Horta Seca (nada de polos, só camisa clássica de mangas arregaçadas). Fui-lhe falar desejando-lhe as boas vindas e dizendo-lhe que não sabia ainda se ia ou não ser seu funcionário, dada a indefinição das tutelas; pediu-me o cartão de visita para “ termos uma conversa um dia destes”, disse. Como a história pode mudar devido à promessa esquecida de um Ministro! Como dizia o outro, a vida é feita de encontros falhados!

No 232 outro belo edifício clássico estilo Avenida da Liberdade, que já designei acima como pombalino tardo e ligeiro, esperando agora os puxões de orelhas dos conhecedores, sem nada de especial a assinalar. Segue-se, no 230, o Edifício BF, novo, todo em vidro com dragão voador metálico em voo picado a ameaçar quem compra o que é nosso na Fly London, em baixo. Seja pelos sapatos que pelo dragão, pensas duas vezes antes de transpor a soleira. Ao seu lado, no 226/228, um magnífico exemplar de arquitectura veneziana. Será que o do dragão substituiu um idêntico ou parecido, destruído pela ganância de políticos e patos bravos? No 224, o Deutsch Bank, a poupança que cresce com os seus filhos, reza na montra. Quais, vem-me de perguntar estupidamente esquecendo que somos todos europeus, os nossos ou os dos alemães? Do outro lado a Vilebrequin, calções de banho iguais para pais (168 €) e filhos (85€). Por cima uma grande Sociedade de Advogados, só com 4 letras mas grandessíssima…. O BBVA ocupa todo o imponente edifício com as fachadas em granito rosa que se estende por todo o quarteirão na esquina da Barata Salgueiro (face ao BES do outro lado da Avenida). No princípio era o Lloyds Bank, onde agora pontifica o grande banqueiro António Horta-Osório, nosso orgulho a par do CR7 que está do outro lado a aturar a D. Inércia. Um homem de meia idade dirige-se a mim: - Não me leve a mal, Senhor… e eu corro a atravessar a Barata Salgueiro com o semáforo no vermelho para fugir a quem me ia contar uma desgraça e pedir uma esmola. Não é que me senti assim tando Senhor! Na outra esquina, no 220 A, está o Empório Armani e em matéria de elegância, seja masculina que feminina está tudo dito. Abençoados outlets que, como nos tempos de Roma, me dão a terminação como nos bilhetes da lotaria. Por cima, no 220, médicos, esteticistas, designers e comunicadores. Do 206 ao 218 temos a Prada da Senhora Miuccia, mas principalmente do Senhor Patrizio Bertelli, seu consorte, que patrocinou o yacht “Luna Rossa” que durante anos a fio defendeu, e bem, as cores italianas na Louis Vuitton Cup e na Copa América. Lembram-se quando tudo isto era o stand de vendas da Mitsubishi acabada de chegar a Portugal? Por cima, entrando pelo 212, mais médicos (será que Portugal é um país de doentes?), um Press and PR Office e uma consultora de negócios em parceria: como soa bem tudo isto, é como se o cardápio da tasca da esquina anunciasse Trachurus Trachurus infantes e siameses, polvilhados de farinha de grão sarraceno e acomodados em azeite virgem fervente, em vez de jaquinzinhos.

No 204, numa outra excelente construção clássica em perfeito estado, está a mítica alfaiataria Rosa & Teixeira, para mim as melhores montras para o gosto tradicional do português que veste bem, muito parecidas com as que me habituei a ver nos ghettos de Roma e Veneza. Que contraste com as montras da Armani ou da Prada! Por cima, mais uma Sociedade de Advogados e a Christie’s: seria ali que foi cozinhado o negócio dos Mirós de todos nós? O 202 é igual ao 204 e alberga o velho Hotel Don Sancho I, 2 estrelas 2, e consultórios e mais consultórios. Julgo que não voltarei à Avenida sem ir ao médico; primeiro escolho a especialidade e depois estudo bem os sintomas para ser credível durante a consulta. E chego ao 200 onde, naquilo que me atrevo a chamar na minha completa ignorância da arte da arquitectura, um moderno monstruoso: o Edifício Victória. No plano térreo a loja Burberry fechada e em obras. A Furla, com as suas malas caras em promoção, marca que vi nascer em Roma, salvo erro na Via del Leoncino, com sacos e bolsas baratas, que até a Manuela comprou uma azul que ficou ruça de tanto ser usada, e que mesmo assim a Margarida herdou quando de uma das suas viagens Paris-Roma-Paris, porque tinha tralha a mais para transportar. Bons tempos em que se podia levar sempre mais um saco para dentro dos aviões; hoje há uns provadores que te lambem o pincel da barba para ver se sabe a pólvora. Depois a Timberland com saldos a 40%, e a Tod’s do genial Senhor Diego Della Valle, filho de um honrado sapateiro da Região das Marcas, penso que de Porto Sant’Elpídio, que é a capital dos sapatos italianos. E digo genial porque, sabendo que os seus patrícios mais endinheirados preferiam os sapatos ingleses, começou a dar aos fabricados por si as marcas Tod’s e Hogan, e também chamou Fay a uns impermeáveis copiados daqueles que os bombeiros canadianos usam, e passou a vender tudo caríssimo no seu país e fora dele. Devo dizer em abono da verdade que é tudo da mais alta qualidade. Nos andares de cima temos as Chancelarias das Embaixadas da Eslováquia, da Irlanda, do Canadá e da Austrália, e também o Centro Económico e Cultural de Taipé, os Seguros Victória, os FOX e National Geographic Channels e ainda a NYSE-EURONEXT que mais não é , como os sapatos do Senhor Della Valle, que a Bolsa de Valores de Lisboa.

Aparece então encostadinho um edifício cuja estrutura revela uma certa modernidade, mas já a ser refeito de alto a baixo, tudo indicando que vai levar mais uma fachada de vidro. Mais um hotel, mais escritórios, uma clínica ayureveda, a sede da Jorge Mendes, Xutos e Pontapés, SARL, a Liga dos Amigos de Boliqueime? O que for soará!  No 192, outro edifício moderno que se não existisse ninguém daria pela sua falta, está a outra parte do Camões que era o IPAD, e em baixo a loja multimarcas Fashion Clinic, que só agora descobri girar na órbita do Rei da Cortiça, o Homem mais Rico de Portugal e sócio da Mulher mais Rica de África. Não nos damos conta mas de vez em quanto sai a sorte grande a Portugal. Primeiro foi o Senhor Calouste Gulbenkian, e ainda estamos a viver de renda, agora a Senhora D. Isabel dos Santos a cavalgar um chaparro, e que Deus faça durar a parceria. Já no 190, que é um belo edifício clássico bem acrescentado em altura, na esquina da Rua Manuel de Jesus Coelho, estão a Longchamp e a Louis Vuitton, supra-sumo da marroquinaria francesa; a segunda ocupa hoje o espaço que era do Pestana & Brito, um dos templos da moda masculina dos anos 60. Atravessando a rua, do 182 ao 188, o velho Tivoli onde tantas vezes fui ao cinema com a minha Avó, Irmãos e Primas, e onde tantos saquinhos de carnaval cheios de serradura atirei às pequenas nas matinés de Entrudo. Agora Teatro, Sala de Concertos, restaurante. Nunca mais lá entrei, como nunca mais voltei a Paris, a Sófia, a Roma ou à Cidade da Praia, por medo do que vou encontrar. Coisas de velho. O 180 é o pequeno e belíssimo edifício, única peça já existente do lego que lhe montaram em cima para fazerem o Tivoli Forum. Está lá a loja Adolfo Dominguez. Na enormidade a que deu origem cabe lá de tudo e passo a fazer a listagem:  a outra Fashion Clinic, esta para Senhoras, e já agora a Gucci que pertence também ao reino da cortiça por interposta Filha, lembrando-me que Maurizio Gucci foi mandado envenenar pela Mulher, Patrizia Reggiani,  por uns problemas de dinheiro: hoje a senhora está na cadeia (foi condenada a 26 anos) e o pobre Maurizio é o homem mais rico do cemitério da sua terra natal. Acontece sempre assim. E lá me distraí da lista que estava a fazer: o Hotel NH, o Crédit Swiss, a Iberdrola, a Dexia Sabadell, a Visa, o BES Angola (olá!), a Missão do Brasil junto da CPLP, e lojas como a Philosophie, a Maison (Atendimento Privado), a b/code, a Machado Joalheiros e o Cocho, cantinho muito agradável do Alentejo onde se comem umas coisas boas e uma sopa nova cada dia da semana, todas deliciosas. Em baixo, comida, comida, comida, e sobretudo cheiro a comida que invade todo o espaço sem respeito nem pelo “atendimento privado”. É como se num voo da Emirates os passageiros não carregassem no botão do autoclismo e deixassem a porta do WC aberta. Um must!

No 170, no antigo Hotel Vitória, extraordinário exemplar arquitectónico de Mestre Cassiano Branco, está instalada a sede do PCP que tem à porta um enorme cartaz com todo o programa da Festa do Avante. Gostei da ideia do “Concerto para cravos e orquestra - Opus 40”, e continuei a ler os nomes dos artistas que participarão, lembrando-me de Cristina Branco, de Jorge Palma, de Camané, de Sérgio Godinho, e de mais não sei. Para mim que vivi quase 13 anos atrás da Cortina de Ferro, o comunismo é um universo à parte que eu já não perco tempo a discutir. Estando a ler o livro “Greguerías” de Rámon Gómez de la Serna (obrigado Dr. Bagão Félix!), que é uma selecção de metáforas mais ou menos bem humoradas, algumas delas extraordinárias, e eu,  com esta mania que tenho de copiar os outros, escrevi também uma greguería dedicada ao PCP na Avenida: Com o martelo foi-se a Liberdade.

Mal passo a sede do PCP, sou abordado por um casal que delicadamente pediu desculpa de me estarem a incomodar, e vá de contar a história que seguramente repetem subindo e descendo a Avenida da Liberdade a todos aqueles com cara de parvo como eu. Resumindo, eu sou o Petro e ela é a Marta, somos húngaros e viemos para Portugal enganados por alguém que prometeu arranjar-nos trabalho. Vivemos na Amadora num quarto com dois filhos pequenos, já nos cortaram a luz e agora não temos dinheiro para comprar uma bilha de gás, e também precisávamos de ir ao Porto para tratar de uns papéis no Consulado da Hungria, rebéubéu pardais ao cesto. Como não sou polícia e queria livrar-me deles o mais rapidamente possível, não perguntei se não havia um Consulado em Lisboa nem como é que falavam tão bem português estando por cá só há 8 meses, como me informaram, e dando-lhes a satisfação de terem pescado um perfeito Tótó, puxei de 20 euros dizendo-lhes que era para a bilha de gás, ao que ele retorquiu que aquilo não chegava para pagar o bilhete dele para o Porto, quanto mais para os dois. Balbuciei que era já uma ajuda e que não podia dar-lhes mais, ao que me viraram as costas e foram à vida.  

Passei para a zona central de peões, sentei-me num banco e lembrei-me que estando em Roma, o meu Filho Octávio, que estava então, fazia 6 meses, na ES Contact Center como Director, e bastante satisfeito com o seu novo trabalho, nos telefonou feliz para nos dizer que os seus superiores, seja do Contact Center que do Grupo Espírito Santo, o tinham convidado para jantar no dia dos seus anos, 26 de Outubro, não posso precisar o ano. Bela notícia, finalmente tinha um trabalho estável que lhe agradava, num grupo cuja seriedade e solidez ninguém punha em causa, e as coisas vão-me correr bem desta vez. Ora o dia 26 calhou a uma sexta feira, o jantar correu bem, brindes, abraços e até segunda se Deus quiser. Na segunda era dia 29, data em que completava os seus 6 meses de prova, chegando ao seu posto de trabalho foi chamado ao gabinete de quem estava directamente por cima, e quando julgava que era para lhe anunciar que iria ficar ou, pelo menos, assinar um novo contrato por mais 6 meses, ouviu dizer que infelizmente, por alteração de estratégia da empresa, iria ser dispensado, o que aconteceu no próprio dia. Quando nos telefonou à noite a contar o sucedido, recordo-me de ele nos ter dito: com um grupo como o Espírito Santo quem é que vai acreditar que eu trabalhei bem e que a culpa não é toda minha, acertado raciocínio que o diminuiu durante anos perante todos aqueles, e eram tantos (todo o Portugal?) para quem só existia Deus no céu e a “Família” na terra. Mandei-lhe então umas palavras, à guisa de conforto,  que gostava que lessem para perceberem porque é que liguei este facto à trapaça dos húngaros que, infelizmente, não foi a única urdida e praticada na Avenida da Liberdade.

Abraço.

Lisboa, 31 de Julho de 2014
Octávio Santos

quinta-feira, 24 de julho de 2014

FESTIVAL DOS BOXERS MOLHADOS - 24 | 25 | 26 de Julho - Maçãs de Dona Maria

Caros leitores amigos

Sendo já impopular ser reformado, esta ideia de ir de férias é, no mínimo, indecente. O facto é que aos velhinhos também apetecem coisas, e estou a falar de descanso, não querendo que me entendam mal. Assim, neste país de Festivais de Verão (no intervalo dos incêndios), não quis, para colmatar a indesculpável ausência do meu texto semanal, deixar de vos dar notícia do único festival a que não faltarei activamente na tentativa de ganhar o prémiozito em concurso, eu que nunca ganhei uma raspadinha. Se regressar darei notícias no blogue de 31.
Abraço.

Octávio Santos



quinta-feira, 17 de julho de 2014

O Nevão de 51, ou estadia na Carregueira, cena com solário tipo “Holmes Place”, sauna finlandesa e dieta mediterrânea, para políticos desonestos, ou talvez não, Senhoras obesas e histéricas, com o milagre da multiplicação dos pães para todos os inquilinos improváveis


Ouvi ontem a uma grande repórter de guerra que as qualidades necessárias para fazer o seu trabalho eram a curiosidade e a honestidade. Lembrei-me então da foto do meu texto da semana passada e, se é certo que foi a curiosidade, mas também o sentido de oportunidade, que a grande repórter omitiu referir, que me levaram a encostar o telemóvel à figura daquele velho desgraçado, talvez não tivesse usado a necessária honestidade para o fazer. À primeira vista aquele morto adiado pareceu-me uma imagem forte para ilustrar o que tinha já em mente escrever de acusatório contra circunstâncias, poderes e pessoas que o levaram àquela situação de dormiente no portal da Igreja do Corpo Santo. Mas vamos que aquele homem não quis estudar quando era pequeno, preferindo a trapeira à sacola dos livros e cadernos, começou a fumar aos 12 e a meter-se nos copos aos 15, na ganza aos 16, não suportou a dureza da construção civil aos 17, andou nas putas a partir dos 18, fez o seu primeiro pequeno roubo aos 20, recusou a Casa Pia (porra!) ou a Casa do Gaiato para não perder os proventos que lhe vinham dos diversos tráficos que entretinha com a marinhagem americana e francesa no Cais do Sodré, quem é o culpado senão ele próprio? Se assim foi, é certo que não usei de honestidade servindo-me de um ícone fácil para apontar leviana e imerecidamente o dedo à corja que nos governa por interposta freenança, mas apetece-me reincidir para dar um rebuçado àqueles crentes, e são muitos, que veem em Deus um ser vingador pronto a castigar quem se comportou sempre mal, deixando-o “justamente” a apodrecer diante da porta fechada da sua (deles) Igreja, sempre escancarada para quem bater no peito é um acto de contrição automático e gratuito, que tantos juros dá neste Vale de Lágrimas, esperando que se perpetuem no Reino dos Céus.

A escrita, que é feita de palavras alinhadas, tendo as mesmas virtudes e defeitos destas, tal o de serem como as cerejas, leva-me, a propósito de honestidade, direitinho ao Isaltino por o ter visto sair da Carregueira, magro, bronzeado e com um saco de plástico preto, habitualmente para lixo (longe de mim qualquer alusão ao GES), que continha, suponho, os seus parcos pertences de presidiário, a entrar para um Audi dos grandes igual ao da factura da sorte. A Carregueira, que não tinha a notoriedade de hoje quando eu fiz a tropa, estando ainda à espera da parte da reforma que me compete por via desses 43 meses, ou seja, 5% da minha vida caso morresse hoje, era uma Carreira de Tiro onde íamos exercitar a pontaria que nos havia de servir em África contra alvos móveis e ainda por cima escuros, e não uma unidade carcerária do Sistema Prisional Português (lindo!), onde o quem sabe se honesto Isaltino saiu agora de pulseira com a pompa mediática que lhe foi reservada.

Soube agora, mas nem sob tortura revelarei a minha fonte, que um nutrido grupo de Senhoras obesas, histéricas, ou com tendência para ambas, fartas de não obterem resultados palpáveis (salvo seja) com as dietas do Dr. Tallon, Dr. Atkins, Herbalife, Detox, Dukan, dos 31 dias, das Princesas, das lojas LEV - comer para emagrecer -, Celeiro e Miosótis, se estão a organizar para fazerem uma manifestação junto do Ministério da Justiça a fim de exigirem o internamento a tempo indeterminado na citada unidade carcerária com as mesmas regalias e benesses de que usufruiu o ilustre predecessor. Em comunicado que está para vir a público, ameaçam, em caso de recusa por parte da Senhora Ministra, vir a cometer acções passíveis de detenção, tais como roubar peças de roupa interior nos caixotes dos saldos do El Corte Inglès, dizer em público do Senhor Presidente da República e Excelentíssima Família aquilo que Bin Laden não disse da entremeada, promover um abaixo assinado para impedir a Guiné Equatorial de entrar na CPLP, pedir a demissão do Paulo Bento e o retiro da nacionalidade ao Pepe (não sendo a Madeira ainda independente não podem pedir outro tanto para o CR7), fazer chichi na escadaria de S. Bento com o rabo virado para a Fundação Mário Soares para não ofender o recato do ancião patrono, revelar que o porta voz do BES já foi substituído pela porta voz da SIBS, e outras acções subversivas anti regime em estudo. Estamos atentos para ver se conseguem levar a água ao seu moínho.

Juro que me daria muito gozo, mas estou disposto a apostar que não vai acontecer, ver a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, também por si trina devido ao milagre da multiplicação dos pães (A), a dividirem com as acima citadas empreendedoras Senhoras as celas da Carregueira, o Sol no pátio se o preferirem ao solário, a canasta ou o king no fumoir, o escolher da ementa biológica do dia no refeitório e do programa televiso da tarde: Pinheiro ou Goucha? Por questões higiénicas dividiria a sauna por géneros, pois que não estou a ver pombas tão alvas a mancharem as penas de gordura se, por acaso ou imperativo hormonal, na estreiteza do local, se encostassem às Senhoras que estão lá para a destilarem.

Com o calor deste Verão que tardou a chegar, fechado em casa a escrever, e esta imagem das saunas finlandesas, uma a escorrer banha e a outra a contaminar-nos com a criptococose (B), ligo o ar condicionado, mas mesmo assim não satisfeito ponho-me a recordar o nevão que embranqueceu Lisboa em 1951 e, como esse foi um ano importante na minha vida, lá descaí para a pieguice e a minha alma de poeta de feira (também há poetas pimba?) acaba por vir ao de cima, até como acção de desintoxicação dos temas  acima versados.

O Nevão de 51

Quando se tem apenas sete anos feitos

Ter em casa novidade assim

Que maior que um novo Irmão não pode ser

E pensas ser feliz em Maio

Embora paire no ar um estranho peso

Que está para se abater sobre o menino

Abalando tudo aquilo que o rodeia

Sem saber o porquê desta lei parva

Que obriga a que alguém vá quando outro chega

Lei que só mais tarde

(muito mais tarde)

Percebeu justa e defensora

Porque separa as águas

Evitando roturas dolorosas

Neste mundo mutante

Habitado ontem por heróis

Hoje por espertos

Que fez de Pombal um salvador

Quando hoje seria um bom estupor

Endeusou a Terceira Pessoa

Como luz e pão de uma nação

Abrindo nós agora a boca

Ao lixo acumulado

Só porque um tapete é levantado.

Entre esse Maio de aleluia

(que agora amargamente choro)

E o Dezembro da agonia

Que me levou o único Avô

Que me sentava ao colo

E me ensinava malandrices

(O meu amor é da música

E toca clarinete

Quando vai para o ensaio

Lava o cú com sabonete)

- Não digas nada à Avó!

Veio o nevão, novidade absoluta

Que pregou o menino à janela

Das traseiras do Moínho de Vento

A ver brancos os campos da Tenente Valadim

E a passar os carochas, as joaninhas e os matateus

Todos rigorosamente pretos

Com os tejadilhos e os capôts

Alvos daquele pó branco do céu

Que para o menino era maná

De aproveitar hoje que amanhã já não há!

Abençoada neve de mil novecentos e cinquenta e um

Precedida de um Irmão, que já foi para onde ela veio

Cinco dias antes de completar 63 anos

E prenunciadora da partida de um Avô

Dezassete dias antes dos seus 64 anos.

Tudo se repete por ordem desta lei parva

Que obriga a que alguém vá quando alguém chega

Coisa que agora o menino já percebe.


Um abraço

Lisboa, 17 de Julho de 2014
Octávio Santos

 

(A) Pão, em português do Brasil, significa Borracho, isto é,   macho bonito e apetecível, daqueles que matam cabras com o olhar

(B) Criptococose é a doença que ataca os pombos metropolitanos, tornando-os nocivos para os humanos

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Oi! BEStial fotografia de um cidadão português a repousar (dormiente, segundo Michelangelo e Caravaggio) junto à porta da Igreja do Corpo Santo, dedicada ao Presidente da República e sua Família, à Presidente da Assembleia da República, ao Primeiro Ministro e ao seu Governo, aos Conselheiros de Estado (incluindo os que opinam nos mass media) e, avulso, a Bavas, Bentos, Mexias, Moedas, Ratos e outros génios sempre prontos junto ao pote que se diz estar onde acaba o arco-íris


Saía eu da primeira parte de uma sessão séria e internacional no Ministério das Finanças, que teve a presença de um membro do Governo que não sabia o que dizia ou que dizia aquilo que nós ainda não sabíamos, mas que ficámos a saber pouco depois, que não por ele, para rumar até à Pombalina - não sem antes ter aspirado o odor de uma certa pia no Martinho da Arcada para matar saudades de Pessoas que por ali passaram -, café/tasca na esquina das ruas da Madalena e do Comércio, onde se comem as melhores sandes de leitão da capital, e de onde, após satisfazer a gula, parti a deambular do Município a S. Paulo - magnífico o trompe l’oeil do tecto da Igreja -, passando pela Rua Nova do Carvalho, onde escorts de um turismo íntimo esperam, não só pelos clientes que anseiam conhecer uma realidade mais profunda dos lugares que visitam, mas também pela carteira profissional que as meta em regra com o fisco (não as estou a ver com o terminal multibanco no cinto de ligas), pela Praça da Ribeira em obras, pela Travessa do Cotovelo, onde só o lixo se acotovelava, pelo Largo do Corpo Santo, onde bati a foto que ilustra e foi pretexto deste texto tão fora do contexto, pelo Terreiro do Paço onde, para além dos tão alfacinhas rickshaws de aluguer, o que mais me chamou a atenção foi a nova especialidade lisboeta, na senda do estrondoso êxito do pastel de nata de bacalhau, que é o pastel de bacalhau que, quando se morde deita cá para fora um cremoso queijo da serra, tudo anunciado em belos posters, no limite do pornográfico, pespegados nos pilares pombalinos dos ex-Ministérios transformados em locais de lazer e engorda. Vem-me de perguntar se nos não ex-Ministérios não é a mesma coisa. Ao regressar às Finanças, desta vez pela porta da Rua da Alfândega, dei comigo a apressar o passo na Rua dos Bacalhoeiros para fugir da visão proporcionada pela fachada do estabelecimento de mercearias finas “Silva & Feijó”, pensando estar perdido e em perigo no kasbah de Marrakech ou no souk do Cairo, e não em Lisboa, melhor cidade europeia para estadias de curta duração segundo a World Travel Awards.   

Mas todo este preâmbulo para lembrar figuras desta Lisboa como o dormiente da foto, os párias da Liberdade, e refiro-me à Avenida, o casal Florindo e Flora (nem inventado) que vai para 23 anos está à porta da Procuradoria Geral da República reclamando justiça, sem que nenhum dos Procuradores que por lá passou anos a procurar, e aos quais dedico também a foto da imagem, ou justiça lhes faça ou os mande internar num manicómio, porque uma coisa é certa: há ali um caso de loucura, a dois, ao sol e à chuva, se for do lado de fora daquela porta, ou colectiva, no conforto dos silêncios secretos do Palácio, se for do lado de dentro. E também a Liana. Mas para Vos falar da Liana terei de explicar tudo. Para aqueles que conhecem a Marcella (com dois LL) vai ser fácil perceber, mas para aqueles que não a conhecem terei de ser muito sucinto para não encher três páginas. Vou tentar.

A Marcella Reis é uma cidadã brasileira que vive em Portugal há já 15 anos, poeta e escritora com uma formação de animação artística ministrada no Chapitô, que conheci numa sessão de poesia na Livraria Barata, tendo o seu poema “Descendente do Mundo” me impressionado a ponto de lhe pedir para o dizer na Biblioteca José Saramago, em Loures, quando da apresentação do meu segundo livro. Para isso propus-lhe uma espécie de apanhados, ao que a Marcella imediatamente aderiu. E assim aconteceu. Podia ter corrido muito mal devido à intervenção de alguns presentes na sala que não perceberam a marosca, o que se pode considerar um êxito na óptica dos apanhados, com a Marcella a ter de despachar a leitura do seu poema a gritar para ser ouvida. Não sei se todos gostaram, para mim foi um sucesso, para a Marcella uma loucura, tanto que estava feliz, tão feliz como naquela noite em que eu disse umas palavras na apresentação do seu segundo livro, no Hotel Real Palácio. Entendimentos entre “palhaços” que nem todos entendem. Ora a Marcella, depois de tudo isto, mandou-me faz tempo um e-mail contando-me que uma Senhora de nome Liana passava os seus dias sentada num degrau à porta do Centro Comercial de Alvalade, sobrevivendo das poucas moedas que lhe deixavam cair no regaço e da caridade de algumas Senhoras um pouco mais sortudas que ela, como era o caso da Mãe da Marcella, a qual veio a saber da boca da Liana que, fruto da queixa de alguns lojistas do Centro Comercial, a PSP a tinha intimado a deixar de “estacionar” naqueles degraus, o que para ela representava uma ordem de despejo da sua sobrevivência. No Largo, Santo António, na sua estátua, nada podia fazer. Pedia-me então a Marcella no seu e-mail que tinha em anexo uma foto da Liana sentada no seu degrau - mas ou o apaguei ou não o encontro entre centenas de outras missivas electrónicas -, se eu me importava de assinar um papel a pedir a revogação da sentença que iria complicar a vida já de si complicada da Liana.

Em vez de responder, peguei em carta e pena e escrevi um poema para a Liana, certo que, apenso ao abaixo-assinado teria mais força e impacto que uma simples minha assinatura. Transmiti-o então à Marcella que se desfez em agradecimentos exagerados, passando-me um certificado falso de genialidade e de solidariedade, o qual arquivei no file “Brasil” da minha memória. Não constitui notícia o facto de, depois deste episódio, nunca mais ter ouvido falar da Liana nem ter tido conhecimento do desfecho da sua história, mas o que é para mim estranho é que a Marcella nunca mais se comunicou comigo, embora eu lhe transmita sempre à quarta-feira a edição deste meu blogue. Dizia alguém que falava bem que a vida é feita de encontros falhados, e foi o que me aconteceu com a Marcella, mas, digo agora eu, que a minha efémera ligação literária com a Liana foi um desencontro conseguido.

Mas eu que vivo de livros e de sonhos, não poderia deixar passar o ensejo de Vos relatar um quase/sonho que se entrelaçou com a leitura de um não/livro, em noite de insónia mal dormida de Sábado para Domingo nas margens do Rio Seixe, fronteira entre o Alentejo e o Algarve. Se considerarem relevante posso adiantar que a cama estava do lado algarvio. O quase/sonho, e chamo-lhe assim porque foi daqueles que, qual telenovela, continuava após sucessivos estados de alerta e parecendo por isso muito longo, embora, como todos os sonhos que parecem não ter fim, nos deixam na memória imagens vagas e fugidias que se esvaem ao despertar. E foi para o fixar que peguei no não/livro e, enquanto o lia ou fingia lê-lo, ia memorizando o essencial que é facilmente resumível, como segue: Entrei num café com um longo balcão corrido, ficando o meu Irmão Vasco cá fora porque estava a cavalo. Pedi um sumo de laranja natural, mas daquela laranjas sanguíneas sicilianas, sumo que foi servido num copo alto que tinha três esferas de vidro a servir de base, e pelas quais o sumo se escoava lentamente sobre o balcão à medida que me iam enchendo o copo. Reclamei, e então meteram o copo dentro de um saco da plástico transparente continuando a enchê-lo, ficando eu na mão com um saco de plástico cheio de sumo vermelho com um copo roto lá dentro. Vim à porta para mostrar ao Vasco a insólita cena, mas a rua estava vazia, nem Vasco (a) nem cavalo, e voltei para dentro sem nada nas mãos já que o saco e o seu conteúdo se tinham também evaporado, tendo acordado definitivamente sem perceber nada, mas convicto que não iria incomodar Freud para uma explicação. 

Acordado, peguei nas 5 Cartas que Mário Cesariny escreveu a António Cândido Franco, de Poeta a Poeta, entre Março de 1977 e Fevereiro de 2000, e mal comecei a ler, agradeci de todo o coração a quem me proporcionou tal leitura, porque cada linha cada tesouro, e juro que Vos hei-de transmitir parte deles em escritos sucessivos porque, para além do interesse que os mesmos possam ter, sinto isso como uma obrigação. Desta vez, e lembrando-me das inúmeras leituras que faço da obra de Eduardo Lourenço “O Labirinto da Saudade - Psicanálise Mítica do Destino Português”, deixo-vos aquilo que Aquilino Ribeiro e António Sérgio disseram de D. Sebastião que, ai de nós, continua a ser o Desejado (Encoberto) que sairá do nevoeiro para nos salvar. Dele (da nossa salvação), disse Aquilino no seu livro “Príncipes de Portugal; suas grandezas e misérias”: «rebelde, impulsivo, desaparafusado, louco dez vezes, infelicitado por uma terrível paranóia congénita, impotente, incapaz de satisfazer ao débito conjugal, nevropata, dementado, louco, zorato, imprudente, estupidamente sôfrego». Sérgio foi mais comedido no primeiro volume dos seus “Ensaios”: «o vulto de um romântico pedaço de asno – desse inexcedível pedaço de asno que foi o senhor rei D. Sebastião». Boa vai a moenga, diriam aqueles que, na zona da minha insónia, dormiam o sono dos justos, caso estivessem acordados e descobrissem quais os recônditos desejos de um povo à espera da sua epifania, que lá tardar, tarda!

Liguei então as laranjas sicilianas do meu sonho, à juventude também siciliana de D. Isabel de Aragão, Avó do “pedaço de asno” e “maravilha fatal da nossa idade”, no seio de uma família que tinha o Papa como o seu mais perigoso inimigo, e que veio a ser canonizada por um seu sucessor três séculos depois e só após a Santa Inquisição ter mandado suprimir todo um capítulo do seu, digamos, curriculum vitae, que dava conta “dos desacatos e irreverências da rainha” fazendo “ de uma bruxa uma santa”, como escreveu Cesariny. Boa vai a moenga se é desta extirpe que os portugueses esperam o resgate!

Depois de haver lido este texto, parece-me ouvir a Manuela a lamentar-se pelo facto de eu nunca lhe ter dedicado um poema como o que fiz para a desconhecida Liana; bato com a porta sem sequer balbuciar uma desculpa, ouço-a ainda a recomendar-me para ter cuidado a atravessar a rua, mas não tendo talento para lhe dedicar um poema do tipo da Sagrada Família de António Gaudi, obra grandiosa e perenemente inacabada, apetece-me ter o fim do genial arquitecto catalão, atropelado anonimamente na sua Barcelona por um carro eléctrico, e dou comigo a atravessar sem olhar uma das ruas de Lisboa onde já não passam eléctricos mas subsistem os carris. “Alentejano num drome”, dizia o meu Amigo Francisco Maria Caramba, e os meus desejos estão a anos luz da espera de D. Sebastião. Boa vai a moenga!


Um abraço.


Lisboa, 10 de Julho de 2014
Octávio Santos


(a)  "Estás em cada pormenor, em cada pensamento, fazes parte de nós..... SEMPRE!!", como me escreveu a minha Sobrinha Rita Filipa no dia em que fez dois meses que o seu querido Pai e meu querido Irmão nos deixou.